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O arcebispo de Homs falou a jornalistas de meios de comunicação social de vários países numa conferência promovida pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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▲O arcebispo de Homs falou a jornalistas de meios de comunicação social de vários países numa conferência promovida pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre

Aid to the Church in Need

▲O arcebispo de Homs falou a jornalistas de meios de comunicação social de vários países numa conferência promovida pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre

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Arcebispo de Homs entre a hesitação e o otimismo sobre o futuro da Síria. "O Islão fechado e rígido não faz parte da tradição do povo sírio"

O arcebispo de Homs, que esteve 5 meses em cativeiro pelo Estado Islâmico, está otimista com o futuro da Síria, mas diz que o país ainda vive no caos e tem de aproveitar a atual transição de regime.

Quando Hafez al-Assad tomou o poder na Síria, em 1970, o padre católico Jacques Mourad tinha apenas dois anos de idade. Nascera no verão de 1968 em Alepo e, até ao final de 2024, só conheceria o seu país-natal sob a ditadura dos Assad, primeiro Hafez e depois Bashar.

Em mais de cinco décadas, viu de perto os muitos horrores pelos quais o seu país passou, mas não testemunhou nenhum de forma tão brutal como aquele dia, em 2015, em que o Estado Islâmico entrou pelo mosteiro onde Mourad vivia e o raptou. Passou cinco meses em cativeiro, foi mudado várias vezes de lugar pelos raptores e conseguiu fugir com a ajuda de um jovem muçulmano.

Em dezembro de 2024, Mourad, que depois do seu cativeiro foi elevado a arcebispo de Homs, uma das maiores cidades da Síria, viu o país onde nasceu passar por uma transformação radical: a queda do regime de Bashar al-Assad, às mãos de um golpe de Estado operado pelo Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), um grupo islâmico salafista anteriormente classificado como terrorista (aliás, com antigas ligações à Al-Qaeda), mas que atualmente está a tentar dar mostras de moderação, procurando credibilizar-se a nível internacional de modo a recuperar o lugar da Síria na comunidade internacional.

Deixando a herança de Assad para trás, regime sírio navega à procura de aliados entre Riade, Ancara e Kiev

Perante os rápidos desenvolvimentos dos últimos meses, essencialmente marcados pela incerteza, Mourad está “otimista” com o futuro do país. Diz que, depois de ter descoberto a “liberdade interior graças à experiência do cativeiro”, já não há nada que o “aprisione”. Mas, numa videochamada a partir de Damasco com meios de comunicação social de vários países, incluindo o Observador, Mourad deixa um alerta: a situação na Síria está longe de estabilizada, o país ainda vive no “caos” devido à ausência de uma direção clara para o futuro e os sírios não estarão dispostos a aceitar um governo que lhes imponha uma lei islâmica tradicionalista, fechada e rígida.

“Antes, na altura do regime de Assad, eram os jovens que queriam sair do país, fugir do serviço militar, que era o grande pesadelo da juventude. Agora, o problema é com as famílias das crianças pequenas”, disse o arcebispo Mourad, na conferência organizada pela Fundação Ajuda à Igreja Que Sofre (AIS), uma organização pontifícia que se dedica a apoiar as comunidades cristãs nos lugares do mundo onde são mais perseguidas e minoritárias, e que tem sido uma das principais promotoras da reconstrução da Síria e do Iraque na sequência dos conflitos recentes. “Olham para estes salafistas, fanáticos, de barba, armados, a andar por todo o lado nas ruas, sobretudo na região de Homs, onde há checkpoints por todo o lado, e pensam que não é uma vida normal para criar crianças. Muitas famílias, especialmente famílias cristãs, estão à procura de formas de sair. Procuram meios financeiros, numa economia colapsada que se tornou num pesadelo para toda a gente.”

