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Pauleta na selecção: 47 golos, quatro deles em Mundiais (hat-trick à Polónia em 2002 e este vs Angola em 2006)

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Pauleta na selecção: 47 golos, quatro deles em Mundiais (hat-trick à Polónia em 2002 e este vs Angola em 2006)

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Pauleta. "Fui para o Estoril um dia depois de casar. Ainda hoje sou criticado por não ter ido de lua-de-mel" /premium

Primeiro a chegar à selecção principal sem passar pela 1.ª divisão (Estoril, Salamanca) e primeiro português a marcar em dois Mundiais (2002, 2006). Eis Pauleta, um jogador único e um homem singular.

Pedro Miguel Carreiro Resendes. Quem? O Pauleta, pá. O grande Pauleta, melhor marcador da Taça de Portugal 1994 pelo Operário (oito golos em cinco jogos), melhor marcador da 2.ª divisão espanhola 1997 pelo Salamanca (19 golos), melhor marcador da 1.ª divisão francesa 2002 pelo Bordéus 2006 e 2007 pelo PSG. A palavra melhor marcador está-lhe no sangue. Golos, golos e mais golos. Na selecção é um ver-se-te-avias memorável, ao ponto (vejam lá bem) de superar Eusébio. Acaba a carreira em Maio 2008 e reata-a por intensos 90 minutos em Setembro 2010 como capitão do São Roque para acumular dois golos mais uma assistência na vitória sobre o União de Nordeste por 3-2.

Impecavelmente vestido, Pedro Mig… errr Pauleta é a cara portuguesa escolhida pelo Canal História para a programação contínua sobre o Mundial desde o dia 28 Maio até 10 Junho. É um regabofe contínuo, sem igual. Pelo meio, Pauleta é ainda organizador/anfitrião do torneio internacional sub-13 na sua Fundação, em Ponta Delgada, com a presença de Benfica, Inter, Porto, PSG, Santa Clara e Sporting, entre outros.

Sentado num estúdio improvisado na Cidade do Futebol, a sua voz ganha outro tom quando fala da filha. “Tem 10 anos e passou a vida sem ligar muito ao futebol. Nos últimos tempos, é Neymar para aqui, Neymar para ali, Neymar e mais Neymar. Até quer fazer a colecção de cromos do Mundial-2018.” E escangalha-se a rir. Ei-lo, o primeiro português a marcar um hat-trick em Mundiais (Polónia 2002). Ei-lo, o primeiro português a marcar em dois Mundiais (2002 e 2006). Um jogador único, um homem singular.

Como é que tudo isto do futebol começou?
[Pauleta sorri] Começou muito cedo, sempre gostei de jogar futebol. A partir dos 5/6 anos, comecei a jogar futebol em casa, muitas vezes sozinho, contra uma parede. Ahahahah. Lembro-me perfeitamente dos primeiros calções, da primeira camisola, ofertas da minha mãe. Aos 8/9 anos, umas pessoas amigas convidaram-me para ir jogar e pedi autorização ao meu pai. A partir daí, é o que se sabe.

Qual foi o primeiro clube?
Um amigo meu convidou-me para jogar na Comunidade de Jovens de São Pedro. Daí passei para o Santa Clara.

Sempre a avançado?
Sempre, sempre. Costumo dizer que o gostar de fazer golos e o de estar obcecado com a baliza nasce connosco. Depois é uma questão de desenvolver e aperfeiçoar o remate, o posicionamento, a visão de jogo e tudo o mais. Mas o que interessa é inato, está lá desde sempre.

O teu pai também jogou?
Sim, ahahahah, e até tenho umas histórias giras. Uma vez, ele jogou a final de uma taça regional em São Miguel, na Ribeirinha, e fui vê-lo sem ele saber. Ele marcou um ou dois golos e, quando acabou, veio ter comigo a correr. E eu corri para o lado contrário, porque pensei que ele ia dar-me um raspanete por ter ido ao estádio, ahahahahah. São memórias fantásticas. Escassas, mas fantástica. Também o vi no Oliveirense, na série E da 3.ª divisão.

E também era avançado?
Também. Aliás, todas as pessoas que conviveram connosco durante anos e anos dizem que ele era melhor que eu. Ele era mais agressivo e fisicamente mais forte.

