Foi um dia quase inacreditável no universo do Real Madrid. Depois da polémica com as férias de Kylian Mbappé, da alegada chapada de Antonio Rüdiger a Álvaro Carreras e até da discussão entre Fede Valverde e Tchouaméni, surgiu a notícia que deixou o futebol incrédulo: num segundo capítulo do desentendimento com o francês, o uruguaio tinha mesmo precisado de assistência hospitalar.

Contudo, esta quinta-feira, as primeiras informações dos jornais espanhóis apontavam para algo simples, um ferimento no rosto que precisou de alguns pontos e que foi provocado de forma inadvertida e na sequência de uma queda enquanto os colegas de equipa tentavam separar Valverde e Tchouaméni. Até o Real Madrid, no curto comunicado emitido horas depois, confirmou que algo se tinha passado e que os jogadores seriam castigados, mas esvaziou a polémica.

O filme de terror do Real Madrid está cada vez pior: Valverde assistido no hospital depois de discussão com Tchouaméni

“O Real Madrid informa que, após os acontecimentos ocorridos nesta manhã no treino da equipa principal, decidiu abrir os respetivos processos disciplinares contra os nossos jogadores Federico Valverde e Aurélien Tchouaméni. O clube informará no devido momento as resoluções de ambos os processos, uma vez concluídos os procedimentos internos correspondentes”, pode ler-se na primeira nota divulgada. Na segunda, a análise dos factos já era diferente.

“Após os exames realizados hoje ao nosso jogador Fede Valverde pelos Serviços Médicos do Real Madrid, foi-lhe diagnosticado um traumatismo cranioencefálico. Valverde encontra-se no seu domicílio em bom estado e deverá permanecer em repouso entre 10 a 14 dias, tal como estipulam os protocolos médicos para este diagnóstico”, acrescentou o clube, confirmando desde logo que o jogador não estará disponível para o El Clásico do próximo domingo, em Camp Nou e contra o Barcelona, onde os catalães só precisam de um ponto para conquistar a La Liga.

Já nas últimas horas desta quinta-feira, o próprio Fede Valverde decidiu comentar o episódio. “Ontem tive um incidente com um colega de equipa resultante de uma jogada num treino, onde o cansaço da competição e a frustração fazem com que tudo se agigante. Num balneário normal, estas coisas podem acontecer e resolvem-se entre nós mesmos sem que venham a público. Evidentemente, há aqui alguém por trás que corre depressa a contar a história, somado a uma época sem títulos onde o Real Madrid é sempre o centro das atenções e tudo se magnifica”, começou por dizer, sugerindo que existe uma espécie de “bufo” por detrás das notícias que aparecem na comunicação social.

“Hoje voltámos a ter um desentendimento. Na discussão, bati acidentalmente contra uma mesa, sofrendo um pequeno corte na testa que exigiu uma visita protocolar ao hospital. Em momento algum o meu colega me bateu, nem eu o fiz, embora compreenda que para vocês seja mais fácil acreditar que andámos ao murro ou que foi intencional, mas isso não aconteceu. Lamento que a minha zanga com a situação, a minha frustração de ver que alguns de nós estamos a chegar ao fim da época com as últimas forças, dando o máximo, me tenha levado ao limite de discutir com um colega”, acrescentou, desmentindo que tenha existido um confronto físico com Tchouaméni.

Na longa publicação que partilhou nas redes sociais, o internacional uruguaio deixou ainda vários pedidos de desculpa. “Sinto muito. Sinto muito de coração porque a situação me magoa, magoa-me o momento que estamos a passar. O Real Madrid é uma das coisas mais importantes da minha vida e não posso ficar indiferente. O resultado é uma acumulação de coisas que terminam numa discussão sem sentido, prejudicando a minha imagem, dando margem para que se invente, difame e acrescentem contornos a um acidente; não tenho dúvidas de que as fricções que possamos ter fora de campo deixam de existir lá dentro e, se tiver de o defender num estádio, serei o primeiro”, disse Valverde, que é um dos capitães dos merengues.

