Desde criança, todos os que se cruzavam com Cláudio Valente elogiavam a sua inteligência. Mas aos 48 anos, tornou-se o principal suspeito das mortes de dois alunos no tiroteio na Universidade de Brown — Ella Cook e Mukhammad Aziz Umurzokov — e do físico nuclear do MIT Nuno Loureiro na sua casa em Boston.
As autoridades ainda investigam o que o levou a cometer os crimes na Universidade Brown, onde iniciou um doutoramento abandonado pouco depois, e em Boston, onde vivia o seu antigo colega de universidade — ambos estudaram no Técnico, em Lisboa. Várias fontes ouvidas pelo Observador descrevem um aluno brilhante, mas que não conseguiu obter o sucesso que todos lhe adivinhavam no campo académico. A família nada sabia de Cláudio Valente desde 2001, quando entrou na Universidade Brown.
Em Torres Novas, onde estudou, deixou algumas saudades. “Era o melhor aluno”, descreve a mulher de um dos seus professores na escola secundária Maria Lamas, em Torres Novas, onde frequentou o 11.º e o 12.º anos. “Era bom de todos os pontos de vista, afável, muito inteligente, de relacionamento cordial e correto.”
Já adulto, Cláudio Valente chegou a visitar o seu velho professor e falavam sobre Física. “Sempre ouvi o meu marido falar dele como uma referência. Ele disse que não podia acreditar”, lamenta.
▲ A Escola Secundária Maria Lamas, frequentada por Cláudio Valente
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
Foi como aluno da Escola Secundária Maria Lamas que Cláudio Valente partiu, com mais quatro jovens portugueses e numa equipa liderada pelos professores Adriano Pedroso de Lima e Manuel Fiolhais, rumo à Austrália. Corria o ano de 1995 e representaram Portugal na Olimpíada Internacional de Física em Camberra. “Não tivemos nem medalha, nem menção honrosa”, recorda ao Observador, 30 anos depois, João de Medina Prata Pinheiro, membro desta delegação. “Foram selecionados os cinco melhores a nível nacional para formar a equipa portuguesa e depois desse concurso com várias provas, foi dada uma formação na Universidade de Coimbra.”
Na Austrália, os elementos do grupo foram recebidos pelo cônsul em Sidney, e pelo embaixador de Portugal em Camberra. Alojados em residências de estudantes, “no total há de ter sido uma semana” o tempo passado em competição. “Foi uma experiência espetacular, mas não foi criadora de amizades.” João Prata Pinheiro, que se tornou engenheiro, não manteve ligações aos colegas da delegação, que descreve como reservados.
Foi no mesmo ano das Olimpíadas da Física que Cláudio Valente — e Nuno Loureiro — entraram no curso de Engenharia Física Tecnológica no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, confirmou fonte oficial da faculdade ao Observador. “A primeira pergunta que [Cláudio Valente] me fez foi, ‘então qual foi a média com que entraste’?”, relata um colega, que o diz competitivo e acrescenta algo que o surpreendeu: “No primeiro ano, há uma cadeira de Análise Matemática. Ele teve 18 e foi fazer uma melhoria de nota.”
Filipe Moura, professor de Matemática no ISCTE, foi monitor (assistente de ensino) de Análise Matemática III no segundo ano de faculdade de Cláudio Valente. “Ele era conflituoso com os colegas”, recorda. “Achava-se mais inteligente que os colegas e gostava de mostrar isso. Devia estar habituado a ser o melhor do secundário.” Num post publicado esta sexta-feira no Facebook, o professor não fica por aqui. “O Cláudio evidentemente era um dos melhores, mas nas aulas tinha uma necessidade muito grande de se fazer notar e de mostrar que era melhor do que os outros. Em princípio gosta-se de dar aulas a bons alunos, mas a atitude do Cláudio era desagradável, envolvendo-se frequentemente em quezílias com colegas que ele não considerava tão brilhantes como ele (e que provavelmente não eram — mas eram seus colegas e tinham todo o direito de estarem ali). Eram quezílias totalmente desnecessárias, que não adiantavam nada à aula e que faz com que a recordação de dar aulas ao Cláudio nem seja das melhores.”
▲ Instituto Superior Técnico, onde alegado assassino e vítima frequentaram o mesmo curso
Jose Sena Goulao/LUSA
Bruno Soares Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, também foi aluno do Técnico, tendo terminado os estudos em 1998, dois anos antes de Cláudio Valente e de Nuno Loureiro. Recorda o físico morto em Boston como “um jovem muito ativo”, tendo-o conhecido quando já estava envolvido no então Centro de Fusão Nuclear. Apesar de se ter cruzado com Nuno Loureiro quando eram estudantes, não o conheceu nesses anos. “O curso, na altura, tinha cerca de 45 a 50 pessoas que entravam por ano, ou seja, haveria em simultâneo num curso de cinco anos cerca de 250 pessoas a estudar Física.” Sobre se Loureiro e Valente tinham alguma relação na altura, diz não ter “a mínima ideia”.
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Os dois terminaram o curso de Engenharia Física Tecnológica em 2000 e, se Nuno Loureiro seguiu para o Imperial College London para terminar o doutoramento, Cláudio Valente seguiu para a Universidade Brown. O agora atirador esteve inscrito entre 2000 e 2001, tendo começado a tirar o doutoramento em Física. Durante três semestres, frequentou aulas mas não terminou o curso, de onde se retiraria oficialmente em 2003, relatou a presidente da universidade, Christina Paxton. “Ele disse que não gostava de estar lá, não gostava do departamento e não gostava dos colegas. Normalmente, os alunos europeus estão mais bem preparados que os norte-americanos”, frisa Filipe Moura.
