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O ministro dos Negócios Estrangeiros português disse esta quinta-feira que o embaixador israelita foi chamado para dar explicações sobre a detenção de ativistas pró-palestinianos, garantindo que as autoridades consulares estão preparadas para acolher os portugueses, na Grécia ou em Israel.

“Como houve esta operação em águas internacionais, dei instruções e já foi chamado o embaixador de Israel para dar explicações junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros”, afirmou Rangel, acrescentando que “toda a proteção diplomática está ativada, aliás já tinha sido ativada preventivamente, mas está neste momento ativada nas duas capitais [Telavive e Atenas], onde ela pode ter efeitos favoráveis aos nossos cidadãos”.

Pelo menos três portugueses integravam a flotilha humanitária “Global Sumud”, intercetada pela marinha israelita numa operação que resultou na detenção de 175 ativistas e na apreensão de 20 barcos na noite de quarta-feira. Enquanto o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel confirma o desfecho da operação durante a madrugada, o Governo português tenta agora apurar junto das autoridades israelitas o paradeiro e o estado dos três cidadãos nacionais.

O Bloco de Esquerda já reagiu à interceção da flotilha, questionando o Governo, em comunicado, sobre as diligências para a “libertação imediata” dos portugueses — cuja detenção não é ainda confirmada— e pedindo a convocação do embaixador de Israel para um protesto formal. Os bloquistas instam o executivo a emitir uma condenação pública e a clarificar a sua posição face ao direito internacional, defendendo ainda uma resposta europeia conjunta e solidária com países como Itália, França e Espanha, cujos cidadãos foram também alvo da operação israelita.

Numa publicação no site Portal Diplomático, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português afirmou ter tomado conhecimento, pela embaixada de Portugal em Telavive, que “pelo menos três cidadãos nacionais integravam a flotilha” de 58 navios que se dirigiam a Gaza para quebrar o bloqueio israelita e levar ajuda humanitária aos palestinianos.

De acordo com um dos ativistas, Nuno Gomes, pelo menos duas médicas, Beatriz Bartilotti e Gonçalo Dias, também estavam a bordo de barcos que compõem a flotilha. Referindo que “nenhum destes cidadãos ou outros contactou o Estado português para informar da sua participação” na missão, o ministério liderado por Paulo Rangel garantiu que “será prestado todo o apoio consular aos cidadãos nacionais, logo que as autoridades israelitas confirmem a sua detenção”.

O Governo adiantou que a embaixada em Telavive está em contacto com as autoridades israelitas “a fim de assegurar que seja dado um tratamento digno a todos os ativistas e em especial aos que tenham nacionalidade portuguesa” e pede a outros portugueses, ou familiares, que integrem a flotilha para contactarem os serviços de emergência consular. A publicação no Portal Diplomático lembrou que os “Conselhos aos Viajantes” disponíveis na página do Ministério do Negócios Estrangeiros recomendam que se evite viagens não essenciais para Israel e quaisquer deslocações à Faixa de Gaza “em virtude da volatilidade da situação de segurança”.

“Nós temos as nossas autoridades consulares em Telavive e em Atenas a fazerem todas as diligências para darem a proteção consular a estes ativistas que terão sido detidos, e eventualmente a outros que possam vir a ter problemas com Israel”, disse Paulo Rangel, ao referir-se à interceção pelas forças israelitas da Flotilha Global Sumud que pretendia chegar à Faixa de Gaza.

“Aproximadamente 175 ativistas de mais de 20 embarcações da flotilha estão neste momento a navegar pacificamente em direção a Israel”, indicou o ministério israelita através das redes sociais indicando que os detidos tinham sido transferidos para navios de Israel. Numa publicação no X, divulgou um vídeo que mostra alguns dos ativistas a “divertir-se a bordo de embarcações israelitas”, lê-se na publicação.

No total, a Marinha israelita intercetou 21 das 58 embarcações da Global Sumud Flotilla perto da ilha grega de Creta, a centenas de milhas náuticas de Israel. Os restantes barcos foram avisados para alterarem o rumo, sob pena de também serem intercetados.

“É um apartheid sem fronteiras”

Os ativistas que não foram detidos pela Marinha israelita estão em embarcações ancoradas ao largo da Grécia para avaliar como proceder após a interpelação e à procura de outros navios que foram atacados durante a noite e com os quais não conseguiram contactar, disseram fontes da delegação italiana que integra a iniciativa.

Horas antes do anúncio do ministério, a Global Sumud Flotilla afirmou que as forças israelitas deixaram centenas de civis que viajavam na flotilha à deriva no mar, após terem inutilizado “sistematicamente” os seus barcos. “Depois de partir motores e destruir equipamentos de navegação, os militares retiraram-se – deixando intencionalmente centenas de civis à deriva em embarcações avariadas e sem energia, diretamente no caminho de uma enorme tempestade que se aproximava”, escreveu no X.

“As comunicações com várias embarcações foram bloqueadas, impedindo-as de coordenar ou pedir ajuda”, acrescentou o grupo.

Já na quarta-feira, a Global Sumud Flotilla tinha avisado que as embarcações estavam a ser “intercetadas” por “lanchas militares”, que se identificaram como sendo de “Israel”.

A relatora especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinianos Ocupados, Francesca Albanese, já condenou a abordagem em águas internacionais, acusando Israel de um “apartheid sem fronteiras”. “Como é possível que Israel tenha permissão para atacar e apreender navios em águas internacionais mesmo em frente à Grécia, na Europa?”, questionou Albanese, numa mensagem publicada nas redes sociais.

“Para além do que se possa pensar sobre o apartheid em Israel e os seus líderes genocidas, isto devia abalar toda a Europa. É um apartheid sem fronteiras”, lamentou, referindo-se às abordagens que ocorreram em águas internacionais, a cerca de mil quilómetros da costa de Israel e da Faixa de Gaza.

Entretanto, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, condenou a apreensão de embarcações da flotilha, onde estavam embarcados 24 cidadãos daquele país e exigiu “a libertação imediata de todos os italianos detidos ilegalmente”. Após a incursão das forças israelitas, estão a ser organizadas manifestações em várias cidades, incluindo Roma, onde foi convocada uma concentração para as 18h00 locais (17h00 em Lisboa), em frente ao Coliseu, em apoio à flotilha.

A Flotilha Global Sumud navegava em direção à Faixa de Gaza e era composta por 58 embarcações. Foi no domingo que partiu do porto de Augusta no sul de Itália, com o objetivo de atravessar o Mediterrâneo e chegar à Faixa de Gaza para entregar ajuda humanitária à população palestiniana.

Os ativistas que participam na flotilha exigem aos Governos que “ajam agora” para proteger esta missão e “responsabilizem Israel” pelo que consideram “flagrantes violações do direito internacional” e “pelo genocídio contínuo” na Palestina.

*Notícia atualizada às 19h35 com novas informações sobre a chamada do embaixador de Israel