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Em 1576, as Actas Trimestrais do Condado de Middlesex (hoje parte da área metropolitana de Londres ou Greater London), davam conta de um passatempo em que “malfeitores desconhecidos […] juntavam-se ilegalmente e enfrentavam-se num certo jogo sem regras chamado futebol, por força do qual se gerava entre eles uma grande zaragata, que podia acabar em homicídios e acidentes graves”. Quatro séculos e meio depois, apesar de ter ganho um verniz de sofisticação e ser objecto da atenção de intelectuais, a descrição continua, na sua essência, válida. Há quem se indigne por um desporto tão nobre como o futebol ter caído nas mãos de hooligans, mas que outra coisa poderia esperar-se de um desporto que nasceu como entretenimento de hooligans?

Antecedentes pouco recomendáveis

Os governantes da Inglaterra medieval estavam bem conscientes da violência que envolvia o futebol, razão pela qual tentaram proibi-lo em diversas ocasiões. Um decreto emitido em 1314 pelo Lord Mayor (cargo equivalente a Presidente de Câmara) de Londres, estipulava que “em resultado do grande tumulto resultante das disputas em torno de pélas nos campos públicos, de que podem resultar gravosos danos – não o permita o Senhor –, determinamos a interdição, em nome do rei [Eduardo II], da prática desse jogo na cidade, sob pena de prisão”.

A proibição parece não ter produzido efeito, pois, de outro modo, Eduardo III não se teria visto obrigado a renová-la em 1363, condenando à prisão a prática de “andebol, futebol, hóquei, lutas de galos ou outros jogos ociosos”. Eduardo IV não só o imitou como tentou desviar a agressividade dos jovens com sangue na guelra do futebol para o tiro com arco, “por a defesa da Nação depender de bons arqueiros”. O Parlamento Escocês promulgou, em 1424, um “Football Act” que declarava que “o rei [Jaime I] proíbe todo o homem de jogar ‘fut ball’, sob pena de ser multado em quatro pence”.

Detalhe de um banco (século XIV) na Catedral de Gloucester, com dois rapazes a jogar à bola: não é claro se empregam as mãos ou os pés

Entre 1314 e 1667 foram emitidas nas Ilhas Britânicas mais de 30 disposições interditando a prática do futebol, o que, juntamente com os relatos recorrentes de mortes em rixas futebolísticas, atesta a sua ineficácia. Após a vitória na Guerra Civil de 1642-51, os puritanos tentaram reprimir mais severamente o futebol, mas quando, em 1659-60, o Mayor de York multou um grupo de jogadores por terem partido a janela de uma igreja, viu a sua casa invadida por uma centena de arruaceiros armados. Com o fim do regime puritano, em 1660, a popularidade do jogo recrudesceu.

Em Itália, não havia “fut ball” mas havia o “calcio”, que era praticado por jovens aristocratas florentinos luxuosamente trajados, em contraste com as turbas de rústicos do futebol inglês. Porém, nem por isso o calcio era mais civilizado: as regras do jogo, que se crê ter derivado de um treino militar, permitiam cargas de ombros, murros, pontapés e golpes abaixo da cintura.

Jogo de calcio na Piazza Santa Croce, Florença, gravura de 1688

Pouco a pouco, foram sendo estabelecidas regras e o futebol praticado em moldes medievais – o “mob football”, que consistia basicamente no embate caótico entre dois grupos de arruaceiros, geralmente de aldeias vizinhas – foi transformando-se no futebol como hoje o conhecemos. Uma das primeiras sistematizações das regras do futebol (e outros jogos) foi redigida, por volta de 1660, por Francis Willughby, um proeminente ornitólogo (não foi ele, contudo, o inventor da designação de “frango” para uma falha clamorosa do guarda-redes).

