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Gibbs Street, onde Nuno Loureiro morava com a mulher e os três filhos
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▲Gibbs Street, onde Nuno Loureiro morava com a mulher e os três filhos

▲Gibbs Street, onde Nuno Loureiro morava com a mulher e os três filhos

A cerimónia de despedida, o choque dos vizinhos e os tiros onde “nada acontece”. A morte de Nuno Loureiro sentida em Boston

Familiares e amigos reuniram-se num café conhecido da comunidade portuguesa para homenagear Nuno Loureiro. Os vizinhos da zona onde nasceu Kennedy colocam muitas questões sobre a morte do físico.

Na rua mais portuguesa de Boston, o almoço de domingo no Clube Desportivo Faialense foi de despedida. Há quase 54 anos que aqui se reúne a comunidade portuguesa e nesse dia, numa sala decorada com luzes e coroas de Natal, dezenas de familiares e amigos juntaram-se em homenagem a Nuno Loureiro, o físico morto no dia 15 de dezembro.

Apesar dos pratos quase vazios, mantêm-se à mesa os adultos enquanto muitas crianças abrem a porta a correr e descem as escadas íngremes em direção à sala de jogos do Clube Desportivo Faialense. O evento, sabe o Observador, contou com a família próxima do viseense de 47 anos morto a tiro em casa. O suspeito do crime é Cláudio Valente, também português.

De saída do salão e já a enfrentar o forte vento frio da tão portuguesa Cambridge Street, compatriotas e colegas de trabalho dizem que “é demasiado cedo para falar” sobre uma tragédia que ainda estão a digerir e para a qual ainda não encontraram respostas que temem nunca vir a ter.

Aberto ao público geral e contíguo à divisão onde decorre a cerimónia, o café Faialense recebe muitos portugueses que se sentam ao balcão para discutir de tudo enquanto comem como se estivessem novamente em casa. Só as luzes de Natal destoam da decoração repleta de quadros do clube da ilha açoriana e das imagens pitorescas de paisagens do arquipélago. Ali, como em outros restaurantes da mesma rua, não se esquece o que aconteceu.

“Os portugueses aqui têm praticamente a sua vida organizada, estão bem vistos. Nunca tivemos problemas e agora acontece um caso destes… A gente fica sempre chocada, ‘you know’?”, desabafa Fernando Gomes, dono da vizinha Casa Portugal, a viver há largas décadas “na América”.

▲ O Clube Desportivo Faialense, espaço muito procurado por portugueses e local escolhido para homenagem de familiares e amigos a Nuno Loureiro

A vizinha que ouviu vários tiros e as luzes azuis por todo o lado

A quase cinco quilómetros de distância (ou três milhas nos contadores locais) de Cambridge Street, a jovem Rainey passeia o cão na Gibbs Street, em Brookline, quase vazia de noite. Explica que aquela zona “sempre foi calma” com exceção dos últimos dias, quando o edifício número 9 da rua foi várias vezes motivo de enchentes. Primeiro chegou a polícia, depois os jornalistas e de seguida os vizinhos, com vigílias e homenagens.

Desde o prédio em frente ao apartamento dos Loureiro, Melissa recorda, com lágrimas nos olhos, os “vários tiros que ouviu” na noite do crime. “Ainda fui à janela, mas não vi nada. Pouco depois viam-se as luzes azuis por todo o lado e a polícia andava a acordar os vizinhos para saber o que tinham visto”. “Isto está a ser muito difícil para a comunidade”, lamenta.

Entre coroas de azevinho, luzes a enfeitar fachadas e árvores de Natal visíveis pelas grandes janelas, os cinco degraus da casa onde Nuno Loureiro vivia com a mulher e as três filhas destacam-se de noite pelas velas acesas com imagens de Nossa Senhora de Guadalupe e ramos de flores. “Era uma pessoa brilhante, muito inteligente. Ainda por cima estava a fazer investigações que nos iriam beneficiar a todos… Porquê?”, questiona, parada em frente ao memorial improvisado, a israelita Rachel, com um apelo por explicações que se multiplica por todos os vizinhos.

Holt vive bem perto do apartamento da família Loureiro e, apesar de não conhecer pessoalmente o vizinho português, lembra-se de vê-lo com os três filhos e a mulher. “Fiquei, e ficámos, destroçados. Ele era formidável, muito educado, cumprimentava-me sempre”. Recorda-se de ver as crianças a sair para a escola mais próxima, onde a elevada quantidade de alunos reflete a diversidade de nacionalidades da zona de Brookline, que começou a ser habitada no séc. XVII.

▲ As homenagens a Nuno Loureiro à porta da casa onde foi morto a tiro

Pela manhã seguinte, o movimento é pouco maior do que de noite. Agasalhada com um longo casaco, Tracy passeia o cão entre os canteiros arranjados à entrada das casas. “Conhecia o Nuno como se conhece um vizinho”, diz enquanto acena para um casal, assumindo que não tinha uma relação próxima com o português.

