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RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

A corrida (pouco) discreta dos presidenciáveis

Andam na rua, às vezes ao pares, às vezes em grupo. Discursam, comentam, falam e aparecem a um ritmo frenético. Pré-campanha para Belém arrancou a sério assim que Gouveia e Melo deu sinal. E é a doer.

Entrevistas sugestivas, comentários televisivos, almoços mais e menos discretos, incursões em terrenos alheios, encontros noturnos, homenagens, cerimónias, apresentações de livros e conferências. Ready, set, go. A mais de um ano das próximas eleições presidenciais, os candidatos a candidatos à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa encheram as respetivas agendas de aparições por todo o país. Em alguns casos, aparecem aos magotes, numa pouco discreta marcação cerrada, homem a homem. Noutros casos, preferem eventos que rapidamente transpiram para a comunicação social. E quando não dá para aparecer (ou não convém aparecer) não faltam “fontes próximas” a fazer contas e a alimentar expectativas e esperanças.

A começar, claro, por aquele que parece partir à frente de todos os outros nas intenções de voto: Henrique Gouveia e Melo. Desde que foi apanhado a beber um copo com Nuno Melo, à noite, num conhecido bar lisboeta, e em que o Observador avançou que não tinha disponibilidade para continuar como Chefe de Estado-Maior da Armada, quase não houve dia sem notícia do almirante. Com uma agenda preenchídissima, Gouveia e Melo esteve na cerimónia de regresso do NRP Viana do Castelo, homenageou Isaltino Morais (que entretanto declarou que o apoiará), interveio na Grande Conferência do DN sobre Cibersegurança, participou na homenagem parlamentar a Mário Soares e celebrou os 500 anos de Vasco da Gama e Luís de Camões no Museu da Marinha.

Até fez uma homenagem a um possível adversário: a 8 de novembro, o ainda Chefe de Estado-Maior da Armada promoveu a título póstumo a contra-almirante o piloto e comandante Sacadura Cabral na presença de Nuno Melo, Helena Sacadura Cabral — e Paulo Portas. Curiosamente, o tal encontro noturno entre Henrique Gouveia e Melo e Nuno Melo que tanta tanta tinta fez correr aconteceria uns dias depois no bar “Cockpit”, na Avenida Sacadura Cabral, batizada em honra do tio-avô de Paulo Portas, precisamente o mesmo que fora homenageado dias antes pelo almirante. Isto anda tudo ligado.

No entanto, nem toda a exposição é boa exposição. O facto de ter aparecido de braço dado com D. João II numa ilustração que fez contracapa da revista da Armada deixou meio-país político e muita gente dentro da Marinha incomodada com o evidente culto da personalidade, acusando Gouveia e Melo de usar uma publicação oficial como “panfleto de pré-campanha presidencial”.  A Marinha diria depois que tudo não passou de um excesso de criatividade (e, talvez, de devoção) do ilustrador. Excesso a que era alheio, naturalmente, Henrique Gouveia e Melo.

[Já saiu o primeiro episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

Entretanto, o mesmo almirante fez saber que vai passar à reserva já no final deste mês (o natural seria que o fizesse em março) e vai despedir-se publicamente da Marinha já esta sexta-feira, o que significa que deixará de estar condicionado pela farda de militar e que estará (mais) livre para tratar da sua candidatura presidencial. O Observador sabe, aliás, que há já um grupo de financiadores e figuras políticas a organizar-se para apoiar a candidatura presidencial de Gouveia e Melo, onde pontificarão vários autarcas, como o já citado Isaltino Morais, mas também Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, que não vai escondendo a admiração pelo almirante.