“Não me ia pronunciar até ao final da época; fomos eliminados da Champions e guardei para mim a revolta e o rancor. Desperdiçámos outro ano e não estava em condições de fazer publicações nas redes sociais quando a única cara que tinha de dar era em campo, e sinto que assim o fiz. Por isso, sou quem mais lamenta e se entristece por passar por esta situação que me impede de jogar o próximo jogo por decisões médicas, porque sempre fui até ao fim, até às últimas consequências, e dói-me mais do que a ninguém não o poder fazer. Estou à disposição do clube e dos meus colegas para colaborar em qualquer decisão que considerem necessária. Obrigado”, terminou.

Seja como for, fica cada vez mais claro que o ambiente no Real Madrid é cada vez mais pesado: os merengues vão perder a La Liga para o Barcelona, falharam a Taça do Rei e a Supertaça de Espanha e caíram nos quartos de final da Liga dos Campeões, aproximando-se de um final de temporada amargo onde a ausência de sucesso da aposta em Xabi Alonso também é cada vez mais sublinhada. Esta quinta-feira, um dia depois de um dos capitães ter sofrido um traumatismo cranioencefálico no balneário na sequência de uma discussão com um colega de equipa, o jornal Marca detalhou o ambiente complexo que se vive no Real Madrid praticamente desde o início da época.

Segundo a notícia, tudo começou a descambar ainda em outubro. Na altura, vários pesos-pesados do balneário, como os capitães Vinícius e Fede Valverde, deixaram de esconder o desagrado com o método de trabalho de Xabi Alonso — incluindo a alegada dureza tática dos treinos, as constantes sessões de vídeo e uma metodologia que era considerada demasiado rígida. Ainda assim, o grupo que se manteve ao lado do treinador espanhol, e onde estava Tchouaméni, defendia que, na verdade, todas as queixas não passavam de um pretexto para o verdadeiro desconforto de Vinícius: o facto de não ser titular indiscutível.

A partir daí, o balneário dividiu-se. Uma fatia do plantel defendia as ideias de Xabi Alonso, concordando com a necessidade de mudanças profundas no jogo da equipa, enquanto que outra parte considerava que os métodos do treinador espanhol estavam a afetar o rendimento de muitos jogadores — um grupo a que, entretanto, já se tinham juntado Jude Bellingham e Eduardo Camavinga. Nesta altura, começaram a surgir várias demonstrações de puro desafio da autoridade de Xabi Alonso, com vários jogadores a simular que estavam a dormir durante várias sessões táticas. O espanhol, segundo a Marca, chegou a gritar “não sabia que vinha para um infantário” em pleno treino.

Quebra física, cérebro em falta, a atitude de Vinícius e um gesto de Mbappé: como os 232 dias de Xabi no Real falharam na hora de liderar

O ponto de não retorno terá sido o El Clásico do fim de outubro, onde o Real Madrid até venceu o Barcelona no Bernabéu, mas Vinícius exteriorizou de forma evidente o mal estar com Xabi Alonso ao ser substituído a 20 minutos do fim. A imagem simbolizou a rotura definitiva entre parte do balneário e o treinador espanhol — que acabou despedido logo em janeiro e poucos meses depois de ter deixado o Bayer Leverkusen para orientar os merengues.

Pouco ou nada melhorou com Álvaro Arbeloa, que subiu da equipa B para a equipa principal. O também espanhol herdou um balneário profundamente partido, onde metade não entendia como é que a outra metade tinha decidido destruir um projeto que tinha acabado de começar. Arbeloa tentou acalmar a tensão nos primeiros meses, oferecendo uma aparente sensação de estabilidade que também foi impulsionada pelos resultados positivos, mas a eliminação da Liga dos Campeões e a ideia de que a La Liga iria mesmo fugir acabaram por trazer ao de cima as feridas que ainda não estavam fechadas.

De forma irónica, a situação inverteu-se e os jogadores que estavam ao lado de Xabi Alonso são agora os que não respeitam Álvaro Arbeloa, com o jornal Marca a garantir que seis elementos nem sequer dirigem a palavra ao treinador espanhol. Com um contexto inédito e preocupante no balneário, a decisão que Florentino Pérez tem de tomar relativamente ao senhor que se segue no Real Madrid torna-se ainda mais delicada — num futuro onde, como se sabe, o nome de José Mourinho nunca deixará de estar em cima da mesa.