William S. Burroughs olha diretamente para a lente da câmara, numa imagem a preto e branco colocada ao lado de um outro retrato seu, de perfil. No mesmo espaço, Patti Smith e David Byrne surgem a cores, quase como pinturas, em cenários minuciosamente preparados. Enquanto Burroughs aparece de forma crua e direta, sublinhando a figura austera do autor de Naked Lunch, as fotografias de Smith e Byrne revelam a faceta mais teatral de Annie Leibovitz: são ícones moldados pela luz, pela cor e pela encenação, que amplifica a intensidade das suas personas artísticas. Nestas imagens condensam-se algumas das características essenciais que têm marcado o percurso da fotógrafa norte-americana, da composição cénica rigorosamente trabalhada à importância do retrato como forma de eternizar figuras centrais das vanguardas e dos movimentos artísticos das últimas décadas.
Não é por acaso que, aos 76 anos, Annie Leibovitz é considerada uma das grandes dinamizadoras do fotojornalismo mundial. Descrita como uma “lenda viva” pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e distinguida com o Prémio Príncipe das Astúrias da Comunicação e Humanidades (2013), Leibovitz construiu uma obra reconhecida pela sua extraordinária amplitude. Do universo da arte ao da moda, passando pelo cinema, pela política, pelo desporto e, naturalmente, pela música, o seu percurso fotográfico é prova de alguém que foi capaz de criar um mundo próprio. É precisamente esse mundo que agora se revela em Wonderland, a nova exposição da Fundação Marta Ortega Pérez (MOP), na Corunha, em Espanha, patente até 1 de maio de 2026.
▲ “Estou sobre os ombros de tantos fotógrafos que vieram antes de mim e cujas obras estudei. Essa enciclopédia está sempre na minha cabeça", disse na visita guiada
Europa Press via Getty Images
A partir de uma vasta seleção de fotografias, todas elas desemolduradas, revelam-se histórias e momentos marcantes de um percurso notável. Numa visita guiada para a imprensa, conduzida pela própria fotógrafa, Leibovitz revisita as primeiras décadas da sua carreira, quando construiu uma reputação sólida com retratos intimistas de músicos como Bob Dylan, Grace Slick e John Lennon. A importância de contar histórias e o desejo de alcançar a intemporalidade permanecem como dimensões centrais no seu trabalho e reforçam a relevância cultural de uma fotógrafa que inaugurou um novo idioma estético nas páginas da Rolling Stone, da Vogue e da Vanity Fair.
“Estou sobre os ombros de tantos fotógrafos que vieram antes de mim e cujas obras estudei. Essa enciclopédia está sempre na minha cabeça. Adoro contar histórias e penso na sua intemporalidade. Gosto de sair de uma sessão fotográfica a pensar que fiz algo que vai durar no tempo, independentemente de quem está nas fotografias. Para mim, o importante é saber que se trata de algo intemporal”, realça.
Das tournées com os Rolling Stones aos bastidores da moda
Tal como nas exposições anteriores organizadas pela Fundação MOP, Wonderland destaca largamente o trabalho de Annie Leibovitz enquanto fotógrafa de moda, mas não se fica por aí. Neste caso, a exposição assume também a particular relevância de ser a primeira dedicada ao trabalho de uma mulher e artista a figurar no Muelle de Batería, o antigo complexo industrial adaptado pelo ateliê Elsa Urquijo Arquitectos. Por lá passaram já nomes como Peter Lindbergh, Irving Penn e Helmut Newton. No entanto e ao contrário de algumas destas exposições mais orientadas para a dimensão retrospetiva, Wonderland apresenta-se de forma deliberadamente anacrónica, sem grandes adereços nem informações contextuais sobre cada fotografia. É, porventura, sinónimo e reflexo de alguém cuja carreira se encontra ainda no ativo e de um trabalho que, como a própria diz, “continua em construção”.
