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Brasil. Do pastor ao super-juiz: quem são os homens do Presidente Bolsonaro? /premium

Três super-ministros, um pastor evangélico e um ideólogo que prefere ficar na sombra são as figuras que dão respaldo a Bolsonaro. Mas, entre tantos homens fortes, adivinham-se também focos de tensão.

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Jair Bolsonaro andou com a polémica sempre nos lábios, foi atacado em plena campanha, transformou a forma de fazer política no Brasil e provocou um terramoto político no país ao ser eleito para Presidente no passado dia 28 de outubro. Uma semana depois, na ressaca da eleição, o Brasil e o mundo tentam agora deslindar o enigma Bolsonaro para tentar compreender o que aí vem em termos de políticas. E, com um Presidente imprevisível, nada melhor do que seguir o mote “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”.

Para isso, há que olhar para as pessoas que o rodeiam e inspiram. A escolha recaiu sobre cinco homens: Paulo Guedes, Silas Malafaia, Olavo de Carvalho, Onyx Lorenzoni e Sérgio Moro. Três futuros ministros, um pastor e um ideólogo, que podem ajudar a compreender quem são os verdadeiros pesos pesados da política de Bolsonaro.

Fora desta lista, deixámos o vice-presidente Hamilton Mourão — e não foi por acaso. Pese embora seja a figura número dois na hierarquia, o vice-presidente é a carta fora do baralho no Governo Bolsonaro. Polémico até mais não, aproveitou toda a campanha eleitoral para fazer proclamações controversas, como a da necessidade do fim do 13º mês, a elaboração de uma nova Constituição por não-eleitos ou a pertinência de um golpe militar, sendo repetidamente desmentido pelo seu candidato.

A falta de sintonia entre Mourão e Bolsonaro é evidente, a que não é alheio o facto de que, em caso de impeachment, é o general quem sobe ao poder. Jair Bolsonaro está atento e já avisou em entrevistas que Mourão é general, mas quem manda é Bolsonaro. Hamilton Mourão está no Governo, não há dúvidas, mas uma coisa parece certa: pelo menos por enquanto, o general não é um dos homens do Presidente. Quem são eles, então?

Paulo Guedes, o Chicago boy que é o verdadeiro vice

“Vou perguntar ao Paulo Guedes.” Foi esta a resposta que Bolsonaro deu vezes sem conta durante a campanha e será, provavelmente, a mesma que dará enquanto Presidente, de cada vez que lhe fizerem questões sobre economia: em vez de responder, vai consultar o seu futuro ministro das Finanças.

Paulo Guedes e Bolsonaro são seres de espécies diferentes. O primeiro é um economista ultraliberal, defensor do Estado mínimo; o segundo é um militar na reserva, acima de tudo conservador e em grande parte da sua carreira política tendencialmente estatizante. No entanto, lado a lado, conseguem replicar aquilo que nas ciências naturais se designa por simbiose: uma relação entre dois animais distintos onde cada um beneficia à sua maneira do outro, sem afetá-lo.

Bolsonaro chamou Paulo Guedes para a sua equipa depois de ter sido várias vezes confrontado com o facto de não dominar o tema económico — uma falha colossal, num país que ainda não saiu completamente da maior crise da sua História. Depois de ser chamado à atenção várias vezes, inclusive a partir de dentro da sua campanha, Bolsonaro convidou Paulo Guedes para uma reunião. O encontro aconteceu a 13 de novembro de 2017 e foi arranjado por uma amiga mútua. A partir daí, Bolsonaro só falava no “namoro” que tinha arranjado com o economista.

Falaram durante mais de cinco horas, naquele hotel do Rio de Janeiro. Depois, juntaram-se uma segunda vez, durante outras três. Bolsonaro tentava seduzir Paulo Guedes para ser seu ministro das Finanças, caso vencesse as eleições — e, pelo caminho, para desenhar o seu programa político em tudo o que dissesse respeito à economia. No início, Paulo Guedes estava reticente: já tinha jurado fidelidade ao apresentador Luciano Huck, que, à altura, cogitava ainda uma candidatura presidencial. Quando este acabou por desistir, o economista decidiu-se: era com Bolsonaro que ia levar para a frente a sua agenda.

