Não esconde o apoio inequívoco à candidatura presidencial de Henrique Gouveia e Melo, desafia Luís Montenegro a juntar-se ao almirante, acredita que o militar pode vencer facilmente à primeira volta e desvaloriza as hipóteses de Luís Marques Mendes. “Não tem condições. Não tem o apoio do próprio partido e facilmente se percebe que perdeu a força anímica. Não tem hipótese”, sugere.
Em entrevista ao Observador, no programa “Vichyssoise”, Isaltino Morais fala sobre Marcelo Rebelo de Sousa, admitindo que faz uma avaliação negativa sobretudo do segundo mandato presidencial. “Caiu na armadilha que ele próprio montou. Ele não se controla. Fala por tudo e por nada, e acaba por ser desvalorizado pelas pessoas. Mais parece um comentador do que o Presidente da República e de tanto falar às vezes sai asneira”, lamenta o presidente da Câmara Municipal de Oeiras.
O autarca comenta ainda as mais recentes polémicas em torno das intervenções do Governo em matéria de segurança e de imigração, mas também as divisões no PS quando embrulhado nas declarações de Ricardo Leão e de Sónia Sanfona. Para Isaltino Morais, grande parte do problema reside na falta de coragem dos partidos moderados. “Os políticos que têm responsabilidades governamentais, o centro, seja do PS, seja do PSD, a dada altura ficam reféns dos extremos. Quem está ao centro muitas vezes não sabe o que é que há-de fazer. Por uma razão: ignorância. Se de vez em quando se deslocassem lá aos bairros, saberiam”.
[Ouça aqui a Vichyssoise com Isaltino Morais]
“No lugar de Montenegro apoiava Gouveia e Melo”
O almirante Gouveia e Melo é a figura que aparece mais bem colocada nas sondagens. Também acha que pode ser o melhor nome para suceder a Marcelo Rebelo de Sousa?
Respondendo diretamente: acho. Faz-me recordar outros momentos da política portuguesa em que havia muitas indecisões. E recorda-me Jorge Sampaio, que, em 1985, era secretário-geral do Partido Socialista e os generais que ele tinha não queriam ir para candidatos à Câmara de Lisboa. E ficou célebre aquela frase: “Pois, se os generais não querem, vou eu”. Qualquer coisa assim do género. Candidatou-se e ganhou. Depois, em 95, decidiu apresentar-se na reitoria da Universidade Lisboa, dizendo que era candidato a Presidente da República. E foi. Ora, qual é o panorama que vemos agora? Primeiro, Marcelo Rebelo de Sousa introduziu um estilo que foi muito simpático durante algum tempo, mas que agora parece estar um bocadinho a saturar as pessoas. Cada vez mais as pessoas pensam numa alternativa mais institucional. Depois, ouvir candidatos a dizer “bom, se as sondagens me forem favoráveis, eu candidato-me”…
Refere-se a Pedro Santana Lopes.
E a outros. Não é o único. Outros dizem: “Bom, quer dizer, se realmente verificar que há consenso e que a minha a minha participação pode ser útil ao país, enfim, tomarei essa decisão”. Nesta matéria, não há propriamente timings. Uma vez deixando a atividade militar, Gouveia e Melo é um cidadão como outro qualquer, com o pleno exercício dos seus direitos.
Vê algum problema no facto de se tratar de um militar?
Não vejo problema nenhum. Vivemos numa sociedade democrática, consolidada. Há liberdade de expressão, há liberdade de reunião, há partidos políticos, há pluralismo e não há cidadãos com capitis diminutio. Portanto, a minha convicção é esta: o almirante Gouveia Melo não só vai ser candidato, como vai ganhar as eleições muito folgadamente. Porque surge como realmente independente, não é uma emanação dos partidos, porque quer mesmo ser candidato e sente que vai cumprir uma missão. E tanto assim é que, na área política que gosta de controlar os candidatos ligados ao partido A ou ao partido B, o que é que vamos ouvindo? Antes, estava tudo deslumbrado com o senhor almirante porque fez um trabalho extraordinário; agora, curiosamente, já vêm dizer “bom, não fez mais que a sua obrigação, qualquer outro faria o mesmo”. Se todos cumprissem com as suas obrigações, éramos um país maravilhoso. Acho que o almirante é um humanista. Dizem que não tem pensamento. Pois, mas como é que há-de ter se não se pode expressar? Dizem que abusa da função militar. Imagino se ele começasse por aí a desatar a dar entrevistas. Acho que tem uma visão para o país e que a apresentará a seu tempo. Vou dizer: no lugar do presidente do PSD, eu apoiava-o.
“Marques Mendes não tem condições para vencer”
No passado, travou algumas guerras políticas com Luís Marques Mendes, o previsível candidato presidencial apoiado pelo PSD. Acredita que tem condições para vencer estas eleições?