Embora outros povos tivessem desenvolvido independentemente jogos afins do futebol – a FIFA reconheceu o cuju chinês, surgido nos séculos III-II a.C., como o mais antigo precursor do futebol – foi o football inglês que se impôs, a partir das 13 regras definidas pela Football Association, em 1863, em Londres. O futebol conquistaria o mundo, ainda que nem sempre sob esse nome, pois nos EUA e Canadá o jogo é conhecido como “soccer”, uma contracção de “association football”, termo usado para distingui-lo, em meados do século XIX, de outras variantes, nomeadamente do “rugby football”.

Crianças jogando cuju, um precursor chinês do futebol, pintura da dinastia Song, por Su Hanchen (c.1130-1160)

Porque é o futebol tão popular?

O críquete (outra invenção inglesa), com 2.500 milhões de fãs em todo o mundo, e o hóquei em campo (ainda outra invenção inglesa), com 2.000 milhões de fãs, são os únicos rivais do futebol, que tem 4.000 milhões de fãs. Porém, o críquete e o hóquei em campo, cujo entusiasmo se circunscreve aos países da Commonwealth e cujos entusiastas se concentram na Índia, Paquistão e Bangladesh, estão longe de ter o âmbito global do futebol.

É frequente ouvir – na Europa, onde o futebol é senhor absoluto – dirigentes e atletas de outras modalidades lamentar a falta de atenção devotada pelos media ao seu desporto e a hegemonia do futebol. Têm razão quanto à desproporção da atenção – uma medalha de ouro num campeonato mundial de canoagem merece usualmente menor destaque nos media do que os rumores sobre a contratação de um ponta-de-lança que poderá nunca vir a efectivar-se ou que os SMS enviados por um dirigente desportivo aos seus jogadores – mas é preciso reconhecer que a maior parte das competições desportivas não são capazes de proporcionar grandes emoções aos espectadores.

Os “desportos lineares”, que se desenvolvem ao longo de uma linha pré-definida e em que ganha quem chega primeiro, como a canoagem, o ciclismo, a natação ou o atletismo, oferecem um número limitadíssimo de desfechos e são uma tremenda sensaboria para quem os observa.

Quando entrevistados, os praticantes pouco ou nada têm a dizer sobre a sua proeza (“senti-me ainda fresco quando passei ao quilómetro quatro”) ou fracasso (“comecei a sentir uma dor na coxa ao quilómetro quatro”) e a pobreza do relato espelha a pobreza das possibilidades. Não é por acaso que os desportos mais populares são desportos de equipa (ou “tribais”, se quisermos), jogados num espaço tridimensional, que permitem uma infinidade de combinações de eventos: futebol, críquete, hóquei em campo, voleibol, basquetebol, baseball, rugby, futebol americano. No meio destes, intrometem-se o ténis (mil milhões de fãs) e o ténis de mesa (850 milhões de fãs), que se jogam também, num espaço tridimensional, mas que, por serem disputados (quase sempre) por apenas dois jogadores, proporcionam um espectáculo sumamente entorpecente, o que torna intrigante que tantas pessoas despendam tanto tempo a vê-los. Não menos inexplicável é o que leva 450 milhões de pessoas a acompanhar o golfe, desporto visualmente pouco mais entusiasmante do que ver relva a crescer.

Pista de ciclismo, Salt Lake City, 1911: Com excepção do bigode, um empecilho aerodinâmico inadmissível nas competições de hoje, pouco parece ter mudado no último século

Mas há desportos ainda mais pobres e anti-climácticos do ponto de vista dramático. São aqueles em que os atletas se apresentam a competição separadamente: lançamentos (de disco, peso, martelo, dardo, etc.), saltos (em comprimento, altura,  à vara, triplo salto), tiro (com pistola, arco ou fisga), halterofilismo. São competições sem “narrativa”, resolvendo-se a performance de cada atleta num gesto de escassos segundos, precedido de uns preliminares de insuperável tédio (é como se tivéssemos de ouvir Cecilia Bartoli gargarejar durante cinco minutos antes de emitir uma única nota).

