Escreveu um livro onde ensina as startups a serem bem-sucedidas, o “Disciplined Entrepreneurship: 24 Steps to a Successful Startup”, mas confessa que tudo tem um prazo de validade, até o sucesso. “Nada dura para sempre”, mesmo que lances a Netflix. Em videochamada a partir dos EUA, Bill Aulet falou com o Observador sobre o passado, o presente e o futuro da pandemia de Covid-19 — e do impacto que está a ter nos novos negócios. De uma coisa tem a certeza: para se ser um bom empreendedor é preciso ter mais do que uma boa ideia. É preciso coração, cabeça, mãos e casa, que é como quem diz o espírito, a inteligência, a capacidade de execução e uma comunidade de pessoas à volta.
Professor no MIT Sloan School of Management, a escola de negócios da prestigiada universidade norte-americana, Aulet também dá aulas no The Lisbon MBA Católica | Nova, a formação para executivos lecionada pela Católica-Lisbon e pela escola de negócios da Universidade Nova de Lisboa, a Nova SBE, em parceria com o MIT Sloan. Do lado de lá do Atlântico, também é o diretor-geral do centro de investigação Martin Trust Center for MIT Entrepreneurship e foi considerado “Professor do Ano”, pela associação de PME dos EUA, e galardoado com o prémio USASBE Entrepreneurship Educator of the Year 2021.
Ao Observador, explica porque é que o empreendedorismo se vai tornar universal: “O mundo vai tornar-se cada vez mais rápido, rápido e rápido. E vai haver mais crises, seja a de Covid-19, seja a climática, seja o que for. O mundo nunca mais vai abrandar. Nunca abrandou.” E são precisos cada vez melhores empreendedores para resolver todos os problemas que advêm destes desafios. Como? “Ensinamos aos nossos alunos uma espécie de humor melhorado, é quando estás lá, tens algo, percebes que não funciona e então agarras em ti própria e voltas com outra coisa. E é isso que precisamos de ensinar. Chamamos-lhe “anti-fragilidade”, que significa que não podes ser frágil. Se as coisas não funcionam e tu te partires, isso é fragilidade”, respondeu.
Bill Aulet é o responsável pelo centro de investigação e de aprendizagem em empreendedorismo do MIT
Quais são os principais passos que uma startup tem de dar para ter sucesso? Sei que tem a metodologia dos 24, mas…
Se tivesse que simplificar diria que há a parte mecânica de ser uma startup, mas é apenas uma parte. E é sobre isso que o meu livro fala. Falamos sobre as quatro idades para seres um empreendedor de sucesso. A primeira coisa que tens de ter para seres um empreendedor é coração, tens de ter vontade de ser diferente. Se todos os peixes estiverem a nadar para um caminho, tens de ter vontade para nadar para o lado contrário. Tens de ter esta mentalidade, este coração, este espírito para ser diferente. Esta é a primeira idade. A segunda é a da cabeça. É a que responde a: “Ok, quero nadar no sentido contrário, mas o que faço?”. Como tornas o mundo melhor, mais eficiente, mais efetivo? Tens de ter a cabeça, mas também tens de ser capaz de o fazer. E isso são as mãos. A última idade é a da casa. Tens de ter uma comunidade na qual podes fazer estas coisas, porque para perseguires as oportunidades do empreendedorismo há recursos que estão além do teu controlo.
Costumava trabalhar na IBM e quando trabalhava lá éramos ensinados a controlar todos os recursos. Quando és um empreendedor, isso não acontece. Para seres um empreendedor de sucesso tens de ter o coração (a mentalidade, o espírito), a cabeça (o conhecimento) e depois a capacidade de o fazer. Não podes saber apenas o que queres fazer, tens mesmo de o fazer. E, finalmente, tens de ser capaz de formar, de ser um bom membro de uma comunidade e continuar a fazer curadoria disso, porque é disso que se trata quando és um empreendedor. O empreendedorismo são estas quatro idades e é muito importante que as pessoas hoje consigam fazer isto.
Como é que as pessoas lidam com os receios que existem durante todo esse processo? Há alguma estratégia?
