1240,7kWh poupados 1240,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

A concessão de honras de Panteão Nacional foram atribuídas a Eça de Queiroz esta quarta-feira, dia 8 de janeiro
i

▲A concessão de honras de Panteão Nacional foram atribuídas a Eça de Queiroz esta quarta-feira, dia 8 de janeiro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲A concessão de honras de Panteão Nacional foram atribuídas a Eça de Queiroz esta quarta-feira, dia 8 de janeiro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

As "Farpas", os "Francesismos" e "Os Maias": os excertos da obra de Eça de Queiroz que foram lidos no Panteão

A cerimónia de trasladação do escritor português teve discursos e elogios, mas também foram lidos os escritos do próprio Eça. Estes foram os trechos escolhidos.

“Os Maias” (1888) – Capítulo I

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residência Eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da Sr.a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assimilar-se-ia a um Colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto dum revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números duma data.

“Os Maias” (1888) – Capítulo IV

Por aquele sol macio e morno de um fim de outono português, o Ega, o antigo boémio de batina esfarrapada, trazia uma peliça, uma sumptuosa peliça de príncipe russo, agasalho de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados á Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tisico uma rica e fofa espessura de peles de marta.

– É uma boa peliça, hein? disse ele logo, erguendo-se, abrindo-a, exibindo a opulência do forro. Mandei-a vir pelo Strauss… Benefícios da epidemia.
– Como podes tu suportar isso?
– É um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
Tornou a recostar-se no sofá, adiantando o sapato de verniz muito bicudo, e, de monóculo no olho, examinou o gabinete.
– E tu que fazes? conta-me lá… Tens isto esplêndido!
Carlos falou dos seus planos, de altas ideias de trabalho, das obras do laboratório…
– Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o veludo dos reposteiros, mirar os torneados da secretária de pau preto.
– Não sei. O Vilaça é que deve saber…

E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da peliça, inventariando o gabinete, fazia considerações:

– O veludo dá seriedade… E o verde-escuro é a cor suprema, é a cor estética…. Tem a sua expressão própria, enternece e faz pensar…. Gosto deste divã. Movel de amor….

Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho, estudando os ornatos.

– Tu és o grandioso Salomão, Carlos! O papel é bonito… E o cretonesinho agrada-me. Apalpou-o também. Uma begónia, manchada da sua ferrugem de prata, num vaso de Ruão, interessou-o. Queria saber o preço de tudo; e diante do piano, olhando o livro de música aberto, as Canções de Gounod, teve uma surpresa enternecida:
– Homem, é curioso…. Cá me aparece! A Barcarola! É deliciosa, hem? …

Dites, la jeune belle,
Où voulez-vous aller?
La voile…

– Estou um bocado rouco… Era a nossa canção na Foz!

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Os Maias” (1888) — Capítulo XVIII

– Oh, diabo!… E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança, pontualmente, às seis! Não aparecer por aí uma tipóia!… – Espera! exclamou Ega. – Lá vem um americano, ainda o apanhamos. – Ainda o apanhamos ! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face: – Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou−se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma. Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras: – Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder… A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço: – Ainda o apanhamos! – Ainda o apanhamos! De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.

“Uma Campanha Alegre” — “As Farpas” (1871 e 1889)

O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os carateres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce… O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce… O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo

“O Francesismo” (1887)

