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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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"Achamos que vivemos numa meritocracia mas vivemos numa 'herançacracia'", diz o jovem economista, estrela do YouTube, Gary Stevenson

Gary Stevenson virou as costas a uma carreira ultra-lucrativa na banca para, hoje, ser uma vedeta do YouTube, onde publica vídeos a alertar para a desigualdade social crescente – e muito perigosa.

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“Estamos perante o fim do capitalismo, o fim da meritocracia e da mobilidade social”, declara Gary Stevenson, uma estrela do YouTube que publica regularmente vídeos vistos por milhões de pessoas sobre Finanças e Economia. Mas, ao contrário da maioria dos youtubers nesta área, o protagonista de “Gary’s Economics” não dá dicas sobre como enriquecer nem fala sobre as melhores estratégias para atingir a “independência financeira” ou sobre o que fazer para se aposentar mais cedo. Pelo contrário, este economista, ex-trader bolsista, usa o seu canal para avisar, nos termos mais simples que consegue, que as sociedades ocidentais estão perante um enorme risco: uma crescente desigualdade social que pode tornar-se muito perigosa e ameaçar os padrões de vida que tomamos como adquiridos.

Essa desigualdade social de que Gary Stevenson fala não tem nada a ver com desigualdades salariais mas, sim, com o que considera serem enormíssimas desigualdades de património acumulado – que, por definição, só tende a acumular-se mais, deixando cada vez mais pessoas na miséria ou perto dela. E isso é perigoso para a estabilidade das sociedades, dos sistemas políticos e, também, para a saúde mental das pessoas, sobretudo os jovens, porque “eles cresceram a ouvir os adultos dizerem que se se esforçassem poderiam ter uma vida confortável – e, agora, isso não está a acontecer“.

“Tornou-se praticamente impossível competir, através do trabalho, com outra pessoa que teve a sorte de nascer numa família mais rica“, afirma Gary Stevenson. “Achamos que vivemos numa meritocracia mas, na realidade, vivemos numa herançacracia“, afirma, em entrevista ao Observador.

Gary Stevenson veio a Portugal a convite da editora Leya, que acaba de publicar a tradução do livro do britânico: “O Jogo dos Milhões“, onde se conta a história de como o jovem de origens humildes conseguiu, contra todas as probabilidades, entrar no frenético mundo da alta finança – ganhando “rios de dinheiro” enquanto, lá fora, a “economia colapsava”. E conta, também, como, quando quis deixar tudo, isso foi muito mais difícil do que poderia imaginar.

“Lehman em colapso, economia em colapso e nós, no banco, ganhávamos rios de dinheiro”

Tem conquistado largas centenas de milhares de seguidores, quase 1,5 milhões só no YouTube, sem contar com outras plataformas, com o seu canal “Gary’s Economics”. Mas para quem não o conhece, pode falar-nos um pouco sobre si e sobre o trabalho que faz?
Claro, sou o Gary Stevenson, cresci em Londres, em miúdo vi os arranha-céus nascerem no leste de Londres [o novo centro financeiro na zona de Canary Wharf] e, talvez por isso, sempre tive o sonho de trabalhar num banco. Venho de uma família bastante modesta mas sempre estudei muito e, na escola, sempre fui muito bom a matemática. Mas cheguei a ser expulso da escola secundária aos 16 anos por vender drogas (canábis). Acabei por continuar a estudar, no entanto, tive boas notas e consegui entrar na London School of Economics – que é um lugar um pouco doido…

Porquê “doido”?
É cheio de miúdos muito ricos que vêm de várias partes do mundo e vão para ali estudar. Mas não vão só estudar. Quero dizer, eu achei inicialmente que se tivesse boas notas isso ia garantir que teria um bom emprego, mas percebi que não é bem assim. O que acontece é que toda a gente usa a sua rede de conhecimentos e as suas atividades extracurriculares e é dessa forma que se conseguem os empregos.

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Que tipo de atividades extracurriculares?
Muitas coisas, ou fundam uma instituição de solidariedade ou tocam algum instrumento musical e fazem parte de um grupo. A verdade é que eu não tinha nada disso, só conseguia estudar e tentar tirar boas notas, na esperança de que alguém notasse. Depois o que aconteceu – e eu conto isso em detalhe no livro – foi que havia um jogo de cartas que dava um emprego a quem ganhasse. Eu ganhei esse jogo e tornei-me trader [operador bolsista] no Citibank em junho de 2008, ou seja, a poucas semanas do início da crise financeira.

