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A economia da zona euro “ainda não atingiu o potencial” e não faz sentido falar em "estagflação", afirmou Christine Lagarde.
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▲A economia da zona euro “ainda não atingiu o potencial” e não faz sentido falar em "estagflação", afirmou Christine Lagarde.

Andrej Hanzekovic/ECB

▲A economia da zona euro “ainda não atingiu o potencial” e não faz sentido falar em "estagflação", afirmou Christine Lagarde.

Andrej Hanzekovic/ECB

BCE volta a baixar juros pela dose mínima e rejeita culpas pela "estagnação" da economia

Banco central voltou a cortar juros pela dose mínima, apesar de estar confiante de que inflação chegará à meta em breve. "Estagnação" da economia deve-se a incerteza política e comercial, diz Lagarde.

A economia europeia “estagnou“ no final do ano passado e, pelo menos no curto prazo, não deverá sair da situação de “fragilidade” em que vive. Apesar disso, e embora o BCE esteja confiante de que o “processo desinflacionista está bem encaminhado“, Christine Lagarde anunciou mais um corte da taxa de juro apenas pela dose mínima – 25 pontos base – e revelou que nem sequer esteve em cima da mesa a possibilidade de um movimento mais audaz, como um corte de 50 pontos base. Se o desempenho económico da Europa está aquém do desejável, Lagarde diz que isso se deve à “ansiedade política” em alguns países e às “fricções” que Trump pode provocar no comércio internacional.

Segundos depois de dizer, na conferência de imprensa desta quinta-feira, que a decisão de baixar os juros em (apenas) 25 pontos base foi “unânime” no Conselho do BCE, Christine Lagarde deu uma pista mostrando que será altamente provável que venham aí mais descidas. “Não falámos sobre o momento em que devemos parar [de descer os juros], porque seria prematuro ter esse debate“, indicou a presidente da autoridade monetária da zona euro, acrescentando que a inflação deverá atingir o objetivo de 2% já nos próximos meses.

Os analistas compreenderam a mensagem. Embora o BCE diga, oficialmente, que “não se compromete antecipadamente” com quaisquer decisões futuras, Lagarde deixou o sinal de que é muito provável que haja um novo corte nas taxas de juro já na próxima reunião do Conselho do BCE, em março. Tal como antes desta quinta-feira, os mercados de futuros de taxas de juro continuam a apontar como cenário mais provável que a taxa de juro dos depósitos – a mais importante na política monetária do BCE – baixe dos atuais 2,75% para 2% até ao final do ano.

Lagarde rejeita ter bitcoins nas reservas do banco central

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Depois de o banco central da República Checa admitir que está a ponderar comprar bitcoins para incluir nas reservas do banco central, Lagarde considera que “há uma visão de que as reservas têm de ser líquidas, seguras, não devem ter risco de ter qualquer ligação com atividades ilícitas”.

“Estou confiante de que a bitcoin não irá entrar nas reservas dos bancos centrais na União Europeia”, afirmou a responsável.

O que causa maior perplexidade entre os especialistas é que o BCE, que não hesitou em fazer várias subidas de 75 pontos base em 2023, continua a fazer cortes pela dose mínima e a manter a taxa de juro num nível que deliberadamente restringe a atividade económica – a mesma atividade económica que Christine Lagarde admitiu ter “estagnado”.

“Lagarde afirmou que, apesar da descida de hoje [quinta-feira], a política monetária na zona euro continua num nível restritivo – na nossa opinião, demasiado restritivo tendo em conta o estado frágil da economia neste momento”, escreveu Carsten Brzeski, economista-chefe do banco neerlandês ING, numa nota de reação à decisão desta quinta-feira.

Economia portuguesa cresceu 1,9% em 2024, acima da previsão do Governo

A referência à taxa de juro num nível “restritivo” está relacionada com os três níveis em que um banco central pode colocar as suas taxas de juro: estas ou são “restritivas“, isto é, um nível mais elevado que desincentive e encareça o crédito, travando a expansão económica; ou estão num nível “acomodatício“, ou seja, num valor baixo que procura estimular a atividade e a inflação, se esta estiver demasiado baixa; ou estão num valor “neutral“, em que, teoricamente, nem fazem uma coisa nem outra.

O BCE está neste momento, indicou Christine Lagarde, a fazer um estudo para calcular onde é que está o tal nível “neutral” da política monetária na zona euro (e, por inerência, onde é que terminam os níveis “restritivos” e começam os “acomodatícios”). Esse estudo deverá ser publicado na próxima semana, revelou. Mas a opinião da generalidade dos economistas é que o nível “neutral” estará algures entre 1,75% e 2,5% – ou seja, o BCE está a mover-se muito gradualmente na aproximação a essa “neutralidade” da política monetária.

“Atingir o nível neutral parece ser o objetivo, mas pode ser necessário ir mais além“, considera Carsten Brzeski, do ING, atirando que, com estas descidas lentas, “o BCE está a olhar pela janela mas, em breve, poderá estar a correr em direção à porta”.