O Chefe do Estado Maior da Armada (CEMA), Almirante Gouveia e Melo, intervém durante a  Grande Conferência do Diário de Notícias "Novo Regime Jurídico da Cibersegurança em Portugal" sobre o plano do Governo para a Cibersegurançade 2024, na Fundação Oriente, em Lisboa, 09 de dezembro de 2024. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

▲ Henrique Gouveia e Melo tem tido uma agenda preenchidíssima — e ainda não passou à reserva

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Todos em todo o lado ao mesmo tempo

Em termos políticos, faltar, faltar, Henrique Gouveia e Melo praticamente só faltou à primeira sessão solene do 25 de Novembro, no Parlamento, por se encontrar em Angola para participar numa reunião das Marinhas da CPLP — ao contrário dos chefes militares dos restantes ramos e do Estado-Maior General das Forças Armadas que fizeram questão de estar na cerimónia. Entre os seus detratores, aliás, houve quem sugerisse que Gouveia e Melo arranjou um pretexto para faltar ao 25 de Novembro e assim não ficar colado a uma cerimónia que alimentou um aceso debate político.

Ficará por saber se foi ou não verdade. Dias depois, no centenário de Mário Soares, Gouveia e Melo teria oportunidade de entrar no Parlamento para se cruzar com, pelo menos, três dos seus possíveis adversários: Mário Centeno, Pedro Santana Lopes e, claro, José Pedro Aguiar-Branco, ali na qualidade de presidente da Assembleia da República, naturalmente. Na já referida conferência de cibersegurança organizada pelo Diário de Notícias estiveram, além do almirante, Paulo Portas e António Vitorino.

De resto, nos últimos dias e semanas, não faltaram momentos para que os candidatos a candidatos se fossem cruzando em vários eventos públicos. Mais recentemente, no lançamento do novo livro de Maria João Avillez, Eu estive lá, a autora conseguiu juntar, além de Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, três possíveis candidatos presidenciais da área do PSD: Pedro Passos Coelho, o desejado, Luís Marques Mendes, o provável, e José Pedro Aguiar-Branco, o emergente.

Não têm, aliás, faltado lançamentos de livros para todos os gostos (e para todos os presidenciáveis). A 3 de dezembro, o antigo ministro da Educação Eduardo Marçal Grilo apresentou a sua mais recente obra, Educação e Liberdade, e juntou na mesma sala Luís Marques Mendes, Paulo Portas, Mário Centeno e António Vitorino — a quem Marcelo Rebelo de Sousa se abraçou entusiasticamente assim que o viu. E poderiam ter sido mais — Augusto Santos Silva foi convidado, mas, segundo foi possível apurar, não pôde estar presente.

O secretário-geral do Partido Socialista (PS), Pedro Nuno Santos, intervém durante o jantar comemorativo do centenário do nascimento de Mário Soares em Lisboa, 07 de dezembro de 2024. FILIPE AMORIM/LUSA

▲ Pedro Nuno vai ouvir o que tem para dizer os proto-candidatos. Montenegro não esconde que prefere Mendes

FILIPE AMORIM/LUSA

O casting de Pedro Nuno

Com a casa mais ou menos arrumada na área política do PSD — as coisas não estão fáceis para Luís Marques Mendes, mas na direção social-democrata continua a dar-se como certo o apoio ao antigo líder do partido —, no PS as contas estão muito mais confusas. E não se pode dizer que Pedro Nuno Santos tenha contribuído para melhorar o cenário quando, ainda em outubro, juntou publicamente o nome de António José Seguro a uma já longa lista de presidenciáveis para, um mês depois, dizer que, afinal, fora um “erro” falar precocemente de umas eleições que serão daqui a mais de um ano.

Não quer dizer, no entanto, que o líder socialista tenha ficado quieto desde aí. Segundo o jornal Público, Pedro Nuno Santos já almoçou com Mário Centeno e António José Seguro para discutir a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa e fará o mesmo com todos os protocandidatos a Belém, presumindo-se, portanto, que fará o mesmo com figuras como António Vitorino, que veio a público dizer que, desta vez, talvez esteja mesmo a ponderar, ou Augusto Santos Silva, que apesar das sucessivas más sondagens continua a recusar a ideia de que está completamente excluído da corrida presidencial.

Apesar de tudo, as possíveis candidaturas de António José Seguro e de Mário Centeno estão em estágios de maturação diferentes. O antigo líder socialista é o pré-candidato que tem a preparação do terreno mais adiantada, embora para muitos isso não signifique necessariamente uma empreitada de sucesso. Como o Observador escrevia em setembro, Seguro já tinha enviado uma mensagem a muitos dos antigos apoiantes, recordando o seu percurso (terminado de forma abrupta) enquanto líder do PS. E já andava nessa altura em contactos com antigos camaradas e amigos que começavam a suspeitar das suas intenções de se lançar para um encontro em Belém.