Paulo Guedes aprendeu tudo em Chicago e com a famosa escola liberal daquela cidade. Aluno de Milton Friedman, voltou para o Brasil para dar aulas. Teve pouco sucesso como professor: ganhava pouco e, por ser pouco requisitado pelas universidades, dava poucas aulas. Até que, no início dos anos 80, recebeu a proposta de ir dar aulas para a Universidade do Chile. A proposta partiu de Jorge Selume, à altura reitor. Paulo Guedes não pensou duas vezes: além de lhe pagarem mais do que ganhava no Brasil, estaria a jogar em casa. Naqueles anos, o Chile era um dos grandes centros de defesa de uma política económica liberal. Havia, porém, outra característica aparentemente incontornável mas que Paulo Guedes disse ignorar: aqueles foram os anos de Augusto Pinochet, o ditador chileno que governou com mão leve na economia, mas dura em tudo o resto, entre 1973 e 1990.

Paulo Guedes rodeado pela imprensa responde a perguntas, à porta de casa de Bolsonaro. O economista é visto como o verdadeiro número dois do Presidente (MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

No regresso ao Brasil, passou a dar aulas na Fundação Getúlio Vargas e notabilizou-se como um economista regular nas críticas aos planos económicos aplicados por presidentes como José Sarney ou Fernando Collor de Mello, procurado pelos media e cobiçado para palestras e conferências do meio. À medida que os anos passaram, notabilizou-se como ultraliberal.

Por “ultraliberal”, entenda-se, por exemplo, a privatização em massa de empresas públicas. Se, no programa de Governo, acabou por ficar descrita a intenção de reduzir 20% da dívida nacional com privatizações de empresas públicas, na primeira conversa que os dois terão tido Paulo Guedes demonstrou vontade de ir ainda mais longe e privatizar todas as estratégicas: incluindo — e sobretudo — a Petrobras, um dos pontos nevrálgicos da Operação Lava Jato.

Bolsonaro terá ficado chocado, como se conta no perfil da revista Piauí de Paulo Guedes. “Nos anos petistas, se você perguntasse, eles diziam que a Petrobras era estratégica. Você está satisfeito com o uso estratégico que fizeram da Petrobras? Você entende que corromperam a democracia brasileira através dessas ferramentas?”, devolveu-lhe então o economista. “Ah, realmente isso aí é um ninho de corrupção, né?”, admitiu Bolsonaro. Já estava convencido.

Desde então, os dois nunca mais foram vistos separados ou zangados. E isso até podia ter acontecido quando, enquanto Bolsonaro convalescia no hospital, Paulo Guedes deu a entender que queria criar um imposto sobre as transações financeiras semelhante a um outro que vigorou inclusive nos primeiros anos do PT — mas, depois de um esclarecimento público, a polémica foi afastada. Também podia ter acontecido quando saiu a notícia de que Paulo Guedes estava a ser investigado por alegada fraude em negócios com fundos de pensões estatais — mas também aí a polémica morreu à nascença, com o economista a negar as suspeitas e o militar na reserva a falar de notícias falsas.

A união entre os dois ficou bem patente na noite da primeira volta das eleições. Discursando a partir de casa e sentado a uma mesa, Bolsonaro tinha uma pessoa de cada lado: do seu lado esquerdo, uma intérprete de língua gestual; do seu lado direito, o economista Paulo Guedes. Enquanto isso, a meio do vídeo, o general Hamilton Mourão, número dois de jure de Bolsonaro, aparecia a vaguear pela sala, de mãos nos bolsos, como um turista perdido. Vistas bem as coisas, o número dois de facto estava sentado ao lado de Bolsonaro.

Silas Malafaia, o pastor que casou (e ajudou a eleger) Bolsonaro

Ainda mal Bolsonaro conseguia abrir os olhos, tal era a debilidade em que a facada de que foi vítima a 6 de setembro o vetou, já tinha Silas Malafaia ao seu lado. O momento, gravado dois dias depois do atentado, foi visto por milhares e milhares de pessoas, em direto no Facebook. De máscara hospitalar a tapar a boca, o pastor da igreja evangélica Vitória em Cristo começa o vídeo apontando para Bolsonaro, entubado pelo nariz: “Aí, minha gente! Estamos aqui com Bolsonaro”.