Ensinou-te muitas coisas?
É uma pergunta importante para avaliar os tempos em que vivemos. Quando eu era miúdo e jogava nos infantis ou iniciados, contam-se pelos dedos de uma mão os jogos em que ele me viu em acção Agora, se for preciso, os pais até vão mais vezes que os próprios filhos, ahahah. Outros tempos, outras mentalidades. O que me acontecia entre mim e o meu pai era que ele cortava-me na casaca muitas vezes, ahahahahahah. Normal, um pai quer sempre o melhor para o filho, mas o mais importante de tudo é que ele deixou-me ser quem eu queria.

Como é que apareceste nas camadas jovens do Porto?
Aos 14 anos, fiz sete/seis golos num torneio inter-associações e, um ano depois, fui convocado para a seleção nacional pela dupla Carlos Queiroz-Nelo Vingada. Nessa altura, um amigo meu chamado Carlos Freitas, com quem jogava nos Açores, também me convidou para ir treinar à experiência no Vitória, em Setúbal. Só que entretanto sai a convocatória da selecção e o Benfica interessa-se por mim.

Uauuu, não sabia nada disso.
Sim, o Benfica quis-me.

"Fiquei 15 dias no Lar do Benfica e chorei todos os dias com saudades dos Açores, da minha mãe, do meu pai, da minha família".

E foste?
Fiquei 15 dias no Lar do Benfica e chorei todos os dias com saudades dos Açores, da minha mãe, do meu pai, da minha família.

E?
E regressei mesmo aos Açores. Para mais um ano no Santa Clara, em que sou campeão regional em juvenis. Esse título dá-nos direito a jogar a fase final do campeonato nacional e jogámos com o Porto. Marquei um golo nesse jogo e, pronto, fui para o Porto.

Como foram esses tempos no Porto?
Vivia no Lar do Porto, com outros jogadores. Fomos campeões nacionais em juniores, só que raramente jogava porque era júnior de primeiro ano, tal como o Rui Jorge, c om quem agora trabalho na federação. No segundo ano de júnior, o treinador era o Inácio e deu-me a possibilidade de sair emprestado para o Maia ou o Varzim.

Escolheste qual?
Tomei a decisão de voltar aos Açores, para o Santa Clara. O meu objectivo era jogar o último ano de júnior e subir para sénior. Assim o fiz.

Só voltaste para o continente em…
Três/quatro anos depois. Para o Estoril. Lembro-me perfeitamente: estava na casa da minha namorada, hoje minha mulher, o telefone toca e a minha sogra diz que era para mim. Estranhei, claro. Não achei possível ligarem-me para ali. Era o meu empresário e grande amigo Jorge Gama a dizer-me que o Carlos Manuel queria levar-me para o Estoril. Disse que não.

Não?
Sim, disse não.

Ahahahahahah.
E demorei um certo tempo até dizer sim.

"Casei no dia 8 de Julho, viajei no dia 9 e fiz o primeiro treino pelo Estoril no dia 10. Ainda hoje sou criticado por não ter tido uma lua-de-mel, ahahahahah".

E o sim, quando é que foi?
Em 1995. Casei no dia 8 de Julho, viajei no dia 9 e fiz o primeiro treino pelo Estoril no dia 10. Ainda hoje sou criticado por não ter tido uma lua-de-mel, ahahahahah.

Nunca chegaste a jogar na 1.ª divisão portuguesa: é uma dor ou…?
Já senti muitas coisas. No início, havia o sonho de jogar, claro. Num dos grandes. Quem não sonha com isso? A partir do momento em que cheguei a França, esse sonho passou. E o assunto só foi retomado na parte final da carreira, quando me convidaram de Portugal. Aí, decidi que não queria jogar em Portugal.

França: nunca foste campeão, mas ganhaste quatro taças e marcaste em três finais.
As coisas correram-se sempre bem em França. Foi uma alegria imensa, tanto o Bordéus como o PSG. Uma vez, pelo PSG, marquei em todos os jogos, inclusive a final. Falaste de golos em finais e lembro-me imediatamente de dois pelo Bordéus ao Lorient. Não vou dizer que é um dom, é só estar à hora certa no sítio certo.