O passo seguinte passou por assumir publicamente a sua “ponderação” numa entrevista que lançou o seu espaço de comentário na CNN. Ainda assim, falta saber se a estratégia do comentário, seguida por tantos dos pré-candidatos, dará frutos – logo depois da estreia, o concorrente Now, com Fernando Medina em estúdio, veio noticiar que tivera mais espectadores naquele horário. No PS, não falta quem esteja atento a estas métricas, frisando que Seguro não está a descolar como gostaria – mas lembrando também que o ex-líder do PS esteve dez anos fora da vida política e pública.

Nos últimos anos, Seguro participou apenas ocasionalmente em debates e palestras específicas. Agora, Seguro mexe-se ativamente – além da participação na televisão, esteve, a 14 de dezembro, num almoço em Cascais promovido por membros de várias obediências maçónicas, mas também com cidadãos que não pertencem à maçonaria. Vários dos seus apoiantes apontam ao Observador que a sua próxima grande aparição acontecerá a 8 de janeiro, no International Club, com um tema sugestivo: “Uma visão para Portugal”.

Mário Centeno não tem a mesma liberdade de Seguro — ainda que isso não signifique que esteja mais parado do que o possível adversário interno. No verão de 2023, juntou cerca de 130 pessoas num jantar no clássico Gina, no Parque Mayer, embora então se negasse que houvesse um objetivo político por trás do encontro. No final do verão de 2024, ficou a saber-se que já desde essa altura existiam “conversas” a propósito de uma potencial candidatura presidencial de Mário Centeno, conversas essas que incluíam figuras como os ex-ministros Adalberto Campos Fernandes, Marçal Grilo e Luís Nobre Guedes.

As informações sobre uma possível candidatura foram-se sabendo a conta-gotas – e é assim que os apoiantes de Centeno querem que continue, com “prudência” e “reserva”, porque o pré-candidato que ainda governa o Banco de Portugal “só ganha em resguardar-se”. Com os possíveis candidatos a multiplicarem-se, o frenesim à volta de Centeno pareceu diminuir. Em parte, porque tem tido cautela e alguma discrição nas movimentações que protagoniza. “Ele tem sido muito cauteloso, e bem, porque é governador do Banco de Portugal”, regista uma fonte próxima, notando que, atendendo ao cargo institucional que ocupa, seria particularmente perigoso andar a bater o terreno ou a “jantar aqui e ali”. “Nestas coisas sabe-se tudo.”

A ideia junto de quem defende há mais tempo uma candidatura do ex-ministro das Finanças é que quem tem “mais hipóteses” na corrida de 2026 – o caso de Centeno – tem “mais a ganhar em se resguardar” nesta fase prematura. “O primeiro milho é para os pardais”, diz um dos seus apoiantes. Apesar de tudo, o antigo ministro não se pode queixar de estar exatamente de barriga vazia até porque tem (e está a usar) uma plataforma privilegiada para fazer política: o Banco de Portugal.

Recentemente, aliás, Centeno colocou-se (ou foi colocado) no centro do debate político ao vir alertar para o risco do regresso dos défices já em 2025 — o que levou Marcelo Rebelo de Sousa a recordar como Centeno era “muito agarrado” nos tempos de ministro (desautorizando-o), Joaquim Miranda Sarmento a dispensar os conselhos do antecessor (a relação entre os dois foi sempre péssima) e Pedro Nuno Santos a defendê-lo e a lembrar os pergaminhos de Centeno em matéria de contas públicas.

Agora, se estiver de facto com vontade de avançar, e tendo em conta a sombra de Seguro, Centeno terá mesmo de acelerar. Os seus apoiantes vão sugerindo que o ainda governador do Banco de Portugal venha a renunciar ao mandato antecipadamente, por volta do mês de março, para, aí sim, começar a fazer contactos de forma mais ativa e a correr o terreno já enquanto pré-candidato. Não convém deixar Seguro crescer sozinho, nem o almirante à solta.

