Índice
Índice
Num mundo em que não houvesse um tal de Viktor Gyökeres, Morten Hjulmand seria, com toda a certeza, a figura deste Sporting bicampeão. Num plantel em que o sueco coabita, o dinamarquês não passa do “melhor dos outros”. À primeira vista, esta pode nem ser a melhor expressão para descrever o percurso de Hjulmand ao longo das últimas duas temporadas. Porém, se voltarmos a passar os olhos pelas linhas e tivermos em conta apenas a realidade, o médio, no alto da sua humildade, não aparenta estar preocupado com o que se diz sobre si, nem com o que é capaz de atingir em termos individuais. O que lhe importa é o coletivo. E falar do coletivo do Sporting é falar de Hjulmand, um dos nórdicos que aterrou em Alvalade como um mero desconhecido e que não precisou de muito para conquistar os adeptos e deixar a sua marca no Campeonato Nacional. Falar de Hjulmand é falar de um Sporting menos nervoso, com mais frieza e mais consciente do seu valor. Falar de Hjulmand é falar do capitão que aguentou o barco quando tudo à sua volta se estava — ou parecia estar — a afundar.
Ao longo dos últimos dois anos, um dos dados que saltou à vista no plano desportivo dos leões foi a aposta no mercado nórdico, que cresceu nos últimos anos e tem produzido e revelado inúmeros talentos. Se olharmos para o panorama nacional, foi em parte por aqui que passou a conquista do título de campeão nacional de Roger Schmidt no Benfica, com os encarnados a contratarem, num curto espaço de tempo, os dinamarqueses Alex Bah e Casper Tengstedt, bem como os noruegueses Fredrik Aursnes e Andreas Schjelderup. De uma forma ou de outra, todos foram aposta nas águias e, de um modo geral, deram rendimento à equipa. Foi com essa perspetiva, e uma visão aberta a novas oportunidades de mercado, que Frederico Varandas, Ruben Amorim e Hugo Viana “replicaram” a mesma aposta do outro lado da Segunda Circular. O objetivo era o mesmo, recolocar o Sporting na rota dos títulos, mas os valores investidos por jogadores que estavam fora do horizonte dos adeptos portugueses colocava um grande ponto de interrogação nas movimentações do trio que comandava o futebol leonino.
Falamos, claro está, de Morten Hjulmand, Viktor Gyökeres e Conrad Harder. Os dois primeiros chegaram no verão de 2023 e custaram mais de 40 milhões de euros (42,5). Já o avançado dinamarquês aterrou num Sporting campeão no início desta época e custou mais 19 milhões de euros, para além de chegar a Alvalade com a difícil missão de substituir o sueco num futuro que se espera o mais longínquo possível. Os dois primeiros deixaram rapidamente a sua marca. O mais jovem continua à procura do seu espaço, mas o potencial promete animar e galvanizar os adeptos. Para além dos valores um tanto ou quanto similares, que “obrigaram” Varandas a fazer as maiores contratações da história do clube, e, claro está, da região onde nasceram, o que é que os três nórdicos têm em comum? O potencial, o impacto na equipa e no balneário e o facto de terem passado de anónimos para as principais referências de uma equipa que vale mais pelo seu todo do que propriamente pela componente individual.
É aqui que entra Hjulmand, um produto das escolas do Copenhaga que não precisou de muito tempo para se destacar como médio defensivo e chegar às seleções jovens da Dinamarca, algo que aconteceu em 2017. Aos 18 anos mudou-se para a Áustria e assinou pelo Admira Wacker por quatro temporadas. Apesar de não ter experiência no futebol sénior, o dinamarquês impôs-se de imediato na equipa austríaca e estreou-se em três competições diferentes no espaço de nove dias: Taça da Áustria (derrota por 1-0 frente ao Neusiedl), Liga Europa (derrota por 3-0 contra o CSKA Sofia) e Bundesliga austríaca (derrota por 3-0 ante o Rapid Viena). Os resultados deixavam antever o pior, mas Hjulmand terminou a sua primeira temporada sénior com 32 partidas realizadas. No ano seguinte, apontou o seu primeiro golo de sempre, frente ao Altach (fora, 4-1). Depois de duas temporadas e meia e 68 jogos, assinou pelo Lecce, em janeiro de 2021, a troco de 170 mil euros.