Taças é contigo, aliás. Já aqui em Portugal foste o melhor marcador de uma edição.
Essa foi engraçado, porque jogava no Operário, na altura da 3.ª divisão. E há um jogo que me marca a carreira, o da Tapadinha. Vamos jogar com o Atlético, então na 2.ª divisão, e ganhamos 5-1 ou 6-1. Marquei quatro golos. Na eliminatória seguinte, marquei ao Estrela da Amadora, que era uma equipa da 1.ª divisão. Foi um feito irrepetível.

"Esse título de campeão em 2000 é um acontecimento histórico para o futebol espanhol, porque é um campeão fora da esfera dos três grandes Real, Barça e Atlético, e é um acontecimento único no futebol do Depor".

Isso e o facto de teres sido campeão espanhol pelo Depor. O que dizer desse título?
O de ter jogado numa equipa belíssima, cheia de craques. Ao todo, tínhamos umas 20 nacionalidades e havia internacionais de quase todos os países. Esse título de campeão em 2000 é um acontecimento histórico para o futebol espanhol, porque é um campeão fora da esfera dos três grandes Real, Barça e Atlético, e é um acontecimento único no futebol do Depor.

Quem eram os estrangeiros mais sonantes desse Depor?
Uii, tantos: Djalminha, Mauro Silva, Donato, Naybet, Makaay. Só o ataque tinha seis ou sete e agora lembrei-me de outro estrangeiro, o Turu Flores. Havia um jogador que se destacava dos demais: o Djalminha era um fenómeno. E havia também o Donato. Ele podia jogar sozinho no meio-campo, funcionava por três. E ainda o Mauro Silva, campeão mundial naquele Brasil muito físico em 1994. O meio-campo era Mauro Silva, Mazinho, Dunga e Zinho. Lá à frente, Bebeto e Romário. Sem ser espectacular como outros Brasis, era extremamente eficaz. E comprovou-o com o título mundial.

Antes do Depor, jogaste no Salamanca. Como é que vais para lá?
Foi tudo por acaso. A minha ideia era jogar no Belenenses, através do João Alves. Só que o João Alves assinou pelo Salamanca e lá fui para Salamanca, ainda na 2.ª divisão. Era um plantel cheio de qualidade.

Com muitos portugueses?
Muitos mesmo, ahahahah. Havia Taira, César Brito, Agostinho, Paulo Torres, Nuno Afonso e Miguel Serôdio.

Mais o Pauleta.
Era o quarto avançado do plantel, atrás do Cláudio, que tinha vindo do Depor, de jogar uma época inteira ao lado do Bebeto, mais César Brito e Catanha.

Como é que passas de quarta opção a rei do golo na 2.ª divisão?
Entre lesões e suspensões, há um jogo determinante com o Toledo em que faço dois golos. A partir daí, a vida nunca mais foi a mesma. Nesse ano, subimos de divisão. No segundo ano, já na 1.ª, éramos uma fortaleza em casa: 5-4 ao Barcelona, 4-3 ao Atlético, 6-0 ao Valencia.

Lembro-me de dois golos teus em Camp Nou que salvam o Salamanca da descida.
Esse jogo foi outro dos melhores da minha carreira. Duas semanas antes, o Barça tinha sido campeão espanhol e aquele era um dia de festa em Barcelona. Olha, fomos lá ganhar 4-1 e marquei dois golos. Inesquecível.

Salamanca, Deportivo e depois França. Como assim?
Estava com a seleção e transferi-me à última hora para o Bordéus. Viajei na 2.ª feira de manhã para lá, treinei à tarde e estreei-me em Nantes na 3.ª feira à noite. Era a sétima jornada e o Bordéus ainda não tinha ganho um jogo do campeonato. Ganhámos 5-0 e fiz três golos, dois deles na primeira parte. Quando chegas assim, dá-te uma confiança até ao final da época. Até porque fiz mais três ao Lierse, para a Taça UEFA. E, a seguir, dois ao PSG numa vitória por 2-1 em Paris.

Paris, ainda bem que chegámos lá. Que tal o PSG?
Cheguei tarde, aos 30 anos.

Ainda a tempo de ser o melhor marcador de sempre.
Mesmo assim, dos 30 aos 35, consegui fazer história como tu dizes. É o clube do meu coração pela maneira como fui tratado constantemente, sobretudo pelos adeptos.