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▲ Seguro e Centeno parecem ser os nomes em melhores condições de representar o PS nas presidenciais

MÁRIO CRUZ/LUSA

A dona Constança e o ensaísta

Neste campeonato particular que se vai travando no PS, existem ainda duas figuras incontornáveis: António Vitorino e Augusto Santos Silva. O primeiro chegou a dizer sobre si próprio há vários anos, quando era apontado para toda e qualquer candidatura que mexesse no PS, que não havia “festa nem festança” a que não se chamasse a “Dona Constança”. O segundo é o pré-candidato que entrou há mais tempo nas apostas para Belém (há quem o acuse de ter usado o cargo de presidente da Assembleia da República) e, apesar das más sondagens e da evidente distância em relação à atual direção do PS, continua a recusar dar-se como irremediavelmente afastado da corrida.

Começando por António Vitorino. Desta vez, e ao contrário do que aconteceu no passado, a “Dona Constança” quer mesmo ver como está a “festança” presidencial. A última formulação que usou para falar de uma possível candidatura foi, aliás, todo um tratado: “Temos tempo para falar no novo ano”, disse ao Expresso. Antes, no início de novembro, tinha aproveitado uma entrevista a Vítor Gonçalves, na RTP, para dar o derradeiro sinal de que está, pelo menos, a ponderar avançar. “Não digo nem que sim nem que não. Digo que este não é o momento.”

“Até agora não o descartou. Muito pelo contrário”, ouve o Observador de uma fonte próxima. “Anda muita gente a querer falar com ele.” O antigo ministro, ex-diretor geral da Organização para as Migrações e agora presidente do novo Conselho Nacional para as Migrações e Asilo tem sempre uma agenda frenética e vai aparecendo em eventos públicos com alguma frequência (na semana passada participou numa sessão sobre direitos humanos em Oeiras e nos últimos meses há registo de ter participado em conferências sobre o funcionamento das instituições internacionais ou sobre as migrações, por exemplo).

Antes de se ter voltado a colocar em cima da mesa o seu nome como possível candidato, em junho, já tinha sido convidado de honra do encontro de preparação do programa eleitoral do PS para as últimas eleições legislativas, e participado na campanha para as europeias ao lado de Marta Temido. E foi precisamente aí, durante essa ida ao terreno, que desmontou a estratégia seguida pelo PS em matéria de migrações — área em que se tornou uma autoridade respeitada — ao defender abertamente que a extinção do SEF tinha corrido manifestamente mal.

Ora, é fácil antecipar que as migrações serão um tema nuclear nas próximas eleições presidenciais e haverá poucos tão qualificados como Vitorino para participar desse debate. Quem lhe é próximo garante que o antigo ministro está sobretudo a ouvir “quem quer falar com ele”, mas que, ao seu estilo, deverá abordar conversas sobre o assunto Belém com “discrição, sem espalhafato e com um objetivo preciso”. Entre os seus apoiantes frisa-se que o seu conhecimento do partido mas também das “elites políticas, académicas e económicas”, além da falta de anticorpos que gera em fações do PS (ao contrário de António José Seguro ou de Mário Centeno), podem ser fatores que o ajudem a bater o terreno e recolher apoios.

“Não teve contendas eleitorais fraturantes e tem estado bem com todas as lideranças”, sintetiza-se. Há por isso quem o considere uma solução pacífica para ajudar o partido a encontrar o candidato único e consensual que Pedro Nuno Santos tanto queria – mas também não falta quem tema que não crie entusiasmo e apoio nas ruas, sobretudo nas gerações mais novas e fora da bolha partidária.

Nesta pista de fora corre também Augusto Santos Silva. O último inequívoco gesto de que não desiste de ser considerado um presidenciável foi o longo ensaio que publicou no Expresso e em que traçava o perfil ideal do sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa. Contra “caudilhos” e “comentadores”, o texto pode ser resumido numa ideia: é um retrato que deixa quase todos de fora menos uns poucos — e o próprio.

