Da Federação, nem uma palavra. Ao longo de toda a manhã depois da “bomba” Cristiano Ronaldo, os abalos, a terem acontecido, ficaram fechados na unidade hoteleira onde a Seleção pernoitou em Copenhaga antes do encontro com a Dinamarca, a contar para a terceira jornada da Liga A da Liga das Nações. No entanto, até o silêncio pode também ser uma “notícia”. Neste caso, foi mesmo. Também isso mostrava aquele que deverá ser o comportamento da FPF pelo menos até ao final do encontro com a Noruega, que encerra esta fase mais densa com quatro partidas oficiais em duas semanas. “Tenho um carinho muito grande pelo Cris mas deram-me indicações que não posso falar sobre o assunto”, assumiu Renato Veiga na zona mista após o triunfo de Portugal que reforçou a liderança com três vitórias. Se existissem dúvidas, estavam dissipadas.

Durante a manhã, a grande “novidade” acabaram por ser os contactos feitos por Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, com Pedro Proença, Jorge Jesus e o próprio Cristiano Ronaldo, que utilizou como o melhor exemplo de “mentalidade” no discurso de Natal a propósito das reformas necessárias no País. Em paralelo, numa notícia inicialmente avançada pelo jornal Record, soube-se que nada nem ninguém fez uma alusão ao grupo sobre o que se tinha passado com o capitão. Ou seja, a ausência de Ronaldo era vista e sentida por todos mas, a não ser que consultassem os jornais ou as redes sociais, ninguém tomou conhecimento através da Federação do que acontecera para o avançado voltar num jato privado para Madrid.

À tarde, na antecâmara da saída da equipa para o Parken, a CMTV acrescentou mais uma peça que adensou o que falta saber para completar o puzzle do filme que levou ao abandono do estágio por parte de Ronaldo: o tal encontro entre o jogador e Jorge Jesus na noite de terça-feira tinha sido também presenciado por uma terceira pessoa, neste caso Simão Coutinho, pessoa próxima de Ronaldo que é diretor desportivo do Al Nassr e que trabalhou com o técnico na última temporada. À parte de todas as considerações evidentes que podem merecer uma reflexão, nomeadamente o facto de não ter havido aí qualquer elemento da FPF que pudesse funcionar como fiel da balança, existe alguém que poderá, caso queira, “desempatar” as versões.

O foco passava para o jogo, com o primeiro sinal da “bomba” a ser sentido pelo próprio Jesus: quando saía da unidade hoteleira para o autocarro, após uma manhã sem qualquer adepto à volta do hotel, o selecionador ouviu alguns assobios dos adeptos que entretanto tinham chegado a par do líder da Federação, Pedro Proença (ao contrário do que aconteceu com quase todos os jogadores, que foram agradecendo as palmas e manifestações de apoio). Isto numa fase em que, 24 horas depois da chegada do jato privado de Ronaldo a Copenhaga para levar o jogador para Madrid, a Seleção perdera um milhão de seguidores no Instagram.

“Se estou de consciência tranquila? Completamente. Foram horas alucinantes mas porque tivemos dois jogos. Agora temos mais outro… De resto, tenho muitos anos de futebol e sei que não fiz nada para que o processo não continuasse igual. Agora vamos para o jogo, depois [temos] o do Dragão, depois vamos falar sobre esse tema sem fugir, porque ninguém pode descaracterizar… Ele é um símbolo, é uma figura, isso não está em causa”, comentou Jesus na flash interview da SportTV. “O importante agora é focar no jogo. Depois vou para o Dragão e focamo-nos nesse jogo. Depois, com certeza, teremos tempo para falar”, reforçou à RTP. O assunto que todos comentavam ficava para depois, entre elogios do técnico à dimensão de Ronaldo.

Começou o encontro, começou a outra versão de Jorge Jesus. Se dúvidas existissem que ali entra em ação uma “personagem” diferente que vive qualquer jogo de forma particular, a forma como foi a correr quase até à bandeirola de canto após o 3-2 de Vitinha na segunda parte, e que lhe valeu mesmo um cartão amarelo, funcionou como exemplo paradigmático de que durante 90 minutos a única coisa que lhe interessa é assegurar o triunfo. Pode ter momentos de maior fair play, como quando Mohammed Daramy foi levantado com ajuda do treinador, pode ter momentos em que não gosta de algumas decisões do árbitro, tem sempre momentos em que não liga ao estilo para corrigir os seus jogadores – como aconteceu numa saída a partir de trás ainda na primeira parte em que não gostou da forma como se correram riscos desnecessários.

Antes, nas bancadas, nenhum dos protagonistas do caso era esquecido. Ronaldo tinha um cartaz enorme nas primeiras filas que pedia “RespeCR7” e outra lona que dizia “Obrigado por tudo” acompanhada pelo Siiiiiii mas também o selecionador contou com uma dedicatória especial entre dez camisolas vermelhas, amarelas e verdes com as letras “Love U Jesus”. Durante o jogo, apoio para tudo e todos os 90 minutos. O apoio que Jesus reconheceu no final da partida, juntando-se aos jogadores no centro do relvado para que fossem agradecer aos adeptos pela presença em Copenhaga (algo que acontecera na Noruega sem Ronaldo).

Na zona de entrevistas rápidas e na conferência de imprensa, Jorge Jesus ainda foi tocando ao de leve no tema Ronaldo mas pouco ou nada adiantou… a não ser que não mudaria nada. Contudo, uns minutos antes, o ambiente tinha ficado um pouco mais tenso apesar do sorriso do técnico: Rasmus Höjlund, avançado de 23 anos do Nápoles que marcou o 2-2 e festejou à Cristiano Ronaldo, não gostou de algo que o treinador fez e acabou por dar um pequeno empurrão a Jesus durante os cumprimentos no centro do relvado, algo a que o técnico não reagiu e que deixou o dianteiro a olhar para o selecionador nacional com ar ameaçador.

Com aquela que foi a melhor exibição desde que assumiu a Seleção, Jorge Jesus conseguiu a terceira vitória noutros tantos jogos pelo conjunto nacional e Portugal acabou por tornar-se a equipa com mais triunfos na Liga das Nações (20), à frente de Grécia (19), França (18) e Espanha (18). Já Bruno Fernandes, com mais duas assistências depois da ausência frente à Noruega por problemas físicos, tornou-se o terceiro jogador da Seleção com mais assistências (27), apenas atrás de Luís Figo (40) e… Ronaldo (35).

[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]