“Tenho a certeza que tem milhões de cristãos, Bolsonaro, orando por você. Milhões e milhões, viu?”, continuou o pastor. Ao seu lado, Bolsonaro, dizia em voz baixa: “Obrigado. Foi milagre…”.

A intimidade ali patente não era inventada — tinha raízes no passado. Em 2013, quando Jair Bolsonaro casou com a sua terceira mulher, Michelle, 27 anos mais nova, escolheu o líder da Vitória em Cristo para liderar a cerimónia. À altura, a escolha de Malafaia foi justificada como sendo da noiva, membro daquela igreja. Porém, no sermão que antecedeu a troca de alianças e o beijo que selou aquele casamento, Malafaia deixou várias ideias que tornaram bem claro que o seu conservadorismo alinhava com o do deputado da extrema-direita. Deixando entender que o casamento é para ser celebrado exclusivamente entre “macho e fêmea” e que a “família é homem, mulher e sua prole”, acrescentou que “o homem só se completa na mulher e a mulher só se completa no homem”. “O resto é blá blá blá”, concluiu.

Silas Malafaia é um dos pastores evangélicos mais conhecidos e ricos do Brasil. Criado como evangélico na Tijuca, no Rio de Janeiro, o caminho para ganhar o prefixo “pastor” no nome começou com uma banda de gospel. Entre amigos e a sua mulher, que conheceu aos 14 anos e com a qual ainda está, Malafaia era o baterista. Não tinha emprego, mas tinha ofício: espalhar a fé evangélica em Copacabana, fosse a mendigos ou a turistas. Depois, foi estudar para a Faculdade de Teologia do Instituto Bíblico Pentecostal e dali saiu com o diploma que lhe permitiu ser pastor auxiliar na Assembleia de Deus na Penha, onde o seu sogro era líder. A partir daí, foi sempre a subir.

A Igreja Evangélica tem um papel fulcral de mobilização de eleitores em torno de figuras políticas. Neste caso, o apoio de Malafaia ajudou a eleger Bolsonaro (EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Malafaia queria ser como os pastores evangélicos americanos que apareciam na televisão, com as vozes dobradas em português. Para consegui-lo, pediu uma ajuda ao empresário evangélico Sotero Cunha, que o ajudou a comprar um horário na grelha da TV Record. Diante das câmaras, Malafaia falava duro e alto. Em declarações à revista Piauí em 2011, o pastor Silmar Coelho, amigo próximo do homem da Vitória em Cristo, disse: “A explosão dele se deu quando passou a aparecer em rede nacional descendo o pau em todo o mundo e falando de temas atuais. Ele não poupava ninguém. Falava de pastor safado, de evangélico falso, de político corrupto”. Hoje em dia, os seus cultos são transmitidos em várias televisões brasileiras — não na Record, de Edir Macedo, seu rival — e também nos EUA. Agora, a dobragem já é ao contrário: por cima português brasileiro original ouve-se um inglês americano por cima.

O percurso de Malafaia na política é errante, um pouco à semelhança de outros líderes evangélicos brasileiros. Em 1989, apoiou Leonel Brizola, um populista de esquerda que disputou as eleições taco-a-taco com Collor de Mello e Lula. Em 1994 e em 1998, apoiou Fernando Henrique Cardoso. E em 2002, quando este procurava o seu terceiro mandato, virou-lhe as costas e apoiou Lula. Fez campanha por ele, subiu aos palanques — mas depois arrependeu-se. “Quando comecei a ver o real objetivo deles, saí fora. Qual é o problema?”, disse, uma década mais tarde. Em 2010 e em 2014, já fez campanha contra o PT: primeiro por José Serra, depois por Aécio Neves. Perdeu sempre. Até que, em 2018, apoiou o candidato vencedor, Jair Bolsonaro.

Há apenas um espinho na relação destes dois homens. Em fevereiro de 2017, Malafaia foi indiciado por lavagem de dinheiro na Operação Timóteo, pela alegada participação num esquema de corrupção ligado a royalties de mineração. Malafaia, que nega qualquer envolvimento, foi acusado pela Polícia Federal de ter recebido 100 mil reais (23.700 euros, ao câmbio atual) de um escritório de advogados envolvido no alegado esquema. Ora, na altura de falar sobre este tema no Congresso dos Deputados, Malafaia achou que Bolsonaro o defendeu de forma pouco enfática. “Achei que a defesa dele foi fraca. Ele sabe que não tive envolvimento algum com essa vagabundagem. Quem toma a pancada é que sabe a dor”, disse à Folha de S. Paulo.