Na Serie B, voltou a estabelecer-se como um dos pilares da equipa, foi eleito um dos melhores médios daquele Campeonato e ajudou a equipa a chegar às meias-finais do playoff de subida. Apesar de ter falhado a subida à Serie A, o Lecce completou esse objetivo na época seguinte, com Hjulmand como capitão. A situação manteve-se em 2022/23 e, a 13 de agosto de 2022, com 23 anos, o dinamarquês tornou-se no capitão mais jovem do clube a disputar uma partida da Serie A (derrota por 2-1 frente ao Inter Milão).
Em Itália, Hjulmand desenvolveu o seu jogo e tornou-se num dos jogadores da Serie A com mais quilómetros percorridos por partida (raramente abaixo dos 10) e mais recuperações de bola. Foi assim que, depois de ter escapado por pouco à descida, apareceu o Sporting e o Lecce aceitou a oferta de 18 milhões, que pode chegar aos 21 milhões. O nórdico tem uma cláusula de 80 milhões e foi uma das grandes apostas de Ruben Amorim para reconquistar o Campeonato e substituir Manuel Ugarte. A afirmação foi praticamente imediata, o que levou Amorim a considerá-lo mais completo que o uruguaio e João Palhinha, dada a sua tendência de aparecer em zonas mais avançadas do terreno de jogo. Na primeira época foi eleito para o onze do ano da Primeira Liga.
▲ Hjulmand sagrou-se campeão na sua primeira época em Portugal
Getty Images
Da ambição à confirmação: Hjulmand, o capitão
A 16 de junho, durante o Campeonato da Europa disputado na Alemanha, Hjulmand falou ao Observador depois de a Dinamarca ter empatado com a Eslovénia (1-1). Nessa ocasião, o médio do Sporting mostrou-se agradado com a hipótese de ser capitão, tendo em conta as saídas de Seba Coates, Antonio Adán, Luís Neto e Paulinho, alguns dos elementos mais velhos do plantel e que tinham o papel de liderança. “Pronto? Não sei, têm de perguntar aos treinadores [da seleção e do Sporting]. Mas claro que sim, claro que quero ser capitão. Quem sabe um dia”, confidenciou. Esse dia acabou por chegar mais depressa do que o dinamarquês estava à espera e, a 7 de julho, tornou-se no novo capitão de equipa. A estreia oficial com a braçadeira no braço aconteceu na Supertaça Cândido de Oliveira, vencida pelo FC Porto (3-4 a.p.). A escolha acabou por ser óbvia, tendo em conta as diversas saídas de líderes que aconteceu ao longo da janela de transferências de verão. O facto de já ter sido líder no passado — em Itália, como já vimos —, terá pesado nas escolhas de Amorim e Viana, que elegeram ainda Daniel Bragança, Gonçalo Inácio, Pedro Gonçalves e Matheus Reis para o novo lote de capitães.
Hjulmand quer “ser capitão”, Bah quer “estar de volta”. Os dois “portugueses” da Dinamarca no Euro
Assim que a escolha foi conhecida, houve quem dissesse que Hjulmand tinha todos os requisitos para desempenhar a função, já que é um jogador com “esforço, dedicação, devoção e glória”, valores condizentes com o lema do clube de Alvalade. A análise mais racional permitia perceber que o camisola 42 desempenhava um papel importante dentro de campo, tinha conquistado o seu espaço fora dele e o facto de ter começado a aprender português praticamente quando chegou, “deu-lhe pontos” nessa condição, tendo em conta que a comunicação entre colegas, treinadores e árbitros é fundamental. Este fator indica ainda que a estrutura dos leões já tinha o plano delineado para quando Coates saísse, algo que aconteceu antes do esperado devido aos problemas familiares que levaram o central de volta ao Uruguai. A contratação de Zeno Debast também surgiu nessa toada, mas o internacional belga encontra-se ainda numa espécie de ano zero e teve de ser relegado da sua posição.