Sim, o que é interessante é que todos nós nascemos empreendedores. Começámos desde o início dos tempos: fazemos coisas e fazemos coisas para outras pessoas. É assim que vivemos. E depois o que aconteceu foi que, de alguma forma, fomos educados e treinados para ser “tenho de fazer parte de uma grande empresa, tenho de ter isto”. Somos empurrados para isto, mas toda a gente nasce empreendedor. É por isso que falamos de empreendedorismo como se fosse um ofício. Não é uma ciência. Nem toda a gente consegue ser cientista, artista, mas toda a gente consegue empreender e é a isso que chamamos ofício, porque é, por natureza, um ofício. Toda a gente pode fazê-lo, tornas-te melhor quanto mais vezes o fazes e os primeiros princípios que podemos ensinar são as probabilidades de sucesso.
Mas não podemos garantir que vais construir uma grande empresa, porque a natureza de um ofício é fazer algo que nunca foi feito antes. A inovação conduz ao empreendedorismo. E isso não pode ser ensinado apenas pelos livros. Tens de ensiná-lo através de um modelo de aprendiz. Não podes ter apenas a cabeça, tens de ter o espírito, as mãos, o coração e a casa. E quando ensinamos as pessoas fazemos assim. E é assim que fazes com que as pessoas ultrapassem este medo que lhes foi trazido através de uma vida [a ouvir] “tens de estar numa grande empresa”.
Uma vida de expectativas impostas pela sociedade, é isso?
Sim. Podia falar durante muito tempo sobre isto. As pessoas dizem que é arriscado ser um empreendedor. Não acho que seja. Acho que é a coisa menos arriscada que podes fazer. Acho mais arriscado os meus amigos que trabalham nos correios americanos ou em empresas grandes. Correm mais riscos, porque não sabem criar os seus próprios empregos. Se perder o meu trabalho, posso criar outro. E isso é o caminho de baixo risco. Não existe um sítio onde não há riscos. Se não quiseres correr riscos, então levanta-te de manhã e não saias do teu quarto. E adivinha? Passado um bocado, estás muito em risco.
Hoje, os jovens entendem isto. Até ao dia em que morreu, a minha mãe não compreendia o que era um empreendedor, achava que estava desempregado. Ninguém queria ser um empreendedor quando saía da faculdade. E hoje toda a gente quer ser, porque entendem que isso não só é a melhor forma de controlares o teu próprio destino como é a melhor forma de impactar o mundo. E quando digo empreendedor não estou a falar apenas de startups. Sou empreendedor agora numa instituição académica, tu tens de ser empreendedora enquanto jornalista. Mesmo nas nossas vidas pessoais temos de o ser.
O medo de falhar é uma coisa que ainda é um problema, apesar de estar a melhorar. Tem algum conselho específico para lidar com isto, porque é cultural, mas se calhar pode ser mudado através da educação, não?
Sim, sem dúvida que pode ser. E tem de mudar. Não podes ter inovação sem falhanço, para ser claro. Não é possível. É como dizer que quero uma fatia de chocolate que sabe muito bem, mas que não tem calorias. Isso não existe. A natureza da inovação é a de estares a tentar fazer coisas novas, que nunca tinham sido feitas antes. A questão não é se algum dia vais falhar é se estás disposta a experimentar e ter experiências de onde surgem consequências que tu também não conhecias. Temos de deixar de pensar no falhanço e pensar na experimentação. Os jovens de hoje entendem isto. Não acho que devemos mudar toda a cultura para dizer: vai lá para fora e falha depressa, fica desempregado durante um tempo. Algumas pessoas não vão entender isso, mas há pessoas que compreendem que é essa a forma de operar se queremos mudar o mundo.
Lembras-te de a quarta idade ser a casa? Então, depois começam a formar-se as comunidades, que crescem, crescem, crescem… E adivinha lá? Numa altura destas, em que vivemos em pandemia, quem é que fez o melhor? Não foram as pessoas que estavam a recear o falhanço, foram os empreendedores que resolveram os problemas, que não se foram abaixo durante a crise da pandemia. Nem sequer foram os que sobreviveram. Foram os que a atravessaram. Por isso, tens de criar estas culturas e depois elas simplesmente crescem. Porque o mundo vai tornar-se cada vez mais rápido, rápido e rápido. E vai haver mais crises, seja a de Covid-19, seja a climática, seja o que for. O mundo nunca mais vai abrandar. Nunca abrandou.
Ensinamos aos nossos alunos uma espécie de humor melhorado, é quando estás lá, tens algo, percebes que não funciona e então agarras em ti própria e voltas com outra coisa. E é isso que precisamos de ensinar. Chamamos-lhe “anti-fragilidade”, que significa que não podes ser frágil. Se as coisas não funcionam e tu te partires, isso é fragilidade. E as pessoas dizem: “Não sou frágil, sou resiliente”. Bom, também não queremos pessoas que sejam resilientes, porque vão continuar a fazer o que estão a fazer e a ignorar tudo o resto. Queremos pessoas que sejam resilientes plus ou anti-frágeis. Quando as coisas correm mal, percebem o que se está a passar e ficam mais fortes, dizem que há uma oportunidade.