Há já longos anos que eu lancei esta fórmula: – Portugal é um país traduzido do francês em vernáculo. A secura, a impaciência, com que ela foi acolhida, provou-me irrecusavelmente que a minha fórmula era subtil, exata, e se colava à realidade como uma pelica. E para lhe manter a superioridade preciosa da exatidão, fui bem depressa forçado a alterá-la, de acordo com a observação e a experiência. E de novo a lancei assim aperfeiçoada: – Portugal é um país traduzido do francês em calão. E desta vez a minha fórmula foi acolhida com simpatia, com rebuliço, e rolou de mão em mão como uma moeda de ouro bem cunhada e rutilante, que é agradável mostrar, fazer tinir sobre o mármore dos botequins. Já a encontrei brilhando num almanaque, numa comédia do Príncipe Real e num sermão. Porque foi este novo, carinhoso acolhimento? Quem sabe? Talvez porque a ideia de vernaculidade desagradava, lembrando pedantismo, caturrice, a Academia das Ciências, o pingo de rapé, outras coisas antipáticas. Enquanto que a ideia de calão nos sugere, sobretudo a nós lisboetas, chalaça alegre, bacalhau de cebolada, Chiado, Grémio, pescada frita nas hortas, em tarde de sol e poeira, e outras delícias, de que eu, ai de mim, estou aqui privado!

[Já saiu o quarto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

“A Europa” (1888)

Nestes últimos anos, aqueles que se distinguiram por conhecer as coisas das nações, como dizia o velho escriba egípcio do tempo de Tutmés III, recomeçam a inquietar-se, a levantar o gesto de Cassandra, a gritar sombriamente: – «A situação da Europa é medonha! Sob as crises que a sacodem toda a máquina se desconjunta! Nada pode suster o incomparável desastre! Este fim do século é um fim de mundo.» E com efeito, se a tão prolongado e triste brado o homem que trabalha, quieto na sua morada, repara mais atentamente na Europa, ela aparece-lhe como uma sala de hospital onde arquejam e se agitam, nos seus catres apertados ou largos, os grandes enfermos da civilização!

“Notas contemporâneas” — “Um génio que era um Santo” (1896)

Em Coimbra, uma noite, noite macia de Abril ou Maio, atravessando lentamente com as minhas sebentas na algibeira o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem, de pé, que improvisava.

A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguda à maneira siríaca, reluziam, aureoladas. O braço inspirado mergulhava nas alturas como para as revolver. A capa, apenas presa por uma ponta, rojava por trás, largamente, negra nas lajes brancas, em pregas de imagem. E, sentados nos degraus da igreja, outros homens, embuçados, sombras imóveis sobre as cantarias claras, escutavam, em silêncio e enlevo, como discípulos.

Parei, seduzido, com a impressão que não era aquele um repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquíssimo século XVIII — mas um bardo, um bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. O homem com efeito cantava o céu, o infinito, os mundos que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura e

…os transcendentes recantos
Aonde o bom Deus se mete,
Sem fazer caso dos Santos
A conversar com Garrett!

Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou por entre os lábios abertos de gosto e pasmo:
— É o Antero!…

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“O Crime do Padre Amaro” (1875) – Capítulo I

Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo «comilão dos comilões». Contavam se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica – que o detestava – costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:

– Lá vai a jiboia esmoer. Um dia estoura! (…)

Nunca fora querido das devotas: arrotava no confessionário, e tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!

E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos, de visões, José Migueis escandalizava as, rosnando:

– Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus. Mais miolo na bola!

“O Crime do Padre Amaro” (1875) – Capítulo III

Teresa ergueu-se arrastando a sua soberba cauda, sentou-se ao piano. — Sabe música? perguntou, voltando-se para Amaro.
— A gente aprende no seminário, minha senhora.

Ela correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas, e tocou a frase do Rigoletto, parecida com o Minuete de Mozart, que diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro ato, da senhora de Crécy, — e cujo ritmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que findam, e de braços que se desenlaçam em despedidas supremas.

Amaro estava enlevado. Aquela sala rica com as suas alvuras de nuvem, o piano apaixonado, o colo de Teresa que ele via sob a negra transparência da gaze, as suas tranças de deusa, os tranquilos arvoredos de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a ideia duma existência superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em coupés acolchoados, com árias de óperas, melancolias de bom gosto e amores dum gozo raro. Enterrado na elasticidade da causeuse, sentindo a música chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu cheiro de refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e, assustado, demora o seu prazer — pensando que vai voltar à dureza das côdeas secas e à poeira dos caminhos.

