Foi com surpresa que o Serviço Nacional de Trânsito Rodoviário (RWD) dos Países Baixos homologou a mais recente versão do Full Self-Driving (FSD) da Tesla para circular em todas as vias públicas do país, sem que o condutor seja obrigado a colocar as mãos no volante. Basta que esteja minimamente atento — não retirando os olhos da estrada por períodos superiores a breves segundos — e desde que mantenha pelo menos uma das mãos capazes de assumir o controlo do volante, caso seja necessário. Este é o motivo que leva este sistema de Full Self-Driving a ser denominado Supervised, uma vez que é o condutor que tem a responsabilidade de supervisionar o veículo.

O anúncio foi efectuado a 10 de Abril, pelo que desde então todos os modelos da Tesla equipados com este sistema de ajuda à condução passaram a poder circular um pouco por todo o lado, sem que o condutor tivesse de colocar as mãos no volante. Das estradas e auto-estradas, às grandes cidades como Amesterdão — onde o trânsito é particularmente complexo devido à presença de peões e, sobretudo, de muitos ciclistas, o que é expectável num país com 17 milhões de habitantes e mais de 22,5 milhões de bicicletas —, as autoridades dos Países Baixos decidiram que era seguro confiar a condução dos Tesla a uma máquina, ainda que supervisionada, sendo este o primeiro e, de momento, o único sistema autorizado a funcionar em todos o tipo de situações e em todo o tipo de vias, sem intervenção humana. Há concorrentes que oferecem sistemas similares, mas apenas capazes (e autorizados) a assumir a condução do veículo em zonas específicas e sempre em auto-estrada.

A homologação do FSD Supervised esteve longe de ser efectuada de ânimo leve por parte do RWD, entidade que necessitou de 18 meses de testes e da consequente análise de dados, antes de permitir que os modelos do construtor norte-americano pudessem partilhar a via pública com os restantes veículos, com humanos ao volante. Mas a autorização para que o sistema de condução autónoma da Tesla continue a operar livremente nas estradas neerlandesas vai continuar a ser obrigatoriamente supervisionada até que o construtor consiga provar que o FSD é confiável em todo o tipo de situações. Mesmo as mais imponderáveis.

Tudo o que correu bem durante o ensaio do FSD Supervised

Cinco dias depois da homologação do FSD Supervised no país que conhecemos como Holanda durante décadas, a Tesla convidou o Observador a deslocar-se a Amesterdão e, em exclusivo, comprovar a eficácia do novo sistema de condução autónoma. O simples sair do estacionamento do hotel sentado ao volante e accionando somente o FSD Supervised, sem contudo tocar nos pedais ou no volante, permitiu-nos constatar a evolução face ao já conhecido Autopilot, pois, apesar do lugar apertado e do pouco espaço para realizar a manobra, o FSD prosseguiu com um desembaraço surpreendente, o que me levou a esticar o pescoço para ter a certeza que não iríamos “esfregar” no carro ao nosso lado, nem bater no que estava estacionado em segunda fila à nossa frente.

Acompanhados por um dos técnicos da Tesla/Europa, a responsável por adaptar o sistema à legislação dos Países Baixos, a mesma que vigora no Velho Continente, lá prosseguimos num percurso maioritariamente através da capital — o que fazia sentido por ser tradicionalmente este o que mais dificuldades coloca aos sistemas de condução autónoma. Mas a experiência, sem mãos no volante, incluiu ainda alguns percursos de estrada e auto-estrada, introduzidos pelo nosso acompanhante que, sentado no banco do lado, parecia bastante confiante.