“No dia em que ele morreu isto estava cheio de polícias e K9 [cães-polícia] a farejar em todo o lado”. Em “várias décadas” a viver no bairro, a norte-americana diz que “nunca tinha visto tal coisa”. “É uma comunidade muito próxima, estamos todos a sentir muito isto” e não há quem não fale nesse tema nos grupos de vizinhos nas redes sociais. Vários moradores dos arredores confessam ao Observador que há algum “alívio” por saberem que o alegado homicida, o também português Cláudio Valente, está morto e, sobretudo, por não se ter confirmado a hipótese de ter sido um assalto violento — dizem que assim podem manter a confiança de que vivem num “bairro tranquilo” onde “nada acontece”. Todavia, querem respostas.

“Como é que uma pessoa inteligente, com estudos e com conhecimentos guarda ressentimento durante tanto tempo? Como é possível ficar a remoer coisas durante 20 anos? Só pode ser inveja”, aponta a russa Lyudmila. Tracy também não percebe como a relação de ex-colegas do Instituto Superior Técnico em Lisboa resultou neste homicídio, ou a ligação ao atentado na Universidade de Brown, mas acrescenta: “Não é difícil ter inveja do Nuno, não há muitas pessoas melhor do que ele, é bastante complicado ser melhor do que ele. Ele era uma mente brilhante”.

▲ A casa e a rua onde vivia a família Loureiro

“Na maioria das vezes estas pessoas estão tão centradas no trabalho e tão vidradas na vida académica que não têm família, mas o Nuno não, tinha uma bela família e amigos”, elogia Tom.

Numa zona junto à Gibbs Street, onde o prédio da família portuguesa é dos poucos sem um alpendre, fica a casa histórica onde nasceu John F. Kennedy, 35.º Presidente dos Estados Unidos da América — figura muito acarinhada e respeitada pelo físico português, como o próprio recordou numa publicação no Facebook cinco anos antes de ter sido nomeado diretor do Centro de Ciência do Plasma e Fusão do MIT.

“Há 54 anos, Kennedy disse: ‘Decidimos ir à Lua esta década e fazer outras coisas não porque é fácil, mas porque é difícil’. Menos de sete anos depois de um dos mais famosos discursos de sempre, uma equipa de génios conseguiu levar o Homem à Lua. Já passou muito tempo, precisamos de mais líderes como Kennedy”, escreveu em 2019 Nuno Loureiro.

▲ A casa onde nasceu John F. Kennedy, uma referência para Nuno Loureiro

“Até nos dava pena que em Portugal não fosse tão conhecido antes disto”. Nuno era membro de associação de portugueses

Entre a calma de Brookline, a portugalidade de Cambridge e a exigência do MIT, Nuno Loureiro vivia em família na cidade de Boston há vários anos. Em 2016 chegou ao MIT e, em abril de 2024, começou a dirigir o Centro de Ciência do Plasma e Fusão. A ligação ao país natal, além dos regressos ocasionais, era manifestada em solo norte-americano pela pertença a associações portuguesas, como a PAPS – Portuguese American Post-Graduate Society.

“O nome diz que é para os graduados, mas na verdade é uma rede de portugueses qualificados. Qualquer um que tenha uma licenciatura, no mínimo, e que esteja a trabalhar ou a estudar nos Estados Unidos da América e no Canadá pode ser membro oficial”, explica Ângela Crespo, portuguesa a viver em Boston desde 2010 e uma dos líderes do núcleo daquela cidade.

Nuno era um dos membros deste grupo que fazia do Faialense uma das casas de eleição para os convívios regulares. Além disso, organizavam serões, eventos de networking e palestras. “O Nuno interagiu connosco, ele até nos deu uma vez uma palestra num dos nossos eventos da PAPS” sobre “a carreira dele” e “como é que chegou onde chegou e aquilo que ele investigava”.

Também respeitando a privacidade familiar, Ângela enfatiza apenas o digno reconhecimento dos compatriotas pelo percurso do físico. “Todos estávamos orgulhosos de ter um português na posição que ele estava. É uma coisa rara e até nos dava pena que em Portugal não fosse tão conhecido antes disto”, lamenta.

Nuno Loureiro

▲ Nuno Loureiro

Instituto Superior Técnico/Jake Belcher

A preocupação da associação que chegou a reunir em salas do MIT ou na sede da Filarmónica de Santo António (também na Cambridge Street) é “fomentar uma rede” para ajudar que as pessoas se conheçam tanto “a nível pessoal” como “profissional”. “Nós ajudamos quem vem para cá a estabelecer-se, a nível logístico, a encontrar uma comunidade”, num modelo replicado em várias cidades do continente, mas com mais expressão em Boston, Nova York e Washington D.C.

