Era uma característica habitual na década de 90. Não entroncava numa qualquer obrigação, tornava-se quase numa marca de água daquilo que era uma ideia. Olhando para as principais equipas de juniores, juvenis, iniciados e infantis, os quatro escalões da altura com títulos nacionais definidos numa fase final a quatro nos escalões mais velhos e num jogo único entre o apurado do Norte e do Sul entre os mais novos, as do Sporting eram por norma as mais baixas em termos de estatura. Ganhavam tantos ou mais títulos do que os outros, não deixavam de ser mais pequenos do que os outros. Porquê? Porque “o talento não tem tamanho”.
Aurélio Pereira. O homem que descobriu Ronaldo, Quaresma, Nani e muitos mais
Essa era uma das máximas de Aurélio Pereira, um professor que soube conjugar tudo o que aprendeu (e foi muito) nas aulas da vida quando era mais novo com um invulgar sentido de ver mais à frente que o distinguiu como um visionário. O “mestre” nascido em Alfama que cresceu no Beco dos Paus antes de ver a família mudar-se para a Venda Nova, onde partilhou a escola com Jorge Jesus, guardou uma lição do verão de 1963, quando era apenas um miúdo de 14 anos que dedicava todo o tempo que tinha extra escola a jogar à bola na rua entre as brincadeiras de ciclismo e hóquei em patins. Foi aí que, numas férias de verão, ficou com os tios em Lisboa para tirar um curso de aprendiz no C. Santos Automóveis. Antes, viu um anúncio num jornal, partilhou-o com alguns amigos e montou uma romaria com seis amigos e duas paragens.
Saídos de Benfica, quatro pararam no Estádio da Luz e outros dois, a par de Aurélio, seguiram para Alvalade. Aí, entre centenas e centenas de candidatos, sobrou ele. Ainda não tinha calçado as botas velhas de número erróneo mas estava safo pela altura. Esse dia marcou-o. Não fazia sentido ver partir os dois amigos que até tinham mais jeito para o futebol do que ele sem terem sequer a oportunidade de mostrar todo o talento que enchia as ruas de Benfica. Aquilo que o salvou a si, puniu outros. Mais tarde, três décadas depois, foi um dos principais argumentos na hora de escolher os melhores – e escolhia mesmo os melhores, até do mundo.
“Sem ele, nada tinha acontecido”: as reações à morte do “mestre Aurélio”, antigo olheiro do Sporting
Outra peça do passado para compreender o gosto pela formação? Aqueles que foram os primeiros contactos com o Sporting. Havia adeptos fervorosos na família mas o sentimento estava enraizado a ponto de ir ver os jogos de equipas de juniores dos leões, como aquela na década de 50 que contava com Jorge Mendonça, que mais tarde seria um dos jogadores estrangeiros mais mediáticos do Atl. Madrid (até que chegou Paulo Futre, mas já já vamos). Essa viagem a Pina Manique não mais foi esquecida, tal como a oportunidade que teria mais tarde em jogar na formação verde e branca com o irmão, Carlos. Quando saiu, na passagem para os seniores, sentia que chegara até onde podia. Ainda jogou no Futebol Benfica e no Operário, com todas as memórias de infância que Alfama lhe trazia, mas havia um outro bichinho a crescer ligado ao futebol depois dessa oportunidade única não só de jogar no clube do coração mas de ser treinado por José Travassos.
Para sempre recordado como um dos maiores nomes da história do futebol nacional e do Sporting Clube de Portugal: Sr. Aurélio Pereira ???? pic.twitter.com/tG58NJWE0L
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Lateral esquerdo. Apesar de não ser canhoto como o irmão Carlos, Aurélio Pereira foi sobretudo um lateral esquerdo (mais defesa do que lateral, à luz da forma como vemos hoje a posição). Carlos Pereira, mais novo, também era lateral esquerdo. Hilário, ainda hoje o jogador com mais encontros feitos com a camisola do Sporting, também era lateral esquerdo. Sendo uma daquelas posições que menos memórias costuma deixar aos adeptos, foi a partir dela que nasceu de forma indireta a nova pele vestida ao serviço de futebol: Carlos foi convidado para ser treinador dos juvenis do Futebol Benfica quando estava nas reservas do Sporting, aceitou numa fase em que ainda não era visto como um possível sucessor de Hilário (algo que aconteceria um pouco depois), Aurélio acabou de “ajudante” do irmão a técnico. Primeiro na formação, depois nos seniores, com uma invulgar percentagem baixíssima de derrotas. Quando estava a ficar “cansado”, voltou a Alvalade.
