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A mobilização parcial russa, a primeira convocada desde a Segunda Guerra Mundial, enviou para a linha de combate 300 mil recrutas, num processo marcado por “violações” de direitos humanos. Se na altura o anúncio gerou pânico — esgotaram-se voos de saída do país e sobrecarregam-se sites de comboios, enquanto a pesquisa sobre “como partir um braço sem dor” disparou –, passado mais de um ano do início da guerra os militares russos continuam a procurar formas de evitar ser enviados para o campo de batalha.
As autoridades russas raramente revelam detalhes sobre as baixas na guerra, mas a Ucrânia estima que Moscovo já perdeu cerca de 219.820 mortos. Para evitar ser mais um número nesta estatística, há combatentes russos que preferem enfrentar a possibilidade de cumprir uma pena de prisão ou ser admitidos em unidades psiquiátricas. Há quem continue a arriscar a vida em travessias perigosas para tentar cruzar a fronteira, arriscando ser rotulado como traidor.
Prisão ou internamento: as alternativas a combater na guerra
A Rússia foi apanhada de surpresa quando o Presidente Vladimir Putin convocou a mobilização parcial. Por essa altura, a tentativa para conquistar a capital ucraniana numa questão de dias falhara redondamente e a guerra prolongava-se para lá do esperado, com as tropas ucranianas a ensaiar uma primeira resposta no campo de batalha para libertar os territórios sob ocupação. Com a notícia de que 300 mil homens seriam chamados para combater na Ucrânia, a população russa insurgia-se, com protestos em massa e destruindo ou vandalizando postos de recrutamento militar. “Afinal, não eram apenas as pessoas que estavam contra a guerra desde o início que não queriam combater, mas os apoiantes da chamada ‘operação militar especial’ também não estavam prontos para morrer nela“, resume Anna Kruglova, do think tank britânico Royal United Services Institute, num artigo publicado em maio deste ano. Mas se as demonstrações públicas de protesto parecem ter esmorecido, há quem continue a lutar para escapar à guerra e para isso esteja preparado para enfrentar uma pena de prisão ou um internamento num hospital psiquiátrico.
“Mesmo que fosse iniciado um processo criminal, estaria preparado para ir preso e cumprir uma pena, mas não iria matar ninguém.” Depois de ser interrogado por um agente dos serviços secretos russos (FSB), esta era a posição assumida por Maxim, um recruta russo integrado há vários meses numa unidade no exército de Moscovo. Desde que foi mobilizado, a 22 de setembro, tem feito de tudo para evitar ser enviado para a linha da frente na Ucrânia, assumiu em declarações ao Insider, num artigo publicado esta segunda-feira.
O militar garantiu que desde o primeiro dia, e apoiado pela família, se lançou num longo processo, que até agora se revelou infrutífero, para questionar a sua integração no exército russo. Submeteu um recurso junto da Procuradoria russa, do Ministério da Defesa e do próprio Presidente, mas até agora a única vitória foi o facto de uma investigação da Procuradoria que confirmou que no processo de recrutamento tinham sido detetadas violações. De pouco serviu e prova disso foi aquele encontro com o agente do FSB, que o terá questionado persistentemente durante cerca de uma hora sobre as suas origens e motivos para se opôr a combater.
Sem mais opções, registou em dezembro um pedido para exercer um serviço civil alternativo. “Expressei claramente que o serviço militar entrava em conflito com as minhas crenças e os meus princípios. Declarei que não podia participar em atividades que envolvessem ferir ou matar”, revelou. Acabou por ser designado para um batalhão de reparações, algo que não o confortou visto que iria estar “envolvido na reparação de sistemas de mísseis usados para provocar danos e matar”.
Ao Insider, Maxim garante que não vai parar por aqui, mesmo que o processo criminal contra si avance. Se há russos que estão dispostos a combater na Ucrânia para receber um indulto — várias campanhas de recrutamento decorreram nas prisões russas –, o militar está disposto a abdicar da sua liberdade para não combater: “Não podemos render-nos. Temos de lutar até ao fim. Se eles recusarem o serviço civil alternativo, então prefiro ir para a prisão. Eu aceito isso e entendo perfeitamente os riscos envolvidos. É melhor do que estar envolvido no que se está a passar.”
Muitos já enfrentaram o peso desta escolha. Também convocado na mobilização parcial de setembro, o russo Alexey Breusov recusou combater a Ucrânia e, segundo avançou o jornal independente Meduza, foi condenado a um ano e oito meses de prisão. Aqueles que se manifestam contra a liderança russa enfrentam penas ainda mais duras. É o caso de Alexander Leshkov, que em janeiro foi condenado a uma pena de cinco anos e meio, após uma altercação com os seus superiores motivada pelas condições de treino precárias.
Tribunal russo condena soldado por recusar combater na Ucrânia
Se a prisão se tornou uma alternativa a combater na Ucrânia, a permanência num hospital psiquiátrico transformou-se num refúgio. Diagnosticado com uma depressão durante o período de treino para a guerra, o russo Evgeny recebeu em mãos um formulário caso desejasse ser admitido num hospital militar. “Não acontece lá nada. O silêncio é completo e ficamos simplesmente deitados nas nossas camas. É frio e as condições não são particularmente agradáveis, para dizer o mínimo, mas não é o fim do mundo”, admitiu também ao Insider.
Apesar da situação, reconhece ter tido sorte. Durante a formação disse ter testemunhado como alguns recrutas foram forçados a refazer os testes psicológicos várias vezes, alguns pelo menos dez vezes. “O comandante da nossa unidade teve uma conversa com o médico e sublinhou que não importava o número de testes realizados, insistindo que os testes deviam ser feitos até que se atingisse um valor aceitável”, denunciou.
