O Rei de Espanha foi esta terça-feira saudado por centenas de pessoas à chegada a Ceuta, no início da primeira visita em quase 20 anos de um chefe de Estado espanhol à cidade.

Felipe VI e a mulher, Letizia Ortiz, visitam Ceuta depois de em 30 e 31 de julho mais de 70.000 pessoas terem entrado ilegalmente neste enclave espanhol no norte de África, cuja soberania é reivindicada por Marrocos.

Centenas de pessoas esperavam Felipe VI e Letizia Ortiz na avenida de acesso à Câmara Municipal de Ceuta, sede do governo da cidade autónoma e local do primeiro ponto de agenda dos monarcas nesta visita.

Felipe VI e Letizia Ortiz chegaram ao local pelas 12h30 locais (11h30 em Lisboa) e passaram mais de 20 minutos a saudar a multidão, que os recebeu com bandeiras de Espanha, aplausos, gritos de saudação aos Reis e cânticos como “Ceuta unida jamais será vencida” ou “Eu sou espanhol”.

Tanto o número de pessoas que esperava os reis de Espanha nas ruas para os saudar, como o tempo que Felipe VI e Letizia Ortiz passaram a cumprimentar a multidão são pouco habituais ou mesmo inéditos desde que o atual monarca foi proclamado chefe de Estado, em 2014, destacaram os jornalistas espanhóis que costumam acompanhar as deslocações da Casa Real.

Felipe VI vai dormir esta terça-feira na cidade, pelo que será também o primeiro chefe de Estado de Espanha a pernoitar no enclave espanhol no norte de África desde 1927.

Segundo a agenda divulgada pela Casa Real, Felipe VI vai reunir-se em Ceuta com as autoridades locais, representantes da sociedade civil e líderes das diversas comunidades religiosas da cidade, que se orgulha de ser há séculos “a cidade das quatro culturas” (católica, muçulmana, hindu e judaica). Mais de 40% da população de Ceuta é católica e mais de 40% é muçulmana.

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Felipe VI e Letizia Ortiz vão também participar numa cerimónia ecuménica no cemitério muçulmano Sidi Embarek de Ceuta, onde estão enterradas mais de 80 pessoas que morreram em 30 e 31 de julho ao tentarem entrar na cidade a nado e cujos corpos foram resgatados no lado espanhol da fronteira.

Depois da passagem por Ceuta, Felipe VI e a mulher, Letizia Ortiz, seguem, na quarta-feira, para Melilla, o outro enclave de Espanha no norte de África e com fronteiras com Marrocos.

A última visita de um chefe de Estado espanhol a Ceuta e Melilla foi em 2007, nas únicas deslocações aos enclaves que fez Juan Carlos I, o pai do atual monarca.

As deslocações de poucas horas a cada uma das cidades de Juan Carlos I desencadearam então uma crise diplomática com Marrocos, que retirou temporariamente o embaixador de Madrid.

Desta vez, a visita de Felipe VI tem como cenário a crise desencadeada em Ceuta com a entrada ilegal, em 30 e 31 de julho, de mais de 70.000 pessoas na cidade, naquilo que o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, qualificou logo naqueles dias como um ataque e uma violação à integridade territorial de Espanha.

O ocorrido em Ceuta no final de julho e a crise no terreno que desencadeou — com milhares de pessoas a continuarem ilegalmente na cidade, um aumento da tensão entre a população e os migrantes e relatos de alguns episódios de violência — mantêm-se até hoje no centro do debate público e político em Espanha, com o Governo de Sánchez a ser alvo de críticas generalizadas, da esquerda e da direita.

O executivo tem sido acusado de uma resposta lenta à situação no terreno, com milhares de pessoas a dormirem nas ruas e praias de Ceuta até há poucos dias e de subserviência a Marrocos.

Ceuta e a imigração serão um dos temas que previsivelmente dominarão a campanha para as eleições legislativas antecipadas de 29 de novembro, entretanto convocadas por Pedro Sánchez.

A visita às duas cidades “foi acordada pelo Governo e a Casa Real”, segundo o comunicado da Casa Real espanhola de 1 de outubro.