Quando chega à casa onde vive com três crianças pequenas e o marido na Costa de Caparica, Ana Cunha nunca sabe se sairá água da torneira. “O pior de tudo isto não é a falta de água”, relata ao Observador a mãe de 36 anos. “Uma pessoa organiza-se. O pior é não haver um aviso, não sabermos quando é que vai faltar a água.”

Os recipientes estão sempre à mão. De noite, Ana mal dorme à escuta do ruído que a água possa fazer se entrar nos canos. “Às vezes volta, por exemplo, à meia-noite.” Se assim for, levanta-se, toma banho, põe a máquina de roupa ou da loiça a lavar e, acima de tudo, a antiga habitante de Lisboa que nunca tinha garrafões em casa enche o que puder. Agora vive num sexto andar, onde nem sempre os eletrodomésticos conseguem funcionar com a pressão disponível. Enquanto fala com o Observador, Ana Cunha ainda tem água, mas o fio é já menor que o de manhã.

Este ano, o calor de maio trouxe os problemas. “Mais ou menos à hora de as pessoas chegarem da praia, não dava para tomar banho. Depois, lá tínhamos água à meia-noite.” Garante que os cortes remontam ao verão passado. “Não sei por que é que não começaram logo a resolver”, lamenta.

Esta quinta-feira, a falta de água levou a ministra do Ambiente a reunir-se com Inês de Medeiros, a presidente da Câmara de Almada. A solução que apresentaram foi a de licenciar mais dois furos que aumentem a quantidade de água disponível para os munícipes, uma realidade que só se deverá sentir com a conclusão dos trabalhos dentro de duas a três semanas.

Aos jornalistas, a autarca disse que Almada lida com “um aumento muitíssimo substancial e imprevisível” do consumo de água. Segundo Inês de Medeiros, tal deve-se principalmente ao crescimento de população nesta altura do ano. Ana Cunha duvida.

“Mas há quantos anos é que a Costa é um sítio turístico? É muita incompetência ou irresponsabilidade. Tem de estar preparada para isso, ou então, digam às pessoas para não irem para a Costa.”

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“Uma senhora mais velha, numa onda de calor, não tinha água”

Na escola da filha do meio de Ana, a água escasseia. “Disse-me que foi à casa de banho e a colega ainda conseguiu lavar as mãos com um fiozinho de água, mas ela já não pôde. Eu tenho medo que me faça uma gastroenterite ou uma coisa qualquer.” Apesar de as escolas procurarem manter as crianças, nos últimos dias telefonaram-lhe para ir buscar os filhos por não haver condições, e “no centro de saúde faltou água”, relata. No dia 8, a ULS Almada-Seixal viu-se obrigada a encerrar a Unidade de Saúde Familiar Costa do Mar às 13 horas.

Pela Costa de Caparica, somam-se as queixas. “Outro dia ouvi uma rapariga a dizer a uma senhora mais velha, suponho que seja a avó, ‘então não bebeu água?’ Não tinha água em casa. Uma senhora mais velha, numa onda de calor, não tinha água em casa.” E quando foi fazer compras, “estava no supermercado uma vizinha minha que não consegue levar um garrafão.”

Foi ainda durante a onda de calor que o vizinho de 90 anos de Ana caiu — e a ambulância demorou “uma hora e meia a chegar”. Afinal, diz a munícipe, além da água, “todos os serviços estão pior: a saúde, a educação…”. Os problemas são antigos. “Eu sinto que não fizeram nada”, critica Ana Cunha. “E que agora, o que volta a acontecer é que vão tentar remediar. Há uma desresponsabilização, não querem saber das pessoas. É o que eu sinto. Eu não tenho partido. Mas eu não me vou esquecer nas próximas eleições.”

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Quando não tem água, Ana Cunha pensa em quando é que voltará. Se a tem, concentra-se: “Tenho de pensar no que é que eu posso fazer mais enquanto há água, porque não sei até quando é que a tenho.”

Apesar de tudo, tem condições para levar os filhos a almoçar ao centro comercial e para gastar dinheiro em água engarrafada. “Já me está a pesar na fatura”, reconhece. No Almada Fórum, um funcionário disse-lhe que os cortes não se fizeram sentir — “devem ter um reservatório”.

Esta terça-feira, um protesto juntou cerca de 1.500 pessoas e levou ao corte de estradas, bem como a confrontos entre manifestantes e a polícia. “Inês para a rua, Almada não é tua” foi uma das palavras de ordem. “No dia anterior, eu já estava a ver as pessoas bastante revoltadas e desesperadas. Eu própria já estava a começar a sentir-me desesperada”, confessa.

Só a 2 de julho, quando a onda de calor já atravessava Portugal, é que os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS Almada) emitiram um comunicado. “Almada está a viver um período de grande exigência no sistema de abastecimento de água”, lê-se na nota. Já sem água durante esses dias quentes, Ana Cunha protegeu os filhos o melhor que pôde. “De manhã cedo, praia. Saíamos da praia, não havia água, íamos para o [centro comercial] Almada Fórum. Voltávamos, víamos as pessoas com garrafões, ‘pronto, não temos água, não podemos tomar banho nem cozinhar’, Almada Fórum. Ao final do dia, praia. Almada Fórum para comer, tem água e estamos ao fresco. E eu não gosto de shoppings”, admite. Contudo, não há muitos locais climatizados na Costa de Caparica para onde possa ir.

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A 7 de julho, a autarquia decidiu criar um gabinete de crise e ambas as entidades pediram desculpa aos munícipes. Depois de um corte de água entre as 22 horas de dia 8 e as 6 horas desta quinta-feira em Charneca de Caparica, Aroeira, Marisol, Fonte da Telha, Palhais, Lazarim, Botequim, Vila Nova de Caparica, Capuchos, Pilotos, Funchalinho, Vale Rosal, Vale Cavala, Quintinhas e Quinta de Santa Teresa, esta noite é a vez de Trafaria, Raposeira, Corvina, Fonte Santa, Banática e Porto Brandão ficarem sem água.

Ana Cunha teme o resto do verão. “Em julho já há muita gente, em agosto ainda mais. E o festival [Sol] da Caparica? Temos condições para isso? Eu acho que não.” Além disso, considera suspender uma tradição de família: receber os três enteados no verão. “Vivem em Espanha e costumam passar as férias connosco, mas estamos seriamente a ponderar que este ano não venham. Mais três adolescentes a termos que andar com baldes de água para a casa de banho e a fazer comida, e a comer fora?”