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Rei morto, rei posto. O Presidente francês, Emmanuel Macron, já está a pensar sobre quem é que vai ocupar o lugar de primeiro-ministro em França. O nome será anunciado “nos próximos dias” pelo Palácio do Eliseu e há vários nomes na calha. François Bayrou não resistiu a uma moção de confiança que o próprio convocou. No seu discurso antes da votação, demonstrava a sua resignação ao facto de não sobreviver a esta “prova dos nove”: “A queda do meu Governo foi anunciada desde o primeiro minuto da sua existência”.
Com esta moção de confiança, François Bayrou procurava ganhar legitimidade e apoios para a discussão e aprovação do Orçamento do Estado. No centro da agenda do ainda primeiro-ministro está a questão da dívida pública, que no seu entender terá obrigatoriamente de levar a uma redução da despesa pública e a uma maior contenção orçamental. No entanto, o centrista já sabia à partida que seria uma missão praticamente impossível sobreviver a esta votação, numa Assembleia Nacional altamente polarizada e fragmentada.
Foi um “suicídio político”, como descreveu a imprensa francesa. A moção de confiança foi chumbada por mais de 65% dos deputados da Assembleia Nacional (364): todos os partidos de esquerda votaram contra, tal como a União Nacional (RN) e até deputados de partidos de direita. Apenas 194 parlamentares votaram a favor, em particular no bloco centrista. Perante estes resultados, François Bayrou terá de apresentar a sua demissão ao Presidente francês, algo que fará esta terça-feira de manhã.
▲ Votação da Assembleia Nacional na moção de censura de François Bayrou
Anadolu via Getty Images
Depois da demissão de François Bayrou, Emmanuel Macron tinha duas opções. A primeira, apoiada pela RN devido aos bons números que está a obter nas sondagens, era a convocação de novas eleições legislativas. A segunda consistia na escolha de um novo primeiro-ministro, que será o terceiro desde julho de 2024. Depois da moção de censura, a Presidência francesa emitiu um comunicado em que garantiu que vai eleger um novo chefe do executivo. Mas a tarefa não se revelará nada fácil.
Por si, o bloco centrista (juntamente com os Republicanos, de centro-direita), liderado pelo Renascença de Emmanuel Macron, está muito longe de ter uma maioria absoluta: tem 210 deputados, sendo necessário 287 para uma maioria absoluta. É preciso, assim, negociar ou com a União Nacional ou com partidos à esquerda. Até agora, o PS francês tinha chegado a acordo com François Bayrou em algumas iniciativas governamentais, mas estava longe de ser um apoio constante.
Se o bloco centrista se tem recusado a negociar com a União Nacional, sobra negociar à esquerda. De fora, fica a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, que prefere adotar a via de confronto com os partidos liberais. Porém, socialistas e ecologistas não fecham totalmente a porta — e querem aproveitar o chumbo da moção de confiança para que alguém oriundo do centro-esquerda seja nomeado para ser o próximo primeiro-ministro francês.
▲ O secretário-geral socialista, Olivier Faure, quer ser primeiro-ministro
CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA
A despedida de Bayrou. Os avisos da “dívida pública” e as reações dos adversários
“É uma questão histórica.” No discurso de despedida enquanto primeiro-ministro, François Bayrou repetiu vezes sem conta o tópico que mais o preocupa: o aumento da dívida pública. França não tem um “orçamento equilibrado” há 51 anos, sendo que o sobreendividamento se tornou um “vício”. “Gastamos, mas nunca reduzimos. Tornou-se um reflexo e, pior ainda, um vício. As despesas ordinárias do país, as despesas com a vida quotidiana, com os serviços públicos, com as reformas, para pagar a segurança social habituámo-nos a financiá-las a crédito”, lamentou, acrescentando que o país tem agora “dívida pública esmagadora”.
Num paralelismo com um navio, François Bayrou disse que, se França quiser evitar um naufrágio, “deve agir agora”. “Isso requer a mobilização de todos e um esforço moderado de cada um, desde que atuemos a tempo”, defendeu. Era o principal argumento com o qual o ainda primeiro-ministro tentava convencer os deputados a votar a favor da moção de confiança: a situação económica francesa é tão frágil (na União Europeia, apenas Grécia e Itália têm uma maior dívida pública), que é necessário evitar a instabilidade política.
