A Procuradoria da União Europeia está a levar a cabo, esta terça-feira, buscas em “França e outros países europeus”. Em causa estão suspeitas de desvio de fundos europeus do grupo político da Identidade e Democracia (ID), do qual fazem parte vários partidos de direita radical.
Segundo avança a France24, há buscas em curso em vários edifícios que pertencem à União Nacional (RN), o partido a que pertence Marine Le Pen e que é liderado atualmente por Jordan Bardella.
Num comunicado citado na imprensa francesa, a Procuradoria da União Europeia confirma que está “atualmente a realizar buscas em França e noutros países europeus” no âmbito de uma investigação em curso sobre a “utilização de fundos europeus por um antigo grupo no Parlamento Europeu entre 2019 e 2024”.
Esse grupo é o Identidade e Democracia (ID), que fez parte do Parlamento Europeu no último hemiciclo. Além da União Nacional, há buscas em países como Itália, Espanha e Bélgica, adianta o Le Monde.
Entre os locais alvo de buscas, segundo o jornal francês Le Monde, estão os escritórios da GUD Connexion, empresa que colabora frequentemente com as campanhas da RN como fornecedora, e a casa do seu fundador, Paul-Alexandre Martin.
No X, Jordan Bardella confirmou as buscas “em escritórios e residências” de equipas de comunicação que trabalharam com a União Nacional.
Depuis tôt ce matin, des perquisitions sont en cours aux sièges et aux domiciles personnels de prestataires de communication ayant travaillé avec nous.
Dans le même temps, Le Canard enchaîné nous apprend également l’ouverture prochaine d’une information judiciaire me…
— Jordan Bardella (@J_Bardella) June 30, 2026
A Procuradoria Europeia, organismo independente da UE encarregado de combater a fraude com fundos europeus, foi alertada por um relatório da Direção-Geral dos Assuntos Financeiros do Parlamento Europeu, anunciando a abertura de uma investigação em julho de 2025.
O relatório indicava que a União Nacional, juntamente com os seus parceiros no antigo grupo ID como a Liga de Matteo Salvini, era suspeita de ter “gasto indevidamente” fundos europeus no valor de mais de 4,3 milhões de euros, entre 2019 e 2024.
De acordo com o documento, a maior parte do montante beneficiou duas empresas — as agências de comunicação e-Politic e Unanime — ligadas a associados de Marine Le Pen: o seu antigo assessor Frédéric Chatillon e a sua mulher Sighild Blanc.
Isto embora o partido francês não detivesse a presidência nem o secretariado-geral do ID durante esse período. O grupo ID dissolveu-se após as eleições para o Parlamento Europeu de 2024, e quase todos os seus membros fundiram-se no grupo Patriotas pela Europa.
A dissolução seguiu-se a várias polémicas, nomeadamente a expulsão do AfD (Alemanha) em maio de 2024, na sequência de declarações controversas de um candidato do partido.
Em França, Marine Le Pen e a RN já foram julgadas e condenadas pelo uso indevido de fundos do Parlamento Europeu num caso separado. O caso, que levou à cassação do mandato de Le Pen no ano passado, está em fase de recurso, estando a decisão prevista para 7 de julho.
O jornal Le Canard Enchaîné adiantou também estar iminente a abertura de um inquérito judicial a Bardella, após uma queixa apresentada por uma associação de ativistas.
Esta, segundo o responsável da RN, é referente a um trabalho que exerceu “durante alguns meses no Parlamento Europeu […] há quase doze anos”.
Esta eventual nomeação de um juiz de instrução, como desejado pela associação anticorrupção Anticor, que apresentou a acusação, abriria uma nova frente jurídica para a RN.
A Anticor pretende que o líder do partido da direita nacionalista francesa responda pelas suas atividades durante os quatro meses e meio de 2015 em que trabalhou como assistente parlamentar do eurodeputado Jean-François Jalkh.
A associação solicita ainda que um juiz de instrução investigue a falsificação de documentos produzidos por Jordan Bardella e seus associados para comprovar o seu trabalho. “Como sempre, os processos judiciais antecipam o calendário eleitoral. (…) Não temos nada a censurar e vamos prová-lo”, declarou.
As próximas eleições presidenciais francesas estão agendadas para abril de 2027 e a União Nacional lidera atualmente as sondagens.
Uma outra investigação do Ministério Público Europeu relativa a Bardella foi revelada em maio, desencadeada por um artigo na imprensa e, posteriormente, por uma queixa contra pessoas não identificadas apresentada em Paris pela associação anticorrupção.
A associação suspeita que a RN tenha utilizado fundos europeus para treino de imprensa aos seus membros, incluindo Bardella, durante a campanha presidencial francesa de 2022. O eurodeputado era então o presidente interino do partido, tendo desempenhado um papel ativo na campanha de Marine Le Pen.
Notícia atualizada às 00h01 de dia 1 de julho