Sendo estruturalmente rudimentares, os “desportos lineares” não requerem do praticante grandes dotes intelectuais – em princípio nem seriam necessários mais neurónios do que os de um cavalo de corrida ou de um galgo – mas o jogador de futebol tem de fazer, segundo a segundo, a análise da localização no espaço dos seus 10 parceiros e dos seus 11 adversários e, em função do que sabe sobre cada um deles e do que os seus rostos e posturas exprimem a cada momento, intuir quais vão ser os seus movimentos no segundo seguinte e isto requer um processador muito rápido e uma inteligência emocional desenvolvida. O mesmo se passa, em maior ou menor medida, com a maior parte dos outros jogos de equipa.

O que faz então com que o futebol suscite emoções mais intensas nos espectadores do que os seus primos andebol ou o basquetebol? A raridade dos momentos de clímax, ou seja, dos golos. Nos outros desportos, há “golos” ou “ensaios” ou “cestos” a todo o momento (no basquetebol são tão frequentes que o que é invulgar é que um “ataque” não resulte em “cesto”), o que retira boa parte do dramatismo. Já os golos no futebol representam a libertação de uma tensão dramática acumulada durante longos minutos, daí serem tão efusivamente festejados por jogadores e público.

[Catarse no estádio]

https://youtu.be/o5_wfHfwyrg

É provável que quando os membros da Football Association delinearam as regras básicas em 1869 não tenham pensado em quantos golos por desafio, em média, seriam desejáveis para o jogo ser emocionante, mas o resultado acabou por ser esse. Se a baliza de futebol tivesse as dimensões de uma baliza de andebol, haveria muitos jogos sem um golo sequer, pelo que o desporto seria demasiado árido e muitas emoções ficariam por libertar, gerando frustração; se o guarda-redes só pudesse usar os pés, como os outros jogadores, e não houvesse fora-de-jogo, teríamos uma dúzia ou duas de golos por desafio e a tensão dramática estaria sempre a ser dissipada.

Claro que o mundo é vasto e há gostos para tudo, pelo haverá sempre alguém disposto a despender o seu tempo a assistir a uma partida de hóquei subaquático ou de pólo elefantino.

Hóquei subaquático

Mas nunca haverá jogadores de hóquei subaquático com cláusulas de rescisão de 50 milhões de euros nem multidões no aeroporto para saudar o regresso da equipa vitoriosa de pólo elefantino.

E, claro, há também a questão do ritmo: até os defensores do pólo elefantino reconhecerão que o jogo tem os seus momentos mortos e o mesmo poderá o fã de futebol dizer do baseball, que, todavia, tão intensas paixões suscita nos EUA (e, em menor medida, no Canadá, Austrália, alguns países da América Latina, Japão e Coreia do Sul).

[Pólo elefantino: o jogo começa aos 2’40]

Desporto, espectáculo desportivo e tagarelice desportiva

Até agora, este texto empregou a expressão “desporto” sem a definir, mas a verdade é que ela pode querer dizer coisas bem diversas consoante o contexto e quem a emprega. A bem do rigor seria crucial distinguir “exercício físico” – realizado sem intuito competitivo e sem, muitas vezes, ter objectivos de auto-superação ou sequer método – “desporto” e “espectáculo desportivo”. Aquilo a que se convencionou chamar desporto e que absorve a atenção dos media e a paixão das massas é na realidade o espectáculo desportivo ou, muitas vezes, um ersatz do espectáculo desportivo.

No indispensável ensaio “A conversa desportiva” (1969), compilado em Viagens na irrealidade quotidiana (uma edição portuguesa da Difel que reúne ensaios de Dalla periferia dell’impero, Il costume di casa e 7 anni di desiderio), Umberto Eco observa que “se o desporto praticado é saúde […], o desporto visto [ou seja, o espectáculo desportivo] é a mistificação da saúde. Quando eu vejo os outros jogarem, não faço nada de são e apenas me deleito com a sanidade alheia”. Por outro lado, também o atleta profissional – a vedeta do espectáculo desportivo – é uma perversão dos objectivos pretendidos pelo desporto: “é um ser que hipertrofiou um único órgão, que faz do seu corpo a sede e a nascente exclusiva de um jogo contínuo; o atleta é um monstro”.