“A submissão à dívida é como a submissão à força militar. Dominados pelas armas, ou dominados pelos credores por causa de uma dívida que nos oprime… Em ambos os casos perdemos a liberdade”, avisou François Bayrou, tentando persuadir a Assembleia Nacional a aprovar o orçamento que apresentou — e que incluía o corte de dois feriados, o congelamento de pensões e maior tributação dos mais ricos.
▲ François Bayrou alertou para o aumento da dívida pública no seu discurso
AFP via Getty Images
O quadro pintado da atual situação de França era bastante negativo. Desde críticas ao sistema educativo até aos problemas de segurança, François Bayrou elencou inúmeros problemas que o país atravessa. “Senhoras e senhores, vocês têm o poder de derrubar o Governo, mas não têm o poder de apagar a realidade”, avisou, salientando que as “despesas vão continuar a aumentar ainda mais e ficarão cada vez mais pesadas” com a instabilidade política.
Diante deste panorama tão desolador em França, François Bayrou apelou a “compromissos” com todas as forças políticas. “Acredito nos consensos, mas acredito em compromissos que respeitem o essencial”, destacou, voltando a avisar: “Se não houver esse apoio mínimo, esse acordo entre as principais sensibilidades do país… A ação do Governo estará destinada ao fracasso e, pior ainda, não terá sentido”.
Nenhum dos partidos políticos na oposição se sensibilizou perante estes argumentos, deixando várias críticas à atuação do ainda primeiro-ministro. O primeiro a falar foi o grupo parlamentar do PS e o tom do líder do grupo parlamentar, Boris Vallaud, deitou por terra qualquer hipótese de a moção de confiança ser aprovada pelos socialistas. Para o deputado, este “ato político” era um “falso sacrifício” de François Bayrou.
Já a líder parlamentar da União Nacional, Marine Le Pen, declarou que esta segunda-feira marcava o “fim da agonia de um Governo fantasma” que não respondia às exigências de um “mundo que está a enfrentar vários problemas”. A antiga candidata presidencial criticou François Bayrou por se “lamentar perante as câmaras”, enquanto é o principal responsável pela “dívida pública” e pelo “colapso geral” de França. Ainda assim, o alvo principal da intervenção foi Emmanuel Macron, a quem deixou várias críticas.
Por sua vez, comunistas e ecologistas destacaram o “alívio” que sentem por François Bayrou ter convocado a moção de confiança e ter de se demitir. A França Insubmissa e o Partido Comunista deixaram ainda críticas ao “diagnóstico” feito pelo ainda primeiro-ministro, que governa “através do medo”, nomeadamente pelo fantasma da dívida pública.
Até alguns aliados de François Bayrou deixaram alguns apontamentos negativos à sua atuação. O Renascença, cujo presidente do grupo parlamentar é o antigo primeiro-ministro Gabriel Attal, salientou que não concorda totalmente com algumas proposta do Orçamento do Estado, em particular a eliminação de dois feriados. A mesma posição foi expressa pelos Republicanos, que lamentaram que a “voz da França que trabalha não tenha sido ouvida”.
▲ Gabriel Attal também criticou fim dos feriados no Orçamento elaborado por François Bayrou
AFP via Getty Images
Apenas alguns partidos pequenos centristas — como o MoDem, a que pertence François Bayrou, ou o Horizons de Édouard Philippe — defenderam publicamente a atuação e alertaram para a questão da dívida. Contudo, o ainda primeiro-ministro não parece ter ficado afetado com as críticas da esquerda à direita. Num discurso após todos os grupos parlamentares se terem manifestado, declarou que “foram nove meses de profunda felicidade” pessoal, apesar das dificuldades. E voltou à carga contra a dívida pública: “Um país não pode renunciar à sua soberania, nem aceitar a sua submissão aos credores“.