Sente-se na rua?
Muito. Por incrível que pareça, já passaram dez anos e ainda sinto o carinho nas ruas. É um clube especial, com uma tradição enorme, dentro de uma cidade, talvez a mais bela do mundo. Na altura, era um grande clube e ainda não era uma grande equipa. Agora tudo mudou: é um grande clube com uma grande equipa.

"Já passaram dez anos e ainda sinto o carinho nas ruas. [o PSG] É um clube especial, com uma tradição enorme, dentro de uma cidade, talvez a mais bela do mundo. Na altura, era um grande clube e ainda não era uma grande equipa. Agora tudo mudou: é um grande clube com uma grande equipa".

Qual era o jogo mais especial do PSG?
O clássico com o Marselha. O factor rivalidade era determinante e, curiosamente, tive a sorte de marcar quase sempre ao Marselha. Isso deu-me uma protecção especial junto dos adeptos.

Há algum golo especial no clássico?
Ao Barthez, um chapéu desde a linha final, ainda fora da área. Foi eleito o melhor golo de sempre do PSG há uns 4/5 anos.

Barthez.
Ganhei muitos jogos ao Barthez, mas nunca tive a sorte de ganhar-lhe a nível de selecções. Uma pena imensa.

Estás a falar do Mundial-2006?
Siiiim, aquela meia-final. Tínhamos tudo para chegar a outra final, depois da do Euro-2004.

Como adjetivarias a selecção nacional em 2004 e 2006?
Espírito de grupo. Compromisso com a equipa. Compromisso com o país. Mérito para o Scolari. Podia falar, claro, da qualidade dos jogadores. Todos excecionais, mas a qualidade esteve sempre lá, até em anos em que não íamos a lado nenhum. Ou até em anos em que as coisas não nos correram muito bem, como o Mundial-2002. Quando olhamos para trás e vemos os jogadores que ficaram de fora, como Rui Costa e Barbosa. Ou quando vemos as escolhas a ser feitas antes de qualquer jogo entre Rui Costa ou João Vieira Pinto, percebemos o nosso valor. E também percebemos que devíamos ter feito um Mundial muito melhor. Havia material humano para mais, muito mais.

O que te disse o Eusébio quando ultrapassaste-o como melhor marcador da seleção?
Ligou-me logo, através do Carlos Godinho [histórico assessor e assessor histórico da federação] e felicitou-me. Quer dizer, receber uma chamada de um jogador que marcou a infância de qualquer jogador de futebol é demais.

E o que disseste ao Ronaldo quando ele te passou como melhor marcador da seleção?
Essa foi boa, ahahahah. Liguei-lhe e disse-lhe ‘este era o recorde mais difícil de bater ao longo da carreira’. Só tenho de estar satisfeito por estar entre Eusébio e Ronaldo.

No teu tempo, era mais estar entre o Figo e o Ronaldo.
Era impossível não ter bolas para marcar. Uma das razões pelas quais fiz muitos golos tem a ver com a quantidade de oportunidades criadas por esses dois ícones, um num lado e o outro no outro.

Conviveste quanto tempo com o Figo?
Foram dez anos na seleção. Encontrámo-nos na tal minha primeira convocatória com Queiroz-Vingada e calhou dividirmos o quarto em Zamora, antes de um jogo com Espanha. Seguiu-se um interregno e só volto para os sub-21.

E o Ronaldo, como foi assistir à sua chegada na seleção?
É estar a ver história. E aperceber-me desde o primeiro instante da sua personalidade muito forte. Ele chegou à seleção com vontade, com paixão. Escolho a paixão como a virtude essencial e principal de um jogador de futebol.

Finalmente Açores e Madeira juntos na seleção.
Ahahahah. Tínhamos a seleção inteiramente representada.

E o sotaque?
O meu?

Ya.
Ahahah.

Meteram-se contigo?
Claro. Mas nunca tive a necessidade de falar conitnental.

Continental?
Também sei falar, mas nunca falei. Ahahahah. Porque isso já não seria eu. Falo assim e vou continuar. Mesmo lá fora, onde estive 15 anos, posso ter perdido o sotaque uma vez ou outra mas recuperei-o.

