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Stephen Lovekin

Stephen Lovekin

Brad Stone sobre a nova Silicon Valley: "A Uber espezinhou velhos paradigmas"

O editor executivo da Bloomberg News escreveu um livro sobre como a Uber, a Airbnb e os "unicórnios" estão a mudar o mundo. Ao Observador, Brad Stone explica o que o desilude na nova Silicon Valley.

Brad Stone não duvida: o perfil agressivo, polémico e contracorrente de Travis Kalanick “levou a Uber a um tremendo sucesso” até que, de repente, se tornou um risco. “A Uber espezinhou os velhos paradigmas”, disse ao Observador o editor executivo da Bloomberg News, especializado em empresas tecnológicas e autor do bestseller do New York Times sobre a Amazon, o A Maior Loja do Mundo (Clube do Autor), considerado o “Melhor Livro do Ano 2013” pelo Financial Times. A entrevista por email ocorreu pouco tempo depois de a Actual Editora ter editado a última obra do autor — As Upstarts: Como a Uber, a Airbnb e os unicórnios da nova Silicon Valley estão a mudar o mundo — e no rescaldo das polémicas que levaram a Uber (avaliada em 68 mil milhões de dólares) a ter o pior ano da sua história.

Há mais de 20 anos a acompanhar a indústria tecnológica, Brad Stone confessa que o que mais o desiludiu foi ter percebido que a tecnologia não estava a criar a diversidade de oportunidades que prometia. “E isso resulta em maus produtos, em produtos tendenciosos e significa que o que resta desta enorme criação de riqueza está a ser distribuído de forma desigual para diferentes grupos”, afirmou. No último livro, Brad Stone conta a história das duas empresas que têm sido o rosto da nova economia — e economia da partilha — e que mais têm desafiado os governos e as regulamentações dos países por onde passam. “A Airbnb enfrentou este desafio com mais sucesso, negociando com as cidades. A Uber resistiu à regulamentação e desencadeou a ira dos políticos e do público”, afirmou Brad.

Upstart (substantivo):
1. Uma pessoa ou empresa recentemente bem-sucedida.
2. Alguém que iniciou há pouco tempo uma atividade, enriqueceu, etc., e que não mostra deferência para com pessoas mais velhas e mais experientes ou para com a forma instituída de fazer as coisas.
– Adaptado do Merriam-Webster’s Learner’s Dictionary

Há 20 anos que acompanha o que se passa em Silicon Valley. Está desiludido com a forma como a indústria evoluiu nos últimos anos e com a cultura empresarial agressiva que se vive por lá?
A grande promessa da tecnologia era a de fazer com que as pessoas tivessem mais oportunidades. Ainda estou otimista com a Internet e acredito que a maioria dos produtos da indústria cumpriram com esse objetivo — dando-nos um acesso sem precedentes à informação, fazendo com que poupássemos tempo, fornecendo alternativas a serviços como táxis e hotéis, tudo a uma variedade de preços diferentes.

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Mas a indústria tecnológica, em si, reduziu oportunidades: a comunidade parece estar mais do que nunca virada para os jovens e para os homens, mais do que alguma vez esteve na sua história. E isso resulta em maus produtos, em produtos tendenciosos e significa que o que resta desta enorme criação de riqueza está a ser distribuído de forma desigual para diferentes grupos. Isto é dececionante, mas espero estarmos no início da mudança.

O que é que o chocou mais em Silicon Valley?
Foi surpreendente o facto de vários executivos seniores e investidores terem revelado que tiveram condutas sexuais impróprias. Começou em Hollywood, com as notícias sobre Harvey Weinstein, e depois espalhou-se para outras indústrias. Silicon Valley considera-se uma comunidade iluminada e igualitária e, por isso, foi inquietante perceber que este tipo de comportamento também acontece por lá. Mas também foi elucidativo e informativo, para perceber por que é que as mulheres não estão a progredir o suficiente na indústria tecnológica.