Acredita que a inteligência emocional é um ingrediente chave para ser empreendedor?
Não sei o que é inteligência emocional, só sei o que são duas coisas: o que é empreendedorismo e basquetebol. Não sei o que é e não vou agir como se soubesse. Mas sei o que é a mentalidade. E a mentalidade é isto: quando há um problema, se algo mudar, vou ver isso como uma oportunidade, não vou deixar que a ansiedade me engula. É o que é. A Covid-19 aconteceu. Trata-se de ser intelectualmente honesto, como estávamos a falar numa aula ontem. Não de uma forma depressiva, mas otimista. É isso que quero dizer quando falo em coração. Precisas de ter o mindset certo para isto, mas não é o suficiente. É como dizer: “Vou para a batalha, quero lutar contra isto”. E depois vais sem o treino adequado, o equipamento adequado, sem as pessoas certas à tua volta e não vais ganhar.
Acha que esta crise fez emergir novas startups? Haverá empreededorismo antes e depois desta pandemia? Ou as coisas vão ficar iguais?
Definitivamente não vão ficar iguais. Mas, por outro lado, não acho que se trate de uma descontinuidade. Não acho que haja uma mudança. E, já agora, isto não é o fim, porque há cada vez mais mudanças. Pensa que, há mais de quatro anos, Donald Trump apareceu e as pessoas achavam que era a coisa mais doida que tinha acontecido e só queriam voltar à normalidade. Voltámos ao que é normal? Não e não vamos voltar. Apenas vamos continuar. A roda da mudança está cada vez mais rápida.
Talvez não saibamos mais o que é normal. Quando olha para o passado, agora com alguma distância, quais é que acha que foram os grandes erros que se cometeram?
Acho que os tempos mudaram. As escolas de negócio surgiram há cerca de 150 anos por causa da revolução industrial, porque tínhamos de construir empresas maiores. Os MBA são sobre gestão e, durante um período de tempo, a gestão é a ferramenta dominante, que precisamos de ensinar para termos sucesso nos negócios. À medida que as coisas mudam, percebemos que os empregos já não estão a ser criados só pelas grandes organizações. Passámos da revolução digital para um mundo pós-industrial, onde, de repente, há mais coisas. E nesse mundo já não geres grandes organizações, mas também crias novas.
Trabalhei na IBM durante 11 anos e aprendíamos que tínhamos de continua a gerir e a crescer muito, mas agora o mundo muda tão rapidamente que tens é de criar coisas novas. Ali nas décadas de 70, a criação de emprego passou das grandes empresas para estas pequenas startups. Era aí que os empregos estavam a ser criados. E é nesse ponto que o empreendedorismo começa a crescer. Antigamente, era ensinado como se fosse gestão e não como se fosse um ofício. Mas a gestão diz-nos como se deve tirar o risco de uma solução, como torná-la mais previsível, controlá-la. E, quando és empreendedor, estás a criar novos sistemas e tens de aprender a lidar com coisas como o falhanço. E o falhanço é a experimentação de como fazes e tens novas ideias. E segues em frente.
O que ensinávamos em empreendedorismo há três anos já não é bom o suficiente para o que temos de ensinar hoje. A fasquia está cada vez mais elevada. Quando olho para a qualidade de empreendedores que estamos a produzir agora em comparação com aquele que era o nosso melhor empreendedor há quatro ou cinco anos, esse seria um bom empreendedor hoje. Porque hoje tens de ser ainda melhor, a fasquia continua a subir. Tens de saber como usar dados agora, por exemplo. Quando comecei tinhas vantagem competitiva só por teres o hardware. Depois passou para o software. Agora, tens vantagem competitiva pelos dados. Qual será a próxima coisa? O avanço de todas estas coisas torna o empreendedorismo ainda mais desafiante. E continuamos a aprender ainda mais todos os dias.
Como acha que vai ser no futuro? Daqui a 10 anos? Que tipo de startups e de líderes teremos?