O que fazia lá?
Era um trader na divisão de taxas de juro de curto prazo, que ganhou muito dinheiro durante a crise financeira. Eu estava a ver o [banco de investimento norte-americano] Lehman [Brothers] a implodir e a economia mundial a colapsar mas, ao mesmo tempo, a minha equipa estava a ganhar rios de dinheiro. E eu era um puto a tentar perceber como é que aquilo estava a acontecer. Em parte, era porque estávamos a conseguir fazer previsões sobre a economia e sobre a evolução das taxas de juro que estavam corretas, ao contrário da maior parte das previsões que estavam a fazer-se. Estávamos, regra geral, a prever que a economia (e as taxas de juro) não ia recuperar tão rapidamente quanto se pensava – e, com essa aposta, ganhámos muito dinheiro.

"Andei pelos partidos de esquerda, que é se uma pessoa imagina que irá encontrar pessoas que se preocupam com desigualdade – mas, curiosamente, é surpreendente o baixo número de pessoas na esquerda que realmente se dedicam a trabalhar nesse tema."

A certa altura, cinco ou seis anos depois, fartou-se disso…
Bem, eu tinha apostado muito agressivamente que a economia continuaria fraca, durante muito, muito tempo, e estas apostas foram muito bem-sucedidas. Em 2011, tornei-me o melhor operador do Citibank no mundo. Recebi muito dinheiro. Foram mais de dois milhões de dólares só nesse ano: no fundo, estava a ser pago por apostar nestas coisas terríveis. E penso que se pode dizer que tive uma espécie de esgotamento, percebi que estamos a caminhar para uma enorme crise de desigualdade social e tinha de tentar fazer algo quanto a isso. Não consegui continuar naquele mundo: decidi que queria tentar parar, o que foi mais difícil do que eu esperava, como conto no livro.

Sim, conta que foi, por exemplo, ameaçado pelos seus superiores. E depois de sair do Citibank, o que fez?
Bem, eu era economista, era um trader, mas não sabia como lidar com grandes problemas económicos do ponto de vista das políticas públicas. Andei pelos partidos de esquerda, que é onde se imagina que se irá encontrar mais pessoas que se preocupam com desigualdade – mas, curiosamente, é surpreendente o baixo número de pessoas na esquerda que realmente se dedicam a trabalhar nesse tema. Envolvi-me com um think tank, o New Economics Foundation, voltei para a universidade, fiz um mestrado em economia em Oxford, de 2017 a 2019. Mas, mais uma vez, achei também esse lugar muito chique e riquinho, com muita matemática mas pouco envolvimento com o que estava realmente a acontecer no mundo. Então comecei a escrever nos jornais mas percebi que há uma grande parte do público que está preocupada com a sua situação económica mas com quem não se está a comunicar de forma eficaz e acessível pela TV, pelos jornais – e essas pessoas estão a ir para as redes sociais, onde acabam por ver todo o tipo de porcarias, coisas de extrema-direita, coisas que roçam o racismo, coisas anti-semitas, golpes financeiros com criptomoedas, com trading, promessas de enriquecimento rápido… Foi aí que criei o canal de Youtube.

Financial Times

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Gary Stevenson garante que nunca leu, na totalidade, a peça que o Financial Times escreveu sobre si, onde se coloca em causa que o trader, enquanto estava no Citibank, fosse assim tão talentoso e bem-sucedido. Essa peça baseia-se em declarações de antigos colegas, uns identificados outros não, que dizem que Gary estava muito longe de ser considerado o melhor trader do mundo, do Citi ou, até mesmo, da sua equipa.

Questionado pelo Observador, Gary Stevenson diz que, apesar de não ter lido a notícia, sabe “o que lá está” e sabe que “aquilo foi promovido por um antigo colega, que aparece retratado no livro [com um nome fictício]”. “Alguns dos ex-colegas não gostaram da forma como foram retratados no livro e parece-me que terão decidido, em conjunto, que a melhor forma de se vingar era dizer ao Financial Times que eu sou um mentiroso – o que não é agradável mas não é surpreendente”.