▲ Em 1975, Mick Jagger, Keith Richards e companhia convidaram-na a acompanhar a digressão da banda como fotógrafa oficial, numa experiência intensa, de meses, que gerou centenas de rolos fotográficos
MATHIEU RIDELLE
Mas voltemos ao seu princípio. Numa sala onde Annie Leibovitz surge diante de uma multidão de jornalistas e câmaras de vídeo e fotografia, revela-se uma instalação imersiva dedicada ao seu trabalho com os Rolling Stones. É o mote para se começar esta viagem. Em 1975, Mick Jagger, Keith Richards e companhia convidaram-na a acompanhar a digressão da banda como fotógrafa oficial, numa experiência intensa, de meses, que gerou centenas de rolos fotográficos. “Esta tour está tão documentada que quase me mata”, diz, entre risos. Foi um primeiro grande salto na carreira. Ao longo dessa década, Leibovitz viu-se perante uma tela em branco para as suas criações, tendo como pano de fundo uma América marcada por grandes convulsões sociais, mas também pelo zeitgeist da contracultura e a eletricidade que o rock’n’roll imprimia às novas gerações.
Olhando para esta parede em versão de road movie, cinco décadas depois, Leibovitz diz apenas ver “frames e reportagem”, memórias de um tempo em que trocou, em definitivo, a pintura pela fotografia. “A câmara, a fotografia salvou a minha vida”, afirma. A terceira de seis irmãos, nascida no Connecticut em 1949, cresceu no seio de uma família americana de classe média, cheia de crianças nas fotografias dos aniversários, nos barbecues entre amigos ou na praia. Foi já nos anos 60, ao estudar no San Francisco Art Institute, que começou a fotografar, nomeadamente os protestos em São Francisco contra a Guerra do Vietname, imagens que lhe valeram uma primeira publicação numa revista que dava igualmente os seus primeiros passos, a Rolling Stone. Aí ficou.
▲ Diz nunca se ter considerado "exclusivamente fotógrafa de moda", mas admite que, ao rever o seu trabalho, a moda sempre esteve presente — na projeção, os reis de Espanha
Europa Press via Getty Images
Quase irremediavelmente, é também deste período que não esquece as fotografias tiradas a John Lennon e Yoko Ono. A mais significativa, onde mostra o ex-Beatle nu e vulnerável, encolhido em posição fetal junto a uma Yoko vestida, foi captada poucas horas antes de Lennon ser mortalmente baleado, em 1980. Desses anos surgem ainda outras fotografias aqui expostas, como a de Sly Stone a conduzir na Highway 5, na Califórnia, ou a icónica imagem de Dan Aykroyd e John Belushi (nas famosas personagens dos Blues Brothers), entre muitas histórias que se recordam. “Relembro os tempos em que acompanhei o escritor Hunter S. Thompson quando cobrimos a campanha presidencial americana de 1972. Para estar ao lado de algumas destas figuras era preciso espírito e mente aguçada”, sublinha.
Narrativa, cor e legado
Na continuação do percurso entre salas, Wonderland mostra a evolução do vocabulário visual de Annie Leibovitz, marcado cada vez mais pela narrativa, com especial destaque para o período em que trabalhou na revista Vanity Fair. Foi lá que Leibovitz chegou, em 1983, disposta a dar uma nova dimensão aos retratos de famosos naquelas páginas acetinadas e glamorosas. Recebida como sucessora de Edward Steichen, foi também nesses anos que, ao contrário de Richard Avedon – mítico fotógrafo que sempre optou pela fotografia a preto e branco –, Annie Leibovitz abraçou a cor, frequentemente saturada na pós-produção, insistindo na relevância da cenografia.
Do estilo hoje reconhecido mundialmente, cada imagem revela um percurso rico em história e uma boa dose de experimentação. Embora muitos destes retratos tenham consagrado Leibovitz no panteão dos maiores nomes da fotografia, a exposição evidencia também a sua capacidade obstinada de revelar versões inesperadas das figuras retratadas – sejam atores e atrizes de Hollywood ou até mesmo monarcas que marcaram indubitavelmente o século XX.
▲ A exposição evidencia também a capacidade obstinada de Leibovitz de revelar versões inesperadas das figuras retratadas
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A última secção de Wonderland apresenta, por seu lado, 100 impressões – muitas inéditas – e várias instalações de vídeo centradas no trabalho da fotógrafa para a moda, sobretudo para a revista Vogue – muitas das quais inspiradas nos contos que a própria diz ter sido parte das suas leituras de infância e, em anos recentes, das suas três filhas. Aqui surgem produções como a série Alice in Wonderland, com Natalia Vodianova e Karl Lagerfeld; também figuram fotografias inspiradas em O Feiticeiro de Oz, com Keira Knightley, ou retratos de Ben Stiller e Penélope Cruz, inseridos em cenários cuidadosamente construídos, carregados de fantasia e referências culturais.