Foi Hilário que se recordou do antigo jogador do clube para reforçar a estrutura técnica da formação, com Aurélio Pereira a regressar aos leões em 1973 para liderar os juvenis e as escolas. Mais do que tudo o que ia levando para o campo de treino e de jogo, dava nas vistas por uma forma de ser cativante e uma visão de todo o futebol de formação, sobretudo nos escalões de base, que se tornava um paradigma em termos internos: uma coisa é uma formação vencedora, outra coisa é uma formação de vencedores. As duas em paralelo, claro, era o melhor dos mundos; não podendo coexistirem em alguns momentos, fases ou épocas, importante era formar vencedores a nível de mentalidade, capazes de reagir aos desafios do futebol sénior. Aurélio Pereira conseguiu-o sem deixar de alcançar os tais títulos, sagrando-se várias vezes campeão regional e conquistando o título nacional de juvenis em 1984 e 1987, último ano em que esteve nos bancos leoninos.
Uma vida ligada ao Sporting Clube de Portugal. Um enorme legado que nos deixa ???? pic.twitter.com/jnIG4FDcPB
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Havia outra regra da qual não abdicava: primeiro o homem, depois o jogador. Isso via-se em pormenores como a atenção ao rendimento escolar (houve atletas que falharam jogos ou titularidades quando as notas eram mais baixas e até um jogador que apenas assinou contrato profissional quando acabou o 12.º ano, entre vários exemplos) e também à prioridade que dava ao espaço para os mais novos se recriarem com a bola. Sem abusos, sem jogos individuais, com margem para fazerem crescer tudo o que tinham de inato. Era isso que por vezes lhe fazia confusão nos últimos anos, já afastado desse mundo: a maneira como os treinadores de hoje amarram os mais novos a uma rigidez tática que pode condicionar o desenvolvimento dessa parte técnica individual que a surgir é nessas idades. “Agora é só bascula, bascula. Deixem-nos jogar…”, dizia.
▲ Cristiano Ronaldo foi o jogador "detetado" com maior impacto na história do Sporting e do futebol português
JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA
Foi esse trajeto que lhe valeu o convite para criar e liderar o Departamento de Recrutamento e Formação do Sporting, no verão de 1988, uma das muitas preciosidades recordadas no livro “Ver para crer” escrito com Rui Miguel Tovar. Foi esse o momento em que aquilo que é o ADN dos leões mudou em definitivo.
[Ouça aqui a entrevista de Rui Miguel Tovar no Conversas de Fim de Tarde da Rádio Observador]
Rui Miguel Tovar: “Aurélio Pereira é um nome eterno que merece toda a visibilidade”
Dentro da lógica do “muita paixão, pouco cifrão”, a formação do Sporting procurou nos anos 70 e 80 cativar os mais jovens talentos de Lisboa e arredores de variadas maneiras, sempre no sentido de “antecipação” face a quem tinha outros recursos. A presença de figuras da equipa principal nos treinos de captação aos sábados à tarde era uma delas, ou não fosse o sonho de qualquer miúdo trabalhar ao lado de mitos como Vítor Damas ou Héctor Yazalde. Outra foi o conhecido torneio Onda Verde, que conseguiu juntar cerca de 200 equipas de Lisboa e arredores no sentido de criar um campo mais alargado de recrutamento e que revelou um miúdo que nem idade tinha para participar (na altura tinha oito, o limite era dez) chamado Paulo Futre.
Eterno nos corações de todos os Sportinguistas.
Obrigado, Sr. Formação ???? pic.twitter.com/fkXopuWVwg
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Enquanto tudo isso acontecia, Aurélio Pereira mantinha a sua atividade profissional. Saiu da C. Santos para a Romar, aceitando uma vaga como gestor de stocks, foi depois para diretor comercial da Novotipo, agência de artes gráficas onde sempre mereceu um especial carinho. Era isso também que lhe permitia “alimentar” a paixão pelo futebol, pelo Sporting e por um novo projeto que trazia muito mais desafios do que pessoas que o pudessem concretizar – afinal, contava apenas com um colaborador. Havia necessidade de olhar para algo maior e o novo departamento acabou por ganhar 90.000 novos “funcionários” em nome do clube através de uma carta a letras verdes, com o leão timbrado de fundo, até hoje guardada como uma relíquia.
“Caro consócio ou Núcleo,
Foi criado no âmbito do Futebol Juvenil o Departamento de Recrutamento e Formação, com o objetivo de contribuir para uma ainda maior rentabilidade do nosso futebol mais jovem, autêntico viveiro da principal equipa do nosso clube.
Neste contexto, resolvemos sensibilizar todos os sócios para um trabalho de pesquisa que se baseia fundamentalmente na deteção de novos talentos, cujo valor poderá vir a contribuir para os êxitos desportivos que todos nós desejamos na área do futebol.
Assim, qualquer sócio do Sporting que esteja disposto a colaborar neste projeto bastará devolver-nos a ficha anexa, devidamente preenchida.
Na vossa cidade, vila ou aldeia, em qualquer momento pode despontar uma futura estrela. Queremos ser os primeiros a descobri-la através, claro, da vossa rápida informação.
Colaborar com o Departamento de Recrutamento e Formação é contribuir para um Sporting Maior!”
