Alfredo Barroso, que foi chefe da Casa Civil do Presidente Mário Soares durante 10 anos, conta como foi protagonista do episódio da Vichyssoise. Em entrevista ao programa da Rádio Observador que partilha o nome com esse episódio, o fundador do PS revelou que apoia António Filipe nas Presidenciais, por considerar que é o único que compreende que a Europa não deve enfrentar Rússia.
Discorda de António Filipe por colocar Zelensky no mesmo patamar de Putin, mas por razões ainda menos coincidentes com a linha ocidental, já que considera o presidente russo “hábil e inteligente” e o presidente ucraniano “um político fraco” e um “public relations superficial”.
Alfredo Barroso diz que Gouveia e Melo é um “bluff” e um “flop” e também não se convence com Seguro. Diz que Augusto Santos Silva teria sido um melhor candidato, ao contrário de António Vitorino que não tem a vocação para ser Presidente por ser “um advogado facilitador de negócios”, tal “como é hoje ainda o Marques Mendes”.
O sobrinho de Mário Soares diz que – mais do que os que usam o tio como exemplo – o que lhe custa mais são os ataques de André Ventura. “E custa-me que não haja quem na família tente pô-lo na ordem e defenda a honra do Mário Soares”.
Figura central na candidatura de Soares no MASP I, Alfredo Barroso diz que é difícil paralelismo com 1986 porque “olhando para os quatro candidatos que agora podem chegar à primeira volta, nenhum deles chega aos calcanhares de Soares, Freitas, Zenha ou Lurdes Pintassilgo.
[Ouça a primeira parte e a segunda parte da Vichyssoise]
“Apoio António Filipe. Tenho amigos que dizem que vão votar Seguro. Desejo-lhes felicidades”
Alfredo Barroso foi chefe da Casa Civil do Presidente Mário Soares entre 1986 e 1996. Foi também fundador do PS, deputado, secretário de Estado…
Deixe-me dizer que também sou a terceira pessoa da célebre história da Vichyssoise.
Quer contar essa história?
Posso explicar: foi um telefonema que me fez nessa altura o Paulo Portas, porque tinha andado a perseguir o Marcelo, que teria participado num jantar oferecido pelo Presidente da República, o Mário Soares, em que eu participei, como chefe da Casa Civil. E tinha dado ao Paulo Portas umas informações que ele achou estranhas. E então no dia seguinte ele telefonou-me a perguntar: “Ó Alfredo, você importa-se me dizer qual foi o menu do jantar?”. E eu disse que não importava nada, pedi à minha secretária que me passasse o menu e comecei a ler; e quando acabei de ler ele disse: “Mas não há nenhuma Vichyssoise”. Essa é a história da Vichyssoise.
E lembra-se de qual é que era o prato?
Não me lembro, mas Vichyssoise não era… porque era à noite e não era verão.
Em entrevista à Rádio Observador, António Filipe disse que havia socialistas que o apoiavam. Apoia António Filipe?
Sim, apoio o António Filipe. Comprometi-me a votar nele, não estou em condições de fazer campanha, nem me parece que seja necessário, mas já o declarei pelo menos aos que me seguem no Facebook – é o único sítio onde eu hoje sou autorizado a escrever, e mesmo assim com consequências desagradáveis. Ontem fui insultadíssimo num programa da CMTV, que não vi, mas os meus amigos telefonaram-me a dizer que eu tinha sido insultado de tudo e mais alguma coisa. Se fosse num país mais civilizado, provavelmente podia pôr essas pessoas em tribunal.
Mas foi insultado por causa do apoio a António Filipe?
Não, por causa de um comentário jocoso e irónico que fiz a uma comentadora de assuntos internacionais, que apareceu numa televisão, a falar sobre a guerra da Ucrânia, com uma vestimenta muito arrojada e interessante. A senhora é bonita, e achei estranho que ela fosse para lá de ombros nus e com um decote enormíssimo, porque não calculei que, em princípio, uma comentadora especialista não vai propriamente para um cocktail, quando vai falar sobre uma guerra que já tem um milhão de mortos ou mais. Fiz um comentário ligeiro, divertido, e que foi truncado e tomado pelo Correio da Manhã e por um jornal chamado Nascer do Sol, que eu não costumo ler, e apresentado como se fosse um ataque. Não fiz ataque nenhum, apenas me divertiu um pouco ver a senhora naquele propósito. Se eu for fazer comentários para a televisão não vou em cuecas, nem fato de banho, não é? Acharam que era machismo e outras coisas ainda mais indecentes que me atribuíram e que eu nem quero acreditar.