"A Uber está preparada para ter um sucesso contínuo, por um motivo simples: as pessoas em todo o mundo continuam a usar e a valorizar este tipo de aplicações e a Uber tem uma posição de liderança na indústria"

Acha que a Uber vai conseguir sobreviver a todos os escândalos que foram tornados públicos em 2017? O novo presidente, Dara Khosrowshahi, vai conseguir interromper o legado deixado por Travis Kalanick?
2017 foi mais um ano de crescimento estelar para a Uber, com as viagens a nível global e as receitas a aumentarem drasticamente. Isto é notável, porque, como todos sabem, 2017 foi um ano de controvérsias intermináveis para a empresa, com o presidente executivo a sair em desgraça. Mas acho que, enquanto a empresa perdia um pouco de dinheiro durante o ano, estava, ao mesmo tempo, preparada para ter um sucesso contínuo, por um motivo simples: as pessoas em todo o mundo continuam a usar e a valorizar este tipo de aplicações e a Uber tem uma posição de liderança na indústria.

Acho que o desafio de Dara Khosrowshahi é conseguir que a Uber saia de alguns negócios regionais e que não estão a dar dinheiro, duplicar o que está a resultar, acalmar o tumultuoso conselho de administração e estabelecer uma cultura mais madura dentro da empresa.

Na sua opinião, qual foi o maior erro de Travis Kalanick?
Não ter contratado líderes experientes e com maturidade para estarem a seu lado, e não ter ouvido os que já lá estavam. Nos últimos anos, enquanto a Uber crescia para uma empresa que vale perto de 70 mil milhões de dólares e emprega mais de 15 mil funcionários, Kalanick recusou-se a contratar profissionais experientes. Não tinha nenhuma pessoa responsável pelas operações da empresa, nenhum diretor financeiro nem nenhum diretor jurídico. E quanto aos líderes experientes que estavam a seu lado, tendia a não ouvi-los. Acho que isso aconteceu porque ele estava convicto de que as pessoas que tinham um certo nível de experiência se traduziam em burocracia, lentidão e fracasso. O perfil de risco de Kalanick, a sua mentalidade direcionada para quebrar regras levou a empresa a um tremendo sucesso — até que de repente se tornou um risco.

O que é que o surpreendeu mais durante a investigação que fez para escrever este livro? E porquê?
Escrever este livro fez com que tivesse uma janela aberta para perceber como é que os investidores em capital de risco com sucesso trabalham. Os investidores que apostaram antecipadamente na Uber e na Airbnb já tinham noção do potencial destas indústrias ainda antes de se encontrarem com estas startups.

Bill Gurley, do Benchmark, acreditava que os smartphones e o GPS poderiam mudar o negócio do setor do táxi. Na verdade, ele até tentou investir (mas não conseguiu) numa outra empresa chamada Taxi Magic, antes de descobrir uma pequena startup chamada Uber Cab. Greg McAdoo, no Sequoia, andava numa busca parecida, à procura de um negócio de partilha de casas, antes de encontrar o Airbnb na escola de startups do Y Combinator. Gurley, que esteve no conselho de administração da Uber durante os escândalos, teve de assumir um papel ativo para instigar a necessidade de mudar o estilo de liderança da empresa. Andar a pesquisar sobre estes investidores fez-me perceber qual é o seu papel e que desafios enfrentam quando investem no setor tecnológico numa fase tão inicial.

Na maioria dos países, estas empresas operam fora das leis e das regulamentações existente. Isto tem sido uma chave para o sucesso ou um obstáculo?
Começou por ser uma chave para o sucesso. Vamos pegar no exemplo do setor do táxi primeiro: na maioria das cidades, a regulamentação não sofre alterações há décadas e isso permitiu que existissem apenas dois tipos de serviço nos EUA — os chamados táxis amarelos, que podem apanhar as pessoas que chamam os táxis na rua, e os carros que podem ser reservados através de um telefonema. Nenhum dos serviços era ótimo, principalmente porque os limites que eram artificialmente impostos sobre o número de carros que podiam circular nas cidades criava escassez de oferta quando estava mau tempo por exemplo, ou nas zonas periféricas das cidades.