A adesão foi enorme, com a correspondência a ficar empilhada junto à porta 10-A onde também o telefone, então na forma de uma “central”, não parava de tocar. A organização da informação entroncou num plano que, anos depois, era muito semelhante à estrutura que ia sendo montada: um diretor por distrito que tinha por função concentrar todos os relatórios que eram feitos nessa região, olheiros a tentar chegar ao máximo de território possível, um circuito de informação em pirâmide que tinha Aurélio Pereira como o responsável máximo, mais referências que iam chegando como Figo, Dani, Simão, Cristiano Ronaldo ou Quaresma à luz de um “estatuto” que o clube verde e branco foi consolidando como principal expoente da formação.
Para a eternidade ???? pic.twitter.com/3YeJHHtzaF
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Mais tarde, com o advento da Academia, tudo mudou. Havia outras infraestruturas, havia outras condições, havia outra capacidade de investimento. No dias de hoje, tudo mudou. Há uma multiplicação de escolas de futebol ligadas ou não a clubes pelo país, as ideias de recrutamento desceram, as próprias ambições de quem joga (e dos pais, claro) também são diferentes. Tudo mudou menos os ensinamentos que ficaram.
▲ Rui Patrício e Adrien foram dois dos dez jogadores formados no Sporting que estiveram na conquista do Europeu de 2016 pela Seleção
Jorge Carmona/Global Imagens
Depois da melhor fase enquanto clube nos anos 40 e 50, quando o Sporting era conhecido pelo Crónico pela máquina de títulos ganhos na época dos Cinco Violinos, e de uma década de 60 com o único troféu europeu do futebol verde e branco (a Taça dos Vencedores das Taças, em 1964), João Rocha reinventou em parte o clube numa outra dimensão. Os leões tornaram-se ecléticos como nunca, com números de praticantes que superavam todos os recordes, com uma vontade voraz de ganhar a todos em tudo. Foi durante a gestão do presidente mais emblemático da história leonina que nasceram as melhores equipas de sempre no andebol, no hóquei em patins ou no basquetebol com um ponto em comum: a presença de jogadores que conheciam os cantos à casa por terem “crescido” lá. No futebol, nem sempre se sentiu isso ou pelo menos a perceção não era a mesma. Até que chegou Aurélio Pereira. Com ele, essa parte do ADN também foi redefinida.
Houve razões para isso e é aqui que entronca a singularidade do “Senhor formação”. O que fazia a diferença, além da óbvia capacidade anormal de olhar cinco ou dez minutos para um jogador e perceber se era “um descarado” ou não? A forma de ser. A lisura e educação com que conduzia todos os processos, tentando ser melhor sem faltar ao respeito a outros (exemplo prático: quando houve um surto na formação do Benfica nos tempos de Vale e Azevedo, recusou qualquer tipo de aproveitamento pela fragilidade do principal rival). A maneira como colocou os pais no centro de tudo, ciente de que muitas vezes a única coisa que queriam ver assegurada era o melhor para a educação e crescimento do progenitor (exemplo prático: a ligação que criou com Dolores Aveiro, mãe de Cristiano Ronaldo). A correção na disputa pelos melhores (exemplo prático: quando o pai de Paulo Sousa referiu que já tinha dado a palavra ao Benfica, agradeceu e afastou-se).
O sonho… obrigado por ter acreditado ???? pic.twitter.com/6D2LgDUOKN
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Educado, cordial e incapaz de levantar a voz para se fazer ouvir, Aurélio Pereira partiu aos 77 anos com quase todas as homenagens prestadas em vida e com um sem número de justas homenagens depois da sua morte. Deixou uma folha que inclui mais de 60 jogadores descobertos que seriam internacionais A por Portugal, uma marca na equipa campeã europeia em 2016 que era conhecida pelos Aurélios pelos dez jogadores que saíram da formação do Sporting e um legado na desporto nacional de formação que transcende em muito o trabalho por um clube. Deixou também um exemplo daquilo que não se deve perder por mais que o futebol sofra mudanças fruto da evolução dos tempos. Da parte dos jogadores que com ele trabalharam, sobrou o agradecimento e a memória do que dizia o seu texto sobre “O rapaz da camisola verde”.
Menino que corre, que salta, que luta
Menino que chuta, que chuta tão bem
Menino que finta como ninguém
Menino que cola com o pezinho a bola
Que a leva p’ra casa, p’ro quarto, p’ra cama
Menino que ama, que corre com ela
Com os olhos nela, bem juntinho à linha
Que diz sempre é minha, não dou a ninguém
Menino que vibra, que grita vitória
Que fica na história, também na memória da Seleção
Talvez que o destino queira fazer deste menino campeão
Menino que chuta, que corre
Que luta, que corre p’ra onde?
P’ra onde não sei, p’ro mundo da bola?
É preciso ser forte, muita cabeça e sorte, p’ra se ser um rei…