“A eutanásia mata”, “roubo mas faço” e outros oito slogans letais /premium

05 Agosto 2018

Um slogan, preconizam os “marqueteiros”, deve ser breve, incisivo e facilmente memorizável. Mas há alguns que são recordados pelos piores motivos.

Nesta breve selecção, há um pouco de tudo: slogans célebres e obscuros; slogans que fingem querer uma coisa quando pretendem outra e slogans que dizem exactamente ao que vêm; slogans hilariantes e slogans inquietantes; slogans que não produziram efeito e slogans que lograram o efeito pretendido, se bem que este fosse nefasto.

“Beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses”

Portugal, 1938, campanha de promoção do consumo de vinho

Ao contrário do que está entranhado no senso comum, Portugal não abunda em terrenos agrícolas férteis; em contrapartida, como é usual em boa parte da região mediterrânica, sobram terrenos secos, pobres e pedregosos, em regiões de topografia acidentada, que, sendo pouco apropriados para boa parte das culturas, são favoráveis à videira, pelo que extensas áreas do país acabaram por ser devotadas à produção vitivinícola.

No final da década de 1930, sendo a produção de vinho largamente excedida pelo consumo e atravessando o comércio internacional um período de retracção, em resultado da Grande Depressão e da consequente aplicação de elevadas tarifas aduaneiras, o Estado Novo, pressionado pelo poderoso lobby do vinho, lançou, através da Junta Nacional do Vinho, uma campanha da promoção do seu consumo interno. Esta passou pela criação do Museu do Vinho, pela organização em Lisboa do V Congresso Internacional da Vinha e do Vinho e pela criação de três cartazes. O mais famoso deles ostentava um slogan que tem sido atribuído a António Ferro, que chefiava à data o Secretariado de Propaganda Nacional: “Beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses”.

Cartaz de Mário Costa

A campanha conseguiu introduzir o hábito do consumo regular de vinho nas populações da metade sul do país e terá satisfeito o lobby vinícola. Para o regime, a campanha também terá tido aspectos benéficos do ponto de vista político, já que um povo é tanto mais fácil de iludir e subjugar quanto mais entorpecida estiver a sua mente.

80 anos depois, a “tradição” inculcada pela campanha de 1938 teima em não se esbater: Portugal continua a deter o 1.º lugar no ranking do consumo de vinho per capita, com 54 litros por ano.

“Roubo, mas faço”

Brasil, início da década de 1950, actuação de Adhemar de Barros como governador do estado de São Paulo

Adhemar de Barros foi prefeito da cidade de São Paulo em 1957-61 e governador do estado de São Paulo em 1947-51 e 1963-66 (e candidato presidencial em 1955 e 1960) e ganhou fama de 1) ser corrupto e de se apropriar de recursos públicos em seu proveito, mas de, ao mesmo tempo, 2) ser capaz de apresentar obra (embora a primeira parte da fama tenha sido fundada, a segunda parece ter tido escassa concretização). O slogan começou por circular informalmente entre os apoiantes de Barros, com sentido positivo, mas em Novembro de 1953, o deputado Carmelo D’Agostinho, num discurso no Congresso Nacional, denunciou o (primeiro) mandato de Barros como governador nestes termos: “A propósito das suas realizações se criou em São Paulo […], àquele tempo, a definição de que ‘se roubou, mas se construiu’, como deplorável consequência da moral administrativa imposta pela sua acção governamental”. Os adversários políticos de Barros passaram a enfatizar o “roubar” sobre o “construir” ou “fazer” e o slogan ganhou um sabor irónico ou pejorativo.

Postal de propaganda da campanha presidencial de Adhemar de Barros em 1955

Anos depois, a frase “roubo mas faço” ficaria associada ao político conservador Paulo Maluf, que, como Adhemar de Barros, foi prefeito da cidade de São Paulo (em 1969-71 e 1993-96) e governador do estado de São Paulo (em 1979-82), embora, tal como Barros, ele não a tenha proferido (pelo menos publicamente) e até, em várias entrevistas, se tenha sentido obrigado a contrariá-la: “Pode neste mundo haver políticos decentes e honestos. Eu conheço muitos, mas não tem político mais honesto do que Paulo Maluf. Eu faço e não roubo” (Folha de S. Paulo, 2002).