“Serei responsável por ser uma figura de proa no clube. É assim quando se é capitão. Estou preparado para esse papel, já o estou desde há algum tempo e sinto-me bem. Aprendi muito com todos os jogadores que deixaram o clube na última época. É triste que não estejam cá, mas o futebol é assim. Já tive a experiência de ser capitão no Lecce, portanto vai ser bom passar por isso outra vez no Sporting. Mas claro, vamos sentir falta de Seba, Paulinho, Antonio e Neto. É verdade que tenho de melhorar o meu português. Estou a dar o meu melhor, mas isso não será um problema para falar com os árbitros. Farei tudo para ter boas conversas com eles, sempre com respeito”, partilhou o novo capitão durante a pré-época. A partir daí, começou a construir-se uma relação de liderança que ganhou as bases na época passada e que levou Amorim e Varandas a depositarem grande confiança em Hjulmand.
▲ Hjulmand tornou-se capitão na presente temporada
JOSÉ COELHO/LUSA
O centro-campista tornou-se num dos elementos do balneário mais próximo do presidente leonino, sendo através de Hjulmand que Frederico Varandas sabe de tudo o que se passa, de positivo e negativo no grupo de trabalho, tal como aconteceu aquando da saída de Amorim e as chegadas de João Pereira e Rui Borges, episódios que marcaram a presente temporada e foram vividos de forma diferente pelos jogadores. quando a saída de Ruben Amorim para o Man. United começou a ganhar forma, Hjulmand foi mesmo um dos elementos mais vocais, exigindo uma explicação ao agora ex-treinador, tal como revelou o Observador em outubro. Antes do jogo com o Man. City (4-1), naquela que foi a despedida do treinador de Alvalade, o médio foi o elemento escolhido para estar na conferência de imprensa e partilhou com os jornalistas o que sentia nessa altura.
“Foi difícil ouvir que o Ruben ia sair. Fiquei triste quando ouvi que ia deixar o Sporting mas, no futebol, estas oportunidades surgem. É normal no futebol. O que espero é que o Ruben sinta orgulho por receber uma proposta deste tipo. É um desafio positivo conquistar o Campeonato sem o Ruben. Será o nosso principal objetivo esta temporada. Agora, queremos demonstrar que já não precisamos do Ruben. No futebol nunca há garantias, mas foi uma semana muito dura. Jogámos três jogos e o treinador não nos deixou descansar nenhum dia. Foi uma semana dura, a ouvir o que estava a acontecer e a falar com o Ruben sobre o que estava a acontecer. Ainda assim, precisamos de pensar em ganhar. Não foi fácil, mas estamos conformados com a saída do Ruben. Teremos um bom treinador, em que acreditamos. Todos fizeram uma boa escolha, acredito nele e os adeptos também. Controlámos a situação e devemos recordar-nos que o Campeonato ainda decorre e podemos vencê-lo”, revelou, deixando o mote para o resto da temporada: ganhar sem Amorim.
O prémio de melhor do ano, a renovação e o bicampeonato vivido fora de campo
O ano de 2024 foi, provavelmente, o melhor da carreira de Morten Hjulmand. Para lá de se ter afirmado numa equipa campeã e de Liga dos Campeões, e de ter conquistado a braçadeira de capitão, o médio foi eleito o melhor dinamarquês do ano, num prémio em que foi votado pelos colegas e em que sucedeu a Andreas Christensen, central do Barcelona. Para além disso, o impacto que tem tido no Sporting revela-se dentro e fora de campo, com Frederico Varandas a cogitar uma eventual renovação de contrato, que permita ao 42 ficar em Alvalade por mais uma época, até 2029. Enquanto os rumores não se confirmam, ponto assente é que o dinamarquês só sai do Sporting pelos 80 milhões de euros estipulados na cláusula de rescisão.