Durante a visita, Leibovitz conta que, inicialmente, não se sentia “particularmente atraída por esse universo”, mas que editora e diretora Anna Wintour foi decisiva para que a moda se tornasse, para ela, uma forma de narrativa visual. Surgem, no seguimento, mais retratos incontornáveis, como os de Sarah Jessica Parker, Melania Trump e Rihanna grávida, numa imagem que evoca a célebre sessão de Demi Moore para a Vanity Fair. Para melhor se compreender o seu percurso, a mostra é acompanhada por um filme e uma publicação de tributo que reúne entrevistas com colaboradores próximos da fotógrafa ao longo da sua carreira, incluindo Bruce Springsteen, Patti Smith, Gloria Steinem, Karen Elson, Tina Brown, Mary Howard e Phyllis Posnick.
▲ “Cada vez que faço uma exposição gosto de devolver algo aos fotógrafos que estão a começar. Esta seleção é para lhes mostrar onde comecei”
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Em paralelo, Wonderland inclui ainda trabalhos recentes, como o retrato de Joan Didion, Diane Keaton, John Currin ou Elon Musk vestido de astronauta, bem como as fotografias oficiais dos reis de Espanha realizadas em 2024. Embora o seu estilo seja reconhecível, Leibovitz demonstra em Wonderland uma abordagem ágil: reage aos temas que cada retratado traz, em vez de impor uma “visão” sobre eles. Diz nunca se ter considerado “exclusivamente fotógrafa de moda”, mas admite que, ao rever o seu trabalho, a moda sempre esteve presente. “É a força motriz de um retrato”, sintetiza.
No texto que introduz a exposição, Matthieu Humery, diretor do Living Archive Program, explica que, ao longo dos anos, o facto de ser mulher jogou a favor de Annie Leibovitz: “Permitiu-lhe ser discreta, sensível, passar despercebida, estar em espaços que outros teriam evitado (…). Essa invisibilidade faz parte do seu selo: fotografar momentos que não teriam existido de outra forma”, lê-se. Sob o signo da mudança e da transformação, Leibovitz olha para o futuro e para o legado da sua fotografia, com a intenção de inspirar novos fotógrafos: “Cada vez que faço uma exposição gosto de devolver algo aos fotógrafos que estão a começar. Esta seleção é para lhes mostrar onde comecei”.
▲ “Toda a gente tem algo para ser visto. Gosto de admirar pessoas, tentar entendê-las, seja um monarca, um designer famoso ou uma pessoa anónima” — na projeção está um retrato de Tom Ford
MATHIEU RIDELLE
Em 2006, quando publica A Photographer’s Life, Leibovitz foi mais longe ao definir a fotografia como uma “escavação arqueológica”. Nunca gostou de falar da vida pessoal, das filhas ou da longa relação com Susan Sontag, mas sempre quis que não se considerasse que vivia duas vidas separadas: “Não tenho duas vidas, só tenho esta, e as imagens pessoais e os trabalhos por encomenda são parte dela”.
De regresso a Wonderland, a procura pelo perfeccionismo permanece evidente. A magnitude das suas produções fotográficas – incluindo uma das últimas para a capa da Vogue norte-americana com Timothée Chalamet – é hoje, cada vez mais, fruto de um processo coletivo, conduzido por uma vasta equipa que a acompanha de perto. São epítetos de uma fotógrafa que se tornou também estrela, embora a maior parte do tempo permaneça escondida atrás da câmara, surgindo apenas em raras ocasiões para explicar um trabalho que não é fácil de antologiar, marcado por recuos, saltos temporais e decisões estéticas rigorosas, onde permanece fiel à sua filosofia: “Toda a gente tem algo para ser visto. Gosto de admirar pessoas, tentar entendê-las, seja um monarca, um designer famoso ou uma pessoa anónima”.
Chegados a 2025, Annie Leibovitz continua a ser a fotógrafa viva mais famosa do mundo, a primeira mulher a conquistar essa honra de forma plena, com obras expostas em museus e galerias de arte pelo mundo todo, e não há sinais de que queira abrir mão desse título.
O Observador viajou a convite da Fundação MOP