“O de Boston é capaz de ser o maior e o mais ativo, porque como Boston tem muitas universidades e institutos de investigação, vem muita gente fazer doutoramentos, estágios ou pós doutoramentos”. Como Nuno, a “maioria dos membros da PAPS em Boston” estão ligados à “vida académica”, por ser “a cidade que é”, com tantos “hospitais e institutos de investigação”.

“Normalmente, tentamos, pelo menos em Boston, organizar pelo menos um evento por mês. Por exemplo, fazemos um jantar sobre uma questão de convívio ou então fazemos uma palestra com um convidado, onde nós convidamos pessoas que querem falar um pouco da sua carreira aos outros membros da PAPS para nos ficarmos a conhecer. Foi num desses eventos que o Nuno falou”, conclui Ângela que, como outros membros da associação e os portugueses emigrados, regressam a Portugal na altura do Natal.

▲ A bandeira de Portugal junto à bandeira norte-americana na "rua mais portuguesa de Boston"

“Os portugueses estão bem adaptados, ninguém esperava que fosse um português”. Emigrantes não temem impacto na comunidade

Apesar da enorme expressão portuguesa na cidade, sobretudo na Cambridge Street, Fernando Gomes diz que já nada é como era quando chegou. “A maior parte da rua, 90%, eram portugueses. Havia pequenas lojas de portugueses: restaurantes, supermercados pequenos. Mas o pessoal mais novo agora já não quer a comida portuguesa, não quer bacalhau, não quer chouriço”, indigna-se o português que recusa comparações com o futebolista homónimo: “sou benfiquista”.

Aproveita um momento mais calmo do dia para falar ao Observador, enquanto tem apenas duas mesas ocupadas e, como som de fundo, o debate entre Catarina Martins e Jorge Pinto. Durante a semana, o entra e sai de clientes é constante e a presença de portugueses é tão notada que o dono daquele estabelecimento há 30 anos assume como provável a presença de Nuno Loureiro naquele espaço.

“Há muitos portugueses que vêm aqui do MIT. Talvez ele tivesse vindo aqui várias vezes, mas passa tanta gente que eu não fixo”. Independentemente de ter tido o físico sentado na Casa Portuguesa decorada com azulejos e desenhos de Amália Rodrigues, Fernando assume dois choques. Primeiro, pela morte; depois, pela nacionalidade do suspeito.

“Os portugueses aqui estão bem adaptados e ninguém imaginava que fosse um português. Quando vi a notícia na televisão americana, até pensei que fosse da América Latina ou espanhol, por causa do nome. Mas depois confirmaram que era um português. Aí uma pessoa fica sempre em choque, ‘you know’?”, relata, com algumas expressões inglesas, mas sem perder o sotaque algarvio com que chegou aos EUA.

A rua larga e com quase quatro quilómetros está cheia a um domingo, com a estrada cheia de carros grandes e os passeios com pessoas que fazem as últimas compras de Natal ou param para descansar nos restaurantes. Os nomes portugueses vão-se repetindo: dentista Alegria, agência imobiliária Ribeiro de Sousa, ourivesaria Pacheco, Club Lusitânia e a Igreja de Santo António (no cruzamento da Cambridge Street com a avenida Cardeal Medeiros, em homenagem ao açoriano que foi arcebispo de Boston na década de 70 do século XX).

Os laços entre Portugal e o estado de Massachusetts são fortes, o que leva os portugueses a crer que este episódio trágico não afetará a imagem da comunidade. Ao balcão do Lusitânia, enquanto bebe uma Super Bock, Élvio diz que “tem sido mau ver o nome de um português associado a uma coisa destas, que está sempre a passar na televisão”, mas confia que ”não vai ter muito impacto na forma como somos vistos”.

“Já aqui estamos há tanto tempo”, reforça António, dono do café, enquanto supervisiona uma partida de sueca e controla as televisões: uma para assistir ao futebol americano e outra para ver os conterrâneos do Santa Clara a defrontar o Arouca. “O que é que a gente pode dizer? A gente fica chocado porque é dos nossos. Somos portugueses. Claro que se é um estrangeiro, a gente não liga. Mas os nossos… Ainda por cima da maneira que foi… Foi para a universidade matar duas pessoas e ferir dezanove e depois veio matar um português. Ninguém entende”, completa Fernando Gomes, sentado numa das mesas do seu café.

“Já estou aqui há 30 anos e nunca tivemos problemas destes. Claro, há portugueses com problemas com polícia, isso é normal em toda a parte do mundo, mas casos assim não”, remata.

Conflituoso, excelente aluno, mas muito competitivo. Cláudio Valente achou-se sempre melhor que os outros e entrava em quezílias

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