Está comprovado que o esforço intenso e continuado exigido pelo desporto de alta competição desgasta o organismo dos atletas e reduz-lhes a esperança média de vida, já não falando do cortejo de lesões e fracturas que mais tarde cobrarão o seu preço. Pelo seu lado, as horas de inactividade no estádio ou, mais frequentemente, no sofá caseiro, frente ao televisor, minam a saúde do espectador assíduo de espectáculos desportivos. Em vez do salutar exercício moderado para todos, há uns poucos que se exercitam em excesso para entreter os que exercitam de menos.

Mas o espectáculo desportivo, que é desporto de segunda ordem (Eco chama-lhe “desporto ao quadrado”), gera também um “discurso sobre o desporto enquanto visto”, que começa por ser o discurso da imprensa desportiva, e é, por sua vez, objecto de outro discurso. “O discurso sobre a imprensa desportiva é o discurso sobre um discurso acerca de ver o desporto alheio” e nada impede que ele se torne objecto de outro discurso e assim sucessivamente. Entramos no domínio do desporto de ordem n, em que o espectáculo desportivo original – o “jogo dentro das quatro linhas”, na gíria do futebol – perde quase toda a importância. Por cada 90 minutos de jogo, há dezenas de horas de tagarelice: “antecipações” de jogos (devendo entender-se antecipação no sentido de antevisão), divulgação de prognósticos para o jogo colhidos junto de jogadores, ex-jogadores, figuras públicas e cidadãos anónimos, balanços de jogos por peritos abalizados, análises à arbitragem, entrevistas na “zona mista”, balanços da jornada, à segunda-feira, por um painel de sumidades, especulações sobre o mercado de transferências e campanhas eleitorais para a presidência de clubes.

Neste mundo de fantasmagorias e disse-que-disse imperam os dirigentes desportivos, os directores de comunicação e outras figuras da estrutura administrativa dos clubes, bem como os comentadores e paineleiros encartados. Os eventos que dominaram o meio desportivo português nos últimos meses decorreram sobretudo neste “universo paralelo”, feito de e-mails (potencialmente) comprometedores, SMSs, acessos ilegítimos a processos judiciais, acusações mútuas de viciação de resultados e questiúnculas de secretaria concernentes à gestão de sociedades anónimas desportivas.

No limite, este “desporto de ordem n” que consome infinitas páginas de jornal e horas de emissão televisiva até pode dispensar a existência do espectáculo desportivo real, pode sustentar-se a si mesmo indefinidamente.

Os media e, em particular, as televisões, têm todo o interesse na fantasmagorização do espectáculo desportivo: os direitos das transmissões televisivas dos jogos de futebol são extremamente dispendiosos e são ferozmente disputados e os canais que perdem a sua licitação precisam de arranjar sucedâneos para o espectáculo desportivo, criando programas de análise das “incidências” do jogo. Estes, sendo um ersatz grotesco do desporto, têm a vantagem de ser baratíssimos: basta um estúdio e três fãs ruidosos e coléricos – um para cada um dos “Três Grandes”, a representatividade democrática assim o determina. Mas também quem transmitiu o espectáculo desportivo se sente obrigado a participar nesta fantasmagoria, pois os programas de comentário futebolístico incendeiam paixões, atraem espectadores e anunciantes e proporcionam horas de emissão por um custo irrisório. Se se fizer o balanço das despesas e receitas, 90 minutos de futebol real proporcionam margens de lucro mais reduzidas do que 90 minutos de futebol falado. Os conflitos no Sporting nos últimos meses, uma telenovela desportiva com enredo estulto e inverosímil, péssimos actores e diálogos inanes, é uma das produções televisivas mais lucrativas de sempre, atendendo ao custo quase nulo e às audiências que tem granjeado.