No decurso da sua longa e obnóxia carreira política, Maluf proferiu muitas outras frases que ficaram na história brasileira, como “Quero ser o Robin Hood” (2000), “No Brasil, o político é veado, corno ou ladrão. A mim, escolheram como ladrão” (2000), “Congestionamento [de tráfego] é progresso” (2003) ou “A minha ficha é a mais limpa do Brasil” (2010).

[Algumas declarações célebres de Paulo Maluf]

Tal como no Brasil, o slogan “roubo mas faço” nunca foi usado em campanhas eleitorais portuguesas, embora as vitórias retumbantes de (re)candidatos a presidentes de câmara acusados pela justiça (e, nalguns casos, condenados) por corrupção, peculato, lavagem de dinheiro ou malfeitorias similares, sugiram que os eleitores o aprovam, até mesmo em municípios que registam a mais elevada percentagem de licenciados do país.

“Beijar uma rapariga que fuma é como lamber um cinzeiro”

Portugal, 1990, campanha anti-tabágica

O anúncio televisivo “Uma princesa não fuma” não foi a primeira campanha anti-tabágica a causar polémica em Portugal – antes houve o slogan “Beijar uma rapariga que fuma é como lamber um cinzeiro”, lançado pelo então Secretário de Estado do Ambiente, Macário Correia no Dia do Não Fumador. Este slogan foi recebido com mais chacota do que indignação, pois então não existia ainda a hiper-susceptibilidade que hoje existe quanto a questões de género, nem havia esse formidável amplificador da indignação que são as redes sociais. Quase 20 anos depois, Macário Correia, então presidente da Câmara de Tavira e paladino do ciclismo, quando entrevistado sobre o assunto, não só manteve a sua emblemática frase como se gabou de ter tido razão antes do tempo: “aquilo que eu disse, hoje, tem a força de lei”. E acrescentou: “fumar é anti-social e é repugnante”.

São indiscutíveis os malefícios do tabaco, mas quando os fumadores têm do seu lado Humphrey Bogart e Laureen Bacall e os militantes anti-tabágicos têm Macário Correia como pin up, é tarefa árdua promover estilos de vida saudáveis.

Humphrey Bogart e Laureen Bacall em To have and have not (1944), de Howard Hawks

“Eu fico”

Portugal, 2001, campanha de Paulo Portas a presidente da câmara de Lisboa

É certo que os slogans ganham em ser breves e incisivos e em focarem-se numa única ideia, mas não deverão ser tão sintéticos que não tenham mensagem.

“Eu fico” poderá ser uma proclamação com significado quando entre ficar e partir se joga o destino, pessoal e colectivo. Em 1941, com os exércitos alemães às portas de Moscovo e o pânico a tomar conta da cidade, Stalin decidiu ficar no Kremlin e contribuiu para operar uma viragem no rumo da II Guerra Mundial, pois Moscovo resistiu e os alemães sofreram o seu primeiro revés. Em 1945 com os exércitos soviéticos às portas de Berlim, Hitler decidiu ficar mas não conseguiu impedir a queda do III Reich e quase arrastou a Alemanha para o abismo consigo. Em 480 a.C., o rei espartano Leónidas escolheu ficar no desfiladeiro das Termópilas e, com escassas centenas de soldados, fazer frente ao desmedido exército do imperador persa Xerxes I.

“Leónidas nas Termópilas”, por Jacques-Louis David, 1814

O “Eu fico” de Paulo Portas não só nada tem de heróico ou dramático, como é nulo em termos comunicacionais, pois nada revela sobre o programa, o carácter e as capacidades do candidato, apenas expressa (de forma subentendida) que, mesmo que não vencesse as eleições, se comprometia a desempenhar o cargo que as eleições lhe atribuíssem. Ora, Portas não foi eleito presidente da câmara (as eleições autárquicas de 2001 foram, aliás, desastrosas para o CDS-PP), mas também não cumpriu o que prometera e poucos meses depois já tinha deixado a autarquia – nada de surpreendente numa carreira marcada por um entendimento peculiar da palavra “irrevogável”.