Mais a mais, ainda no mês passado respondeu assim ao Público: “Não me ponho de fora, nem para a assembleia de freguesia, nem para Presidente da República”. Entretanto, e mesmo tendo falhado a eleição como deputado nas últimas legislativas, tem estado muito ativo em aparições e declarações públicas – incluindo, muitas vezes, sobre temas como o combate aos populismos ou os assuntos de soberania.

Aliás, não é fácil fazer as contas aos eventos em que Santos Silva tem estado presente, porque são muitos, dentro e fora do partido: esteve numa homenagem a Mário Soares promovida pela federação portuense do PS; foi a Baião para “debater os desafios atuais aos direitos humanos”; participou numa conversa-debate ao lado de Catarina Martins e Francisco Mendes da Silva; e, curiosamente, o homem que não fazia segredo de desprezar politicamente os partidos à esquerda do PS, aceitou estar como convidado do Bloco de Esquerda num painel na rentrée do partido, dedicado ao combate dos populismos.

Nos últimos meses, e sempre a par das suas funções como professor universitário na Faculdade de Economia do Porto, Santos Silva lançou dois livros (um deles sobre o conceito de “Poder”); esteve num fórum das redes UNESCO; abriu a escola de Outono da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto; esteve num festival literário em Braga e numa conferência em Lousada sobre o “futuro da democracia”. Já no rescaldo das eleições norte-americanas aceitou convites de estudantes para debater o resultado e apareceu por diversas vezes em televisões para fazer comentário político.

A isto juntam-se as declarações que vai fazendo, muitas vezes através da sua página de Facebook, sobre a atualidade política nacional e não só. Contra a ministra da Administração Interna, quando esta admitiu debater o direito dos polícias à greve; contra a aparição de Luís Montenegro, em São Bento, em horário nobre e ao lado de chefias destes setores; contra Gouveia e Melo, depois de uma notícia do Expresso em que dizia que este “exigia dois submarinos para desistir de Belém” (entretanto desmentida); e contra Ventura, por “instilar o ódio e semear a divisão”. Neste caso, a omnipresença na vida pública e política é visível – resta saber se levará mesmo a uma candidatura a Belém.

António Vitorino intervém no Fórum Portugal Inteiro, no âmbito da preparação e discussão de ideias para o programa eleitoral que o PS irá apresentar às eleições legislativas de 10 de março, no Porto, 27 de janeiro de 2024. ESTELA SILVA/LUSA O ex presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, usa da palavra durante um comício de campanha eleitoral para as eleições europeias em Santarém, 03 de junho de 2024. Em Portugal, as eleições europeias realizam-se em 09 de junho e serão disputadas por 17 partidos e coligações. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

▲ António Vitorino e Augusto Santos Silva não querem ser excluídos prematuramente da corrida

ESTELA SILVA/LUSA

O mítico e o (quase) inevitável 

Na área política do PSD as coisas estão mais ou menos arrumadas. Se Luís Marques Mendes avançar, a direção do partido abençoa a candidatura do antigo líder e comentador. A questão é que já poucos, mesmo entre os mais influentes dirigentes sociais-democratas, conseguem disfarçar o indisfarçável: o conselheiro de Estado não arranca, não entusiasma e, pior do que tudo, não dá grandes garantias de vitória frente a Henrique Gouveia e Melo, cujo pré-anúncio de candidatura veio condicionar muito a corrida à direita. No meio de todos estes cálculos, muitas cabeças voltaram-se para o mesmo de sempre e o mesmo de sempre responde por três nomes: Pedro Passos Coelho.

Acontece que parece haver um obstáculo intransponível entre o antigo primeiro-ministro e o Palácio de Belém: Pedro Passos Coelho não quer ser candidato a Presidente da República — voltaria à política para liderar de novo um Governo, não assim, vai fazendo saber a quem lhe pergunta. Mas mesmo quando aparece a dizer em público o que diz em privado, ou mesmo quando pessoas que lhe são próximas, como o cristalino Miguel Morgado, surgem a dizer com todas as letras que Passos não está interessado em Belém, as conspirações, os sonhos e os suspiros sobre e pelo antigo primeiro-ministro não páram.

