Veste o fato do Chega com orgulho, é um fanático do partido e tem um currículo académico invejável que salta à vista — para o bem e para o mal, já que há quem diga que “não bate certo com a personagem”. De um dia para o outro, Miguel Arruda passou de um deputado quase sempre discreto (exceção feita à linguagem agressiva nas redes sociais e ao apoio a Mário Machado) a arguido por suspeitas de furto qualificado de malas nos tapetes rolantes do aeroporto.
Miguel Arruda fez história ao tornar-se o primeiro deputado do Chega dos Açores a sentar-se na Assembleia da República nas legislativas de 2024, que permitiram ao partido eleger 50 deputados. Depois de o partido liderado por André Ventura ter conseguido cinco lugares no parlamento açoriano, incluindo o líder do Chega/Açores, Arruda foi o escolhido para encabeçar a lista às eleições nacionais. E conseguiu um assento parlamentar.
Pelo caminho, ainda antes de chegar a Lisboa para tomar posse, somou uma pequena polémica ao percurso político. Foi nomeado pelo grupo parlamentar do Chega/Açores para “secretário do gabinete”: por quatro dias. O despacho tem a data de 25 de março — 15 dias depois das eleições legislativas (10 de março) —, e “efeitos a partir 21 de março”, pelo que a nomeação acabou por durar apenas até à tomada de posse, dia 26 do mesmo mês — e esse tempo, quatro dias, de salário.
A vida de secretário do gabinete parlamentar nos Açores não podia ter sido mais curta, mas a vida de Miguel Arruda mudaria muito a partir dali: passou a ser deputado da nação, a sentar-se ao lado do homem — André Ventura — que foi idolatrando nos últimos anos e a viajar várias vezes entre Lisboa e São Miguel, nos Açores. Antes disso, contava-se uma passagem pelo PS. E mais recentemente uma proximidade a Mário Machado — tanta que escolheu o seu advogado para o defender no processo.
Recusam-se dificuldades financeiras, mas tem créditos — e currículo salta à vista
Entre políticos dos Açores é praticamente consensual que Miguel Arruda não tem problemas financeiros e que dificilmente será essa a motivação principal dos alegados furtos. No grupo parlamentar do Chega corrobora-se a versão. Há conhecimentos, nos dois lados, de que terá recebido heranças que, a somar ao atual salário de deputado, lhe permitiriam viver sem quaisquer dificuldades.
“É um tipo inteligentíssimo e bem formado, não tem dificuldades financeiras“, garante uma fonte do Chega ao Observador, acrescentando que “nada justifica isto [o alegado furto de malas] em termos financeiros”.
Apesar de aqueles que o rodeiam dizerem que não tinha problemas financeiros, na Declaração Única de Rendimentos, Património, Interesses, Incompatibilidades e Impedimentos, citada pela revista Sábado, está referido que tem créditos de 3.632 euros à Cofidis, de 14 mil euros e de 1.921 euros ao BNP Paribas, de 581 euros de Cartão Universo e de 28 mil euros à Caixa Geral de Depósitos.
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Por outro lado, dá-se relevo ao currículo de Miguel Arruda. Após uma licenciatura em Ciências Biológicas e da Saúde, o deputado do Chega fez duas pós-graduações, uma em Segurança Alimentar e Saúde Pública e outra em Engenharia da Qualidade, e juntou ainda dois mestrados aos estudos: Ciências Biomédicas e Ambiente, Saúde e Segurança. Tudo na Universidade dos Açores.
Salta à vista de todos, até de figuras de outros partidos que se vão cruzando com o deputado açoriano, que “não bate muito certo a personagem com o currículo”, atira uma fonte. “Tem muitos estudos, mas de facto isso não se vê na realidade”, salienta outra. “O background dele não corresponde à persona“, diz uma outra. Há quem comente que “só vê o Chega à frente“, que “não dá para ter uma conversa sem ser sobre esse tema” e que está sempre pronto a “andar de bandeira na mão”. É um “fanático” pelo Chega e pelo Ventura, comenta ainda mais uma outra fonte, açoriana.
