Os resultados das eleições locais que decorreram esta quinta-feira no Reino Unido impuseram uma derrota pesada ao Partido Trabalhista. O resultado já era previsto pelas sondagens, foi confirmado logo pelos primeiros resultados e consolidado à medida que a contagem se desenrolou ao longo desta sexta-feira — os últimos resultados só serão conhecidos no sábado. Desde a primeira hora, o primeiro-ministro Keir Starmer reconheceu que estes são resultados “duros”, mas rejeitou demitir-se.

Às 9h30 desta sexta-feira, quando apenas eram conhecidos os resultados finais de algumas autarquias, muitos representavam derrotas expressivas para o Labour. Por volta da 16h, metade das autarquias já tinha declarado os resultados e a contagem de votos acelerou. Às 17h30, o Labour tinha perdido 787 representantes em assembleias municipais e o controlo de 18 municípios, incluindo o bastião trabalhista de Sunderland que caiu para o Reform. Às 00h00 deste sábado, os números tinham chegado aos 1.415 representantes e 35 autarquias, incluindo Birmingham, o maior círculo eleitoral do Reino Unido.

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O Reform foi, precisamente, o principal beneficiado com as derrotas dos trabalhistas. Com a maior parte dos votos contabilizados, o Reform conquistou treze autarquias e mais de 1.300 representantes nas assembleias municipais. Para além de bastiões trabalhistas, o partido de Farage conseguiu também roubar autarquias ao Partido Conservador. É o caso do Essex, reduto dos tories por onde a líder do Partido, Kemi Badenoch, foi eleita para o Parlamento.

O primeiro-ministro e líder do Labour, Keir Starmer, reagiu de imediato aos primeiros resultados, reconhecendo que são “muito, muito duros” e que não vale a pena “dourar a pílula”. “Perdemos representantes brilhantes do Labour por todo o país, pessoas que deram tanto às suas comunidades e ao nosso partido. Isso magoa e deve magoar-nos e eu assumo a responsabilidade”, declarou.

Contudo, Starmer recusou demitir-se: “Não vou virar as costas e mergulhar o país no caos”, disse aos jornalistas. “Fui eleito para cumprir um mandato de cinco anos e tenciono cumpri-lo.” Questionado sobre se tenciona recandidatar-se nas próximas eleições legislativas (que têm de acontecer antes de 2029), o primeiro-ministro garantiu que sim.

Já o líder do Reform, Nigel Farage, celebrou os primeiros resultados, destacando como o seu partido de direita radical está a destruir as linhas tradicionais que dividem esquerda e direita. “O que o Reform está a conseguir fazer é vencer em áreas que sempre foram dos conservadores. Mas, ao mesmo tempo, estamos a provar decisivamente que conseguimos vencer em áreas que o Labour dominava desde a I Guerra Mundial”, afirmou, acrescentando estar otimista para o resto do dia — “o melhor ainda está para vir”.

Quanto ao Partido Conservador, apesar de ter perdido dez autarquias, manteve o controlo sobre vários municípios. Mais relevante foi a reconquista de Westminster, a freguesia de Londres historicamente controlada pelos tories que tinha caído para os trabalhistas em 2022 e volta agora a ser liderada pelo Partido Conservador. Foi a partir de Westminster que a líder conservadora, Kemi Badenoch, argumentou que o Partido “está de volta” — apesar de, à hora das declarações, os conservadores já terem perdido mais de 170 lugares. Às 21h, o número de lugares perdidos ascendera aos 548.

“O que é que dissemos? Dissemos que os Conservadores estavam de volta e aqui estamos nós. Basta olhar para alguns dos ótimos resultados que tivemos por todo o país”, afirmou em celebração. Focando-se nas poucas vitórias, Badenoch salientou o resultado em Westminster, mas também em Fareham, Wandsworth e Bexley, cujas sondagens indicavam que deveria cair para o Reform e o Partido Conservador foi capaz de manter.

Já os Verdes, conquistaram a sua primeira Câmara Municipal, com Zoë Garbutt a vencer a eleição na autarquia de Hackney (Londres). O Partido celebrou a “vitória histórica” e proclamou a morte do sistema político de dois partidos. “Não está só a morrer, está morto e enterrado, [a nova política] é Verdes versus Reform”, declarou o líder dos Verdes, Zack Polanski. Durante a tarde de sexta-feira, a festa animou ainda mais: a contagem dos votos nas autarquias de Londres deu aos Verdes 358 novos representantes locais e quatro novas autarquias. Até esta sexta-feira, os Verdes governavam apenas uma autarquia com maioria (e integravam coligações noutras localidades).

As eleições também trouxeram celebrações para os Democratas Liberais (LibDems), que, perto 21h, levava já 146 lugares conquistados e três autarquias, Portsmouth, onde o líder dos liberais celebrou. “É um resultado fantástico. O Reform deu tudo o que tinha, mas nós ganhámos”, declarou Ed Davey, em clima de festa.

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Esta sexta-feira também foram conhecidos os resultados dos parlamentos da Escócia e do País de Gales, que também foram a votos. As sondagens foram suficientes para o Labour galês assumir a derrota, ainda antes de terem sido tornados públicos os primeiros resultados. “Tentámos debater políticas e um novo capítulo para Gales, mas se não chegámos às pessoas, também não vamos estar em posição de formar o próximo governo“, declarou o vice-primeiro-ministro do executivo regional, Huw Irranca-Davies, à BBC.

Os resultados confirmaram a decisão. O Plaid Cymru ganhou com 43 lugares (insuficientes para conquistar uma maioria de 49), à frente do Reform, que conquistou 34. O Labour ficou reduzido a nove lugares (perdeu 35) e os Conservadores a sete (perderam 22 lugares). Quem entrou no Senedd pela primeira vez foram os Verdes, que conquistaram os seus dois primeiros lugares na câmara galesa.

O desenrolar da contagem dos votos viria a revelar a verdadeira dimensão da queda do Labour: a primeira-ministra do executivo galês, Eluned Morgan, falhou a reeleição e apresentou a demissão, assumindo responsabilidade pela derrota histórica dos trabalhistas.

Já os votos a ser contados no Hollyrood, o parlamento escocês, revelaram-se suficientes para a manutenção do Partido Nacional Escocês (SNP) no poder — mas, à semelhança dos nacionalistas galeses, sem maioria. Entre os círculos já contabilizados, o SNP conseguiu manter todos os seus círculos e ainda conquistar as Ilhas Shetland, que estava sob controlo dos LibDems desde 1950. “Está a torna-se claro que o SNP vai emergir como o maior partido”, celebrou o líder John Swinney, pouco depois de ter sido reeleito pelo círculo de Perthshire North.

O Labour escocês, apesar de ter crescido ligeiramente, reagiu aos primeiros resultados com “desilusão”, assumindo a derrota. “Argumentámos que era precisa mudança, mas foi uma discussão perdida”, lamentou o líder dos trabalhistas escoceses, Anas Sawar, que responsabilizou a “insatisfação nacional” com o Labour pelos maus resultados na Escócia.

(Em atualização)