“Vê-se que o país ainda está num grande caos”

Desde que o HTS, liderado por Ahmed al-Sharaa (também conhecido pelo seu nome de guerra Abu Mohammad al-Julani), tomou o poder na Síria, o país mudou radicalmente: a ditadura de Bashar al-Assad colapsou, o novo governo prometeu modernizar o país e uma boa parte da comunidade internacional começou a reunir-se com os novos líderes sírios e a anunciar o levantamento das sanções económico-financeiras que estrangulavam a Síria. Os Estados Unidos até cancelaram o prémio que pendia sobre a cabeça de Al-Julani, até então considerado um terrorista pela comunidade internacional.

Numa Síria reformada, o novo governo prometeu respeitar a liberdade religiosa e permitir a liberdade de culto às minorias religiosas — o que foi testado logo no Natal de 2024, com uma missa com centenas de cristãos em Damasco.

GettyImages-2188295482 epa11875199 Syrian interim President Ahmed al-Sharaa attends a press conference with Turkish President Recep Tayyip Erdogan (not in picture) after their meeting at the Presidential Palace in Ankara, Turkey, 04 February 2025.  EPA/NECATI SAVAS

▲ Ahmed al-Sharaa, o líder do HTS, passou de combatente islâmico a chefe de Estado

AFP via Getty Images

Ainda assim, a minoria cristã do país — serão menos de 4% — continua hesitante sobre a chegada ao poder de um grupo com uma tradição fundamentalista islâmica. “Atualmente, a situação não é estável, porque o governo continua a apresentar-se como tradicional, o que para o povo sírio é estranho à sua cultura, às suas tradições. O povo sírio nunca teve o Islão apresentado de uma forma tradicional, fechada, rígida. Não faz parte da tradição do povo sírio e há um certo desconforto”, sublinha.

Síria. Cristãos participam em missa de Natal, num teste à tolerância religiosa prometida pelos rebeldes

Muitos sírios, diz o arcebispo, têm ainda dúvidas sobre qual o rumo que o governo dos rebeldes vai dar ao país — nomeadamente sobre se o discurso da tolerância destes primeiros meses vai manter-se ou se serve apenas para produzir efeitos nas relações internacionais. Ao mesmo tempo, mesmo que a liderança do movimento se modere, isso não significa necessariamente que todos os militantes sigam o exemplo. Isso tem-se notado, diz Mourad, nos check-points militares em Homs, sobretudo no modo como as mulheres são abordadas.

Reconhecendo que na maioria dos encontros com os militares não há “obstáculos à vida quotidiana”, o arcebispo diz que, “de tempos a tempos, especialmente em check-points, há grupos mais fanáticos” que abordam, por exemplo, “mulheres que não usam um véu” ou que estão a “fumar no carro”, o que é proibido. “São pessoas particulares que criam problemas”, frisa o arcebispo. “Vê-se que o país ainda está num grande caos, não há regras ou normas que se podem aplicar.”

"O povo sírio nunca teve o Islão apresentado de uma forma tradicional, fechada, rígida. Não faz parte da tradição do povo sírio e há um certo desconforto."
Jacques Mourad, arcebispo de Homs

As dúvidas da comunidade cristã em relação ao verdadeiro rosto do novo regime levaram, por exemplo, a arquidiocese de Homs a mudar os planos para os campos de férias que procura fazer todos os anos com os jovens católicos da cidade. Em vez da habitual viagem à zona costeira, foram feitas atividades artísticas e educativas, “para evitar problemas” que pudessem advir, por exemplo, da prática habitual de rapazes e raparigas estarem juntos nessas atividades — uma prática que poderia ser reprimida por militantes mais tradicionalistas.

“Há pessoas que comem uma vez por dia, às vezes só pão”

Natural de Alepo, na Síria, Jacques Mourad estudou Teologia e Liturgia num seminário no Líbano. Depois, voltou para a Síria, onde em 1993 ajudou a fundar uma comunidade monástica — e onde foi ordenado padre. Mourad faz parte da Igreja Católica Siríaca, uma das 23 igrejas de rito oriental que estão em comunhão total com Roma. Com sede em Beirute, no Líbano, esta Igreja oriental é uma das principais denominações cristãs presentes na Síria — juntamente com os cristãos ortodoxos — e, tal como sucede em várias outras Igrejas orientais, tem a particularidade de os seus bispos não serem escolhidos diretamente pelo Papa, mas eleitos pelos sínodos dos bispos de cada Igreja e apenas confirmados em Roma pelo pontífice.