Esquerda celebra queda de Bayrou e sonha com cargo de primeiro-ministro. Attal está de “mão estendida”
Nos discursos que foram fazendo ao longo da tarde desta segunda-feira, ecologistas e socialistas sonhavam com um primeiro-ministro de esquerda, recordando a vitória que a coligação Nova Frente Popular obteve na segunda volta das eleições legislativas de 2024. “Agora cabe à esquerda governar”, declarou Boris Vallaud. O responsável político do PS assumiu que o partido, juntamente com a “restante esquerda e os ecologistas”, estão prontos para “governar e concretizar a estabilidade política, a justiça fiscal, social e territorial”.
“Que Macron nos chame ao Palácio de Matignon”, desafiou o socialista. O secretário-geral do PS, Olivier Faure, já se disponibilizou para ser o próximo primeiro-ministro. Numa entrevista esta segunda-feira após a moção de confiança, o líder partidário defendeu que deseja montar um “Governo de esquerda e ecologista”: “Ninguém tem uma maioria na Assembleia. Devemos mudar os métodos e respeitar o equilíbrio eleito pelo povo francês há um ano. É a hora de a esquerda governar”.
Os ecologistas também estão completamente a bordo desta solução. A presidente do grupo parlamentar dos Ecologistas, Cyrielle Chatelain, pressionou, durante o debate na Assembleia Nacional, Emmanuel Macron a escolher um “primeiro-ministro das fileiras da Nova Frente Popular”. “Deve aceitar a coabitação. Não tem outra escolha”, afirmou, acrescentando que essa mudança não servirá apenas para “mudar o rosto” do Governo, mas “para mudar de rumo”.
Aliás, os ecologistas exigem, desta vez, ser ouvidos por Emmanuel Macron. Na sequência da moção de censura contra o antigo primeiro-ministro Michel Barnier, a presidência convocou vários partidos para o Palácio do Eliseu — mas os ecologistas ficaram de fora. A coligação de várias forças políticas ecologistas pretende assumir um papel importante em novas negociações, mas ainda não é claro se a presidência vai responder a estes apelos.
A França Insubmissa não deverá assumir qualquer papel num eventual Governo de esquerda que seria apoiado pelo bloco liberal e até, quem sabe, pelos Republicanos, ficando na oposição. Dentro do PS, vozes como a do eurodeputado Raphaël Glucksmann, já vieram a público recusar esse cenário. E até Jean-Luc Mélenchon deixou críticas a Olivier Faure, numa entrevista após a votação da moção de confiança; diz que o secretário-geral do PS quer ser “primeiro-ministro quase o tempo todo” através de uma “grande coligação”: “Porque é que apoiaríamos isso?”
▲ Mélenchon deixou críticas a Faure por querer ser "primeiro-ministro quase o tempo todo"
AFP via Getty Images
Vai Emmanuel Macron aceitar um cenário de coabitação com um socialista enquanto primeiro-ministro? Neste cenário, as forças políticas no Eliseu e no Matignon serão diferentes, o que significa que a presidência terá menos poderes e terá de chegar a consensos com o líder do executivo sobre a governação do país. “Não consigo imaginá-lo a aceitar o que ele considera um retrocesso”, confidenciou uma fonte socialista ao Libération.
Para já, socialistas e centristas não desejam eleições, preferindo-se focar nas municipais (marcadas para março de 2026). Para evitar uma nova ida às urnas, há que aprovar um Orçamento do Estado, mas ainda não é claro se haverá compromissos suficientes de parte a parte. No debate da moção de confiança, o presidente do grupo parlamentar do Renascença e aliado do Presidente, Gabriel Attal, declarou que “a política está cansada de certezas, linhas vermelhas e intransigência”, lamentando que os “franceses não acreditam mais na política”.
É preciso, assim, um “acordo de interesse geral” de “forças republicanas” até às próximas eleições presidenciais de 2027. “Derrubar o Governo não resolverá nada. Só terá um efeito: vai atrasar-nos”, advertiu Gabriel Attal. Por essa razão, o também antigo primeiro-ministro pediu um “compromisso” até com a esquerda. “Compromissos exigem coragem. Estendo a minha mão. Vamos encontrar um ponto em comum”, insistiu.