Acho que teremos líderes que são bons em gestão e neste conjunto de competências de empreendedorismo, nesta mentalidade de empreendedor para operar. E isso vai tornar-se cada vez mais importante. Acho que vão formar comunidades e que as pessoas não vão estar em empregos. Quando estava a crescer, disseram-me que tinha um trabalho para a vida, um trabalho para a minha vida toda. Isso é de doidos. Pensa nisso. Quando olho para os meus filhos, eles estão a começar empresas e não acreditam num emprego para a vida. Acho que quando olhares para a frente vais ver empreendedores em toda a sociedade, mas não podes ser empreendedor sem ter esta gestão.
Falamos sobre este líder que tem o espírito de um pirata, mas as competências de execução de um oficial da Marinha. Os líderes de amanhã estarão dispostos a ser diferentes, vão ser empreendedores mas vão ser muito sistemáticos sobre como abordam as coisas. O ponto dele é que ninguém sabe nada. Tudo o que temos são boas hipóteses, porque o mundo está constantemente a mudar e precisamos é de ter boas hipóteses e depois testá-las de forma sistémica, usando os dados para saber que mudanças criar. E, mesmo quando funciona, mesmo quando se descobre a Netflix, o sucesso tem um prazo de validade e ainda tens de continuar a testar e a experimentar, porque nada dura para sempre. Acho que vais ver o empreendedorismo a tornar-se absolutamente universal. Não que a gestão vá desaparecer, acho que vais mudar-se na direção de ser uma coisa para a vida toda, em vez de “vamos tirar um MBA durante dois anos e está feito”. Tens de continuar a fazer atualizações, como se fosses um software. Tens de o atualizar para ele continuar a trabalhar.
O que é para si um bom líder hoje? O que é essencial que tenha?
Estamos a ver que os líderes com sucesso… As empresas que são lideradas por mulheres têm taxas de sucesso maiores e permanecem no negócio até mais tarde. Os líderes vão ser menos movidos pelo ego e mais colaborativos na forma como abordam os negócios, porque as coisas estão a mover-se rapidamente, o mundo está a tornar-se mais complicado. Se fosse bom em software podia começar uma empresa, mas agora tens de ser bom em software, bom na experiência do utilizador, bom nos modelos de negócio, provavelmente vais ser bom considerações regulatórias. Também tens de perceber de Finanças, porque as Finanças estão a tornar-se cada vez mais complicadas.
A fasquia para o empreendedorismo sobe a cada dia que passa. E depois, quando és bom, isso não te promete nada para o ano seguinte. E tens de continuara inovar. Este empreendedor que é colaborativo, humilde e orientado pelos dados é que vai ser líder. Mas não podes estar apenas a criar coisas. Quando crias coisas tens de continuar a geri-las. Por, isso tens sempre esta dualidade. As pessoas costumam dizer que os MBA não importam, bom… as credenciais do MBA não importam, mas as competências que ensinamos, isso importa muito.
É professor no The Lisbon MBA Católica | Nova. Está familiarizado com o ecossistema português?
Completamente. É uma das minhas semanas preferidas do ano inteiro. Quando fazemos um programa de total imersão com eles, divertimo-nos muito. Eles são de muitos outros países. Se te levares demasiado a sério nunca vais ser um bom empreendedor, porque não consegues admitir que estás errado. E não digo isto de forma negativa, mas as pessoas em Lisboa gostam de se divertir e não se levam a si próprios demasiado a sério. E podemos brincar muito em relação a isto. E isso é muito importante. Todos os anos o programa fica maior, tivemos mais de 100 pessoas este ano e, agora, têm confiança de que podem ser empreendedores. E sabem estas coisas, estão ligados ao mundo e estão a fazer um grande trabalho.
Fala neste líder que não é tão movido pelo ego, mas quando olhamos para o passado vemos estilos de liderança muito agressivos, como aconteceu com Travis Kalanick, da Uber, e até Mark Zuckerberg que é a imagem total do Facebook. Essa era já acabou mesmo?
Essa é a primeira aula que dou. O que digo é que o retrato que Hollywood faz dos empreendedores fez muitos estragos ao empreendedorismo e é contrário àquilo que os dados mostram. Esta ideia de que és uma pessoa materialista e que isso faz de ti um grande empreendedor não nasce nos factos. Não estou a dizer que não pode haver alguém que é um parvo e que vai ter sucesso, mas sabes que mais? Também podes fazer muito dinheiro ao comprar um bilhete de lotaria. Simplesmente não é provável que aconteça. Os dados são muito claros. Quanto mais pessoas tiveres na tua equipa fundadora, mais provável é que tenhas sucesso.