Um outdoor da campanha de Paulo Portas

Curiosamente, houve uma agência publicitária que, com a campanha eleitoral ainda em curso, se aproveitou do falatório em torno do cartaz de Portas e, numa reacção muito rápida, fez sair para a rua uma campanha que promovia um óleo alimentar no mesmo tom. Quando um político não consegue prometer nada de menos genérico e anódino do que “Eu fico”, não pode pedir-se a um óleo alimentar que prometa mais do que “Eu frito”.

Paródia à campanha de Paulo Portas que virou campanha publicitária

“Pior do que ‘tá não fica, vote Tiririca”

Brasil, 2010, campanha eleitoral de Francisco Everardo Oliveira Silva

Francisco Everardo Oliveira Silva nasceu em 1965, em Itapipoca, no Ceará, e foi neste estado que começou a sua carreira como palhaço, sob o nome de Tiririca, actuando em pequenos circos. Logrou obter sucesso com os seus discos e tornou-se numa vedeta de programas humorísticos televisivos, alcançando notoriedade nacional. Em 2010, entrou na política, candidatando-se a deputado federal pelo Partido da República (PR), com uma campanha cujo slogan mais famoso foi “Pior do que está não fica, vote Tiririca”, ao arrepio do tom dominante, já que os candidatos tendem a multiplicar-se em promessas que não fazem tenção de cumprir, ou que não sabem como cumprir ou que estão fora do seu controlo (como é o caso das promessas de criar x postos de trabalho ou de fazer crescer o PIB). Outro slogan seu transmite ideia similar de impotência ou incompetência: “O que é que faz um deputado federal? Na realidade eu não sei. Mas vote em mim e eu te conto”.

Tiririca

Inesperadamente, o eleitorado do estado de São Paulo, talvez como forma de exprimir a sua rejeição dos candidatos “convencionais”, recompensou Tiririca com o maior número de votos obtido por um deputado federal nas eleições de 2010: 1.348.295.

Apesar de quase não ter tido intervenção no Congresso Nacional e de em 2013 se ter confessado desiludido com a política (“você passa o dia inteiro fazendo nada, só esperando para votar alguma coisa enquanto as pessoas discutem e discutem”), recandidatou-se em 2014 (para desfazer a ideia de que fora eleito apenas pelo “voto de protesto”) e voltou a ser eleito com expressiva votação (embora tenha perdido 337.000 votos face a 2010). Em 2017 renunciou ao cargo e à actividade política, invocando a falta de ética do Congresso e da política em geral – ironicamente, o discurso de renúncia foi o seu primeiro em sete anos no parlamento –, e regressou aos seus espectáculos humorísticos. Porém, notícias recentes dão conta de que o Partido da República terá conseguido convencê-lo a recandidatar-se.

Embora Tiririca tenha sido tratado como uma personagem anedótica, os seus slogans acabam por colocar em relevo uma questão fulcral do sistema partidocrático: boa parte dos deputados, no Brasil ou noutros países, são tão irrelevantes e fungíveis como Tiririca e também eles se aborrecem mortalmente nas sessões parlamentares, só ganhando existência real na altura de votar de acordo com as instruções do partido. Só que, ao contrário de Tiririca, nenhum deles terá a candura de o admitir.

“Make America white again”

EUA, 2016, cartaz da campanha de Rick Tyler, candidato independente pelo Tennessee à Câmara dos Representantes.

Há ideias que levam facilmente a outras. Donald Trump elegeu como slogan da sua campanha presidencial de 2016 “Make America great again”, que assentava na falsa premissa que os EUA estavam reduzidos à ruína e à irrelevância (graças a uma sucessão de líderes fracos, corruptos ou incompetentes) e na duvidosa premissa de que ele, Trump, devido à sua experiência como homem de negócios, seria capaz de devolver ao país o seu antigo esplendor. Apesar de ser uma falácia, produziu efeito no eleitorado e inspirou Rick Tyler a ir bem mais longe.