"Nunca tive a necessidade de falar conitnental. (...) Também sei falar, mas nunca falei. Ahahahah. Porque isso já não seria eu. Falo assim e vou continuar. Mesmo lá fora, onde estive 15 anos, posso ter perdido o sotaque uma vez ou outra mas recuperei-o".

Além do sotaque, o característico voo do açor. Onde é que nasceu?
Em Salamanca. Falava-se muito de um ciclone dos Açores que ia passar em Espanha. Nesse fim-de-semana, marquei um golo e abri os braços. No dia seguinte, a imprensa fala do ciclone dos açores. Achei interessante e, a partir daí, foi dar continuidade. Aos golos e aos festejos. Como forma de homenagear os Açores.

Há quem te imite, imagino.
Uma vez, uma equipa minha marcou um golo e todos os jogadores correram na minha direcção com os braços abertos. Foi emocionante.

Uma equipa tua?
Da minha fundação.

Fundação Pauleta?
Sim, sim.

G’anda nível. Criada em que ano?
Abri uma escola em 2004. Antes, já fazia acções sociais com instituições açorianas. Depois, abri a escola. Seguiu-se a fundação. E faço questão de acompanhar os miúdos. Já passámos pelas nove ilhas dos Açores, já fomos ao continente e até já fomos lá fora, aos EUA, por exemplo. Dá-me um gozo enorme ver a fundação crescer. E o que me dá mais gozo é ajudar os outros mais necssitados. E vou continuar a fazer. Sinto essa obrigação. Felizmente tive uma vida boa, através da minha paixão, que virou profissão a um determinado momento mas nunca deixou de ser uma paixão. Era isso que eu dizia do Ronaldo. Ele tem uma paixão pelo futebol desde o primeiro dia. Isso nota-se no seu olhar, na maneira de treinar e de jogar.

O que mais gostas da tua fundação?
O que mais gosto é preparar as coisas. Quando temos um pedido de outra instituição, gosto de envolver-me para atingir os objectivos num trabalho em conjunto com as pessoas do meu lado, como o Vítor Simas, responsável pela escola.

Quantas crianças na tua fundação?
À volta de 330, com todos os escalões até aos juvenis. Para o ano, abrimos caminho para os juniores e vamos fazer mais um campo. Modéstia à parte, é um espaço muito muito engraçado. E pensar que, inicialmente, o objectivo era chegar às 100 crianças. Agora já sonho com as 400, ahahahah.

Qual é o objectivo?
O primeiro de todos não é formar jogadores de futebol. Só quero que as crianças se exercitem, se divirtam, façam amigos para a vida e aprendam as regras e os valores do futebol.

E o que é o futebol para ti?
O futebol é o povo, o futebol faz-se através das pessoas. Se fores a um estádio vazio, o jogo não tem muito interesse. Se estiver cheio, o ambiente é outro. E sentes a atmosfera. Como jogador, digo. Queres fazer a diferença, queres dar alegria áquelas pessoas. Claro que há sempre o outro lado, o da tristeza pela derrota. Isso é a essência

Como vês a tua fundação daqui a 10 anos?
A continuar a fazer o seu caminho, como até aqui. Só dependemos de nós, não há dinheiro público, e os patrocinadores de há 10 anos continuam a ser os mesmos. O que é óptimo, porque não acreditam só no Pauleta jogador, também acreditam no Pauleta como escola. Quero disponibilizar a imagem Pauleta até ao último dia da minha vida.

O que mais gostas do futebol?
O golo, ahahahahahah. Não consigo disfarçar. Quando entras em campo e vês os adeptos, é uma loucura. O futebol é uma loucura. O golo é que nos divide entre a alegria e a tristeza. Vejo muitos miúdos em que o futebol não é a sua paixão, é mais uma profissão e isso é um equívoco. Tens de ter a paixão como primeiro lugar, era o que dizia sobre Ronaldo. E também sobre mim, sempre tive a paixão acesa pelo futebol. Desde pequeno.

Por falar na tua infância, qual é a principal diferença nos Açores daí para cá?
Antes, conhecia toda a gente dos Açores. Agora, raramente conheço alguém. Vejo isso mal entro no avião, seja para ir para lá ou para vir para cá. Ahahahah, é normal, atenção. Os Açores evoluíram e mostraram-se ao mundo. Nem falo em mundo. Mostraram-se a Portugal. Agora, posso dizer com propriedade, estamos mais perto do continente. A minha primeira ida ao continente é aos 15 anos. Nos tempos que correm, uma criança açoriana com 15 anos já está farta de ir a Lisboa.