O que nos pode dizer sobre a demografia de quem o vê e ouve?
O nosso principal grupo são as pessoas entre os 25 e os 45 anos. Temos mais homens do que mulheres: no YouTube são 85% homens mas no Instagram os homens são só 55%. Não temos tanto sucesso com as pessoas com menos de 25 anos, acho que talvez seja porque ainda são muito jovens e acham que conseguem vencer este jogo…

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“Achamos que vivemos numa meritocracia mas, na realidade, vivemos numa “herançacracia”

Falemos, então, sobre o “jogo” a que se refere, um “jogo” que está relacionado com a mobilidade social, um “jogo” que considera que está “viciado” e que está a levar a uma desigualdade social cada vez maior. Quais são, para si, os dados ou observações que comprovam melhor e retratam essa desigualdade?
Um ponto prévio muito importante: o que me preocupa é a desigualdade de património, não a desigualdade de rendimentos ou salários. O meu foco não é o facto de um médico ganhar 200 mil por ano e um banqueiro um milhão. Eu falo sobre a desigualdade na propriedade e, em particular, o top 1%, aquelas famílias que têm patrimónios que em muitos casos ascendem a 100 milhões, 500 milhões… Estas famílias, se não se fizer nada quanto a isso, elas, porque têm tanta riqueza, geram uma enorme quantidade de rendimento passivo [rendas, juros, rendimentos de capital etc]. Isso não é tão problemático quando a economia está a crescer, mas quando a economia não está a crescer rapidamente o que acontece é que estas famílias muito ricas não têm onde investir a sua riqueza senão não comprando ativos que são escassos. Começam a sugar a riqueza da classe média e até do Estado. As famílias comuns começam a não conseguir competir para poderem adquirir propriedades e outros ativos – em particular casas, que são a principal forma através da qual a classe média europeia acumula riqueza. E o Estado? Há cinquenta anos, o Estado tinha muita riqueza e pouca dívida: agora é o contrário. E para onde está a ir essa riqueza? Está a ser acumulada por uma elite internacional, muito rica e super-rica.

Um dos seus vídeos chama-se “Como ficar rico”, no qual, por detrás desse título mais apelativo, está um monólogo sobre como, na sua leitura, as nossas sociedades estão estruturadas de uma forma em que é decisivo na vida de alguém nascer numa família privilegiada em vez de nascer numa família de classe média ou até baixa. Isso tornou-se um problema maior nas últimas décadas?
A grande questão sobre a qual não se fala o suficiente é este aumento enorme dos preços dos ativos em comparação com os salários. Ativos como as casas, por exemplo. No Reino Unido, há 50 anos, podia-se comprar uma casa por duas vezes o rendimento médio (anual). Agora, em locais como Londres, é bem mais de 10 vezes o rendimento médio anual. E sei que estão a acontecer coisas semelhantes aqui no Porto, em Lisboa e outras cidades . O que isto significa é que cada vez importa menos o que conquista através do trabalho. Tenho amigos que andaram em boas universidades, tenho amigos que ganham duas ou três vezes o rendimento médio, o que é muito! Mas não conseguem comprar uma casa. Mas sabe quem está a comprar casas?

Quem?
As pessoas que estão a comprar as casas são pessoas que até podem ter salários mais baixos mas cujos pais têm casas e lhes podem dar 300.000 libras, 400.000 libras, para assegurar uma entrada. Ou seja, mais do que o trabalho ou a carreira, o que faz a diferença é aquilo que se herda da família. Imagine que duas pessoas são irmãs, vêm do mesmo contexto familiar, uma delas poderá ter uma vida financeira melhor do que a outra, com base no trabalho, claro que poderá haver uma diferença. Mas mesmo que uma ganhe 100 mil libras por ano e a outra 75 mil libras por ano, mesmo a que ganha 100 mil não consegue comprar uma casa. Para mim, isto significa que estamos perante o fim do capitalismo. É o fim da meritocracia, da mobilidade social. Tornou-se praticamente impossível competir, através do trabalho, com outra pessoa que teve a sorte de nascer numa família mais rica. Achamos que vivemos numa meritocracia mas, na realidade, vivemos numa herançacracia. E isto é péssimo para a saúde mental dos jovens, porque cresceram a ouvir que se se esforçassem iam ter sucesso mas, por causa deste problema, muitas vezes não conseguem. Esse vídeo conclui que só há uma forma eficaz de enriquecer, que é ter pais ricos. É claro que o vídeo é um pouco cómico e um pouco exagerado, mas acho que levanta um tema verdadeiro sobre o impacto destas subidas dos valores dos ativos para as nossas sociedades.