Tyler acredita que é um homem bom e que deseja coisas boas para a América. Quando a aparição dos seus cartazes junto à cidadezinha de Benton, não muito longe de Chattannoga, causou controvérsia, Tyler explicou que o cartaz não era racista, apenas pretendia exprimir o seu anseio de ver os EUA regressar à década de 1960, um período que a sua memória restitui como paradisíaco: “era uma América em que não tínhamos de fechar as portas à chave; não tínhamos de temer o carjacking e os assaltos; não tínhamos de preocupar-nos com células adormecidas de terroristas islâmicos ao fundo da rua […] Era uma América muito melhor do que aquela em que vivemos hoje e, não por coincidência, era uma América em que os caucasianos representavam mais de 85% da população”.

[Reportagem sobre o cartaz de Tyler, na WCRB Chattanooga, uma cadeia local de televisão]

Vale a pena ir até ao website de Rick Tyler para se perceber quem ele é e os valores em que acredita:

Porte de armas: “o povo tem o direito conferido por Deus de possuir e usar armas”

Aborto: “a América está sujeita ao julgamento divino por ter permitido o morticínio em massa, através do derramamento de sangue inocente”

Imposto sobre rendimentos: “um imposto odioso e opressivo inspirado directamente pelo Manifesto Comunista”; “é flagrantemente inconstitucional e oferecer-lhe resistência, bem como às tácticas da Gestapo empregues pelo IRS [Internal Revenue Service, o equivalente à nossa Autoridade Tributária] é um dever de todos os que abominam a tirania e prezam a liberdade”.

Reserva Federal [o banco central dos EUA]: “foi fundada em 1913 através de uma conspiração criminosa secreta”. Aos mentores desta “associação criminosa”, Tyler lança o aviso: “Vamos dar cabo de vocês, suas víboras, assim Deus o permita!”.

A Reserva Federal é há muito vista por alguns sectores como uma criação de interesses criminosos ocultos – na verdade, a oposição começou mesmo antes da sua criação, como atesta este cartoon de 1912, por Alfred Owen Crozier

Escolas públicas: “falharam miseravelmente” e “minaram a moral cristã”, pelo que Tyler advoga que se favoreça a educação em casa (“home schooling”) e as escolas privadas cristãs.

Homossexualidade: “uma aberração aos olhos de Deus” e um incentivo a que se cometam “crimes contra natura”. “A aceitação de casamentos entre pessoas do mesmo sexo é uma prova cabal de uma forma de insanidade colectiva que tomou conta do país”.

Imigração: O bem-estar e a sobrevivência da nação exigem que “se regresse às leis e políticas imigratórias anteriores à década de 1960, se deportem os milhões de estrangeiros ilegais que actualmente residem no país, se ponha termo a políticas que fomentam as taxas de natalidade das minorias e se encoraje ao máximo a imigração europeia e caucasiana [sic] a partir de países como a antiga Rodésia e a África do Sul”.

É de realçar a preferência de Tyler pelos “caucasianos” da “antiga Rodésia e África do Sul”, talvez por, ao contrário dos bananas dos “caucasianos” multiculturalistas da Europa, estarem habituados a meter os negros no seu lugar.

“David e Golias”, por Michelangelo da Caravaggio, 1600: Tyler vê-se como um virtuoso David enfrentando os odiosos Golias

No seu website, numa rubrica intitulada “Aos meus inimigos e detractores”, Tyler explica a razão porque está convicto do seu triunfo, embora enfrente candidaturas (e forças sinistras) bem mais poderosas e mais generosamente financiadas do que a sua: recorrendo abundantemente a citações bíblicas, apresenta-se como fazendo parte do restrito número de ungidos sobre os quais Deus lança o seu manto protector.

Noutra parte do website (“Billboard strategy”), Tyler não só anuncia a intenção de encher o Tennessee de cartazes como o que foi colocado perto de Benton em 2016 (e removido menos de 12 horas depois), como propõe várias outras mensagens e termina solicitando “apoio financeiro substancial para esta destemida e resoluta cruzada pela verdade”.