"Atingir o nível neutral parece ser o objetivo, mas pode ser necessário ir mais além. O BCE está a olhar pela janela mas, em breve, poderá estar a correr em direção à porta."
Carsten Brzeski, economista-chefe do banco neerlandês ING

Este não é o único analista que admite que Christine Lagarde poderá ter de baixar as taxas de juro mais rapidamente ou, pelo menos, mais vezes, para níveis mais baixos do que 2%: “Acreditamos que o baixo crescimento e a inflação [perto do objetivo] irão levar o BCE a baixar as taxas de juro mais do que a maioria dos investidores preveem, com a taxa dos depósitos a baixar para 1,5% ainda este ano“, afirma Jack Allen-Reynolds, economista-chefe adjunto para a zona euro da Capital Economics.

Já há vários meses, um outro especialista entrevistado pelo Observador em Lisboa, Alex Brazier da BlackRock, mostrou-se convicto de que a economia europeia enfrenta “ventos contrários” muito mais desafiantes do que os EUA e, por isso, embora possa ser um processo longo, “as taxas de juro irão precisar de ser colocadas num nível mais baixo” na zona euro – algures entre 1% e 2%, “talvez mais perto de 1% do que de 2%“.

BCE. “Taxas de juro vão baixar para entre 1% e 2% – mais perto de 1%”, antecipa a BlackRock

A justificação dada por Christine Lagarde para que o BCE continue a manter as taxas de juro num nível “restritivo”, em 2,75%, é que ainda é cedo para “celebrar” a vitória contra a inflação, que continua elevada no setor dos serviços. “A inflação interna continua elevada, sobretudo porque os salários e os preços em alguns setores ainda se estão a ajustar à inflação passada, com um atraso significativo”, afirmou a presidente do BCE.

Porém, Lagarde reconheceu que “a economia estagnou no quarto trimestre, segundo a estimativa do Eurostat” e “deve manter-se débil no curto prazo”. Isso acontece, em parte, porque, na leitura da presidente do BCE, a confiança dos consumidores é “frágil” e “as famílias ainda não sentem suficiente otimismo, mesmo com a subida dos seus rendimentos reais [ajustados à inflação], para aumentarem de forma significativa o seu consumo”.

Essa confiança “frágil” também se manifesta no baixo investimento das empresas, reconheceu Lagarde, numa resposta sobre os níveis de poupança que continuam acima dos níveis anteriores à pandemia. Mas a francesa garante que a acumulação excessiva de poupança e a falta de investimento não se deve ao nível “restritivo” da taxa de juro definida pelo BCE mas, sim, à “ansiedade política” que existe em alguns países como Alemanha e França.

Lagarde encolheu-se um pouco, enquanto se referia à “ansiedade política” como obstáculo ao crescimento e ao otimismo dos consumidores e empresas – ciente de que, se falasse demais, poderia ser acusada de interferir com os processos democráticos, tais como as eleições na Alemanha. Ainda assim, ficou no ar a ideia de que, assim que o tempo passar, o efeito da descida dos juros se enraizar e a “ansiedade política” se reduzir, o BCE está otimista de que a retoma económica poderá acelerar.

"Acreditamos que o baixo crescimento e a inflação [perto do objetivo] irão levar o BCE a baixar as taxas de juro mais do que a maioria dos investidores preveem, com a taxa dos depósitos a baixar para 1,5% ainda este ano."
Jack Allen-Reynolds, economista-chefe adjunto para a zona euro da Capital Economics

A economia da zona euro “ainda não atingiu o potencial” e não faz sentido falar em “estagflação“, afirmou Lagarde, numa referência ao conceito económico que descreve uma perigosa situação de baixo crescimento com inflação elevada. A presidente do BCE salientou, também, que as exportações podem ter um papel importante na retoma – embora também isso esteja fora do controlo do BCE, inferiu Lagarde.

“Partindo do pressuposto que as tensões comerciais não escalam, as exportações devem suportar a economia” da zona euro, afirmou a presidente do BCE, sem referir explicitamente o risco de agravamento das tarifas comerciais por parte da nova administração de Trump, nos EUA. Questionada pelos jornalistas, Christine Lagarde acrescentou que eventuais “fricções” no comércio internacional irão tornar mais “incertas” as perspetivas económicas na zona euro, incluindo ao nível da inflação.

Ainda assim, por muito que se fale (até o próprio Presidente Trump) na possibilidade de tarifas agravadas nos EUA, Lagarde salienta que, “para já, não há nada que possamos avaliar de forma concreta, para perceber exatamente o que está a ser preparado”. “Se isso acontecer”, se as tarifas forem agravadas, “claro que isso irá entrar na análise macroeconómica”, afirmou a presidente do BCE, acrescentando que tais agravamentos não terão, necessariamente, um efeito inflacionista.

“É muito mais complexo do que isso, dizer que [tarifas são algo que] é inflacionista ou não é inflacionista”, porque tais agravamentos dos custos no comércio internacional – designadamente nas importações norte-americanas – podem levar a situações de “desvio de comércio” e “pode haver mais ou menos retaliação”, entre outras consequências possíveis. “O que podemos dizer é que terá um impacto global negativo”, avisou Lagarde.

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