Mas o pragmatismo político de Silas Malafaia, característica comum às principais lideranças evangélicas do país, levou-o a deixar esse episódio para trás e a juntar-se a Bolsonaro ainda durante a pré-campanha. Em março deste ano, disse que “Bolsonaro é o único que defende diretamente a ideologia da direita” e garantiu que “80% do voto evangélico irá para Bolsonaro nestas eleições”.

No final de contas, não chegaram a ser 80%, mas foram os suficientes para Bolsonaro ser Presidente — de acordo com a última sondagem da Datafolha a incluir estes dados, publicada três dias antes das eleições, 59% de evangélicos disseram que iam votar em Bolsonaro.  De qualquer das formas, o laço entre Bolsonaro e Malafaia estreitou-se. Tanto que um dos seus primeiros atos como Presidente eleito foi ao lado daquele pastor evangélico, num culto da Vitória em Cristo. De microfone na mão, Bolsonaro disse: “Tenho a certeza de que não sou o mais capacitado. Mas Deus capacita os escolhidos”.

Olavo de Carvalho, o guru no exílio

Quando fez o discurso de vitória, na noite de 28 de outubro, Bolsonaro apresentou-se ao mundo como tantas vezes o faz: sentado numa mesa da sua casa, com uma parede branca no fundo e uma intérprete de língua gestual ao lado. Porém, naquele dia, a mesa tinha outros elementos: quatro livros.

Além da Bíblia, que Bolsonaro tocou e ergueu com particular destaque enquanto falava, estavam ali também outros livros. Um deles, era um livro de memórias de Winston Churchill, que Bolsonaro mostrou quando disse que a sua presidência seria inspirada “em grandes líderes mundiais”. Fez o mesmo com a Constituição, que também ali estava. E havia um quarto livro que, apesar de o Presidente eleito não ter destacado, estava ainda assim em evidência naquela mesa: “O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Idiota”, de Olavo de Carvalho.

Olavo de Carvalho nem sequer está no Brasil, mas não deixa de ser uma das figuras mais destacadas daquilo a que se convencionou chamar a “nova direita” do Brasil — e, por isso, também uma das figuras que, à sua maneira, mais contribuíram para a eleição de Bolsonaro. Em 2005, mudou-se para Richmond, cidade no estado norte-americano da Virginia, para se afastar do PT de Lula, na altura ainda no seu primeiro mandato no poder. “Pensei: isto aqui está tão louco, tão louco, que se eu continuar aqui vou ficar louco também”.

A vida de Olavo de Carvalho é irrepetível. Enquanto estudante universitário, durante a ditadura militar, militou dois anos no Partido Comunista. À altura, fez amizade com duas figuras que, décadas mais tarde, encarnariam o governo que o fez aviar malas para a Virginia, como José Dirceu (ministro e chefe da Casa Civil de Lula, condenado no Mensalão e na Lava Jato) e Rui Falcão, coordenador da campanha de Dilma Rousseff, em 2010, e presidente do PT, entre 2011 e 2017.

Imagem de um dos discursos de Bolsonaro através do Facebook. No último tinha quatro livros em cima da mesa para se inspirar, um deles de Olavo de Carvalho (MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Depois de desistir do curso de Direito, em São Paulo, Olavo de Carvalho passou à astrologia. Estudou a área e, pouco depois, passou a ensiná-la a outros, após fundar a Escola Júpiter. Chegou a escrever um livro sobre o tema (“A imagem do homem na astrologia”), mas depois avançou para outras espiritualidades. Fez parte da tariqa, uma ordem esotérica muçulmana; mais tarde, assumiu o seu catolicismo. Porém, as crenças que mais fama e atenção lhe viriam a valer foram outras: o anti-comunismo e o conservadorismo, sempre com doses generosas de ironia e sarcasmo.