O estádio e a polis

Como escreve Eco, no ensaio acima citado, “a conversa desportiva tem todas as aparências do discurso político […] só que o objecto não é a Cidade mas o Estádio”. Em vez de estar atento às transições de políticos entre cargos no Governo e na gestão de empresas no sector que antes tutelara, ou questionar a utilidade da construção de um aeroporto no meio de nenhures, o fã desportivo consagra as suas energias e tempo ao “mercado de transferências de Inverno” e a questionar se se a substituição de um médio ofensivo por um ponta-de-lança naquela altura do jogo teria sido oportuna.

E, “visto que nesta paródia [do discurso político] se dissolvem e disciplinam todas as forças que o cidadão tinha à sua disposição para o discurso político, tal conversa é o ersatz do discurso político […] A conversa desportiva convence [o cidadão] de que [as suas] energias foram despendidas e finalizadas para qualquer coisa. Acalmada a dúvida, o desporto preenche o seu papel de falsa consciência”.

Eco voltaria ao assunto em “O Mundial e as suas pompas”, um artigo para L’Espresso de 19 de Junho de 1978 (por alturas do Campeonato do Mundo na Argentina), também incluído em compilado em Viagens na irrealidade quotidiana, em que observa que o discurso futebolístico, embora requeira algumas competências, não tem quaisquer consequências, pois embora o “treinador de bancada” se afadigue a “assumir posições, exprimir opiniões e auspiciar soluções”, tudo “é jogado fora da área de poder do falante”.

Conclui Eco em “A conversa desportiva” que esta é “um discurso fático [isto é, de mera manutenção da comunicação] contínuo que se apresenta enganadoramente como o discurso sobre a Cidade e sobre os seus fins […], é a magnificação do Desperdício e, portanto, o ponto máximo do Consumo […] Lugar da Ignorância total, [a conversa desportiva] constitui o cidadão em tal profundidade que, nos casos limite (são muitos), ele recusa-se a discutir esta sua disponibilidade quotidiana para a discussão vazia”.

Nada poderia convir mais ao poder político, que fica com o caminho livre para gerir a polis como bem entender.

Detalhe de uma estela funerária em mármore, Pireu, Grécia, c.400-375 a.C.

A conflitualidade “desportiva” de baixa intensidade é a situação ideal para manter as massas alheadas, como já sabiam os governantes romanos que tinham o cuidado de complementar o fornecimento regular de pão com aparatosos espectáculos de circo, e os políticos só se alarmam quando, pontualmente, o sobreaquecimento da conversa desportiva conduz a alterações graves da ordem pública.

Azuis contra Verdes

A revolta de Nika é um aviso do que pode acontecer quando as paixões clubísticas são deixadas sem freio e quando a agressividade entre claques é redireccionada contra os governantes. O Império Bizantino, sucessor do Império Romano do Oriente, não cultivou os combates de gladiadores, mas prosseguiu a tradição das corridas de bigas e quadrigas, que atraíam multidões ainda maiores do que os combates (o Circus Maximus, em Roma, devotado a estas competições, tinha uma lotação de 150.000 a 200.000 lugares, mais do que qualquer estádio do seu ou do nosso tempo).

O Circus Maximus, por Jean-Léon Gerôme, 1876

Os adeptos das corridas organizavam-se em claques, identificadas por cores – Azuis, Verdes, Vermelhos e Brancos – e a que podiam estar associadas diferentes inclinações políticas e religiosas e que tinham o apoio de famílias aristocráticas rivais.

Corridas de bigas no Circus Maximus, por Alfredo Tomiz, 1890

O início do reinado de Justiniano I como imperador de Bizâncio (de 527 a 565) foi marcado por um “brutal aumento de impostos”, devido em boa parte aos seus “ministros das finanças” João de Capadócia e Pedro Barsymes, que se tornaram, naturalmente, figuras impopulares entre os bizantinos, tal como acontecia com Triboniano, o questor e conselheiro jurídico de Justiniano, que tinha fama de legislar e decidir em proveito próprio ou de quem mais lhe pagasse.