A 4 de dezembro, numa dessas raras aparições públicas, o antigo primeiro-ministro surgiu a dizer ao país que estava “fora da vida partidária e política” e assim se tencionava “manter”, acrescentando, no entanto, o seguinte: “Não quero fazer declarações políticas, se quisesse fazia, evidentemente”. Ora, para aqueles (poucos) que ainda acreditam que Passos pode mesmo ser candidato, o facto de ter escolhido o verbo “tencionar” e de ter recusado fazer “declarações políticas” é o bastante para que se mantenha tudo em aberto — Passos é experiente o suficiente e não é ingénuo para saber que até dizer ‘não sou candidato’ continuará a alimentar conversas nesse sentido.

Quer queira quer não, a sua sombra continua a apaixonar uns e a assustar outros. Ainda Passos Coelho não tinha entrado para a FEP Global Summit, uma Cimeira Estudantil sobre Geopolítica em Portugal que decorreu no Porto e que foi fechada à comunicação social, e já se prometia que a intervenção ia fazer estragos. Dias depois, o Expresso, tendo tido acesso a um registo desse mesmo discurso, trazia a ideia bombástica: Passos diz que faltam líderes com coragem e verdade. Diz bem sobre o que pensa o antigo primeiro-ministro sobre os atuais protagonistas políticos — incluindo Luís Montenegro, com quem a relação se tornou gélida, para dizer o mínimo.

Luís Marques Mendes está noutro comprimento de onda (quer muito ser candidato e nunca o escondeu exatamente), mas nem por isso tem as condições mais vantajosas. Aliás, desde que assumiu a proto-candidatura durante o Verão e, meses depois, tentou (sem conseguir) ser protagonista do Congresso do PSD, em Braga, as coisas só parecem piorar para o antigo líder social-democrata, com cada vez mais sinais de que uma parte importante do partido não morre de amores pela candidatura presidencial do conselheiro de Estado.

Como explicava aqui o Observador, quem conhece bem Luís Montenegro garante que o primeiro-ministro e líder social-democrata gostava muito de contar com a candidatura presidencial de Marques Mendes e que jamais o deixará cair se o comentador decidir de facto avançar — com ou sem o almirante na corrida. Os dois são muito próximos, conhecem-se há mais de 30 anos, estiveram juntos na génese da primeira candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, e Marques Mendes é um dos grandes responsáveis pela ascensão política de Montenegro. Se o antigo líder do PSD decidir avançar, o atual primeiro-ministro não lhe retirará o tapete.

Com uma audiência de quase um milhão de espectadores há anos consecutivos, Luís Marques Mendes não precisa exatamente de andar numa azáfama para fazer prova de vida. Vai mantendo a sua agenda e os seus contactos informais, vai estando (muito) atento a tudo o que fazem os possíveis adversários à volta dele, e vai continuando a dizer que anunciará ao país o que pretende fazer nos “próximos meses”. Curiosamente — e isso foi notado pelos seus detratores — em dois dos seus últimos três programas de comentário discorreu sobre o que deve ser e fazer o próximo Presidente da República. Logo ele, que vinha evitando falar sobre o elefante no meio da sala quando há muito que se sabe que pretende ser candidato. Revelador.

Luís Marques Mendes expressa o seu apoio a Luis Montenegro da Aliança Democrática (AD) no comício em Barcelos no âmbito da campanha para as eleições legislativas de 10 de março, 06 de março de 2024. Mais de 10,8 milhões de portugueses são chamados a votar no domingo para eleger 230 deputados à Assembleia da República. A estas eleições concorrem 18 forças políticas, 15 partidos e três coligações. TIAGO PETINGA/LUSA

▲ Pedro Passos Coelho é desejado, mas não quer; Marques Mendes quer muito, mas não é assim tão desejado

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O desejado, o místico e o emergente

Com Pedro Passos Coelho aparentemente fora da corrida, Luís Marques Mendes tinha tudo para esvaziar a bolsa de apostas à direita. No entanto, prova provada de que não é exatamente unânime como candidato é que continuam a brotar candidatos desse espaço político como cogumelos no outono. Em parte, por se ter instalado a ideia entre muitos dirigentes e militantes de direita (incluindo do PSD) de que Marques Mendes é demasiado parecido com Marcelo Rebelo de Sousa para derrotar Henrique Gouveia e Melo e que pode não ter condições sequer para passar à segunda volta, caso ela venha a existir.