A Uber espezinhou estes velhos paradigmas com carros que poderiam ser pré-reservados e utilizados instantaneamente através do telefone e dando às pessoas uma alternativa confiável e barata para se deslocarem pela cidade. O Airbnb também quebrou com as velhas regras que incidiam sobre as zonas onde os hotéis podiam operar. Mas quando os governos despertaram para os efeitos secundários disruptivos provocados por estas empresas (os motoristas que não eram certificados atacaram clientes, as pessoas tiveram acidentes nos Airbnb), então começaram a levar mais a sério a atualização destas regulamentações. E isto foi um desafio para as upstarts. Argumentaria que a Airbnb enfrentou este desafio com mais sucesso, negociando com as cidades. A Uber resistiu à regulamentação e desencadeou a ira dos políticos e do público.

"A Uber e a Airbnb devem dispersar capital em bolsa (fazer um IPO) e quanto mais cedo melhor, porque os colaboradores e os primeiros investidores destas empresas precisam de liquidez"

No livro, escreve que estes novos presidentes executivos não são como Bill Gates (Microsoft) ou como Mark Zuckerberg (Facebook), conhecidos pelas suas personalidades mais introvertidas e tímidas. É isto um bom ou um mau sinal? Silicon Valley tornou-se no sítio perfeito para alimentar estes egos?
À medida que a tecnologia afeta mais pessoas e indústrias, acho que precisamos de personalidades mais extrovertidas para liderar as nossas empresas — mulheres e homens que possam explicar ao público o impacto disruptivo que as suas empresas estão a causar. Para ser um bom comunicador não deveria ser preciso ter um problema de ego.

Acha que empresas como a Uber ou Airbnb vão mesmo dispersar capital em bolsa, um dia? Por que razão estão a demorar tanto tempo?
Sim, devem dispersar capital em bolsa (fazer um IPO) e quanto mais cedo melhor, porque os colaboradores e os primeiros investidores destas empresas precisam de liquidez. A Uber já anunciou uma data provável para o seu IPO e será em 2019. A Airbnb pode fazer um IPO no final deste ano ou no próximo. Isto está a demorar muito tempo, porque continuamos num ambiente único em termos de capital, com investidores não tradicionais — como os fundos de riqueza soberanos — a canalizar grandes fatias de dinheiro para empresas privadas. O Softbank, por exemplo, levantou 100 mil milhões de dólares para o Vision Fund. Com estes montantes disponíveis no mercado privado, não havia necessidade destas upstarts irem para os mercados públicos.

As avaliações podem estar um pouco altas, mas o perigo de uma eventual correção ficará limitado aos investidores privados, porque muitas destas empresas ainda não estão cotadas. Agora, em relação a esta subida da Bitcoin -- isso, sim, acho que é uma bolha"

Na sua opinião, estas avaliações elevadas são um sinal de que as empresas tecnológicas estão a viver uma bolha? Se estiverem e esta bolha rebentar, quais são os efeitos secundários?
Acho que a oportunidade de mercado [destas empresas] é muito real. Há indústrias inteiras que estão a ser reconstruídas devido às mudanças impostas pelos smartphones, pela computação em cloud (na nuvem) e pela inteligência artificial. E o capital está agora a fluir das empresas mais estabelecidas para as de tecnologia. As avaliações podem estar um pouco altas — os mercados tendem a sobrerreagir –, mas o perigo de uma eventual correção ficará limitado aos investidores privados, porque muitas destas empresas ainda não estão cotadas. Agora, em relação a esta subida da Bitcoin — isso, sim, acho que é uma bolha.

Que perguntas gostaria de ter feito a Travis Kalanick e a Brian Chesky que não teve oportunidade de fazer?
Perguntei aos presidentes executivos das empresas tudo o que queria, mas conseguir que um líder executivo responda honestamente e sem rodeios ao que queremos é outro assunto. Adoraria ouvir Travis Kalanick falar francamente sobre os erros que cometeu e que o levaram a ser expulso da Uber. Acho que ele ainda não falou publicamente sobre isso. E adoraria ouvir o Brian Chesky falar abertamente sobre as tremendas oportunidades e desafios que a empresa tem na China, e por que razão as empresas ocidentais são tantas vezes bloqueadas lá. Quando tem de responder a essa pergunta, deve ser politicamente correto. Gostaria de saber o que ele realmente pensa.

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