A fadista Patrícia Costa vai estar sábado na Polónia para protagonizar um concerto no Festival Cultura Natureza de Katowice, este ano dedicado ao tema “Melancolia e Êxtase”, e dar formação a artistas locais sobre o género musical português.
Promovido pela Orquestra Sinfónica da Rádio Nacional Polaca, o certame que decorre até à próxima terça-feira tem este ano a sua 11.ª edição e incluiu a cantora no programa que levará diferentes estilos musicais à sala-sede dos organizadores depois de esses conhecerem o seu trabalho como intérprete e formadora na Casa da Música do Porto.
“O fado emergiu na Lisboa do século XIX e é um tipo de música em que a voz entra em diálogo com o som da guitarra portuguesa para contar uma história de saudade, amor perdido e a inevitabilidade do destino. Por essa razão, está em forte sintonia com uma das dimensões temáticas do festival deste ano — a melancolia“, declara a organização no ‘site’ do evento.
Revelando que a cantora natural de Guimarães “cresceu a ouvir música tradicional portuguesa” e já atuou em países como Espanha, Suíça, Alemanha, Finlândia e África do Sul, a direção do festival afirma que no concerto de sábado “Patrícia Costa será a estrela da noite” e que, tanto nesse espetáculo como na formação anterior, dará a conhecer um género musical que é “profundamente íntimo e comovente”.
O concerto na sala de câmara com lotação de 300 lugares já está esgotado. O mesmo acontece com uma oficina, para o qual Patrícia Costa aceitou apenas 15 participantes, cinco dos quais assumirão o desempenho vocal, outros cinco a execução do instrumento responsável pela melodia principal e outros tantos a sua componente harmónica.
“Na plateia podem estar mais pessoas a seguir a formação e aí não há limite de inscrições, mas para o trabalho mesmo ‘hands on’ não podíamos aceitar mais gente, senão é impossível prepará-los bem”, refere à Lusa a fadista, que estará acompanhada por Pedro Martins na guitarra portuguesa e João Moutinho na viola.
Quanto ao teor da sessão, Patrícia Costa diz que incluirá teoria e prática: “Vamos elucidar os participantes sobre as características do fado, contar-lhes a sua historiografia e discutir diferentes opções estéticas para a interpretação. Essas ‘guidelines’ são muito importantes para que, mesmo que o interpretem com uma flauta ou outros instrumentos que não os tradicionais, o género continue efetivamente a ser fado”.
Os 15 inscritos na formação não irão, contudo, começar a aprendizagem do zero: receberam antecipadamente a pauta e a letra de “Trago fado nos sentidos”, tema dos anos 60 com um poema de Amália Rodrigues e música de José Fontes Rocha.
“Escolhi-o porque tem uma letra curta, fácil de reproduzir por quem não fala português”, explica a cantora, que não admite que o fado possa ser cantado noutra língua. “Aceito novos instrumentos, como aconteceu ao longo dos anos sem que se desvirtuasse a essência do fado, mas não faço cedências quanto ao português. Alguns preceitos não podem ser desvinculados deste género e, entre eles, a língua portuguesa é fundamental”, defende.
Quanto ao interesse de cidadãos estrangeiros na história do género musical português, a fadista gostava de o ver mais replicado em território nacional. Argumenta que o público interno teria a beneficiar com um maior conhecimento sobre a música tradicional e que isso aumentaria o grau de exigência para com os intérpretes.
“Há um desconhecimento muito grande sobre a nossa música tradicional e isso afeta o ambiente de consumo, porque os espectadores aceitam alguns conteúdos sem terem sentido crítico para os avaliar”, explica. “Seja de contexto urbano ou rural, essa música representa a identidade de um povo e só com mais conhecimento é que a comunidade pode valorizar determinados aspetos de uma performance e perceber, por exemplo, porque é que alguns artistas, embora pouco conhecidos do grande público, são afinal tão valorizados dentro do seu ‘métier'”, conclui.