Que mecanismos é que existem para tentar contrabalançar esse efeito? Estou a pensar, por exemplo, na literacia financeira, aprender desde cedo a tomar decisões inteligentes sobre o dinheiro, sobre o endividamento, sobre os investimentos…
A literacia financeira é, obviamente, importante, e não é bem ensinada nas escolas. Por isso é que as pessoas vão para a internet e recebem conselhos errados… embora também haja quem dê bons conselhos na internet. A literacia financeira é importante, mas temos de ser realistas… Para os 50% de cidadãos mais pobres não há muito que possam fazer na gestão das suas finanças – podem fazer pouco mais do que aprender a poupar mais. Porque não têm recursos para investir. Quem é que, com menos de 30 anos, conseguiu acumular 100 mil euros para investir? Podem ter acumulado 10 mil, por exemplo, mas com isso não há muito que se consiga tirar em termos de rentabilidade, como é óbvio, por muita literacia financeira que se tenha. Não me interprete mal, acho que é muito importante, mas temos de ser realistas: o que temos é uma crise enorme de desigualdade e não é apenas com mais literacia financeira que isso se vai resolver. Vivemos numa espécie de Squid Game em que estamos todos a lutar cada um por si, a tentar ser aquele tipo que consegue uma boia. Se calhar é melhor ideia tentarmos evitar que o barco se afunde.

"Vivemos numa espécie de "Squid Game" em que estamos todos a lutar cada um por si, a tentar ser aquele tipo que consegue uma bóia. Se calhar é melhor ideia tentarmos evitar que o barco se afunde."

“Não há forma de sair disto sem taxar os mais ricos”

O francês Thomas Piketty escreveu, com base em dados históricos, que em períodos de extrema desigualdade a única coisa que acabou por contribuir para nivelar mais essa desigualdade foi a guerra – porque, numa guerra, é preciso taxar os ricos para financiar esse esforço, e por aí adiante…
Sim, a História mostra-nos que a Segunda Grande Guerra, por exemplo, as guerras podem levar a episódios de redistribuição da riqueza. Mas nem sempre é assim, e obviamente ninguém pode estar a torcer para que haja uma guerra para que a sociedade se nivele mais. Lembre-se que os EUA, por exemplo, foram fundados por gente que sabia muito bem o perigo da concentração de riqueza, e tentaram criar um país onde isso não acontecesse, mas agora é o que se vê: milionários transformam-se em bilionários, bilionários transformam-se em trilionários…

Então o que devíamos fazer? O que propõe? Taxar os ricos, aqueles que têm patrimónios elevados?
Acho que tem de passar por isso. Não há forma de sair disto sem fazer isso. Para sairmos disto sem uma grande revolta social ou uma guerra, temos de ter uma abordagem moderada, sensata, em que pensamos calmamente sobre como podemos levar os ultra-ricos a pagar mais impostos. Mas às vezes falo nisto e as pessoas pensam que eu estou a falar de taxar aquele que têm salários maiores: não é nada disso. Isso é uma armadilha, pensar assim: o problema não é quem tem salários mais elevados, o problema é que há um número relativamente pequeno de famílias ultra-ricas que estão a sugar os recursos e não pagam quaisquer impostos. Falamos de redistribuição, mas o que é preciso perceber é que já está em curso uma redistribuição – só que é uma redistribuição em sentido contrário, no sentido da acumulação de ativos por parte de uma minoria. No mínimo, temos de interromper esse movimento.

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Está confiante de que será possível?
Vai ser difícil. Sempre que se fala em taxar os ricos, a dada altura, chega a hora de realmente implementar um imposto mas os ricos conseguem influenciar o poder legislativo e levá-lo a deixar lacunas, brechas, na lei que, depois, vão ser aproveitadas – e os ricos conseguem evitar pagar o imposto. O que faz com que, muitas vezes, os impostos acabem por recair muitas vezes sobre as pessoas com salários elevados que, repito, não são o problema. Mas temos de fazer alguma coisa, os padrões de vida caíram com uma velocidade extrema no Reino Unido, não sei se foi tão grave aqui em Portugal. Mas no Reino Unido até as pessoas que ganham salários acima da média estão a ter dificuldades – e isto só tende a piorar. Volto ao período do pós-Guerra para mostrar que é possível reduzir a desigualdade.

