Quando se pensa na Escócia e quando se pensa em futebol, quando se pensa em futebol na Escócia, pensa-se em dois clubes: o Rangers e o Celtic, ambos de Glasgow, donos de 110 Campeonatos e dos últimos 40. Na verdade, é preciso recuar a 1985 para encontrar um campeão escocês que não seja o Rangers ou o Celtic, já que o Aberdeen de Alex Ferguson foi a última equipa a quebrar o bipartidarismo. Esta temporada, o Hearts quer fazer o mesmo — mas não está fácil e já se tornou polémico.

Esta quarta-feira, o Hearts entrava para a penúltima jornada da Premiership na liderança e com mais um ponto do que o Celtic. Com o calendário a ditar que a última partida da temporada é precisamente entre as duas equipas que ainda estão a lutar pelo Campeonato, qualquer deslize na antecâmara do jogo do título poderia ser fatal. E o facto de não ter acontecido abriu a porta a um dos dias mais incendiários da história do futebol da Escócia.

Ora, a jogar em casa, o Hearts nem sequer teve de suar muito para vencer o Falkirk, ficando à espera do resultado do Celtic em Motherwell. A equipa de Glasgow começou a perder, deu a volta antes da hora de jogo e permitiu o empate nos últimos minutos, aproximando-se de uma escorregadela que deixaria o Campeonato mais longe — na verdade, em cenário de igualdade do Celtic, o Hearts até podia perder por dois golos de diferença na última jornada em Celtic Park que continuaria a ser campeão escocês.

Contudo, já nos descontos e enquanto os jogadores do Hearts esperavam pelo resultado do Celtic para poderem começar a encomendar as faixas, o impensável aconteceu. O VAR chamou o árbitro principal ao ecrã para analisar um lance na grande área do Motherwell, considerando que tinha existido mão na bola de Sam Nicholson num duelo aéreo — depois de ver as imagens, e mesmo ficando bastante claro que o médio escocês toca a bola com a cabeça e não com a mão, o árbitro John Beaton assinalou grande penalidade. Na conversão, ao nono minuto para lá da hora, Kelechi Iheanacho não falhou e garantiu a vitória.

Depois do jogo, o treinador do Hearts não poupou nas palavras. “Quando ouvi que o Celtic tinha a possibilidade de ter uma grande penalidade assinalada pelo VAR aos 90+6′ assumi só que seria mesmo assinalada. É nojento. Estamos a ir contra isto, estamos a ir contra todos. Não acho que seja penálti. É tudo muito pobre e parece que ofereceram isto ao Celtic. Têm tido muita sorte. Mas vamos para o último jogo, precisamos de um resultado positivo e já estou ansioso, não vamos ter pena de nós próprios”, disse Derek McInnes, escocês de 54 anos que como jogador esteve na Premier League com o West Bromwich Albion e que já orientou Bristol City, Aberdeen e Kilmarnock.

Já Gary Lineker, antigo internacional por Inglaterra, teve uma opinião semelhante. “Esta talvez seja a pior decisão de um VAR que já vi (e há muitas competições). Extraordinário, tendo em conta a importância”, escreveu na rede social X. Assim, com as duas equipas a vencerem os respetivos jogos na penúltima jornada e um ponto a separá-las, o Hearts será campeão nacional se ganhar ou empatar no próximo sábado, enquanto que o Celtic só é campeão nacional se vencer.

O Celtic, treinado pelo mítico Martin O’Neill que está no terceiro período distinto à frente da equipa, é tetracampeão escocês e ganhou 14 dos últimos 15 Campeonatos, com o Rangers a interromper em 2021 a hegemonia que dura de 2012 a 2025. O plantel inclui os portugueses ex-Benfica Jota e Paulo Bernardo, para além de Kasper Schmeichel, Oxlade-Chamberlain e o ex-Marítimo Daizen Maeda. Já o Hearts, que na verdade é Heart of Midlothian Football Club, não é campeão nacional desde 1960, ano em que conquistou o quarto e último título depois de o ter feito em 1895, 1897 e 1958.

Para além de ter a possibilidade de conquistar a Premiership mais de 60 anos depois, a equipa de Edimburgo tem então a chance de ser a primeira em quatro décadas a superar Rangers e Celtic. Para isso, tem contado essencialmente com Cláudio Braga, avançado português de 26 anos natural de Mafamude, que chegou ao clube no verão e já leva 17 golos, tendo mesmo sido eleito o Jogador do Ano na Escócia. Curiosamente, a história do Hearts cruza-se ainda com a de um outro português: Paulo Sérgio, que treinou os escoceses em 2011/12 e conquistou uma Taça da Escócia, o último troféu a entrar no museu do clube.

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