O “puto castiço”, mas que “andava sempre cheio de malas”
Dentro do grupo parlamentar do Chega, nada fazia prever uma notícia como aquela que levou o partido a ficar em suspenso — com André Ventura a dizer que o Chega não se refugia e que é preciso o deputado dar explicações públicas e satisfatórias. O partido poderá optar por retirar a confiança política ao deputado ou até por exigir um pedido de suspensão de mandato — algo que o seu advogado, José Miguel Castro, já veio descartar. “[Miguel Arruda] tenciona manter o mandato“.
Porém, há quem, olhando para trás, veja alguns comportamentos estranhos, ao admitir que Miguel Arruda foi visto na Assembleia da República, por várias vezes, com malas grandes — “pelo menos bem maiores do que aquelas que os deputados levam para passar uns dias fora”. E, em mais do que uma ocasião, com mais do que um trolley de viagem, um deles “gigantesco“. A somar a isso, várias pessoas já viram malas no gabinete do deputado na Assembleia da República.
“Anda sempre cheio de malas, a realidade é essa. Umas maiores, outras mais pequenas”, comenta uma fonte do Chega, acrescentando que se reparava nisso, mas não era sequer uma questão para ninguém até à divulgação da notícia. “Ele podia ter de levar ou trazer coisas dos Açores, até se oferecia para trazer coisas de lá quando regressasse, mas a verdade é que aparecia muitas vezes com malas”, reitera a mesma fonte. No mesmo sentido, várias pessoas confirmaram que chegou a trazer tabaco das ilhas, até para deputados de outros partidos.
Se há quem destaque as tais malas, há também quem recorde o “peso” que trazia sempre às costas, numa “mochila que mais parecia um paraquedas”. Ficava “tímido” e “envergonhado” quando era questionado por outros deputados, mas lá contou que a mochila vinha muito cheia porque andava a fazer uma dieta e lá dentro trazia “dois garrafões de água [de 5 litros] com chá para beber durante o dia”.
Apesar de ser “confuso” e de ter atitudes que hoje estão a fazer repensar quem o rodeava — nomeadamente o facto de ficar embaraçado com certas perguntas e fazer de tudo para não responder —, no Chega procuram-se explicações para o que terá acontecido. À primeira vista, ninguém encontra uma exatamente plausível.
Também na vizinhança, sem que houvesse qualquer indício ou suspeita de crime, Miguel Arruda dava nas vistas por, ironicamente, transportar malas. “Ele está cá há pouco tempo. Costumava ouvir o barulho das malas a subir pela escada acima, que ele era um homem grande, fazia muito barulho”, comenta um vizinho de Miguel Arruda com o Observador, lembrando o barulho das rodas das malas nas escadas antigas, de madeira.
Outros deputados ouvidos pelo Observador têm dificuldades em acreditar na versão de furto de malas nos tapetes do aeroporto e falam de um colega “bastante afetuoso” no trato, com “traços de carência”, em constante “busca de validação” e até tímido, principalmente com algumas figuras do Chega mais reconhecidas e que, meses antes, via quase só pela televisão. André Ventura à cabeça, obviamente.
“É um puto castiço, amigo de toda a gente dentro do grupo parlamentar e até de outros partidos, uma alma purinha que não faz mal a ninguém”, defende uma fonte ouvida pelo Observador. “A confirmar-se, é uma surpresa para toda a gente”, remata outra.
A passagem pelo PS e as comparações com ‘O Padrinho’
Antes do Chega já havia uma história de Arruda na política. Apesar de muitos dizerem que não se lembram dele dessa vida, ao contrário de outros membros do Chega/Açores que migraram de cores políticas distintas, Miguel Arruda esteve na JS e no PS. Foi o próprio que o confirmou numa entrevista ao Açoriano Oriental durante a campanha eleitoral para as legislativas.
