A classificação eletrónica veio para ficar. Apesar dos erros e problemas detetados no processo de digitalização e correção dos exames nacionais, o ministro da Educação, Ciência e Inovação mantém a aposta e garante que este modelo vai continuar a ser utilizado nas provas de segunda época, resolvidas todas as falhas identificadas ao longo do processo da primeira fase.

“Serão introduzidos melhoramentos estruturais, que decorrem da experiência da primeira fase”, afirmou Fernando Alexandre numa conferência de imprensa na sede do Ministério esta segunda-feira. “A digitalização de provas e exames e a sua classificação em formato digital são um passo importante para a modernização do sistema educativo português”, continua a defender o governante, admitindo a existência de “processos que podiam ter sido tecnicamente evitados” nas últimas semanas. Agora, revela-se “confiante” que a segunda fase será “muito tranquila”.

O ministro confessa que a implementação deste modelo “não começou bem”, mas manifestou o seu compromisso em melhorar a execução “porque em causa está uma melhoria para o próprio sistema educativo, que beneficia alunos, professores e todas as comunidades educativas”. A segunda fase arranca esta terça-feira, 21 de julho, e no mês de setembro, haverá uma época especial para aqueles que foram afetados pelos problemas associados à digitalização. Mas, com um prazo ainda incerto, Fernando Alexandre voltou a destacar que será realizada uma “auditoria externa” ao processo de classificação digital.

“Essa auditoria visa a identificação detalhada das falhas e dos erros que originaram os problemas verificados, para que, no próximo ano letivo, este processo decorra futuramente com toda a normalidade e tranquilidade”, afirmou nas suas declarações iniciais à comunicação social.

“Não há necessidade” para alterar preço dos pedidos de reapreciação dos exames

Pelas 11h30 desta segunda-feira, o ministro indicava que das 290 mil provas realizadas na primeira fase dos exames nacionais, encontravam-se distribuídas cerca de 180 mil. Fernando Alexandre referia-se ao PDF que chegou a uma parte dos alunos, contendo os exames digitalizados e a página em que são detalhadas as cotações.

Com um acesso facilitado à prova que realizaram, havendo um maior “rigor e transparência” na correção, os alunos têm uma ferramenta adicional antes de pedirem a reapreciação das provas.

Pela primeira vez, os alunos — aqueles que já receberam o PDF — têm acesso ao exame que realizaram sem terem tido a necessidade de emitir um pedido adicional. “O novo modelo é um avanço muito grande na transparência e facilidade de acesso”, descreveu o ministro da Educação, Ciência e Inovação.

O responsável do Governo não se pronunciou sobre se estava à espera de uma grande quantidade de pedidos de reapreciação das provas, mesmo que tenham surgido, ao longo dos últimos dias, múltiplos apelos de alunos e famílias para abolir o valor necessário para efetuar este pedido para uma revisão da correção do exame.

“Os 25 euros [da reapreciação] têm que se manter, não vejo razão para se alterar. É uma taxa moderadora para que de facto haja uma avaliação por parte do aluno ou encarregado de educação, ou uma verificação por parte dos professores das escolas, para os alunos fazerem esse trabalho”, afirmou Fernando Alexandre.

“Se existir discrepância na avaliação — não estou a falar de desconformidades do processo de digitalização, essas vão ser corrigidas automaticamente —, o aluno tem todas as condições para pedir reapreciação quando tem evidência de que há discrepância”, explicou o ministro.

Ministro promete “sistema de classificadores completamente diferente” no próximo ano

“Os pedidos são um direito dos alunos”, acrescentou Fernando Alexandre, sublinhando que este sistema atualmente em vigor “terá que ter condições” para suportar o volume de reapreciações solicitadas pelos estudantes, garantindo que terá classificadores para estes pedidos adicionais. “Os constrangimentos que tivemos nos últimos dias não resultaram da falta de professores”, garantiu Fernando Alexandre, que responsabiliza o “sistema” que “tem que ser melhorado”, “não é eficiente” e “gerou constrangimento”.

O ministro da Educação assegura que não existe uma falta de professores classificadores e chega a admitir que tiveram uma “velocidade incrível de correção dos exames”. Porém, sublinha que algo “não batia certo” nos últimos dias do período de correção. “Tínhamos centenas de provas paradas”, afirma. Ao longo da última semana, Fernando Alexandre foi atualizando as famílias e os estudantes preocupados com a “percentagem” das provas que ainda estavam por corrigir nos últimos dias do prazo inicialmente definido.

A dois dias da data definida para as notas serem afixadas, o ministro contava com 98% das provas classificadas. Na passada quarta-feira, tinha “100 ou 150” classificadores para corrigir “as últimas” provas de Português, mas no dia seguinte, Fernando Alexandre afirma que tinham sido corrigidas “0 provas” por este conjunto de docentes destacados.

Fernando Alexandre diz ter conhecimento de “classificadores que não eram chamados, mas estavam disponíveis”, remetendo para um “grande problema de comunicação” entre os docentes e os agrupamentos, garantindo que, no próximo ano, haverá um “sistema de classificadores completamente diferente”. O ministro diz que é necessário implementar um sistema com “contratualização” e composto por professores “que querem corrigir”. E apesar de confirmar que não haverá um “novo sistema” em vigor já para a segunda época dos exames nacionais, garante que a gestão dos classificadores terá de ser “um pouco diferente”.

O “erro na parametrização” que alterou mais de 12 mil classificações

Como mencionou o ministro nesta conferência de imprensa, “foram detetadas algumas desconformidades nas digitalizações” ao longo deste processo de consulta dos ficheiros que começaram a chegar aos alunos e encarregados de educação na sexta-feira. Um dos casos mais discutidos foi o de Física e Química A. Foi identificado um “erro na parametrização da matriz de classificação do item 7.1 na versão 2” da prova, admitiu Fernando Alexandre, o que levou à alteração da nota de mais de 12 mil alunos.

“Esta situação afetou 12 613 alunos, dos quais 11 496 tiveram a sua classificação aumentada (porque tinham a resposta certa no item). Houve 1 117 alunos que tiveram a sua classificação revista em baixa, uma vez que não tinham selecionado a resposta correta”, disse o governante.

Entretanto, surgiram relatos de outras falhas na correção de diferentes provas, como Matemática B, onde vários alunos denunciaram um erro na correção da questão 6.2.1 do exame. Fernando Alexandre negou que o lapso exista, apesar dos relatos. “Parecia erro, mas não era erro. Exageraram o número de erros, alguns não estão corretos”, afirmou o ministro. Ao Observador, a Associação de Professores de Matemática (APM) indicou ter identificado um erro em 300 provas analisadas e, apesar de o considerar “nada expressivo”, informou o Júri Nacional de Exames (JNE). A prova, em primeira época, foi realizada por 5.914 alunos.

“Temos um sistema de transparência que permite isso [detetar erros] e que nunca existiu”, acrescentou o governante. O ministro da Educação, Ciência e Inovação admite que “na pressa que houve de início” verificaram-se itens de correção que foram introduzidos manualmente e, por isso, podem existir alguns “erros de pessoas”, mas trata-se de casos muito esporádicos. Se houver parametrizações erradas, serão corrigidas como aconteceu no caso de Física e Química A, e como ao fim da tarde ocorreu com o exame de Geografia: o JNE anunciou o envio de novas pautas devido a erros em dois itens e adiou em um dia o prazo de inscrição na segunda fase do exame.