"Os Açores evoluíram e mostraram-se ao mundo. Nem falo em mundo. Mostraram-se a Portugal. Agora, posso dizer com propriedade, estamos mais perto do continente. A minha primeira ida ao continente é aos 15 anos. Nos tempos que correm, uma criança açoriana com 15 anos já está farta de ir a Lisboa".

A que se deve essa evolução?
A muita coisa. À abertura do espaço aéreo, por exemplo. Deu inegavelmente outra vida aos Açores, já para não falar na exploração das nove ilhas. Cada ilha tem a sua beleza natural e vendemos bem a nossa imagem. Em cima disso, somos conhecidos por receber e tratar bem as pessoas. Somos reconhecidamente pessoas humildes. É como costumo dizer: só não temos o comboio, de resto há de tudo. E não tínhamos nada há uns anos.

Então?
Havia pouco, muito pouco. Há pouco, falávamos do Mundial. O meu primeiro de sempre é o México-86. Tinha de ficar à espera dos jogos na RTP Açores.

E o que te lembras?
De ter esperado até às tantas para ver o Portugal-Marrocos.

Do que foste falar, chiça. Fomos eliminados.
Três-um.

E depois, começaste a puxar por quem?
Argentina e Brasil, porque eram aquelas selecções que tinham jogadores de grande nível, dos que faziam a diferença. Como Maradona, por exemplo.

É o teu ídolo?
Maradona é um dos maiores de sempre. É sempre difícil escolher. Há Ronaldo e Messi. E não se pode esquecer Ronaldo fenómeno. Sei que o maior que vi está entre esses quatro. Mas o meu ídolo é Van Basten.

Olha, o meu também.
Ahahahah. Como avançado, sempre gostei muito do Van Basten. Tinha tudo aquilo que um avançado: qualidade técnica, finalização perfeita, classe, elegância. É aquele modelo que gostava de ter sido. Em 2006, recordo-me bem, era ele o selecionador da Holanda e fiz questão de o ir cumprimentar. E até nessa altura ele tinha classe.

Ainda bem que falas no Mundial-2006. Tu marcaste a Angola e tornaste-te o primeiro português a marcar em dois Mundiais.
Ahahahah. Tive a felicidade de participar em grandes momentos, como dois Europeus e dois Mundiais. É o sonho de qualquer criança, sobretudo o de jogar o Mundial. O primeiro de uma importância enorme, em que marquei três golos, e o último em que chegámos à meia-final. Antes de jogar por Portugal, queria era marcar pela selecção.

Quantos é que marcaste, sabes?
Na selecção? Quarenta e sete.

E o primeiro?
Em Guimarães, com o Azerbaijão. Era aquilo que mais queria na vida e foi o momento mais feliz da minha vida.

Então e o hat-trick à Polónia em 2002?
Outro momento inesquecível. A euforia era tão grande que fiquei no estádio ate às 2 da manhã para fazer o controlo anti-doping. Nunca me passava pela cabeça imitar aqueles jogadores que via pela televisão a marcar três golos num Mundial.

Só Mundial, qual é o momento mais marcante de sempre?
Da minha vivência, é o Argentina-Inglaterra do México-86. Aqueles dois golos do Maradona em quatro/cinco minutos são alucinantes. O primeiro com a mão, o outro aquele slalom.

E o mais incómodo?
A expulsão do Zidane no Itália-França em 2006. Houve ali uma provocação do Materazzi, claramente, e ainda hoje não se sabe muito bem o que disse. Mas para o Zidane ter tido aquela reacção, de certeza que houve uma provocação.

Materazzi = defesa. Quem é o melhor?
O melhor? É italiano, mas não é o Materazzi. Ahahahah. É o Maldini. Defrontei-o uma vez no Teresa Herrera, na Corunha, e senti o que já desconfiava há anos e anos: era o mais completo. Muito inteligente, muito difícil de ultrapassar. Aliás, não me recordo de ver alguém passar o Maldini com facilidade. Ahahahah.

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