Não, não tem. Primeiro, deixe-me dizer que foi Marques Mendes quem teve guerras comigo, não o contrário. Mas não sou uma pessoa rancorosa. Às vezes, até dou comigo ouvir alguns daqueles sermões de domingo e a pensar assim: “Como é que concordo tanto com o que ele está a dizer?” Teve, mesmo no comentário político, uma evolução significativa. Agora, Marques Mendes realmente não tem condições. E não tem condições por várias razões. Desde logo, porque não tem o apoio do próprio partido. Pode ter da nomenclatura, mas do partido não tem. Aquela ida ao Congresso foi recebida muito friamente. Por outro lado, basta ver as suas intervenções todos os domingos e facilmente se percebe que a força anímica, o ânimo de Marques Mendes, caiu. A última intervenção que fez no domingo foi exclusivamente sobre corrupção, dando a entender que o próximo Presidente da República tem que ser uma espécie de agente no combate à corrupção. Ora, toda a gente sabe quais são as competências do Presidente da República. Na realidade, o que está a fazer é tentar radicalizar o discurso para apanhar uma franja e para ver se ainda consegue. Mas não tem hipótese.
Na área política da direita quem vê com mais hipóteses de enfrentar o almirante?
Só havia duas pessoas que poderiam fazer frente a Gouveia e Melo. À direita, Pedro Passos Coelho. Acontece que Pedro Passos Coelho, e eu compreendo, não quer ser Presidente da República, porque acha que ainda não executou a sua missão de homem providencial à frente do Governo da República, acha que tem um projeto para o país.
Mas se Pedro Passos Coelho avançasse, mudaria o apoio?
Não, não, não. Tenho uma grande admiração por Pedro Passos Coelho, mas acho que foi um mau primeiro-ministro, alguém que queria ir além da troika. Eu sou um social-democrata. Pedro Passos Coelho já foi mais social-democrata do que eu, nos tempos da juventude dele, mas depois, na Universidade Lusíada, introduziram-lhe um chip no cérebro e ele virou para neoliberal. Um neoliberal acérrimo. Nunca poderia apoiar Pedro Passos Coelho.
Ia falar de mais um nome.
Ia falar de António Vitorino da parte do PS.
Mais do que Mário Centeno?
António Vitorino poderia ser aquele que mais galvanizaria à esquerda. O Mário Centeno, enfim, é um homem tranquilo, mas não me parece que mobilize as pessoas. Se António Vitorino e o Pedro Passos Coelho não avançarem, acho que o Almirante tem condições de ganhar à primeira volta.
Que avaliação é que faz do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa?
Tenho uma grande relação pessoal de muitos anos com Marcelo Rebelo de Sousa. Tivemos mesmo períodos de grande proximidade. Fui aluno dele ainda na Faculdade de Direito de Lisboa e tenho uma grande admiração por ele. Acho que o primeiro mandato, na sequência daquele ar mais hirto de Cavaco Silva, muito institucional… Naturalmente que Marcelo descontraiu, descomprimiu, retirou pressão ao ambiente político. Acontece que o segundo mandato lhe está a correr muito mal. Não tanto por causa dos casos que têm surgido, mas porque caiu na armadilha que ele próprio montou. Ele não se controla. Fala por tudo e por nada, e acaba por ser desvalorizado pelas pessoas. Mais parece um comentador do que um Presidente da República. E de tanto falar às vezes sai asneira. Gosta de ser amado, mas acho que a coisa não está a correr bem.
“Não compreendi ausência do Governo no velório de Odair Moniz”
Porque é que decidiu marcar presença no velório de Odair Moniz? Acredita que outros políticos, até membros do Governo, deviam ter seguido o seu exemplo?
Fiquei muito surpreendido. Não vi [ninguém]. Acho que esteve lá um membro do Partido Comunista.
Mas sentiu falta dos membros do governo?
Não compreendi [a ausência].
Consegue compreender que Luís Montenegro ainda não se tenha deslocado ao terreno?
Os políticos que têm responsabilidades governamentais, o centro, seja do PS, seja do PSD, a dada altura ficam reféns dos extremos. Quem está ao centro muitas vezes não sabe o que é que há-de fazer. Por uma razão: ignorância. Se de vez em quando se deslocassem lá aos bairros, saberiam.
Fez recentemente uma intervenção na SIC Notícias, que aliás foi muito elogiada à direita mas sobretudo à esquerda, em que defendia a importância da educação enquanto base para resolver os presentes e os futuros problemas nas zonas mais desfavorecidas. Em termos discursivos, o atual Governo tem apostado mais no reforço da segurança, na “lei e na ordem”. É uma estratégia desajustada?
Ainda não teve tempo. Este governo está assoberbado por reivindicações. Sinceramente, não estou a ver quando é que os ministros trabalham. É importante que os portugueses também se apercebam disto: se o ministro anda a resolver problemas de reivindicações todos os dias, as grandes questões [ficam por resolver].
Aquela declaração que Luís Montenegro fez às oito da noite, em São Bento, para fazer um balanço da Operação “Portugal Seguro”. Fez-lhe sentido?