Foi dessa forma que Olavo de Carvalho conquistou uma vasta de audiência de seguidores. Primeiro, com os seus livros, que começou a escrever na década de 1990 e que marcam o início da sua intervenção política. Depois, já nos EUA, através dos seus cursos de filosofia online. Filmados a partir do seu escritório, os seus seminários contam com milhares de estudantes. Em 2016, já falava de 12 mil. Em 2018, o número será seguramente maior. Os seus alunos são jocosamente referidos como “olavettes” e basta um “passeio” por alguns perfis das redes sociais da nova direita brasileira para ver como muitos destacam a frequência no “Seminário de Filosofia – Olavo de Carvalho”. Alguns deles, acumulam funções de “olavettes” com “bolsominions” — incluindo os próprios filhos de Bolsonaro.

Ora, foi precisamente com aquela mise en place que tantos “olavettes” assistiram, entre livros em carreira que, volta e meia, se tornam menos nítidos no meio do fumo do cachimbo de Olavo de Carvalho, ao seu mestre a declarar o seu apoio a Bolsonaro. Dirigindo-se aos “fofoqueiros e intrigantes”, garantiu: “Não só vou votar no Bolsonaro como vou trazer para ele mais votos do que vocês, sem fazer um só minuto de propaganda e sem pedir nem aceitar nenhum carguinho em troca”.

A verdade é que, desde que Bolsonaro foi eleito, começaram a surgir rumores de que Olavo de Carvalho era o nome escolhido para ministro da Educação. O filósofo fez um vídeo onde disse: “Eu, como escritor, faço o que me der na cabeça e, como ministro, eu só posso fazer o que o regulamento do cargo me exija e me permita, coisa da qual eu não tenho sequer a menor ideia”. Em janeiro deste ano, também já tinha negado querer ser ministro da Cultura. “Nem, aliás, de porra nenhuma”, acrescentou.

Onyx Lorenzoni, o distribuidor de jogo

Onyx Lorenzoni é um veterinário de formação e deputado de profissão que passará a ter em mãos um dos cargos mais importantes do Brasil: chefe da Casa Civil, um dos três “super-ministérios” definidos por Jair Bolsonaro, a par de Paulo Guedes nas Finanças e Sérgio Moro na Justiça. Isso significa que Lorenzoni passará a trabalhar no Palácio do Planalto, num andar acima do do Presidente, para servir de braço direito ao chefe de Estado. Como ministro da Casa Civil, Lorenzoni irá não apenas ser responsável pela articulação entre o Governo e o Congresso, como também ajudará Bolsonaro a acompanhar o trabalho dos vários ministérios, publicar nomeações e exonerações e aconselhar o Presidente, como explica a Agência Brasil. A importância do cargo é tanta que, contam os jornais brasileiros, tem havido uma romaria de deputados a ir ao beija-mão a Onyx, ainda antes de este ser oficialmente nomeado.

Aos 64 anos, Lorenzoni deixou para trás os tempos como veterinário em Porto Alegre, por onde entrou na vida profissional, embora ainda seja sócio do Hospital Veterinário Lorenzoni. A iniciação política deu-se como presidente do Sindicato dos Médicos Veterinários no Rio Grande do Sul, na década de 80, e, em 1995, Lorenzoni entrou de cabeça na política ao ser eleito como deputado estadual. Ocupou o cargo até 2003, altura em que deu o salto para o Congresso nacional. Pelo meio, concorreu duas vezes à prefeitura de Porto Alegre, tendo perdido. Nesta eleição, trocou o apoio que deu em 2014 ao candidato do PSDB (na altura, Aécio Neves) pelo apoio a Jair Bolsonaro e acabou por ser o segundo deputado com mais votos no Rio Grande do Sul.

Onyx está, desde 1997, nos Democratas (DEM), novo nome do Partido da Frente Liberal desde 2007, liberal na economia e conservador nos costumes. E o deputado também segue a mesma linha ideológica, sendo defensor de medidas como o fim das quotas raciais nas universidades ou a revogação do Estatuto do Desarmamento. A ligação de Onyx aos temas da segurança pública é evidente: não só faz parte da chamada “Bancada da Bala”, ou seja, a Frente Parlamentar da Segurança Pública, que reúne deputados do Congresso orientados por esta temática, como em 2014 chegou a receber doações legais de armeiros brasileiros como a Companhia Brasileira de Cartuchos e a Taurus, bem como da Associação Nacional da Indústria de Armas e Munições. Não só é clara a posição de Onyx a favor de maior liberdade de porte e uso de arma, como foi inclusivamente graças a esse tema que conheceu Jair Bolsonaro, em 2003. A propósito da discussão sobre o Estatuto do Desarmamento, ambos fizeram parte de um primeiro grupo de dez deputados que se opôs à lei, como conta a UOL.