Em 2023, aos 54 anos de idade, o padre Mourad foi escolhido pelos bispos do Patriarcado de Antioquia para assumir o lugar de arcebispo de Homs, uma nomeação que o Papa Francisco confirmou.

Na conferência digital que decorreu esta terça-feira, que se dirigiu simultaneamente a funcionários da Fundação AIS e a jornalistas de meios de comunicação social de vários países, Mourad descreveu a situação da Síria nos caóticos meses que passaram desde o golpe que depôs Bashar al-Assad — e que foi “uma surpresa para toda a gente”, nas palavras do arcebispo.

▲ Jacques Mourad é sacerdote da Igreja Católica Siríaca — e é atualmente o arcebispo de Homs

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“Quando há mudanças violentas, as pessoas reagem e entram em modo de sobrevivência, sobretudo pessoas que sofreram tanto”, assinalou o arcebispo, lembrando os “muitos ataques de vingança”, incluindo “massacres, raptos e atos de violência” que visaram principalmente os alauítas — grupo étnico-religioso a que pertencia a dinastia Assad —, mas também os muçulmanos sunitas e os cristãos. “Porque a violência cria uma atmosfera negra para toda a gente”, resume. “Hoje podemos dizer que os cristãos, tal como toda a comunidade síria, vivem um momento de escuridão.”

“Depois do grande momento de mudança, vemos atos de violência que continuam, mesmo que agora sejam mais limitados e não tão maus. Continua a haver incerteza”, lamenta o arcebispo. “Depois do anúncio de que as sanções vão ser levantadas, as coisas acalmaram um pouco. Mas concretamente, no terreno, não há grande mudança. O que quero dizer é que o medo continua. Há uma sede de justiça, porque queremos ajudar as pessoas, com comida e com necessidades básicas.”

“Todos os dias tenho gente que vem ter comigo à igreja em busca de pão, de dinheiro para comprar pão. Chegámos a este nível de necessidade. Há pessoas que comem uma vez por dia, às vezes só pão, outras vezes pão com alguma coisa simples”, sublinha o arcebispo, acrescentando que “a maioria das famílias cristãs só consegue comprar carne uma vez por mês” e que o levantamento das sanções será fundamental para permitir uma melhor qualidade de vida aos sírios.

União Europeia e Estados Unidos têm vindo, nos últimos meses, a levantar gradualmente as sanções implementadas nos últimos anos para combater o regime de Assad — à medida que o novo líder sírio se multiplica em viagens internacionais para promover o novo regime. Para os sírios, diz Mourad, isto tem sido um sinal de esperança. “Vai ajudar a abrir o país. Vai ajudar a desenvolver a economia. Traz alguma esperança e oportunidades às pessoas, que começam a reagir positivamente, a ter projetos, a começar a reconstrução”, destaca.

"Hoje podemos dizer que os cristãos, tal como toda a comunidade síria, vivem um momento de escuridão."
Jacques Mourad, arcebispo de Homs

Também para a Igreja, o levantamento das sanções ocidentais é fundamental para que a missão de apoio às populações possa ser desenvolvida, sublinha o bispo, lembrando que a grande dificuldade com a transferência de dinheiro para o território sírio frustrou muitas iniciativas e projetos de desenvolvimento das populações.

O arcebispo sírio não hesita em classificar como “momento histórico” para o país o período de transição que agora se vive na Síria. “E nós queremos participar nele”, garante. Sublinhando que uma forma “fechada e rígida” de governo islâmico não faz parte da “tradição” da Síria, Mourad lembra que “nunca na história da Síria houve apenas uma religião, apenas uma imagem do povo”, mas houve sempre “diversidade”. A transição da ditadura de Assad para o novo regime pode ser uma oportunidade para recuperar essa diversidade, acredita Mourad. “Estou otimista.”

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