Imagbe Ehizomwengie venceu o Gratta e Vinci em novembro de 2025, mas a situação irregular em Itália criou um limbo legal. Sem autorização de residência, não podia abrir uma conta, o que, consequentemente, o impedia de levantar o dinheiro e provar que era financeiramente independente para se legalizar. A 4 de junho, o Tribunal de Ancona resolveu tudo — e cinco euros acabaram por mudar mesmo a vida deste nigeriado de 36 anos.

“Falei com o meu advogado. Ele disse-me que agora está tudo bem. Estou feliz: obrigado, Itália, eu gosto daqui”, agradeceu Imagbe, numa entrevista concedida ao jornal regional italiano Il Resto del Carlino.

Ehizomwengie nasceu na Nigéria, mas fugiu do país após recusar-se a fazer parte da seita religiosa liderada pelo pai. “Ele era o líder espiritual de uma sociedade secreta e, como filho mais velho, eu deveria suceder-lhe”, expliou, revelando que fugiu após ser aconselhado pela mãe. Passou pelo Níger e pela Líbia, onde esteve sequestrado durante dois anos. Após o pagamento de um resgate, desembarcou em Palermo, Itália, em 2016.

Em 2022, Ehizomwengie pediu proteção especial na Polícia de Pesaro e Urbino — atribuída a requerentes de asilo que correm perigo de vida nos países de origem, de acordo com o The Guardian —, mas a mema foi-lhe negada. O nigeriano trabalhou como vendedor ambulante e chegou mesmo a pedir esmola, para se sustentar, tendo pedido recurso da decisão em fevereiro deste ano.

Com o dinheiro que conseguia ganhar, tentava a sua sorte com a lotaria. “Deixei de comprar cartões da lotaria durante anos, mas no dia em que ganhei […], acredito piamente que Deus estava a olhar por mim”, lembra Ehizomwengie.

Foi com uma nota de cinco euros que comprou, em novembro de 2025, um bilhete do Gratta e Vinci, nome da lotaria italiana, que lhe rendeu 500 mil euros.

“Eu não conseguia acreditar. É incrível, mas é verdade. É sorte. Eu até chorei”, admitiu quando ganhou o prémio. No entanto, a falta de uma autorização de residência impediu-o de levantar os 500 mil euros. “Como estava sem autorização de residência e sem um documento válido, não tinha a possibilidade de receber diretamente o prémio”, lembrou ao Il Resto del Carlino.

A sua situação irregular em Itália colocou-o num limbo legal. Confiou num compatriota nigeriano, com quem acabou por se desentender, porque “começou a agir como se fosse o dono daquela quantia”, o que levou à intervenção da família e da comunidade nigeriana em Itália. A situação acabaria por ficar resolvida, e o homem que enganou Ehizomwengie transferiu cerca de metade do prémio (250 mil euros) para o primo de Imagbe. Este valor viria a ser usado na abertura da loja “Mama African”, em Falconara, que lhe permitiu ter trabalho fixo.

Finalmente, a 4 de junho, o Tribunal de Ancona anulou a ordem da polícia de 2022 e reconheceu a emissão de uma autorização de residência especial de proteção, devido ao nível de integração social e domínio do italiano de Ehizomwengie, assim como a ausência de antecedentes criminais.

“Rezava por este momento desde que cheguei a Itália”, relata Ehizomwengie ao The Guardian, referindo que a obtenção da autorização “significa mais do que ganhar a lotaria”. “Eu quero trabalhar e contribuir para a sociedade“, afirma.

O advogado de Ehizomwengie, Andrea Palazzeschi, saudou a decisão do tribunal, mas, sublinhou ao jornal britânico, que o seu cliente obteve a autorização “porque provou ser um bom candidato” e não por ter vencido a lotaria.