Saiu do PS depois do que chamou uma “chinesice” de António Costa, mas manteve-se lá durante a liderança de António José Seguro. É um candidato que não lhe enche as medidas, o candidato apoiado pelo PS?
Nenhum dos candidatos que têm aparentemente a possibilidade de ir à segunda volta me atrai e me convence. Tenho amigos que também estavam dispostos a votar mais à esquerda e que me dizem que afinal vão tentar ajudar o Seguro a passar à segunda volta. Desejo-lhes felicidades, mas não os acompanho, porque declarei publicamente que o meu critério de escolha foi essencialmente a posição que cada um tinha em relação à guerra na Ucrânia. Eu, que me considero um socialista democrático em matéria de política interna e um adepto do general de Gaulle em matéria de política europeia, acho que é um erro tremendo a Europa ter seguido o desejo do Biden e dos americanos de aproveitar esta oportunidade para tentar vencer a Rússia. Os políticos da atualidade não devem conhecer a história.
“Zelensky é um político fraco, um public relations superficial”
Mas concorda com o António Filipe quando ele dispõe no mesmo patamar Putin e Zelensky e quando diz “venha o diabo e escolha”, como aconteceu num debate?
Não gosto do Zelensky, que aliás é acusado de corrupção por colegas vossos, jornalistas, e colegas meus, porque também fui jornalista profissional. O Putin seguramente que também é capaz de ser corrupto, é um autocrata, mas eu não os punha no mesmo patamar por uma razão muito simples: Putin é um político muito hábil e inteligente, e daí ser muito perigoso, e o Zelensky é um político fraco, é um public relations superficial que se deixou envolver na guerra por pressão do Joe Biden e do Boris Johnson. Há uma célebre capa de da revista inglesa conservadora que costumo ler, a Spectator, com o título “Biden’s War”, em que explicavam que de facto tinha sido o Ocidente e os Estados Unidos. A Europa é subserviente e também começou a falar do Ocidente, como se fosse uma entidade homogénea.
Disse que não estava muito entusiasmado com os candidatos sem hipótese de passar a segunda volta. Gouveia e Melo é uma espécie de segundo candidato do eleitorado do PS. Também não gosta do almirante?
O almirante é um bluff e é um flop. E há uma posição que ele tomou em relação à Nato que acho altamente reprovável: disse que estava disposto a ir morrer em combate para onde a NATO achasse que era necessário. Esta cultura de morte é absolutamente contrária à necessidade de paz da Europa, que está a atravessar uma crise brutal. Foi humilhada quando os americanos decidiram destruir o North Stream, ou seja, os pipelines que transportavam o gás natural a preços muito convidativos para a Alemanha e para a Europa em geral. E o chanceler da altura, que até era social-democrata, foi uma semana depois a Washington prestava vassalagem a Joe Biden. Foi uma humilhação sabermos que os americanos é que rebentaram com o pipeline. E uma das razões fundamentais da crise da economia alemã e de quase todas as outras economias europeias, deriva justamente dos preços da energia terem subido em flecha e a Europa ser obrigada a transferir-se como cliente da Rússia para os Estados Unidos.
Há alguém dentro do PS que poderia ter avançado e que o convencesse a apoiar?
Sim. Mesmo sendo muito conservador, o Augusto Santos Silva tinha outra estaleca, outra carga política e intelectual e cultural, que seria de uma dimensão bastante superior a qualquer dos candidatos que estão no terreno.
Para si António Vitorino é que não era hipótese.
Não, eu fui um dos que criticaram há dez anos a possibilidade do Vitorino por ser, tal como é hoje ainda o Marques Mendes, um advogado facilitador de negócios. Essa não devia ser a vocação de um Presidente da República. Mas enfim, depois de o Marcelo ter sido Presidente, todos podem ter a ambição de ser Presidentes. Porque Marcelo foi, juntamente com o general Eanes, um dos dois piores Presidentes da República que tivemos desde o 25 de abril.