“Eu pertenci à Juventude Socialista e ao PS e desvinculei-me porque deixei de acreditar. Por estes dias estava ver um filme e lembrei-me do meu passado. O filme era ‘O Padrinho’… A teia de cumplicidades e aldrabices que existe na política regional dentro de partido de onde vim são muito estranhas e a última vítima chama-se Vasco Cordeiro… E temos uma pessoa sentada faustosamente no Largo do Rato a decidir o destino do Partido Socialista aqui nos Açores… Chama-se Carlos César”, contava nessa entrevista.
Disse ter sentido “na pele” que “o PS está dominado pela família César” e juntou-se ao Chega por entender que “as coisas não são como as pessoas as pintam”. Chegou a dizer que nunca se sentiu “minimamente marginalizado” mesmo depois de ter assumido ser ateu, uma “minoria” dentro do partido.
Antes de ser candidato à Assembleia da República foi candidato autárquico. É dirigente regional e já fez parte do Conselho Nacional do Chega. Já no Parlamento, além de integrar a Comissão de Agricultura e Pescas, é membro suplente das comissões de Transparência e Estatuto dos Deputados, do Ambiente e Energia e da eventual de acompanhamento da execução e monitorização da Agenda Anticorrupção, bem como da de acompanhamento de Execução do PRR e PT2030. Antes de chegar ao Parlamento, Miguel Arruda trabalhava na empresa intermunicipal Musami como técnico superior do Ambiente. Foi também sargento no Exército durante sete anos.
O advogado de Mário Machado, a defesa do neonazi e as citações de Salazar
Deputados de outros partidos foram notando, em declarações na Assembleia da República e na rede social X, que Miguel Arruda não faz grandes esforços para disfarçar simpatias. O uso de citações de António de Oliveira Salazar — desde “Quem não é patriota, não é português” a “A lealdade é a verdade do sentimento: é impossível ser desleal sem mentir à consciência, sem ludibriar a consciência alheia” — estão presentes em várias publicações, a última delas a acompanhar uma foto onde está a abraçar André Ventura. Há também alguma dose de saudosismo nas suas publicações: “Salazar fazia tanta falta”, chegou a escrever.
A página oficial de Miguel Arruda na rede social X parece também um mural de defesa a Mário Machado — o que já motivou a avisos até dentro Chega. Mas nem por isso apagou a maioria dos conteúdos. Numa das últimas publicações afirmou o seguinte: “Posso dizer com certeza que Mário Machado é um preso político.” Na declaração, escrita em inglês, identificava Elon Musk.
Mas Miguel Arruda não se fica por aqui. O deputado republica vários posts de páginas que defendem que existe racismo contra os europeus, muitos com conteúdo ligado ao próprio Mário Machado. Pede “prisão e deportação” quando partilha uma publicação que dá conta de alegados crimes praticados por estrangeiros. Além de ter um tweet a reforçar que “existe uma correlação clara entre imigração e crime“, sugerindo que “basta visitar uma prisão portuguesa”.
Foi exatamente o advogado que já defendeu Mário Machado, líder do grupo nacionalista 1143 em vários casos, que Miguel Arruda escolheu para o defender no caso do alegado furto de malas em aeroportos. Além disso, José Manuel Castro é também secretário-geral do ADN, Alternativa Democrática Nacional.
Menos de um ano depois de ter sido eleito deputado, Miguel Arruda é suspeito de ter furtado malas no aeroporto. A defesa assegura que“está inocente” e apontou para “uma precipitação dos órgãos de polícia criminal”. Do lado da investigação, fonte judicial garantiu que “há clara evidência através da videovigilância” existente no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, e “indícios claros” de furto por parte do arguido. Agora, Miguel Arruda, além da investigação, terá de lidar com a decisão do Chega sobre o seu futuro.