Os Estados Unidos estão longe de ser um novo destino para o Rei Carlos III, que já visitou o país dezanove vezes. No entanto, esta visita é uma estreia: esta segunda-feira, Carlos aterrou pela primeira vez no papel de monarca, ao lado da rainha Camila, e num contexto de particular tensão entre os dois países que são conhecidos pela “relação especial” que mantêm, mas que atravessa sérias dificuldades.
E não faltam motivos para essa tensão: desde logo, graças às posições diferentes assumidas por EUA e Reino Unido relativamente à guerra no Irão, e que já levaram Donald Trump a dizer que o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, “não é nenhum Winston Churchill”; depois, porque o irmão de Carlos, o antigo príncipe André, está a ser investigado pelas suas ligações ao magnata e criminoso sexual norte-americano Jeffrey Epstein.
Até a relação pessoal entre os dois chefes de Estado já foi, de resto, posta em causa, por alegadamente terem interesses e causas muito diferentes: o Rei britânico é conhecido por ser um ambientalista convicto e isso terá atrapalhado as conversas entre os dois quando Carlos ainda era príncipe. A antiga assessora de imprensa da Casa Branca Stephanie Grisham escreveu nas suas memórias, como conta a CNN, que Trump se queixou de que a conversa com Carlos, num encontro durante o seu primeiro mandato, tinha sido “terrível”, porque este não falaria “de nada além das alterações climáticas”. Ainda assim, Carlos tem sido considerado um trunfo diplomático para o Reino Unido, dada a relação claramente deteriorada entre Trump e Starmer.
Foi neste clima complexo que os monarcas britânicos chegaram à Casa Branca na segunda-feira, tendo sido saudados por Donald e Melania Trump, nesta visita que tem como pretexto o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos. Juntos posaram para fotografias e entraram para beber um chá na Sala Verde, como escreve a Euronews.
Depois, estiveram nos jardins do edifício para verem a nova colmeia com a forma da Casa Branca que Melania instalou na semana passada, durante as preparações para a visita — os reis têm um “grande interesse” pela apicultura, que representa, de resto, mais uma das vertentes das preocupações ambientalistas de Carlos, que mantém três colmeias na sua residência privada em Inglaterra. Neste primeiro dia de visita, os reis participaram ainda numa festa no jardim da Embaixada Britânica.
Já esta terça-feira acontecerá um dos momentos mais marcantes da visita: o Rei britânico vai discursar no Congresso dos Estados Unidos, e será apenas a segunda vez que um monarca do Reino Unido o fará (a primeira foi a sua mãe, em 1991 — Isabel II visitaria os EUA pela última vez em 2007).
Ainda esta terça-feira, Carlos e Camila participarão numa revista militar e num jantar de Estado formal na Casa Branca. Depois seguirão para Nova Iorque, onde vão visitar o memorial do 11 de setembro; e estarão no estado da Virgínia, onde Carlos se encontrará com líderes indígenas envolvidos em ações de conservação da natureza.
O fim do “Rolls-Royce dos aliados”
A relação entre os dois países tem azedado significativamente desde o início da guerra no Irão, uma vez que Donald Trump tem criticado Starmer pela sua relutância em juntar-se aos ataques (fez a mesma crítica aos restantes aliados da NATO, a quem já chamou “cobardes” ou “inúteis”).
Essas declarações levaram, de resto, 48% dos britânicos a considerar que esta visita deveria ser adiada, segundo uma sondagem YouGov do início de abril.
Além disso, o risco político é maior graças ao caso dos ficheiros Epstein — o irmão mais novo do Rei, André Mountbatten-Windsor, que foi destituído do título real, está a ser investigado pelas ligações ao criminoso sexual, tendo negado quaisquer crimes. As vítimas de Epstein pediram ao Rei que se encontrasse com elas, mas Carlos já rejeitou o convite, dizendo não se querer imiscuir ou prejudicar as investigações.
Em setembro, Donald Trump foi recebido no Reino Unido para uma visita de Estado organizada com pompa e circunstância, momento que “reforçou a relação”, declarou a porta-voz da Casa Branca Anna Kelly, garantindo que Trump estaria a aguardar desta vez a visita “especial” dos reis britânicos com “expectativa”.
Na altura, Trump dizia que a palavra “especial” não chegava nem de perto para descrever a relação entre os dois países, citava a CNN — “Somos como duas notas num acorde, ou dois versos do mesmo poema — cada um belo por si só, mas realmente destinados a serem tocados juntos.”
Entretanto, o tempo passou, Starmer passou a ser um “perdedor” e a Grã-Bretanha deixou de ser “o Rolls-Royce dos aliados”, nas palavras de Trump. Questionado este mês sobre o estado da “relação especial”, Trump respondeu: “Não está bem, não está nada bem.” Resta saber se esta visita servirá para reparar a relação.