Em 2015 tentou a liderança do seu partido na Câmara dos Deputados, mas foi derrotado devido a uma movimentação de bastidores do, à altura, líder, Mendonça Filho, que conseguiu a reeleição. Começava assim o caminho que ditou o afastamento de Lorenzoni do DEM e a futura aproximação a Bolsonaro, que se consumaria nos últimos anos. Com o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Onyx detetou e aproximou-se de uma série de movimentos sociais, criando o Movimento Brasil Livre, e apercebeu-se do poder das redes sociais. “Televisão, partido, palanque estadual, dinheiro e debate televisivo a-ca-bou, não resolve mais eleição”, declarou durante esta campanha.

Onyx Lorenzoni foi um dos primeiros deputados a alinhar-se pelo impeachment de Dilma e a entender o fulgor conservador que atravessa a sociedade brasileira atualmente (Buda Mendes/Getty Images)

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Antes disso, já se tinha tornado um deputado altamente mediático devido ao seu papel como relator do pacote intitulado “Dez Medidas contra a Corrupção”. Contudo, o documento final ficou bastante aquém do que o Ministério Público gostaria — o que levou o político gaúcho a acusar os restantes deputados de terem “desfigurado” o projeto, acabando por ficar numa posição ainda menos confortável no Congresso.

Curiosamente, o autor de um pacote anti-corrupção foi ele mesmo acusado de crimes de corrupção, tendo confessado um deles no ano passado. Um dos executivos do grupo JBS declarou numa delação premiada que Onyx recebeu 100 mil reais da empresa, não declarados, na campanha eleitoral de 2014. “Quero pedir desculpas ao eleitor que confia em mim pelo erro cometido. Mas vou assumir lá na frente do Ministério Público e do juiz do caso”, afirmou. Contudo, segundo apurou a Folha de S. Paulo em junho deste ano, nenhum inquérito foi aberto desde então. Já a acusação de um executivo da Odebrecht de que Lorenzoni teria recebido 175 mil reais da empresa via saco azul em 2006 — e que o próprio nega — acabou arquivada pelo Supremo Tribunal, em junho de 2018. De acordo com a delação do empresário da Odebrecht, Onyx teria a alcunha de “Inimigo” nas operações ilegais da empresa.

Agora, como chefe da Casa Civil de Bolsonaro, tem pela frente o trabalho de olear a máquina política do Presidente — algo que, segundo o próprio, já começou a fazer, tendo conseguido o apoio de “mais de 300 deputados”. A lógica de Lorenzoni é a de negociar diretamente com os parlamentares, através das suas posições nas Bancadas, conseguindo o apoio sobretudo das chamadas BBB (“Bíblia, Boi e Bala”, que representam as bancadas evangélica, agro-pecuária e de segurança). “Vamos quebrar o ‘toma lá, dá cá’”, promete, sobre a forma de fazer política no presidencialismo brasileiro, marcada pela negociação. Os analistas, contudo, têm reservas sobre se se este sistema permite garantir entendimentos vastos o suficiente para aprovar medidas de fundo, como a reforma da Previdência.

Para além deste papel, Onyx irá também ter de encontrar o seu lugar no Executivo de Bolsonaro, marcado por figuras fortes. Muitos podem beijar-lhe a mão e o Presidente parece confiar-lhe várias tarefas, como a de gizar os entendimentos com o Congresso. Mas há outras sombras, como as dos super-ministros Paulo Guedes e Sérgio Moro. Com o primeiro, já teve um desentendimento, a propósito do uso ou não do projeto de reforma da Previdência, definida por Michel Temer (Guedes entende que sim, Onyx que não). Questionado sobre isso esta quinta-feira, desvalorizou: “Está tudo na paz do senhor, Paulo Guedes é o meu ídolo”, afirmou. Até quando?