Há vários candidatos – Henrique Gouveia Melo, Catarina Martins, António José Seguro, até Marques Mendes – que têm invocado o nome do seu tio, Mário Soares, como um exemplo. De todos estes, qual é que mais lhe custa ouvir referir o nome do seu tio como exemplo de Presidência?
O que mais me custa ouvir é o almirante, como é óbvio, porque Seguro, apesar de tudo, tem legitimidade para o fazer, na medida em que também ele foi Secretário-Geral do PS. Custa-me mais ouvir o André Ventura insultar Mário Soares, de uma forma brutal, mal-educada e ainda por cima sem fundamento. E custa-me que não haja quem na família tente pô-lo na ordem e defenda a honra do Mário Soares. Eu não posso fazê-lo, sou apenas um sobrinho por afinidade, portanto não tenho qualquer legitimidade para me arvorar em defensor do Mário Soares.
Caso André Ventura vença a primeira volta, isso já abala o sistema?
Se ele passar da primeira volta já é um mau sinal. Depois da vitória de neofascistas no Chile e na Argentina e de estar uma neofascista inteligente, que é a primeira-ministra italiana, e por ser muito inteligente, mais perigosa ainda… seria um péssimo sinal. Mas também é verdade que, em França, a queda da popularidade do Jean-Marie Le Pen, também começou quando passou à segunda volta e perdeu com Chirac, levou uma banhada. Praticamente toda a esquerda e quase toda a direita votaram no Chirac, que aliás foi um bom Presidente. França já não tem, desde que desapareceram primeiro o De Gaulle, depois o Pompidou, depois o Giscard, depois o François Mitterrand, e depois o Chirac, um presidente com categoria, com estaleca, estatuto, dimensão intelectual e política.
“O Livre é um partido oportunista”
Mas candidaturas como a de António Filipe não acabam com as hipóteses de a esquerda passar à segunda volta? Não acha que devia ter havido uma tendência de convergência?
Não, no caso do PCP é injusto dizer isso. Ainda tem hoje, apesar da debilidade da sua votação, importância no jogo político quotidiano em Portugal. É um dos partidos fundadores do regime democrático, independentemente das críticas que lhe façam. Não sou, nunca fui, nem serei comunista, e aqui estou a tentar agir em nome do que julgo ser o interesse da esquerda no seu conjunto. O Livre é um partido oportunista, que tem contribuído muito para desgastar não só o PCP, mas sobretudo o Bloco de Esquerda, e também o PS. É, no fundo, um partido dos descontentes, por não terem chegado a lugares de proeminência – o caso do Rui Tavares no BE é exemplar. O Bloco de Esquerda é, como se sabe, uma dissidência troskista do partido dito estalinista, que o PC já não é. É um partido ainda muito fechado, mas não é um partido estalinista. Não vem dali perigo nenhum.
Há algum paralelismo entre as eleições de 1986 e as de hoje, no sentido de haver uma forte probabilidade de segunda volta?
É uma boa pergunta. É difícil estabelecer um paralelismo. Se pensarmos e compararmos os quatro candidatos de categoria que houve, nessa altura, a disputar a eleição, em 86 – o Mário Soares, o Freitas do Amaral, a Maria de Lourdes Pintasilgo e o Francisco Salgado Zenha – com os quatro ou cinco que hoje estão em condições de disputar a segunda volta, nenhum deles chega aos calcanhares de qualquer um destes quatro.
Vamos ao segmento Carne ou Peixe, em que o convidado tem de escolher uma de duas opções. Preferia ser chefe da Casa Civil de Marques Mendes ou de Gouveia e Melo?
De nenhum deles.
Sobre quem é que escreveria uma segunda edição do seu livro “Corações de Pedra”, Marques Mendes ou Cotrim Figueiredo?
O livro é contra o Cotrim Figueiredo, mas também é contra o Marques Mendes. Também não escolheria nenhum. Tenham paciência.
Se voltasse a ser jornalista, que notícia é que preferia dar: a desistência de António Filipe, mas com a vitória de António José Segura na segunda volta, ou que António Filipe não desistisse, mas ganhava André Ventura?
Não, com certeza que preferia a primeira alternativa. Do mal o menos, não é?
Nasceu em Roma. Preferia dar um bilhete de ida sem regresso para a capital italiana a Luís Montenegro ou a Mariana Leitão?
Mariana Leitão. Talvez conseguisse ser membro do atual governo italiano.