No entanto Teresa, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga ária inglesa de Haydn, que diz tão finamente as melancolias da separação:

The village seems dead and asleep
When Lubin is away!…

“O Primo Basílio” (1878) — Capítulo I

Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luís Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha poltrona de marroquim escuro, esperguiçou-se, bocejou e disse:
— Tu não te vais vestir, Luísa?

— Logo.
Ficara sentada à mesa a ler o Diário de Notícias, no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado a sutache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras; com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis de rubis miudinhos davam cintilações escarlates.

“O Primo Basílio” (1878) — Capítulo IV

Iam a uma quinta. Podiam ir às Alegrias, à quinta de um amigo que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros; era ao pé dos Olivais; era lindo! Belas ruas de loureiros, sombras adoráveis. Podiam levar gelo, champanhe…

— Vem! — disse bruscamente, tomando-lhe as mãos. Ela corou. — Talvez. No domingo veria.

Basílio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, humedeceram-se. Ela sentiu-se muito perturbada: desprendeu as mãos; foi abrir as vidraças ambas, dar à sala uma claridade larga como uma publicidade; sentou-se numa cadeira ao pé do piano, receando a penumbra, o sofá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma coisa, porque já temia as palavras, tanto como os silêncios! Basílio cantou a Medjé, a melodia de Gounod, tão sensual e perturbadora. Aquelas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos de uma noite elétrica. E quando Basílio saiu, ficou sentada, quebrada, como depois de um excesso.

“A Cidade e as Serras” (1901) — Capítulo I

O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava o grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de Ancora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, no 202.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“A Cidade e as Serras” (1901) — Capítulo XVI

Em fila começámos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidraças distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A Serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, pôr entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, de dentro do seu cesto, com a haste bem segura na mão. Era a bandeira do Castelo, afirmara ele.

E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da natureza campestre e mansa — o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da Serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha Mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu — tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos — para o Castelo da Grã-Ventura!

“Os Maias” (1888) — Capítulo XVI

Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorara no corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletó, entrou na sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano:

– Então, definitivamente, V. Ex.a não vem ao sarau da Trindade?…
Ela voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a valsa lenta que lhe cantava entre os dedos: – Não me interessa, estou muito cansada…

– É uma seca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se estirara consoladamente, fumando, d’olhos cerrados. Ega protestou. Também era uma massada subir ás Pirâmides no Egipto. E, no entanto, sofria-se invariavelmente, porque nem todos os dias pode um cristão trepar a um monumento que tem cinco mil anos de existência… Ora a Sr.a D. Maria, neste sarau, ia ver por dez tostões uma coisa também rara, – a alma sentimental dum povo exibindo-se num palco, ao mesmo tempo nua e de casaca.

– Vá, coragem! um chapéu, um par de luvas, e a caminho!

Ela sorria, queixando-se de fadiga e preguiça. – Bem, exclamou Ega, eu é que não quero perder o Rufino… Vamos lá, Carlos, mexe-te!

Mas Carlos implorou clemência: – Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do Hamlet. Temos tempo… Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, só gorjeiam mais tarde… Então Ega, cedendo também a todo aquele conchego tépido e amável, enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar a canção de Ofélia, de que Maria já murmurava baixo as palavras cismadoras e tristes:

Pâle et blonde,
Dort sous l’eau profonde…

Ega adorava esta velha balada escandinava. Mais, porém, o encantava Maria que nunca lhe parecera tão bela: o vestido claro que tinha nessa noite modelava-a com a perfeição dum mármore: e entre as velas do piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e tons de ouro esfiado no cabelo – o incomparável ebúrneo da sua pele ganhava em esplendor e mimo… Tudo nela era harmonioso, são, perfeito… E quanto aquela serenidade da sua forma devia tornar delicioso o ardor da sua paixão! Carlos era positivamente o homem mais feliz destes reinos!

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.