“Con mis hijos no te metas”

Peru, 2016 (alastrando depois ao resto da América Latina), campanha contra educação sexual nas escolas

Registando o Peru um elevado índice de violência contra mulheres, o Ministério da Educação do Peru, decidiu, em 2016, introduzir alterações nos curricula escolares, a partir da escola primária e a entrar em vigor no ano lectivo seguinte, com o intuito de “as crianças interiorizarem a igualdade de género”. O então Ministro da Educação Jaime Saavedra acrescentou que se pretendia promover também a “tolerância e o respeito perante qualquer orientação sexual”. Tal iniciativa suscitou a criação do movimento Con Mis Hijos No Te Metas (CMHNTM), que organizou várias manifestações, a que aderiram vários movimentos católicos e evangélicos e figuras públicas das artes e do espectáculo e que contaram com largas dezenas de milhar de participantes, protestando contra as alterações nos curricula, por estas irem contra o direito dos pais a educar os filhos de acordo com os seus valores (ou, como alegam algumas das suas vozes mais radicais, por as alterações curriculares visarem promover o “recrutamento gay” e a “homossexualização do país”).

O CMHNTM ganhou rapidamente raízes noutros países da América Latina e alargou a sua oposição para lá das questões igualdade de género e da aceitação das várias orientações sexuais, englobando outras “ameaças ideológicas” escondidas nos curricula escolares, como a inculcação nas crianças e jovens de uma visão “hedonista” do sexo. O CMHNTM assume a defesa da “família natural” e é contra a liberalização do aborto, o uso de contraceptivos, as “barrigas de aluguer” e outras interferências com o curso “natural” da sexualidade e da reprodução e tem divulgado vídeos que citam, de forma distorcida e descontextualizada, excertos de livros e outro material pedagógico, que, por vezes, nem sequer fazem parte do material usado nas escolas públicas e aprovado pelo Ministério da Educação.

[Vídeo do ramo colombiano do movimento Con Mis Hijos No Te Metas]

“Exigimos respeito”

Portugal, 2018, slogan nas t-shirts de professores do ensino básico e secundário em manifestações contra o Ministério da Educação.

Há slogans que pedem uma coisa e, na verdade, querem outra. É o caso das t-shirts dos professores descontentes: quando se repara que elas ostentam também os dizeres “9A 4M 2D” – “nove anos, quatro meses e dois dias”, o período em que a progressão nas suas carreiras esteve congelada – percebe-se que o que estes professores exigem do Ministro da Educação é, não respeito, mas dinheiro (uma aspiração tão legítima como qualquer outra e cuja justeza este texto não pretende julgar ou discutir). Não se trata de um fenómeno isolado: há da parte dos movimentos sindicais um estranho pudor em falar do vil metal, pelo que as greves e outras acções de protesto são, por vezes, feitas em nomes de conceitos abstractos, de desígnios patrióticos ou do bem comum – assim, há greves no sector dos transportes, por exemplo, que são motivadas, não por mesquinhas reivindicações salariais, mas “pela qualidade e segurança do serviço prestado aos utentes”.

“A greve”, por Robert Koehler, 1886

Respeito é algo que, sem dúvida, os professores merecem e sem ele nem sequer é possível conceber uma relação professor/aluno profícua. E os professores do ensino básico e secundário são, em Portugal, a classe profissional com mais direito a exigi-lo – mas deveriam exigi-lo, antes de mais, aos seus alunos, que se foram convertendo nas últimas décadas numa turba indisciplinada, petulante e pouco motivada (“a escola é uma seca”, é a sua queixa recorrente). A falta de respeito dos alunos é uma das principais razões para que existissem, em Março passado, 6.000 professores em baixa prolongada (superior a dois meses) num universo de 122.000, valor que, de acordo com declarações de Mário Nogueira, da Fenprof, em Julho, será na verdade de 12.000 – ou seja um em cada 10 professores.

Porém, as baixas prolongadas são apenas a parte emersa do iceberg: há também que contabilizar o absentismo de curta duração (que, diz a Fenprof, tem também vindo a aumentar) e há milhares de professores que continuam no activo mas a quem não são atribuídas funções docentes e que são colocados em tarefas administrativas e na gestão da biblioteca, por não estarem em condições emocionais para enfrentar uma turma – o que faz com que, embora Portugal tenha, em teoria, um rácio professor/aluno acima da média europeia, acabe, na prática, por ter turmas relativamente grandes, uma vez que apenas uma parte dos professores exerce serviço docente.