Compreendo a intenção dele e acho que era boa. Mas não conseguiu atingir o resultado que pretendia. Por um lado, queria mostrar que as polícias estavam unidas — porque um dos problemas em Portugal é o défice de informação entre polícias. Por outro lado, foi dizer que vamos ter uma intervenção mais ativa. Agora, julgo que foi muito pouco aquilo que anunciou. Anunciar aqueles milhões lá para os carros e tal… Três milhões gastou a Câmara Municipal de Oeiras há três ou quatro anos em carros para a polícia.
Não justificava uma declaração daquelas?
Teria que ter dito um bocadinho mais. Mas também não me parece, como algumas leituras que já foram feitas, que da parte do Governo houvesse ali uma espécie de manipulação das polícias, de instrumentalização das polícias. Não me parece que tenha sido essa a intenção.
Dizia que o “centro” tem estado refém dos extremos. Os partidos tradicionais tiveram medo demasiado tempo?
Exatamente. O horizonte deles é de quatro anos. Têm receio. Porque é que os políticos não foram, por exemplo, ao velório do Odair Moniz? Porque, geralmente, não são bem recebidos. Não seriam os moradores do bairro que iriam receber mal, mas há sempre provocadores. E os ministros, os deputados, têm receio desses provocadores. A extrema-esquerda e a extrema-direita não tem receio de nada. Há um politicamente correto e centro fica refém de tudo isso. O que é preciso é obra, não é discurso. No caso da Educação, por exemplo. Faz sentido que um menino chegue ao quinto ano e que não sabe ler nem escrever? Se não sabe ler nem escrever, não pode passar. Mas vamos castigar os alunos que não passam? Não. O Governo tem que ter mecanismos. Na Câmara de Oeiras temos salas de estudo para valorizar os meninos, para ajudá-los a fazer os trabalhos.
Temos visto alguma divisão no PS sobre como tratar determinados temas, como segurança e distribuição de apoios sociais. Autarcas como Ricardo Leão e Sónia Sanfona foram criticados — ou incentivados — dentro do mesmo partido. É reflexo dessa tal dificuldade do centro?
É indiscutível. Olhe, aqui não tenho esse problema: aqui em Oeiras toda a gente paga renda e quem não paga é despejado. Não é de agora, é de há muito tempo. O que aconteceu com o Ricardo Leão foi um exagero. É óbvio que lhe tiraram o tapete, não é? Pode não se ter expressado bem. Por exemplo: pode-se retirar um casa se ela é mal utilizada, se é utilizada para prostituição, tráfico de droga, se não é cuidada. Tudo isso faz parte do regulamento da habitação. As pessoas não podem é ser despejadas por cometer um crime que não tem nada a ver com a utilização da casa. [O presidente de Loures] terá sido mal informado. Agora, compreendo o animus de Ricardo Leão. Ele chegou a uma Câmara que antes era liderada pelo PCP, que deixava andar a questão das rendas, que não era rigoroso, não acompanhava. Quis meter as coisas na ordem e poderá ter caído ali no exagero. Mas é um exagero verbal. Do ponto de vista prático, acho que está a fazer bem. No caso de Alpiarça, acho que há ali algum desconhecimento da senhora presidente da Câmara. Vamos lá ver: não é pelo facto de um pai ir buscar o filho de BMW à escola que existe um sinal exterior de riqueza — o BMW pode ser velho ou baratíssimo. As câmaras têm é de respeitar a lei.
“Barroso é muito sensaborão. Preferia fumar charuto com Passos”
Vamos ao segundo segmento da nossa entrevista, o bloco “Carne ou Peixe”. Com quem partilhava um bom arroz lavagante? António Costa ou Luís Montenegro?
Com os dois. Tinha muito gosto. Eu sou amigo dos dois, mas agora como Costa está longe, anda lá para Bruxelas, não tinha nenhum problema em partilhar com Luís Montenegro. Teria muito gosto nisso.
E a quem é que oferecia um Pêra Manca branco: a Pedro Nuno Santos ou a André Ventura?
Não sei qual é que aprecia mais, queria dizer o seguinte: estão a banalizar a situação; na realidade, o Douro tem vinhos brancos muito melhores que o Pêra Manca.
Com quem gostava de fumar um charuto com o Cohiba: José Manuel Durão Barroso ou Pedro Passos Coelho?
Não, com Pedro Passos Coelho. José Manuel Durão Barroso é muito sensaborão. É muito assético. Preferia Passos Coelho. Ao menos ainda tinha uma discussão acesa.
E a quem é que oferecia um avental: Luís Marques Mendes ou Paulo Portas?
Talvez ao Marques Mendes. Segundo já me constou, Paulo Portas parece que não sabe cozinhar. É muito dependente nessa matéria. Vi qualquer coisa sobre Marques Mendes, que que gostava de confecionar. Na cozinha, não há política. Estou bem com qualquer um.