Segundo o jornal The New York Times, Cláudio Valente deixou de contactar com a família, detalha uma amiga de familiares. “[Os pais] Estão devastados”, lamentou Mirita Domingues. “A mãe dele disse esta manhã que se preocupava com que da próxima vez que ouvisse falar sobre ele, ele estivesse morto.” Foi uma criança feliz, brincalhona, inteligente e dedicada à família, diz a mesma fonte.
Um antigo colega, que sabia que Cláudio Vicente tinha ido para Brown sem sucesso, encontrou-o em Portugal e questionou-o sobre a entrada na universidade norte-americana. “Ele disse-me, ‘pois, não gostei muito’. Foi com um bocado de desdém e não gostei muito. Mas ele também não me dava muita confiança”, explica ao Observador.
▲ A polícia na Universidade Brown, pouco depois do crime
Anadolu via Getty Images
“Troquei muitos emails com ele nessa altura e vi que ele mantinha a mesma atitude — que me contava — de manter conflitos desnecessários com colegas do doutoramento nas aulas, que mais uma vez ele considerava muito menos capazes do que ele — e que provavelmente até seriam”, relatou Filipe Moura, no mesmo post de Facebook. “Cláudio achava que nada daquilo valia a pena, que era uma perda de tempo e os outros eram todos uns incapazes. E desistiu do doutoramento ao fim de um ano. Foram as últimas notícias que tive dele.”
Ao The New York Times, um amigo de Cláudio Valente dos tempos de Brown descreveu-o como um aluno infeliz ou “zangado”, que achava as aulas “demasiado fáceis”. Contudo, também conseguia ser “brilhantemente inteligente”, ou agressivo: chamou “escravo” a um colega brasileiro.
É improvável que Nuno Loureiro, que terá assassinado, alguma vez tenha tido qualquer ligação à Universidade Brown. “Olhando para aquilo que são as atividades, não consigo encontrar muitas que sejam de alguma forma próximas da fusão nuclear”, sustenta Bruno Soares Gonçalves. “Neste caso, não sei se houve algum tipo de contacto com o suposto assassino, não há evidência nenhuma que tenha trabalhado na área.”
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“Reconheci-o imediatamente.” Colegas de trabalho do portal SAPO surpreendidos com caso
A ligação de Cláudio Valente à Universidade Brown cessou oficialmente em 2003. Sete anos depois, começou a trabalhar no portal SAPO em Lisboa, onde se manteve até 2013 “tendo saído por sua iniciativa”, detalha fonte oficial ao Observador. João Paulo Luz, antigo diretor comercial, conta que o funcionário era “especialista em dados” e que reunia regularmente com ele no edifício-sede de Picoas, em Lisboa. “Quando vejo a fotografia, reconheci-o logo. Apesar de terem passado muitos anos, reconheci-o imediatamente”, assegura. Também se lembra de Cláudio Valente como “um aluno brilhante”: “Pertencia àqueles que se destacavam do ponto de vista das aptidões, numa área que já era muito cobiçada.”
Outro antigo trabalhador do SAPO descreve como o então analista andava de “um lado para o outro com as mãos atrás das costas”, e que era costume Cláudio Valente circular entre os colegas para falarem sobre a tarefa em mãos: era muito respeitado, afirma. Ao saber dos crimes em Brown e em Boston, ficou incrédulo. “Ele tinha um perfil de técnico puro. Quando nós fazemos aquele estereótipo, era o que ele era”, lembra João Paulo Luz. “Não era das pessoas com mais aptidões sociais, era muito focado no estudo e no trabalho. Aquilo a que nós habitualmente chamamos de nerd, mas com uma conotação positiva aqui. Absolutamente tranquilo”, salienta o antigo diretor comercial.
▲ Nuno Loureiro tinha 47 anos e foi morto a tiro em casa
Instituto Superior Técnico/Jake Belcher
“Ele era bom no que fazia, nunca houve nada a apontar no trabalho que fez enquanto lá esteve”, aponta outra fonte.
Anos mais tarde, em 2017, Cláudio Valente conseguiu o estatuto de residente permanente legal nos EUA, através de um sorteio anual de vistos atualmente suspenso pela Administração Trump na sequência dos homicídios. A sua última morada conhecida foi em Miami, mas as autoridades acreditam que, no último mês, mudou-se para Boston. Quando já tinha sido identificado como o suspeito, foi encontrado morto com um tiro auto-infligido num armazém em New Hampshire. Tinham passado dois dias depois do homicídio do ex-colega.
As fontes ouvidas pelo Observador não notam qualquer relação entre Nuno Loureiro e Cláudio Valente, algo que será alvo de investigação. “Todas as hipóteses podem estar em cima da mesa”, atira um ex-colega do SAPO. Pode tratar-se de “alguma competição académica por resolver, algum assunto inacabado que não conseguiu ultrapassar, ou de cair numa espiral descendente de ressentimentos em relação ao mundo académico”. “Decidiu atirar não só sobre o Nuno, mas também sobre o auditório da Universidade de Brown.”
Filipe Moura, antigo monitor de Cláudio Valente, não poupa nas críticas. “Ele achava-se o melhor, o que devia custar-lhe é que por vezes os que são os melhores alunos não se tornam os melhores investigadores. Devia custar-lhe muito ter um colega que ele achava que não era tão bom quanto ele, depois ter uma carreira melhor.”