E vamos pensar nisto: alguma vez alguém conseguiu assim tanta coisa sozinho? Não, precisas de uma equipa, o empreendedorismo é um jogo de equipa. Achas que Zuckerberg fez tudo sozinho? Absolutamente não. Foi Elon Musk que começou a Tesla? Não, não foi. O filme sobre o Steve Jobs reproduz isto. O que acontece é que Hollywood adora isto, sobretudo os filmes americanos adoram esta ideia do indivíduo materialista e palerma que consegue isto. E não estou a dizer que alguns deles não sejam palermas, porque alguns são… Mas são a exceção à regra. E é isto que falo com os alunos. Se ages assim, as tuas probabilidades de sucesso descem drasticamente, porque ninguém vai querer trabalhar contigo.
Os maiores fatores de sucesso da tua equipa não é a tua visão, porque a tua visão está errada. E tens de perceber como vais parar ao sítio certo. Mas recriamos estes filmes, como o do Steve Jobs e o “Social Network” e faz parecer isto. Mas não é assim. Steve Jobs não chegaria lá sem o Steve Wozniak. E o próprio Steve Jobs também foi uma exceção à regra em várias formas. Porque ele não teve sucesso. Teve de sair, ficar humilde e depois voltou. Os dados mostram que os líderes humildes têm mais sucesso do que aqueles que não são. Por outro lado, a fasquia para ser um bom empreendedor continua a subir, olho para John Foley, da Peloton, uau, ele é muito muito bom. Mas quando olhas para o Bezos… Bezos é melhor protótipo de um empreendedor do que Elon Musk. Desejo bem a todos os empreendedores, não me interpretes mal. Mas se estudares o Bezos, percebes que ele é muito sistemático na forma como faz as coisas. Para ele, é tudo sobre o consumidor.
Temos hoje startups com maior diversidade e inclusão?
Sem dúvida alguma. O que faz de ti um empreendedor de sucesso não é a tua ideia original. Tu precisas dela, mas isso é a coisa mais sobrevalorizada. Nem sequer é o mercado ou os clientes que escolhes, o que é mais importante do que a ideia original e mesmo do que os clientes é teres a mecânica de como executar, a disciplina para fazer. E mais importante do que tudo isto, a tua equipa. O que faz uma equipa ter sucesso é a visão comum. Seja o que for, tens de a ter. E depois tens de ter valores que se partilham, nos quais as pessoas confiam. E a última coisa é: precisas de competências e perspetivas diversificadas. Melhora a performance e refiro-me a todas as dimensões — vendas, produto, etc. Equipas homogéneas não desempenham tão bem como equipas heterogéneas. O que vimos no empreendedorismo é que a broculture (cultura maioritariamente masculina) está a ir-se abaixo agora, porque essas equipas não desempenham tão bem.
Aos empreendedores que podem estar a sofrer com esta pandemia, qual é o seu conselho?
Diria: invistam em vocês próprios e construam um conjunto de competências para serem empreendedores assim que for possível. Toda a gente pode ser empreendedor, pode aprender como se faz, mas não vai aprender a não ser que vá para o terreno e comece a tentar. E isso envolve sangrar do nariz um bocado, fazer outra coisa, mas não te vais arrepender, vais apreciar isso para o resto da vida. Porque não há recompensas para trabalhos fáceis, mas se aprenderes este conjunto de competências o mundo abre-se e começas a controlar o destino. A criares empregos com as pessoas que queres, a fazer as coisas que queres. Não se trata do dinheiro — o dinheiro vem e é um bom motivador, mas não é o motivador. O motivador é: quanto mais adquiro as competências, mais confiante fico em querer fazê-lo e melhor fico. E é melhor entrar neste comboio mais cedo do que tarde.
A quem quer que seja que esteja a educar empreendedores, também digo que o trabalho deles nunca foi tão importante. Porque as instituições de ensino são fundamentais para isto. Há tantos sítios que querem trabalhar com empreendedores, mas temos de nos focar em ensinar as pessoas a aprender como devem pescar. E é isso que fazem, é o seu papel. E quantas mais fizerem isso, melhores seremos como sociedade. Quanto mais empreendedores produzimos, melhor vamos ficar. Porque são estas pessoas que vão ser aquelas que neste mundo incrivelmente rápido, com mais casos, mais adversidade, vão sobreviver, atravessar e resolver os problemas para o resto de nós. Diria: entra neste comboio mais depressa do que mais tarde, não vai ser fácil ao princípio, mas não te vais arrepender e mais tarde vais ficar feliz por o ter feito.