Sérgio Moro, o super-juiz que passou a super-ministro

A notícia caiu como uma bomba: Sérgio Moro, o juiz de Curitiba responsável pela Operação Lava Jato, que condenou o ex-Presidente Lula da Silva a nove anos de prisão, aceitou o convite de Jair Bolsonaro para ser ministro da Justiça. E não apenas de um ministério qualquer, mas sim de uma pasta reforçada: um super-ministério que engloba as antigas funções do ministério da Segurança Pública e parte do Conselho de Controlo de Atividades Financeiras. Ou seja, na prática, Moro terá carta branca para gerir a Justiça, a Polícia Federal e coordenar mais a fundo o combate à corrupção e ao crime organizado.

A tarefa será árdua para alguém que nunca teve responsabilidades políticas. Sérgio Moro nasceu em 1972 em Maringá, no Paraná, filho de dois professores. Bom aluno, sempre foi discreto e calado, segundo contam os antigos colegas e amigos da infância e da adolescência. Nunca se envolveu em política, nem na Universidade em Maringá, onde estudou Direito. Completou a sua formação em Harvard, tornou-se juiz em 1996 e especializou-se em crimes financeiros.

Pelo meio, também deu aulas como professor universitário, mas foi a sua ação como juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba que deu nas vistas — e que o fez ter de abandonar as idas de bicicleta para o tribunal e passar a andar com segurança. Como juiz em primeira instância da Operação Lava Jato, contribuiu para prender 140 pessoas, naquela que é a maior operação contra a corrupção de sempre no país. Claro que a condenação mais emblemática é a de Lula da Silva, que acabaria por ter efeitos concretos ao impedir o ex-Presidente de se recandidatar às eleições de 2018 — e que foi confirmada em segunda instância.

O papel de Moro na Operação Lava Jato granjeou-lhe altos índices de popularidade. Por essa razão, nas (poucas) entrevistas que foi dando ao longo dos últimos anos, era frequente ser-lhe perguntado se equacionava entrar na política. O juiz sempre foi claro, respondendo que não. A Agência Lupa, da Revista Piauí, contabilizou pelo menos sete vezes em que Moro disse que nunca entraria na política, a que se soma uma oitava, em entrevista ao jornal Expresso, em junho de 2017.  “Fiz outra escolha de vida”, garantiu à altura. Política? “Jamais”, respondeu várias vezes.

Um camião com a mensagem "Viva a Lava Jato" e a cara de Sérgio Moro. O juiz é atualmente uma das figuras mais populares do país (MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images)

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Agora, ano e meio depois, o “jamais” dissolveu-se no caldo da política do Brasil de 2018 e Moro aceitou o convite de Jair Bolsonaro. “A perspetiva de implementar uma forte agenda anti-corrupção e anti-crime organizado, com respeito à Constituição, à lei e aos direitos, levaram-me a tomar esta decisão”, declarou o juiz, homem de poucas palavras públicas, que agora assumirá o destaque de um super-ministério. Admirador assumido da Operação Mãos Limpas em Itália, não é certo se o seu percurso se assemelhará à do juiz Antonio di Petro. O cientista político Alberto Vanucci avisa, em entrevista à BBC Brasil, que Moro ainda “se vai arrepender da decisão” de entrar para a política, à semelhança de Di Petro. Outros dizem que a decisão pode servir como plataforma, antes de entrar no Supremo em 2020, algo que o próprio Bolsonaro já disse ser possível.

Pelo meio, o PT repete o mantra “nós bem avisámos”, sublinhando que a ocupação de um cargo governativo pode ser a evidência de que Moro tinha já motivações políticas na sua atuação como juiz — algo que o partido já tinha cavalgado aquando da decisão do juiz de divulgar a escuta que apanhou Dilma a prometer a Lula o cargo de chefe da Casa Civil para lhe conceder imunidade e que terminou com um “tchau, querida”.

Para já, certo é que a nomeação do juiz de Curitiba é um grande trunfo político para o Presidente Bolsonaro, que capta uma figura popular para o seu Governo e tenta banhar-se na aura anti-corrupção de Sérgio Moro. Mais incertos são os resultados a longo-prazo: em caso de discordância, terá Bolsonaro mão no super-juiz? Ou, como escreve o editor do Estado de S. Paulo, Marcelo de Moraes, irá o estatuto de “superstar do novo Governo” provocar “ciumeira” nas fileiras do Executivo?

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