Não deixa de ser revelador, aliás, que Nuno Melo tenha colocado o que resta da máquina do CDS em funcionamento para se afastar a todo vapor de Marques Mendes — seja para apoiar Henrique Gouveia e Melo, seja para, e esse é mesmo o sonho do partido, ver Paulo Portas entrar na corrida presidencial — e vencê-la, claro. Pode ser um sonho (as perspetivas não são nada animadoras), mas não é um sonho sem adesão à realidade: Paulo Portas está mesmo a “ponderar” uma candidatura e enquanto pondera mantém aquela que tem sido a sua estratégia desde que deixou a liderança do CDS: assente em “intervenções bem medidas” e com reflexo na agenda mediática e política.

É assim que os mais próximos, que negam que ande ativamente no terreno a recolher apoios, descrevem a agenda do antigo líder democrata-cristão. Por um lado, Portas tem a plataforma que lhe permite garantir uma presença mediática constante, ao mesmo tempo que “escolhe” os temas de que quer falar e “como quer” falar neles — o programa de comentário na TVI, onde se foca quase sempre em assuntos internacionais (abre poucas exceções, como o dia em que decidiu responder às críticas que Pedro Passos Coelho, ou durante as legislativas, em que não escondeu a óbvia preferência pela Aliança Demcorática).

Fora a TVI, Portas mantém a sua atividade profissional e aceita convites para falar nalguns eventos: recentemente esteve no instituto Adelino Amaro da Costa (agora liderado pelo seu antigo arqui-inimigo, Manuel Monteiro), para uma conferência sobre os desafios da lusofonia; esta semana falou à distância para a conferência do Diário de Notícias sobre Cibersegurança (a tal onde esteve também Gouveia e Melo), assim como na conferência da assembleia geral da GRACE (empresas com responsabilidade social e ambiental); tem reuniões de direção da Câmara de Comércio e Indústria de Portugal, da qual é vice-presidente; e tem eventos internacionais na agenda — esta semana estará em Casablanca para os Atlantic Dialogues, onde é orador.

Quem é próximo do antigo vice primeiro-ministro sublinha que Portas sempre teve, desde que deixou a liderança do CDS, uma presença “curta” na vida político-partidária. “Nunca esteve fora, mas não banaliza a sua presença. Está sempre, com contenção”, resume uma fonte próxima. “Quando escolhe falar não é indiferente”. Daí que o silêncio relativo de Portas seja considerado de ouro por quem alimenta a esperança de que decida avançar; e que as suas movimentações sejam sempre discretas.

Pedro Santana Lopes é exatamente o oposto de Paulo Portas. Desde que, a 1 de outubro de 2020, assumiu, pela primeira vez e em entrevista ao Observador, que poderia entrar na corrida à sucessão de Marcelo de Sousa (“Não há nada que me impeça de ser candidato presidencial em 2026“, foi o título dessa entrevista), já passou quase uma vida. Nessa altura, António Costa ainda não era o primeiro-ministro que desbaratou a maioria absoluta mais curta da história; Rui Rio ainda sonhava chegar ao poder e Marcelo procurava a sua reeleição. Quanto a Santana, deixava nessa mesma semana em que deu a entrevista o partido Aliança, dizia que só voltaria a ser autarca se fosse para ser na sua Figueira da Foz (tal como veio a acontecer) e falava das presidenciais como uma questão distante embora cintilante — porta que viria abrir e fechar um par de vezes nos últimos quatro anos.

Só uma coisa não mudou daí para cá: as provocações a Marques Mendes. “Acho que vocês já me vão conhecendo: eu, quando vou, normalmente não olho para o lado. Vou. Independentemente de quem esteja na linha de partida. Se acho que devo ir, vou”, respondia então ao Observador. Quatro anos depois, e assim que a corrida presidencial aqueceu, já fez umas quantas maldades ao conselheiro de Estado: roubou-lhe o palco no Congresso do PSD (ele que não é sequer militante do partido); convidou-o para o programa que tem na Now e foi particularmente provocador; e já disse abertamente que Mendes não tem condições para derrotar Gouveia e Melo.