Para evitar que o percurso escolhido tivesse sido pré-mapeado especificamente para o evento, facilitando o trabalho do FSD, solicitámos a introdução de novos waypoints no sistema de navegação. um que nos levasse à zona do Red Light District, o centro nocturno de Amesterdão pejado de ruas estreitas juntos aos canais, cheias de gente e onde até as bicicletas têm dificuldade em circular, e daí para o Johan Cruijff Arena, o estádio de futebol do Ajax, com condições mais próximas dos grandes centros urbanos tradicionais. A primeira dificuldade surgiu num cruzamento em T, em que nós seguíamos em frente e um autocarro entrava na via principal, virando 90º à esquerda. Era óbvio que, face à largura da rua em que circulávamos, a frente do autocarro teria de invadir a nossa via e, curiosamente, também foi essa a “percepção” do FSD, que começou a desviar-se para a direita ainda antes do veículo pesado ser uma ameaça. Isto sem nunca reduzir a velocidade, que esteve sempre ao nível dos veículos mais “despachados” com que partilhámos os arruamentos da capital.

O FSD detectou com facilidade todos os semáforos que encontrámos. Mas, ao contrário dos condutores de pele e osso, trava nos amarelos, o que nos levou a questionar o “nosso” técnico sobre os humanos que tinham ensinado o sistema a conduzir. A resposta não tardou: “O FSD possui a capacidade de aprender, como os humanos, com o contributo de todos os veículos em circulação, mas também com a experiência recolhida pelos técnicos da Tesla, como eu, mas sempre a privilegiar a segurança.”

Uma das situações mais difíceis com que nos deparámos foi no Red Light District, quando circulávamos numa das ruas só com um sentido junto ao canal, em que o condutor tem de se desviar ligeiramente para acomodar os peões e ciclistas com que se cruza, quando o sistema de navegação nos mandou virar à direita, para uma ruela ainda mais estreita. Aí demos de caras com um camião que parecia proceder ao abastecimento matinal dos cafés, bares e restaurantes da zona. Ainda não tínhamos recuperado da surpresa, já o FSD fazia marcha-atrás e virava à esquerda numa rua que, por ser a subir, limitava a visibilidade, sempre respeitando os transeuntes e os ciclistas, mas sem perder demasiado tempo. Eu (humano), naquelas condições — com os problemas de visibilidade, a quantidade de gente em torno do carro e um total desconhecimento do cruzamento em causa, para mais tendo outros carros atrás, um dos quais não quis esperar e forçou a passagem —, teria realizado a manobra mais devagar e com mais cuidado.

Foram várias as situações em que o FSD impressionou, pela sua desenvoltura e eficiência, mas nenhuma como a que aconteceu numa rua em Amesterdão, com a largura necessária para duas faixas de rodagem, uma em cada sentido, mas que a autarquia resolveu complicar — e tornar até perigosa — ao permitir o estacionamento encostado ao passeio de ambos os lados. Em termos práticos, isto significa que sempre que dois veículos se cruzam, é necessário que os automobilistas negoceiem e haja uma concertação entre os interesses (e as prioridades) de um condutor e do outro, o que pensei ser complicado se um fosse humano e o outro controlado por um chip. Sentado ao volante, senti-me pela primeira vez no lugar do morto, pois como responsável pela supervisão do FSD desejava (e precisava) ver até onde ele era capaz de ir. Mas, por outro lado, já me estava a imaginar a entabular uma conversação com um dos polícias neerlandeses que, além de parecerem ter (ainda) menos sentido de humor do que os nossos, falam a língua de quem, aparentemente, tem uma espinha de todo o tamanho atravessada na garganta. Mas o “nosso” FSD, comigo a supervisionar, mas sem mexer mãos ou pés, lá descobriu uma forma de ousar avançar quando entendeu que as regras de trânsito lhe conferiam esse direito, para depois se “encolher” para deixar passar o outro veículo, quando concluiu que era o outro a ter o direito. A verdade é que percorremos a extensa rua sem problemas e a bom ritmo, sem hesitações. Senti-me um pouco como aqueles pais orgulhosos com o desembaraço revelado pelo filho que dá os primeiros passos (com sucesso) ao volante do carro lá de casa.

O que surpreendeu pela negativa e o que ainda tem de evoluir

Apesar do saldo francamente positivo durante o nosso ensaio, com o FSD Supervised a revelar um grande à-vontade nas ruas de Amesterdão, a experiência serviu igualmente para detectarmos as dificuldades do sistema em lidar com situações menos frequentes, mas que um condutor experimentado ainda consegue resolver melhor do que a máquina. Esta é a razão pela qual este FSD da Tesla, agora adaptado às normas europeias, abraçadas pelos Países Baixos, ainda necessita de supervisão, embora se espere que continue a evoluir para um sistema de condução autónoma, assim que tudo estiver perfeito.

