A economia portuguesa cresceu 1,9% em 2024, anunciou esta quinta-feira, 30 de janeiro, o Instituto Nacional de Estatística (INE). Em 2023, o PIB tinha subido 2,5%. Esta é ainda a estimativa rápida, com os dados detalhados esperados para 28 de fevereiro.

O INE ainda não dá muitos pormenores, mas vai indicando que a procura interna deu um importante contributo, acima até do que em 2023, para a evolução anual, “refletindo a aceleração das despesas de consumo final, tendo o investimento desacelerado”. Já a procura externa líquida teve um contributo negativo em 2024, com as importações a acelerar e as exportações com crescimento próximo do ano anterior.

Considerando apenas o quarto trimestre, a economia acelerou com uma variação homóloga de 2,7%, mais 0,7 pontos que no terceiro trimestre (em termos homólogos). Em cadeia, ou seja, comparando com o terceiro trimestre deste ano, o crescimento foi de 1,5%, quando nesse trimestre tinha subido 0,3%.

O consumo privado foi o que permitiu esta aceleração no final do ano. O último trimestre trouxe mais rendimento líquido aos portugueses, devido à descida das taxas de IRS que resultaram em novas tabelas de retenção que cortaram no imposto retido e deram mais salário ao fim do mês. Também em outubro os pensionistas receberam um suplemento extraordinário.

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O INE indica que “o contributo positivo da procura interna para a variação homóloga do PIB aumentou no quarto trimestre, em resultado da aceleração do consumo privado. O contributo da procura externa líquida para a variação homóloga do PIB manteve-se negativo, refletindo o crescimento mais intenso das importações de bens e serviços em comparação com o das exportações”.

O INE reviu, ainda, o crescimento referente ao terceiro trimestre, que ficou, assim, nos 2%, em vez dos anunciados anteriormente de 1,9%. O INE justifica a revisão pela incorporação de nova informação nomeadamente relativa ao comércio internacional.

Fonte: INE

O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, já tinha sinalizado, no Parlamento, que o quarto trimestre tinha corrido bem. A 15 de janeiro, quando foi ouvido no Parlamento, o titular da pasta das Finanças tinha reafirmado as metas do Governo inscritas no Orçamento do Estado para 2025, indicando que o quarto trimestre tinha tido indicadores “significativamente bons, houve uma boa aceleração económica, ainda provisórios, um bom quarto trimestre”, o que também “nos traz maior robustez de crescimento para 2025”, apontando para 2,1%.

O Governo antecipava um crescimento anual de 1,8%. O Conselho das Finanças Públicas estava alinhado com o Governo na projeção para o PIB de 2024. OCDE, Comissão Europeia e Banco de Portugal tinham projeções de 1,7%. O FMI era o mais otimista com uma projeção de 1,9%, acertando assim no valor.

Crescimento acima do esperado já ajuda 2025

O crescimento acima do esperado em 2024 e em particular a subida registada no quarto trimestre já apresentam boas notícias referentes a 2025 para o Governo. No Orçamento do Estado para 2025, o Executivo aponta para uma subida do PIB este ano de 2,1%, mais otimista que a Comissão Europeia (1,9%) e que a OCDE (2%), mas abaixo do que Banco de Portugal (2,2%), FMI (2,3%) e Conselho das Finanças Públicas (2,4%) projetam.

“O crescimento acima do esperado poderá beneficiar a economia em 2025, mas será essencial monitorizar riscos como a inflação e o défice externo. Se o crescimento for equilibrado entre consumo, investimento e exportações, os efeitos poderão ser positivos e sustentáveis a longo prazo”, salienta ao Observador Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, admitindo que “a dinâmica positiva do quarto trimestre de 2024 pode levar a revisões ligeiramente em alta para 2025, mas será necessário acompanhar os próximos indicadores económicos, sobretudo o comportamento do consumo, do investimento e da inflação, para validar esta tendência”.

