A Arquidiocese de São Francisco, nos Estados Unidos, concordou em pagar 395 milhões de dólares (346 milhões de euros) em indemnizações como parte de um acordo para finalizar mais de 500 acusações judiciais de abusos sexuais a crianças por parte de membros do clero. A informação foi avançada por advogados da firma Pfau Cochran Vertetis Amala PLLC, citados pela Associated Press e CBS News, que defendem os cerca de 530 alegados sobreviventes.

“Este acordo representa um passo importante em direção à responsabilização, mas não deve ser confundido com uma medida do dano que estes sobreviventes passaram”, sublinha a advogada Neda Lofti, citada pela CBS News.

O acordo também prevê que o arcebispo Salvatore Cordileone tenha de enviar um pedido de desculpas formal a cada sobrevivente e que sejam reforçados os mecanismos de transparência e proteção da criança, além da criação de uma lista pública de membros do clero acusados de abusos sexuais e da proibição de impor acordos de confidencialidade para silenciar sobreviventes.

A arquidiocese também fica obrigada a fornecer um “registo publicamente disponível que documenta o conhecimento da Igreja sobre alegações de abuso e ações tomadas”, que será gerido de forma independente, refere a CBS News.

O acordo resulta de negociações que duraram três anos e permite também que os sobreviventes possam enviar os seus testemunhos de abuso a uma comissão criada para o efeito. Esse órgão serve para que cada pessoa possa receber uma “distribuição equitativa baseada nas circunstâncias únicas dessa sobrevivência”, segundo o advogado Jeff Anderson, que também representa as vítimas.

Em 2023, a arquidiocese entrou com um pedido de falência, para gerir os mais de 500 processos de abusos sexuais de menores de que foi alvo, como refere a Associated Press, algo que também aconteceu com outras circunscrições eclesiásticas na Califórnia, como as de Sacramento e Oakland.

“Embora a grande maioria das alegações de abuso sexual associadas a essa falência tenha sido de há muitas décadas, aceitamos total responsabilidade pelo que aconteceu e peço sinceras desculpas a todos aqueles que foram prejudicados“, lamentou Salvatore Cordileone, arcebispo de São Francisco, citado pela CBS News, assegurando que está comprometido “com a cura e o cuidado de sobreviventes que sofreram por causa de pecados passados de ministros da Igreja”.

Sobre as indemnizações, Cordileone acredita que abrem um “caminho para uma compensação justa para os sobreviventes que suportaram o peso desse abuso durante toda a vida”.

Para a sobrevivente Margie O’Driscoll — que processou a arquidiocese por ter sido alegadamente abusada enquanto estudante num colégio católico há mais de 40 anos — o acordo permite que a vergonha “mude de lado”.

“Eu, como sobrevivente, carreguei esta dor e vergonha como uma bola e uma corrente durante um tempo muito, muito longo”, lamenta.