Os alunos portugueses parecem estar conscientes de que tornam difícil a vida dos seus professores, pois só 1.5% dos que fizeram os testes PISA em 2015 admitiram abraçar tal profissão – a percentagem mais baixa entre os países estudados (na Irlanda, 12% dos alunos dizem querer ser professores).

Um estudo realizado entre 2010 e 2013 e divulgado em 2016 pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) junto de docentes do ensino básico e secundário apurou que 30% dos inquiridos sofria de esgotamento emocional, número que diverge do resto da Europa, onde esta percentagem oscila entre 15 e 25%. Isabel Patrão, coordenadora do estudo, considerava, em declarações ao Público, em 2016, que uma das razões para esta situação é a falta de “formação contínua e oferta formativa que permita aos docentes ter ferramentas para saber como lidar com situações de conflito em sala de aula”.

Não parecem ter sido tiradas quaisquer consequências deste estudo, pois em Julho de 2018, poucos dias depois das declarações de Mário Nogueira, foi divulgado um estudo similar, coordenado por Raquel Varela, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (ver Estudo pedido pela Fenprof conclui que burnout nos professores é altíssimo), que revela que a percentagem de professores sofrendo de exaustão emocional subira para 47.8% (com 20.6% no nível “preocupante”, 15.6% no nível “crítico” e 11.6% em nível “extremo”). Com excepção dos médicos e enfermeiros nos serviços públicos de saúde, não há outro sector de actividade que registe taxas de burnout a rondar os 50%, o que deveria levar a que a sociedade se questionasse seriamente sobre o que está a passar-se na escola pública portuguesa.

“Country school”, por Norman Rockwell

Mas há que admitir que nem toda a angústia e frustração sentida pelos professores é culpa do hooliganismo ou da anomia dos alunos e das pressões geradas por encarregados de educação animados por expectativas irrealistas em relação à sua prole. O Ministério da Educação, cuja natureza centralista e burocrática exala um bafio soviético, tem vindo a sobrecarregar os professores com reuniões, preenchimento de formulários e relatórios e outras minudências administrativas, a retirar-lhes autonomia e autoridade e a promover sucessivas reformas curriculares (por vezes de sinal contrário), ao mesmo tempo que exerce pressão para que as estatísticas do sistema de ensino sejam mais positivas (menos “retenções”, menos abandono escolar, melhores resultados nos exames e provas de aferição) e não deixem o país ficar mal nas comparações internacionais.

A obsessão de controlo do ME chega, em casos extremos, a reduzir os professores à condição de robots que executam as suas instruções: veja-se, por exemplo, a rábula que são forçados a desempenhar nos exames nacionais, em que estão obrigados a aplicar mecanicamente, sem o mais pequeno desvio, um guião redigido e minuciosamente coreografado pelo ME (enquanto não se implementa um sistema de altifalantes que permita fazer ouvir simultaneamente em todas as salas de exame do país a voz do Big Brother da Avenida Infante Santo).

“Russian schoolroom”, por Norman Rockwell, 1967

E há também que considerar o carácter pueril de que se revestem algumas manifestações de docentes contra as políticas do ME. Será que não ocorre aos professores que, após os seus alunos os verem na televisão a mimosear o ministro com insultos e pilhérias, ostentando narizes de palhaço e exibindo cabeças de porco (uma alusão “subtil” ao nome da Secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão), não voltarão a ser vistos com os mesmos olhos quando regressarem à sala de aula e tentarem reassumir o papel de uma figura de autoridade?

A perda do respeito pelos professores não decorreu de um súbito cataclismo, foi sendo construída, paulatinamente, pelo ME e pelas mudanças na sociedade, mas os professores, que são muito expeditos e enfáticos nas exigências no domínio dos vencimentos e carreira, assistiram com indiferença à progressiva erosão da sua autoridade e autonomia. “Exigimos respeito” é um slogan legítimo e pertinente, mas é preciso que seja exibido e bradado numa manifestação cujo propósito seja mesmo exigir o respeito que é devido a tão nobre mister.