A sua maior originalidade (e risco) foi ter participado como orador nas jornadas parlamentares do Chega. Dizendo que não tinha voltado a pensar no tema das presidenciais desde que assumira vontade de ver mais sondagens para perceber as suas reais hipóteses, Pedro Santana Lopes aproveitou tudo para criar dois ou três factos políticos: gozou o prato com a recente preocupação de Marques Mendes em falar sobre o perfil do próximo Presidente da República e, sem hostilizar o eleitorado do Chega, fez prova de amor que se exigia ao partido “laranja”, o único que pode verdadeiramente apoiar e que é laranja como o seu “coração“.

Fora as aparições televisivas, o evento do Chega e outros programas de comentário em que vai participando (como o Expresso da Meia-Noite, na SIC), inclusivamente para falar de presidenciais, Pedro Santana Lopes vai exercendo as suas funções como presidente da câmara da Figueira da Foz, enquanto o seu nome continua a circular para autarquias como Sintra, por exemplo. Presente nestes vários tabuleiros, vai partilhando decisões políticas tomadas na Figueira nas redes sociais, onde é muito ativo, mas sempre de olho no plano nacional. O próprio não esconde que muitas das decisões sobre o seu percurso político foram tomadas em função dos sinais que recebeu ou recolheu. Se receber um suficientemente forte, pode mesmo entrar em campo.

Depois existe José Pedro Aguiar-Branco, o mais recente candidato a candidato à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa. A partir da Assembleia da República, vai despertando alguma curiosidade junto dos militantes sociais-democratas. Ao mesmo tempo, tem tido uma prestação no cargo genericamente apreciada, recolheu elogios pelos discursos do 25 de Novembro e na homenagem a Mário Soares, tem no currículo uma passagem pelo cargo de ministro da Defesa e um perfil mais próximo do de Henrique Gouveia e Melo.

Há quem olhe para ele como alternativa razoável a Luís Marques Mendes, caso este fique pelo caminho e teve uma inesperada porém importante bênção pública vinda do Norte. Rui Moreira disse que daria um excelente candidato, melhor do que António José Seguro, por exemplo. Estivesse o presidente da Câmara do Porto noutro ciclo político — deixará de o ser nas próximas eleições — e talvez o sinal dado por Moreira fosse abertura de telejornal. Quanto ao mais, não existem grandes dúvidas de que Aguiar-Branco procurará surfar a onda que se está a criar a seu favor.

Com uma forma de encarar o cargo diferente da de Augusto Santos e Silva e de Eduardo Ferro Rodrigues (Aguiar-Branco evita a todo custo ser notícia pelo bate-boca com André Ventura), o presidente da Assembleia da República pode, se assim o quiser, piscar o olho a um eleitorado que extravase os limites naturais do centro-direita. Isto enquanto vai tentando alimentar um discurso sobre a necessidade de aproximar eleitores e eleitos — foi dele a decisão de abrir literal e metaforicamente a Assembleia da República aos portugueses: retirar as barreiras de segurança à volta do Parlamento, permitir mais visitas ao edifício e fazer ele próprio visitas a cada município, como aconteceu esta semana em Évora. Se não é um bom primeiro manifesto de campanha, podia muito bem ser.

Tudo somado, os candidatos a candidatos podiam quase encher um auditório. E a estes é preciso somar, pelo menos, os candidatos apoiados pelo Chega (André Ventura voltou na semana passada a entrar em cena), pela Iniciativa Liberal, PCP e Bloco — que se fizeram representar nas últimas presidenciais e podem ter candidaturas próprias nestas. A cada dia que passa parece existir mais alguém falado ou interessado em avançar, como Elisa Ferreira ou o repetente António Sampaio da Nóvoa. A mais de um ano das presidenciais, é bom que quem de facto quer ser candidato apareça para estancar o fenómeno de multiplicação de pretendentes ao trono de Marcelo. Se isto não pára, ainda aparece mais alguém com aspirações presidenciais.

▲ Paulo Portas pondera, Santana sonha, Aguiar-Branco espreita

TOMÁS SILVA/OBERVADOR

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