Justiniano I num mosaico da Basílica de San Vitale, Ravenna

O descontentamento popular estava pois em plena fermentação quando, no final de 531, em resultado da conflitualidade “desportiva” de baixa intensidade entre Azuis e Verdes (as claques então dominantes em Constantinopla), uma rixa entre adeptos causou vários mortos. Os agressores foram julgados e condenados à morte; porém, dois deles – um Azul e um Verde – evadiram-se e buscaram refúgio numa igreja, que foi cercada por uma turba irada. Justiniano, que atravessava um período de fragilidade nos planos interno e externo, decidiu “chutar para canto” e comutar a pena dos dois fugitivos em prisão perpétua.

Mas os Azuis e Verdes pretendiam que os dois assassinos fossem libertados e perdoados e, quando teve lugar a seguinte competição no hipódromo, a 13 de Janeiro de 532, manifestaram o seu desagrado: os usuais gritos de apoio às suas equipas e os insultos aos rivais foram dando lugar, pouco a pouco, a um apupo unânime a Justiniano, que assistia às corridas a partir do seu camarote no palácio imperial, que confinava com o hipódromo (um arranjo muito conveniente, que evitava que os ministros ficassem dependentes da generosidade dos dirigentes desportivos para obter lugar na tribuna VIP).

Os cavalos de bronze que hoje ornamentam a fachada da Basílica de S. Marcos, em Veneza, adornaram em tempos o hipódromo de Constantinopla, de onde foram roubados em 1204, quando a IV Cruzada saqueou a cidade. Na verdade, os cavalos na fachada são réplicas das esculturas originais (na foto), que estão no interior da basílica, a salvo das intempéries

A multidão passou do apupo ao assalto ao palácio e Justiniano refugiou-se no seu interior, enquanto a fúria popular se espraiava pelas ruas em direcção à Prefeitura Pretoriana, onde estavam detidos os dois assassinos, que foram de pronto libertados. Mas a ira da turba estava longe de estar satisfeita e ao fim de cinco dias de motins metade da cidade tinha ardido e havia milhares de mortos nas ruas. Entretanto, ao segundo dia de revolta, a turba exigiu a Justiniano que afastasse os seus colaboradores mais odiados, entre os quais estava João de Capadócia e Triboniano, imposição que o apavorado Justiniano cumpriu prontamente. O imperador considerou fugir da cidade e só foi impedido pela determinação da esposa, Teodora, que, altivamente, lhe retorquiu: “Salvai a vossa pele, se assim desejardes […]. Por mim, a púrpura [dos trajes imperiais] será a mais nobre das mortalhas”.

O lugar do antigo hipódromo de Constantinopla, na Istambul dos nossos dias

Entretanto, os Azuis e os Verdes, que controlavam as ruas de Constantinopla, preparavam a coroação, no hipódromo, de Hypatius, sobrinho do anterior imperador Anastácio I e adepto dos Verdes. A meio da cerimónia surgiu entre a multidão um eunuco (enviado por Justiniano) com um saco de ouro, que distribuiu aos líderes dos Azuis, enquanto lhes lembrava que Justiniano sempre torcera pelos Azuis e que Hypatius era um Verde. A perplexidade instalou-se no estádio, o que foi aproveitado pelas tropas de Justiniano, comandadas por dois brilhantes generais, Belisário e Mundus, que desbarataram os revoltosos, deixando 30.000 mortos no hipódromo.

Hypatius foi executado, João de Capadócia e Triboniano foram reconduzidos nos seus cargos e Justiniano ordenou a construção de uma nova e incomparavelmente mais esplêndida basílica de Hagia Sophia no lugar da igreja do tempo de Teodósio II que fora incendiada pela turba. Pode dizer-se que essa obra-prima da arquitectura que é Hagia Sophia foi das poucas coisas boas que resultou das paixões desportivas assolapadas.

Hagia Sophia, Istambul. Os minaretes são um acrescento do período otomano

[continua]