“Uma pergunta para a candidata e uma para o possível candidato.” A intervenção de um aluno da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa arrancou gargalhadas à plateia e um enorme sorriso António José Seguro, que surgiu no evento da SEDES ao lado da já assumida candidata Mariana Leitão e ainda sem um posicionamento oficial do PS sobre o apoio na corrida a Belém. Tem “urgência” em ouvir e é isso que anda a fazer pelo país enquanto não revela a decisão. Entretanto, deixou escapar numa resposta que anda atento a possíveis adversários quando contrariou Henrique Gouveia e Melo no que toca à dissolução do Parlamento.
“Quem avalia o cumprimento das promessas eleitorais é o parlamento durante os quatro anos e depois, no final, é o povo. Isso é muito claro na Constituição. Aliás, quem pensa o contrário está a cometer um verdadeiro atropelo à Constituição”, esclareceu o ex-líder do PS, numa referência ao artigo de opinião que Gouveia e Melo escreveu no Expresso, onde disse que a “bomba atómica” pode ser usada se existir “um desfasamento grave entre os objetivos-prática do Governo e a vontade previamente sufragada pelo povo”.
Também Mariana Leitão, à margem do evento, deu as “boas-vindas à corrida presidencial” a Henrique Gouveia e Melo, que considera ter feito um pré-anuncio “à boa maneira” do almirante. Ou seja: justificou, “por escrito, sem direito a perguntas e apenas de uma via”. A candidata presidencial criticou ainda um dos pensamentos de Gouveia e Melo (“devemos querer um Presidente isento e independente de lealdades partidárias”), ao referir que “o sistema democrático, é composto por partidos políticos, caso contrário, vivíamos numa anarquia ou numa autocracia”, sistemas que “dispensa vivamente”.
Se os minutos que antecederam a palestra forem espelho dos dias de António José Seguro, o ex-secretário-geral do PS anda literalmente a ouvir o país, pelo menos os jovens. À chegada da universidade foi ao bar pedir um café e pediu licença para se sentar à mesa de um grupo de jovens que estava no jardim à conversa. Discutiu e levou a um debate dos alunos sobre avaliações contínuas, explicou o que faz enquanto professor e, no final, numa preocupação com a emigração jovem, atirou um “sejam felizes, de preferência em Portugal”. “Estão-me a fazer sinal que tenho de ir falar de democracia, o que fizemos aqui foi praticá-la”, sublinhou antes de se levantar.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Numa altura em que candidatos e protocandidatos vão desfilando entre presenças em eventos e palestras (principalmente em faculdades), Mariana Leitão e António José Seguro ocuparam o palco poucas horas depois de Luís Marques Mendes para discutir a sustentabilidade da democracia, num evento organizado pela SEDES, e concordaram em várias questões, desde o não ao voto obrigatório até aos perigos de coligações com partidos de direita radical.
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
António José Seguro alertou para as “quantidades inaceitáveis de populismos” que existem em algumas democracias, exemplificando que o populismo “está sempre presente”, que é como o “veneno” e que o problema está na dose — que pode matar dependendo da quantidade ingerida. Além de referir que “alguns entram dentro das instituições para as destruir, abusando das regras dizendo que vão pôr ordem nesta bandalheira”, Seguro explicou que é o cidadão que tem “responsabilidade no momento da escolha” e que a responsabilidade dos partidos está no “recrutamento”.
“Há mudanças que têm de ser feitas através da ação, as pessoas já não acreditam em palavras e só recuperam confiança através das ações”, salientou o ex-líder socialista, reconhecendo que as pessoas “querem políticos diferentes, que façam diferente” e que “os populismos dão a ideia da gratificação imediata” que leva à crença de muitas pessoas.
Mariana Leitão, candidata a Belém apoiada pela Iniciativa Liberal, considera que se está a viver um “ponto de viragem” e culpa “a polarização e maniqueísmo, assente no crescimento dos populistas e da desinformação”, argumentando que foram estes que permitiram que os “partidos da extrema-direita” começassem “a ganhar mais força”. “Os partidos moderados não conseguiram dar resposta às preocupações das pessoas”, prosseguiu, justificando que “as narrativas da extrema-direita” servem para “apontar o dedo e apresentar soluções que parecem simples”, um discurso que cola “para quem está frustrado e tem uma vida complicada, parece a salvação”.
E deixou um alerta: os partidos têm de refletir sobre todos os assuntos e “não há temas tabu”, dando como exemplo questões como a imigração e a segurança que durante muito tempo “os partidos moderados não falavam” ou não apresentavam “soluções”.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Mariana Leitão considera que o combate à extrema-direita se faz por “via da educação”, António José Seguro concordou; ambos se mostraram preocupados com a desinformação e o socialista chegou a dizer que as fake news fazem parte de autocracias estão a ganhar espaço e que, “por culpa dos órgãos políticos”, levam as pessoas a afastarem-se das democracias. Seguro afirmou ainda que a “corrupção e suspeição” se estende além da política, trouxe o exemplo da decisão sobre o cartel da banca, mas também referiu que há provas de que “as pessoas não sancionam as pessoas apontadas por terem cometido crimes” e que — quando têm de decidir — a corrupção está “nos fatores mais baixos”.
Questionados sobre os poderes de um chefe de Estado, além da resposta de Seguro que serviu perfeitamente de farpa ao almirante, Mariana Leitão referiu que a estão “bem definidos” na Constituição, “nomeadamente na convocação de eleições antecipadas” que referiu que “deve ser cumprida”, dando a entender que não é num caso como o que proporcionou a moção de censura, que descreveu como um “exagero”.
Depois de um dia com dois candidatos presidenciais (Marques Mendes e Mariana Leitão) e um protocandidato (António José Seguro) se sentarem na mesa da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, esta terça-feira o evento da SEDES recebe mais dois protocandidatos: Henrique Gouveia e Melo e António Vitorino.