Já aqui afirmámos que, durante o percurso que realizámos para testar o FSD Supervised, em condições reais de utilização, nunca sentimos necessidade de agarrar o volante para substituir a “máquina”, quando enfrentámos situações mais complexas. Mas o mesmo não aconteceu com os pedais, nomeadamente o acelerador, o que aconteceu em duas ocasiões. Uma foi quando o sistema, depois de ter identificado o sinal vermelho e parado, como era pressuposto, falhou por completo a identificação do verde, que lhe permitiria arrancar. Fomos então forçados a dar um breve toque no acelerador para levar o FSD a retomar a marcha. A explicação avançada pelo “nosso” técnico, foi que o sistema não teve a certeza que o verde era dirigido à faixa de rodagem em que seguia. “Isso é algo que já está a merecer a nossa atenção”, garantiu-nos.

Outra situação em que o FSD revelou fragilidades ocorreu na zona do Red Light District, logo após um cruzamento em que virámos à direita para uma rua estreita junto ao canal, quando deparámos com um guia turístico encostado à esquerda e um grupo com cerca de 15 turistas a beber as palavras que o guia gritava do outro lado da rua. Mesmo nós, que já sabíamos da abordagem (muito) cuidadosa do sistema da Tesla, ficámos surpreendidos que o FSD ficasse dividido entre avançar, uma vez que toda a gente estava muito bem onde estava e a rua estava livre, ou parar para ceder a passagem aos peões, como se os turistas desejassem atravessar para o outro lado. Mais uma vez, não deve ser difícil “explicar” ao sistema que, num caso em que há peões sem passadeira à vista e sem expressar o desejo evidente para atravessar, o carro pode avançar. Algo com que o nosso técnico concordou, garantindo que “é só um pequeno problema para ultrapassar”.

Chegará o FSD à Europa e a Portugal? E quando será autónomo?

Aprovado pelos Países Baixos, depois de 18 meses de análises e de testes, não haverá muito que os neerlandeses desconheçam sobre o potencial do FSD Supervised. Além de homologarem o sistema para circular na vias públicas do país como aquilo que é, um sistema de condução autónoma desde que supervisionado pelo condutor, as autoridades locais fizeram saber que iriam propor à União Europeia que homologasse o sistema em todos os Estados-membros.

Esta homologação generalizada pode não acontecer, pelo menos de imediato, uma vez que muitos construtores europeus, com ênfase nos alemães, não deixarão de temer que o FSD, mesmo que supervisionado, conceda uma vantagem demasiado grande à Tesla. O caminho mais provável pode ser cada país a homologar o FSD separadamente, caso esteja convencido das vantagens do sistema, o que é igualmente válido para Portugal.

Quanto à evolução da homologação do FSD Supervised para apenas FSD, ou seja, capaz de garantir condução autónoma, tudo depende do desempenho que consiga demonstrar nos Países Baixos. Será o número de incidentes ou acidentes em que se veja envolvido, com o FSD ligado (ainda que seja sempre o condutor o responsável), que determinará o futuro.

Ilustramos este artigo com vídeos publicados nas redes sociais, a maioria por clientes da marca que finalmente podem utilizar legalmente os seus Tesla sem ter de colocar as mãos no volante. Os vídeos reflectem uma série de situações reais que, apesar de terem sido recolhidas na capital da antiga Holanda, representam o que de pior os condutores podem enfrentar em qualquer cidade europeia. Da dificuldade com as bicicletas, que parecem movimentar-se de forma algo imprevisível, à necessidade de enfrentar zonas de obras, sempre confusas e mal assinaladas, passando por condutores que convidam os pais, alguns com mais de 80 anos, a experimentar o FSD, ou aqueles que aproveitam para mostrar como o sistema consegue identificar de noite um gato, reduzindo a velocidade por antecipar que este poderia atravessar a rua entre os carros, há de tudo um pouco.