Para além do cenário de coabitação (indesejado por Emmanuel Macron), existe outro fator que pode impossibilitar a escolha de um primeiro-ministro de esquerda: a falta de apoio do Republicanos. O partido de centro-direita já manifestou várias reservas sobre a possibilidade de haver um líder socialista e o número dois, Bruno Retailleau, assegurou que a força política não participará num Governo chefiado por alguém do PS.
Macron pode escolher alguém do seu campo político, mas complica aprovação do Orçamento
Gabriel Attal colocou uma data em cima da mesa: 31 de dezembro de 2025. Até essa data, França tem de ter um Orçamento aprovado: “É uma questão vital”. Ainda assim, Emmanuel Macron poderá escolher alguém do seu campo político, tal como fez com François Bayrou. Ao fazê-lo, o Presidente francês evita o cenário de coabitação, mas complica a aprovação do Orçamento.
No campo macronista, há vários nomes que estão disponíveis para ocupar o cargo. O ainda ministro da Defesa, Sébastien Lecornu, a ministra do Trabalho e da Saúde, Catherine Vautrin, e o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, estão entre os favoritos, segundo o Le Figaro. Mesmo sabendo dos riscos que correm (de serem alvos de uma moção de censura pela oposição), estas personalidades gostavam de ocupar o cargo de primeiro-ministro. “Para algumas personalidades políticas, carimbar ‘primeiro-ministro’ no currículo é algo obrigatório. Independentemente do que acontece a seguir”, comentou uma ex-ministra ao Le Figaro.
▲ Gérald Darmanin (à esquerda), Sébastien Lecornu (ao centro) e Catherine Vautrin (à direita): os candidatos do bloco macronista ao cargo de primeiro-ministro
CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA
Outra possibilidade consiste em escolher o antigo primeiro-ministro Bernard Cazeneuve. O antigo chefe do executivo socialista (que entrou em rota de colisão com o PS após a aliança com a França Insubmissa) já foi um nome que circulou após a moção de censura de Michel Barnier. Poderá ser ele a ocupar o cargo? Tendo em conta os seus antecedentes políticos, poderia ser um rosto consensual o suficiente para montar uma coligação de “interesse nacional”, se bem que se tenha afastado do PS nos últimos anos.
Na calha para ser o novo primeiro-ministro está também Xavier Bertrand, um perfil que agrada à esquerda e direita. Um conselheiro da presidência disse, ao Le Parisien, que é alguém que tinha capacidade de “construir uma frente republicana e que dialoga com socialistas”: “Isso já preenche muitos requisitos”. Até o presidente do grupo parlamentar dos Republicanos, Laurent Wauquiez, o elogiou: “Xavier Bertrand ao menos não é socialista. A evolução é positiva”.
Um aliado de Emmanuel Macron definiu ao Le Figaro o perfil que o Presidente procura para primeiro-ministro: “Tem de ser alguém conhecido, consensual, que lute contra a União Nacional, que tenha tido responsabilidades tanto a nível local como no Governo, e que não esteja associado a governos Macron”, descreveu, vaticinando: “À esquerda, é Bernard Cazeneuve; à direita, é Xavier Bertrand”.
▲ Bernard Cazeneuve (à esquerda) e Xavier Bertrand (à direita) podem ser os próximos primeiros-ministros
OLIVIER HOSLET/EPA
Ainda assim, não é certo que o PS e os ecologistas consintam esta solução governativa, que pode complicar a aprovação do Orçamento do Estado. Por agora, o “acordo de interesse geral” com “forças republicanas” será difícil de concretizar numa Assembleia Nacional fragmentada. No meio deste processo, a União Nacional vai tentando explorar as dificuldades que enfrentam os partidos do centro político.
Segundo as sondagens mais recentes, caso fossem convocadas novas eleições legislativas, a União Nacional sairia vencedora com cerca de 33% das intenções de voto. A Nova Frente Popular ficar-se-ia pelos 26%, ao passo que o bloco macronista pelos 16%. Neste momento mais negativo, centristas e socialistas preferem evitar uma nova ida às urnas; mas vão agora colaborar ou preferem manter o impasse — que os pode vir a prejudicar?