As última semanas do Campeonato trouxeram ao de cima o papel de liderança de Hjulmand que, apesar de ter estado em risco de falhar o jogo com o Benfica, na Luz, por acumulação de amarelos, foi poupado frente ao Gil Vicente, mas teve de saltar do banco numa fase complicada da partida. Decorria o minuto 64 quando o capitão foi chamado a intervir, numa fase em que a equipa de Barcelos vencia pela margem mínima (0-1) e o jogo não estava de feição para os leões. A imagem que saltou imediatamente à vista, quando as câmaras focaram o médio, foi a do capitão a pedir calma e cabeça aos companheiros de equipa. A partir daí, para lá da melhoria no futebol verde e branco, os jogadores corresponderam ao pedido e transformaram um resultado negativo num importante 2-1 que catapultou o Sporting para o bicampeonato. No dérbi, viu o amarelo que o tirou da última jornada aos 19 minutos, mas nem por isso deixou de se manter sereno e ser um dos melhores em campo, num jogo que contou com a presença dos pais no meio dos adeptos e na caixa de segurança.
O resultado do jogo deve-se a este enorme jogador.
Morten: “ Bora mas calma, calma”.@SportingCP pic.twitter.com/waTeSUHcQF— Rui Santos (@76rsantos) May 4, 2025
A família do Hjulmand está no cortejo e vai estar junta dos 3 mil Sportinguistas no Estádio da Luz ???? pic.twitter.com/d493AUMqPQ
— Sporting CP Adeptos ???????? (@Sporting_CPAdep) May 10, 2025
Falhar a última partida do Campeonato foi, certamente, um dos momentos mais difíceis da temporada, mais ainda depois de todos os incidentes que marcaram a semana e de o V. Guimarães ter “usado” Hjulmand para responder a Rui Borges. “Sugerimos que ninguém incorra na insensatez de dizer que Morten Hjulmand, um capitão de equipa sério, comprometido e profissional, terá forçado a amostragem do nono cartão amarelo no recente dérbi lisboeta para não defrontar o V. Guimarães na última jornada da Primeira Liga, evitando assim a amostragem de um eventual vermelho que o afastaria automaticamente da final da Taça de Portugal”, escreveram os vitorianos. Alheio a isso, o capitão voltou a mostrar a sua importância e deixou uma mensagem nas redes sociais: “Vemo-nos no sábado. No nosso estádio”. E foi este sábado, em Alvalade, que Hjulmand levantou o troféu do bicampeonato.
Um dia com Hjulmand, o jogador calmo e “sempre com uma mentalidade positiva”
Olhando ao episódio de Morten Hjulmand da série “Um dia com”, produzida pelos leões, o dinamarquês apresenta-se como uma pessoa muito tranquila, animada e com humildade. Ao longo dos cerca de 20 minutos — que passam a correr —, o futebolista mostra como é vivido o seu dia a dia. Começa bastante cedo, mas é na Academia Cristiano Ronaldo que toma o pequeno-almoço, bebendo apenas um batido proteico durante a viagem. Antes de comer as suas papas de aveia com mel e fruta e dois ovos “bem passados”, beber um chá, sumo de laranja e um café, o que salta à vista é a tranquilidade com que apresenta um português quase exemplar, não se coibindo de utilizar palavras teoricamente mais complicadas, como a expressão “meinhos”. Para além disso, o bom tempo é algo que também agrada ao capitão: “Todos os dias são assim”.
Quando chega à Academia do Sporting, Hjulmand cumprimenta com um “bom dia” (em português) todas as pessoas que se cruzam consigo, desde os companheiros de equipa àqueles que por lá trabalham. Os momentos de diversão são habituais, como quando diz a Morita “ontem comi comida japonesa”, ou quando se “pica” com Harder e Paulinho, o roupeiro, por conta da língua. É precisamente com Paulinho que se nota uma grande ligação, com Hjulmand a chamá-lo efusivamente quando este lhe pede para autografar uma fotografia, e com quem tem até um cumprimento especial. Gyökeres é outro dos elementos mais próximos, tratando-o por “mano” (aqui em inglês). Pela tarde, depois do treino, o médio prefere jogar xadrez ou ir ter com a noiva Emilie Sofie Nissen ao café onde esta trabalha como barista. Nissen também fala português e ambos têm um cão, Olau, que acompanha Hjulmand durante o período de descanso. Até ao fim do episódio, o dinamarquês partilhou ainda que gosta de apreciar a calma que a Margem Sul lhe proporciona e sublinhou que o importante é ter “sempre uma mentalidade positiva”.