Na nota divulgada pela Católica salienta-se, também, que “uma das consequências do forte crescimento do quarto trimestre é o efeito de arrasto (carry-over) para 2025, que é de 1,3 pontos percentuais. Assim, não será difícil à economia portuguesa crescer acima de 2% este ano”. A mesma conta é feita pelo BPI que indica, numa nota enviada, que, “mesmo sem crescimento trimestral, por construção, o PIB anual este ano aumentaria 1,3%”. E é por isso que o banco indica que, “depois destes dados, face à previsão do BPI Research para 2025 (2,3%), os riscos revelam-se agora enviesados em alta”.

Pedro Braz Teixeira, do Forum para a Competitividade, alerta, no entanto, que “há um efeito positivo sobre 2025, mas o ano está com tanta incerteza, sobretudo associada às novas políticas dos EUA, que é difícil quantificar este benefício”.

As componentes específicas que fizeram subir o PIB só daqui a uns dias se conhecerão. Ainda assim, o BPI antecipa que “o investimento terá um comportamento positivo, reflexo de dois aspetos: entrada no penúltimo ano dos fundos NG EU [através do PRR] e possível aceleração da sua execução; assinatura de contratos de investimento entre a AICEP e investidores privados previstos para se iniciarem em 2025 e prolongarem-se nos próximos 10 anos (420 milhões de euros a serem executados até 2035). Estes dois fatores serão suportados por condições de financiamento menos restritivas, dada a expectativa de que o BCE continue a reduzir as taxas diretoras, aproximando-as dos seus níveis neutrais”.

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Falta ainda perceber a evolução, em concreto, do investimento. O INE fala em desaceleração no conjunto de 2024, o que, diz Pedro Braz Teixeira, “teremos que ver os pormenores do investimento, dado que esta redução reflete ‘sobretudo o contributo negativo da Variação de Existências’. Mas não era de esperar, até pela melhoria da carteira de encomendas da construção, que atingiu um máximo de 20 anos”.

“A redução das existências [referida pelo INE] decorreu dos fluxos de comércio internacional, o que sugere um bom desempenho das exportações no último trimestre de 2024. Em aberto fica a possibilidade de que a FBCF [formação bruta de capital fixo] tenha tido um bom desempenho e o facto de muito provavelmente o consumo privado continuar forte, em linha com os indicadores preliminares disponíveis para o trimestre”, salienta o BPI.

Paulo Rosa recorda, por seu lado, que “o crescimento do PIB em 2024 foi moderado, refletindo o impacto do consumo privado e a desaceleração do investimento. No setor externo, o crescimento das importações superou o das exportações, pesando na balança comercial. Apesar da recuperação no final do ano, o ritmo de crescimento foi inferior ao de 2023”. O PIB acelerou no final do ano e conseguiu um crescimento de 1,5% em cadeia. E, assim, “um crescimento mais robusto torna o mercado mais apelativo para investidores internacionais, favorecendo a entrada de capital”, ainda que possa pressionar a inflação e impulsionar as importações, agravando o défice comercial. “Se o aumento do rendimento disponível impulsionar o consumo sem um reforço equivalente da produção interna, o equilíbrio da balança comercial pode ser posto em causa”.

Daí que o responsável do Banco Carregosa indique que “o desempenho da economia no final de 2024 foi positivo, mas existem desafios para 2025. A manutenção do crescimento do consumo e a descida dos juros são fatores favoráveis, mas a desaceleração do investimento e a fragilidade da procura externa são pontos a ter em atenção”.

Zona Euro e União Europeia crescem menos que Portugal

Com estes valores para Portugal, o país cresceu mais do que a região europeia e do que a zona euro. Segundo dados divulgados esta quinta-feira pelo Eurostat, a zona euro teve um crescimento de 0,9% em termos homólogos no quarto trimestre (tendo a União Europeia subido 1,1%) e estagnou na evolução em cadeia. Portugal teve, em termos homólogos no quarto trimestre, a terceira maior subida — atrás dos 3,6% da Lituânia e dos 3,5% de Espanha. A Alemanha teve uma contração de 0,2% no quarto trimestre.

Em cadeia, a estagnação da zona euro foi seguida pela subida ligeira de 0,1% na união europeia. Em cadeia Portugal foi o que mais cresceu com uma subida de 1,5%.

No conjunto do ano, a zona euro subiu 0,7% e a União Europeia registou um crescimento de 0,8%.