Mas é preciso gerir bem esses recursos. E os críticos das suas ideias poderão dizer que aumentar a dimensão do Estado pode não ser a melhor solução…
Mas eu não defendo um Estado maior. Sou um grande cético em relação aos políticos. Nem estou a defender uma maior carga fiscal. Eu quero que se cobre impostos sobre o património, não sobre o trabalho. Não quero que haja uma maior redistribuição através de um Estado maior, só estou a defender é que se interrompa esta redistribuição que já está em curso que é aquela que leva os ricos a acumularem cada vez mais património, relativamente à classe média.

“Sou um cético em relação a medidas como controlos de rendas”

Em Portugal existe uma crise no acesso à habitação por parte dos jovens, e não só. Foram tomadas algumas medidas para atenuar o problema, que, no entanto, continua a existir para muita gente. Mas, por outro lado, há um grande número de cidadãos que é dono da sua casa, com ou sem dívida ao banco, mas para quem a subida dos preços das casas é uma boa notícia. Como é que se equilibra estas duas realidades?
Percebo, mas lembrem-se que alguém que tem uma casa que se valorizou só tem uma forma de tornar real essa valorização – que é vender essa casa: e depois vai viver para onde? Para onde vão viver os filhos? É claro que quem tem uma casa que se valorizou pode, agora, olhar para isso como algo que, em princípio, lhe poderá dar uma reforma mais confortável. Pensam: “estou rico”. Mas cada um deve pensar: quais são as implicações disto para a vida dos nossos filhos? Dos nossos netos? O que está a acontecer é que esta valorização ilustra a forma como a riqueza está a ser sugada pelos mais ricos e a tornar-se cada vez menos exígua para as próximas gerações.

Falamos sobre a compra de casa, mas o que pensa sobre medidas no arrendamento como controlos de rendas? É uma medida que é proposta, aqui, pelos partidos mais à esquerda…
Tenho de ser honesto, e algumas as pessoas não vão gostar de ouvir isto. Penso que há um limite para o que se consegue obter com medidas como controlo das rendas. A questão é que se tu és uma das pessoas que conseguiram uma dessas casas, fantástico para ti. Mas eu sou um economista: sei que isso vai levar a que a procura seja maior do que a oferta e, portanto, em muitos casos, vai criar uma classe de instalados e uma classe de desinstalados. Eu sou um cético em relação a este tipo de soluções tecnocráticas. No final do dia, o que está em causa é que o poder e a riqueza estão a ser rapidamente concentrados. E não creio que se lide com isso com soluções tecnocráticas.

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“O que eu quero é mudar a política. Não quero ser político”

Os políticos de hoje em dia têm, por vezes, dificuldade em falar para os mais jovens. Algum partido ou líder político já entrou em contacto consigo para pedir conselhos, consultoria ou algo assim?
Bem… Como sabe, o Reino Unido tem uma espécie de sistema bipartidário. Tive muitos contactos por parte dos Verdes, que são um pouco à esquerda do partido trabalhista. E algumas pessoas lá parecem simpáticas, mas, obviamente, no nosso sistema, o seu poder é limitado. Mas também fui contactado pelo partido trabalhista há alguns meses. Mas eles não queriam os meus conselhos, só queriam aparecer no meu canal.

Queria outro tipo de colaboração?
Eu tenho noção de que, no meu país, o Reino Unido, se eu quero mudar a política isso tem quase de certeza de vir através do partido trabalhista. A minha notoriedade cresceu muito nos últimos seis meses, e estou a planear tentar envolvê-los numa conversa e ver se me querem ouvir. Não estou muito otimista, mas vamos ver.

Mas vê-se, no seu futuro, diretamente envolvido na política?
Sim, sim. Ouça, este é um projeto político para mim. Eu não me quero tornar político mas também não quero ser uma estrela do YouTube, não quero ser famoso, não gosto de ser famoso. O que eu quero é mudar a política, por isso, eu sei que isso envolve, a dada altura, tentar influenciar os políticos. Mas, neste momento, o meu plano é falar com o público, tento sensibilizar a opinião pública e, a dada altura, os políticos têm de me ouvir. Esse é o meu plano. A única forma de as pessoas comuns conseguirem inverter este rumo é unindo-se, essa é a única força que têm e que pode permitir uma mudança. Não acho que aquilo que eu defendo será fácil de conseguir, nem acho que haja uma grande probabilidade de o conseguir. Mas eu sei o que vai acontecer se não fizermos alguma coisa. E, por isso, acho que vale a pena tentar.

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