O antigo ministro das Finanças era governador do Banco de Portugal quando esteve na calha (pelo menos de António Costa) para passar para primeiro-ministro, depois da demissão de novembro de 2023. A memória desses dias continua a ser de digestão difícil para Mário Centeno que, agora, num prefácio que escreveu para um livro sobre populismos, volta a esse momento para disparar sobre o então Presidente da República e colocar-lhe nos ombros a responsabilidade maior (mas não única) pelo disparar do Chega em Portugal.
Recua aos dias daquela que classifica como “a maior crise institucional da nossa democracia depois do PREC” para lançar dúvidas sobre a gestão desse momento e as suas reais intenções. No prefácio que escreve para o livro “Do trumpismo ao Chega — A contaminação”, de Gonçalo Ribeiro Telles, Mário Centeno diz que não foi o “parágrafo de um comunicado da Procuradoria-Geral da República que mudou o país”. “O país já se encontrava num estado de enorme tensão política”, analisa agora.
“Esse parágrafo limitou-se a abrir as comportas de uma avalanche que vinha sendo construída do interior do próprio sistema”, continua, apontando o dedo a Marcelo Rebelo de Sousa. Não precisa de o referir diretamente para as críticas caírem sobre o ex-Presidente, afinal a decisão de dissolver o Parlamento, depois de feita uma sugestão concreta por António Costa, foi dele.
“A responsabilidade pelo que aconteceu nesse dia, e em todos os que se seguiram, pertence a quem não explicou, não dialogou e não apresentou alternativas capazes de respeitar a vontade expressa dos portugueses através do voto”, escreve no texto de duas páginas. Foi “a partir desse momento o comportamento eleitoral mudou porque a paciência se esgotou”, considera.
Entre 7 de novembro de 2023, data das buscas no gabinete do primeiro-ministro, e o 9 de novembro seguinte, dia em que Marcelo dissolveu o Parlamento, passou muito pouco tempo, diz Centeno. E lança suspeitas sobre as razões disso mesmo: “Porque é que o Conselho de Estado teve de decidir na quinta-feira, dia 9, sem ter toda a informação? A quem beneficiou a decisão com informação imperfeita? Ao populismo latente”, responde ele mesmo.
Já sobre o crescimento do populismo que se seguiu — com o Chega a eleger 50 deputados nas eleições de março seguinte –, o antigo ministro atribui também responsabilidades à governação. “O populismo em Portugal não é uma obra dos populistas. É, em larga medida, uma obra daqueles que deveriam ter sido capazes de oferecer alternativas melhores do que as que por eles foram apresentadas”.
A frase pode ser lida como uma crítica transversal aos vários governos, mas sobretudo aos socialistas, que estiveram mais tempo no poder. Logo a seguir, porém, Centeno deixa uma crítica que permite uma associação mais direta a António Costa: “Tal como acontece na economia, as crises políticas revelam sobretudo as falências de quem governa e não as virtudes de quem pretende substituí-lo.”
Centeno lançou o seu próprio livro na última semana, que é um registo da sua experiência política nos últimos anos e onde relata vários episódios desse período — e, em alguns momentos, também apreciações negativas de decisões do então primeiro-ministro.