É mais um episódio que demonstra a tensão entre a Hungria e a Ucrânia. A detenção de sete cidadãos ucranianos na Hungria, no início de março, durante uma operação que intercetou um transporte de valores em trânsito pelo país, está agora envolta em novas alegações. Segundo fontes citadas pelo The Guardian, um dos detidos terá sido sujeito à administração de uma substância calmante, sob forma injetável, sem consentimento.

A intervenção decorreu a 5 de março, quando unidades da TEK (Centro de Contraterrorismo húngaro) mandaram parar dois veículos blindados que seguiam de Viena para a Ucrânia. No interior viajavam funcionários do banco público ucraniano Oschadbank, responsáveis por acompanhar uma transferência de barras de ouro e dezenas de milhões de euros em numerário. Segundo a Reuters, os valores transportados estarão avaliados em cerca de 70,9 milhões de euros e foram apreendidos pelas autoridades húngaras.

As autoridades ucranianas classificam a operação como uma prática regular de transporte de fundos públicos, enquanto o Governo húngaro sugeriu, sem apresentar provas, que o dinheiro poderia estar ligado à “máfia da guerra ucraniana”.

Os sete homens, que permaneceram detidos durante mais de 24 horas, passaram grande parte desse período algemados e vendados, de acordo com as fontes citadas pelo jornal. Durante os interrogatórios, um deles — antigo funcionário dos serviços de segurança — terá recebido uma injeção contra a sua vontade. As mesmas fontes indicam que a substância que teria efeitos relaxantes destinados a facilitar o interrogatório, levou a que o homem, diabético, sofresse uma crise hipertensa e desmaiasse, sendo depois transportado para o hospital.

O diagnóstico do homem foi confirmado pelo banco para o qual trabalha, que adiantou que um dos indivíduos presos era “uma pessoa com deficiência, [que] precisa de uma dieta especial e medicação regular”.

Uma fonte policial húngara disse ao The Guardian ter tido conhecimento do caso através de colegas, embora sem detalhes sobre a substância administrada, embora as autoridades não tenham respondido aos pedidos de esclarecimento do jornal — que não conseguiu verificar as alegações sobre a injeção.

Após a detenção, os sete cidadãos foram deportados para a Ucrânia. Entretanto, o banco Oschadbank avançou com uma queixa-crime contra as autoridades húngaras, contestando tanto a operação como a retenção dos valores, que continuam apreendidos.

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Fontes ucranianas sublinham que, desde o início da guerra, o transporte terrestre de valores se tornou prática comum devido ao encerramento do espaço aéreo, e acusam Budapeste de ter agido de forma desproporcionada. “Toda a operação foi muito pouco profissional, e nem todos na TEK ficaram contentes por terem de realizá-la. Eles nem sabiam que havia rastreadores GPS no carro. Só se deram conta de que os ucranianos sabiam onde os homens estavam a ser mantidos quando ouviram a notícia”, afirmou a fonte policial húngara.

O advogado dos cidadãos ucranianos, Lóránt Horváth (de nacionalidade húngara), apontou declarações do ministro dos Transportes da Hungria, János Lázár, que, no seu entendimento, indiciam uma intenção política na retenção dos valores. Durante uma ação de campanha, e numa aparente alusão às tensões com Kiev em torno de um gasoduto que transporta gás russo através da Ucrânia até à Hungria, o governante afirmou: “Se eles estão a chantagear-nos… não vamos devolver o dinheiro. Por agora, o dinheiro fica aqui”.

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