As fugas (bem-sucedidas)
É uma das alternativas mais arriscadas e, se mal executada, tem um preço elevado: dez anos de prisão, para ser exato. De acordo com a legislação russa, modificada após a declaração da mobilização parcial, esta é a pena que recai sobre os soldados que desertarem do exército russo. Na verdade, são poucos os casos conhecidos de combatentes que tentaram fugir da guerra na Ucrânia e menos ainda os que quiseram tornar públicas as suas histórias de fugas bem-sucedidas. Dmitry Mishov, um jovem de 26 anos da Força Aérea russa, é uma das poucas exceções.
Numa recente entrevista à BBC, o tenente russo, formado em pilotagem de helicópteros de ataque, revelou que, com o início da guerra, foi mobilizado para a Bielorrússia, onde estava responsável pelo transporte de equipamentos militares. Por essa altura, já tinha tentado deixar a Força Aérea, mas o processo demorado não tinha sido concluído quando a invasão da Ucrânia começou e os planos de uma saída acabaram por se desmoronar quando o líder russo anunciou a mobilização parcial.
Em janeiro deste ano, já de regresso à base habitual na Rússia, chegou o momento que temia quando foi convocado para uma missão. Temendo ser enviado para a Ucrânia, recorreu a uma tentativa de suicídio na esperança de ser enviado para casa. Mas, mesmo assim, as autoridades não permitiram a sua saída da Força Aérea. Foi durante o período de recuperação que começou a contemplar a hipótese de uma fuga, depois de ler um artigo sobre um compatriota que tinha escapado para a Letónia. Decidiu tentar a sua sorte e acabou por cruzar a fronteira a pé, com um pequeno saco às costas. Pouco depois, viria a entregar-se às autoridades da Lituânia, onde procura obter asilo político. “Eu iria servir o meu país no caso de uma ameaça real. Estava apenas a recusar ser cúmplice de um crime (…). Se tivesse entrado naquele helicóptero teria tirado a vida a pelo menos uma dúzia de pessoas. Não queria fazer isso. Os ucranianos não são o nosso inimigo”, afirmou.
O testemunho de Mishov não é o único. Soma-se ao de histórias como a de Nikita Chibrin, um soldado russo que a 24 de fevereiro de 2022 cruzou a fronteira da Bielorrússia para a Ucrânia sem ter a menor ideia de que estava a ser enviado para lutar em território ucraniano. Em entrevista a vários meios de comunicação internacionais, o jovem revelou que foi integrado na 64.ª brigada do exército russo — uma unidade acusada de crimes de guerra em Bucha e que foi condecorada pelo Presidente Putin –, mas garantiu que nunca pegou numa arma para ferir ninguém.
O jovem conseguiu escapar da Ucrânia escondido numa carrinha que ia buscar mantimentos à Rússia e, com a ajuda da organização de direitos humanos Gulagu.net, acabou por fugir para a Espanha. “Não tenho nada a esconder”, chegou a garantir numa entrevista ao jornal The Guardian.
As poucas ajudas para sair da Rússia
O processo da mobilização parcial russa foi marcado por “numerosas violações dos direitos humanos”, avalia o European Bureau for Conscientious Objection (MCO). Ao longo do último ano, o organismo fundado em 2014 documentou centenas de casos de russos que tentavam evitar o serviço militar ou participar nas ações militares planeadas por Moscovo. Antes da mobilização parcial, os militares podiam solicitar o fim dos contratos por objeção de consciência, mas isso mudou em plena guerra na Ucrânia.
Desde fevereiro de 2022, o MCO tem vindo a lidar com “milhares de indivíduos na linha de frente que insistem no seu direito ao serviço civil alternativo ou exigem que não podem ser enviados para combate por motivos médicos”. O organismo denuncia como a liderança militar russa respondeu com a criação de centros de detenção “ilegais”, onde aqueles que se recusam a combater “são detidos ilegalmente, muitas vezes sob condições tortuosas”.
Para escapar a este destino, muitos militares procuram uma solução para fugir da Rússia. Têm poucas opções e, muitas vezes, dependem apenas dos próprios meios e do apoio prestado por familiares ou amigos. Para preparar a rota da fuga, Dmitry Mishov viu-se obrigado a recorrer a publicações partilhadas na rede social Telegram, enquanto Nikita Chibrin contou com o ajuda da Gulagu.net. Com o início da guerra na Ucrânia, esta organização assumiu-se como uma fonte de apoio para aqueles que se opunham a combater na Ucrânia, mas essa ajuda chegou ao fim este ano.
No final de março, o fundador da organização anunciou que tinham suspendido os esforços para ajudar os militares russos anti-guerra a escapar da Rússia, depois de um ano a organizar operações de fuga. “Estamos a encerrar o programa de assistência na retirada de indivíduos diretamente ligados ao exército russo e com as forças de segurança”, escreveu Vladimir Osechkin numa publicação do Telegram.
A decisão foi tomada depois de Pavel Filatyev, um paraquedista russo que a organização ajudou a escapar para a França, ter confessado a um jornal sueco que tinha consciência de que alguns ucranianos capturados pela sua unidade seriam posteriormente executados. Lembrando que, de acordo com a lei internacional, não pode ser concedido asilo político e proteção a indivíduos envolvidos em crimes de guerra, Osechkin assumiu que se viam “obrigados a analisar a experiência negativa e fazer todos os possíveis para garantir que não voltasse a acontecer no futuro”.