“Happy birthday, Miss Jones”, por Norman Rockwell, 1956

“A eutanásia mata”

Portugal, 2018; O slogan surgiu a 10 de Maio no Facebook do CDS-PP de Almada, apelando a uma concentração em frente da Assembleia da República a 29 de Maio, no âmbito da “Campanha pela Vida, Não à Eutanásia”.

Muitos slogans retiram a sua força de chamar a atenção para aspectos pouco óbvios e para relações em que as pessoas comuns nunca pensariam – é o caso deste. Ao CDS-PP de Almada não faltarão por certo robustos talentos, mas a finura de “A eutanásia mata” leva a crer que o slogan terá sido gizado com a colaboração de experientes profissionais de comunicação. É até possível que tenha sido sugerido reforçar tão original mensagem com um “E estar morto é o contrário de estar vivo”, mas alguém terá lembrado que Lili Caneças disse algo parecido. Pode até imaginar-se um “jotinha” recém-filiado e pouco conhecedor do historial do partido a alvitrar como alternativa “A morte é irrevogável”, gerando um silêncio desconfortável na sala.

No belo castelo de Hartheim funcionou durante o III Reich um centro de eutanásia, que terá liquidado cerca de 30.000 pessoas no âmbito do programa de eutanásia (involuntária) Aktion T4

Quando uma campanha conta a nível institucional com slogans como “A eutanásia mata”, não é de admirar que a imaginação dos criativos anónimos seja espicaçada para inventar palavras de ordem de sofisticação similar, como é o caso dos cartazes “Por favor não matem os velhinhos” e “Para e pensa, a morte não compensa”, avistados na concentração de 29 de Maio.

Um dos autocarros que fazia a recolha de “velhinhos” para o Centro de Eutanásia de Hartheim, c. 1940. No período 1939-45, o Aktion T4 foi responsável pela morte de cerca de 300.000 pessoas (de todas as idades)

“Aproveita as férias e reconcilia-te com Deus”

Portugal, 2018, campanha de Verão da vigararia de Tavira

Nos meses de Julho e Agosto, várias paróquias do Sotavento algarvio oferecem a possibilidade de os turistas se confessarem em várias línguas (espanhol, inglês e francês, além de português) e num horário – a partir das 21.00 – que não interfere com a fruição da praia. Um dos padres envolvidos na iniciativa declarou à Agência Lusa que “há muita gente que vem de férias ao Algarve, cristão e católicos praticantes, e aproveitam esse período de descanso para fazer uma aproximação a Deus”.

É uma campanha que sugere que não é preciso que comunistas, antiteístas e homossexuais urdam esquemas maquiavélicos para “minar a moral cristã”, a Igreja é capaz de fazê-lo sem ajuda. Quando, em 1962, o Concílio Vaticano II tomou como prioridade o aggiornamento – a necessidade de a Igreja saber ler os sinais do tempo e adaptar-se ao mundo em mudança – a intenção não seria que a prática católica se convertesse numa espiritualidade light e difusa, que não requer qualquer tipo de empenho, compromisso, sacrifício, renúncia ou alteração de rotinas.

Em tempos, a crença cristã tinha de ser atestada por provas penosas, que iam do jejum à auto-flagelação e ao uso de cilícios, mas hoje tudo é orientado para o máximo conforto e conveniência do crente, e em vez de se aterrorizar este com sulfurosas ameaças de danação eterna, recorre-se à linguagem leve, fresca e coloquial das agências de viagens.

“A procissão dos flagelantes”, por Francisco Goya, 1812-14

Se a Igreja prosseguir nesta senda de sucessivas concessões e facilidades e se se dispuser a ir de encontro aos seus fiéis onde quer que eles desfrutem dos seus momentos de ócio, são previsíveis campanhas do tipo “Já que estás no spa, faz uma esfoliação à alma”, “O centro comercial é um antro de tentação, mas também oferece a expiação”, “Curte os festivais de Verão mas não percas o sermão” ou “Vem ao Estádio da Luz e descobre Jesus”. Mas como os progressos das tecnologias de comunicação permitem já que a prática religiosa seja completamente desligada do lugar, do contexto e de qualquer intermediação institucional, o slogan para o século XXI será provavelmente “Descarrega a app das confissões e descarta o padre”.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

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