José Luís Carneiro entrou para a reunião do PS para preparar o debate do Estado da Nação desta semana com um caso dentro de portas. Mais uma vez, Ricardo Leão é alvo de críticas no partido, agora pela demolição de barracas em Loures. Mas o novo líder não saiu menos pressionado da reunião e numa matéria mais central: o PS deve aproveitar a colagem da AD ao Chega para se distanciar de acordos com Luís Montenegro. À saída, Carneiro acabou a engrossar o tom com o primeiro-ministro, mas empurrou para ele essa definição da relação com o PS.
Na semana em que Carneiro escreveu a Montenegro para um acordo em matéria de Defesa, o líder socialista ouviu alguns dos seus pares a pedirem-lhe para se demarcar da AD. Um deles foi Pedro Silva Pereira, que, de acordo com fontes presentes na reunião da noite desta terça-feira, chegou mesmo a defender que o PS aproveite as votações sobre a imigração para vincar as suas diferenças em relação à AD e assumir posição de combate e de oposição. Também José António Vieira da Silva e Miguel Costa Matos tinham defendido o mesmo posicionamento para o partido, em intervenções anteriores na mesma reunião.
Vieira da Silva foi claro na defesa da separação de águas: onde a AD negociar com o Chega, o PS não deve negociar com a AD. Eduardo Cabrita expressou o seu acordo com esta posição e também Pedro Delgado Alves apontou um terreno a aproveitar pelo PS, numa altura em que o PSD não entendeu o risco da “tenaz” que o Chega representa: ao mesmo tempo que quer reduzir imigrantes também vai acabar por beneficiar de um desacelerar da economia que resulte da quebra da imigração.
Já o deputado Miguel Costa Matos aproveitou a ideia da “autonomia estratégica” — expressão que Carneiro usou em 2023 para se opor ao esquerdismo de Pedro Nuno Santos e defender um posicionamento do PS ao centro — para defender o afastamento do PS da AD, numa altura em que a AD parece pouco interessada em fazer pontes com os socialistas. O deputado mostrou-se contra um PS de mão estendida à espera da AD e, com isso, a diluir a diferença entre os dois campos políticos.
Quanto à aproximação entre AD e Chega parece existir acordo, com os socialistas a alinharem na análise que Carneiro fez logo no início sobre a existência de uma “aliança espúria” entre Montenegro e Ventura. O novo líder prometeu fazer uma “oposição firme” à AD que acusou de estar a “misturar” nacionalidade, imigração e segurança e de votar “à pressa” as alterações legislativas sobre algumas destas matérias — nomeadamente as relativas à lei de estrangeiros — sem pareceres dos tribunais superiores.
O problema é sobre a linha a seguir a partir daqui, com o novo líder a ter defendido até agora a procura de consensos em áreas de soberania, mas o partido a ver na tal aliança assumida por Carneiro uma oportunidade para se diferenciar. “A partir do momento em que há esse movimento no PSD há um espaço de moderação que fica sem representatividade e que o PS tem de assumir a responsabilidade de voltar a ter esse papel”, diz ao Observador um dirigente socialista que esteve na reunião.
Outro socialista que esteve na reunião desta terça-feira descreve essa necessidade de um reposicionamento que foi manifestada por vários socialistas de outra maneira: “Há uma ideia que o PS não pode andar num namoro não correspondido com o Governo”. Afinal, a resposta de Luís Montenegro à carta enviada por Carneiro sobre a Defesa, foi recusada. Não quer fechar o diálogo apenas no PS e disse que pretende “ouvir os dois principais partidos da oposição.”
Carneiro endurece: se Montenegro mantiver acordo com Chega “isso significa uma rutura com PS”
Durante a reunião, segundo apurou o Observador, Carneiro terá reconhecido razão a alguns dos argumentos defendidos. No final, quando confrontado pelos jornalistas sobre que posicionamento deve ter o PS nesta fase, Carneiro atirou a responsabilidade de uma definição para Montenegro. E endureceu mesmo o tom com a AD ao acenar com uma eventual “rutura”.
“O primeiro-ministro tem de decidir com quem quer construir as soluções de Estado, as soluções de soberania. E tem que ter consciência histórica e memória do que significa o PS, do que significa o PPD e do que significa o CDS”, disse Carneiro.
No debate do Estado da Nação vai querer que Montenegro decida “sobre aquilo que quer fazer. Admito que ainda tenha espaço de recuo, mas vai ter que explicar ao Parlamento qual foi o princípio de acordo que o líder do Chega referiu há dias quando saía de uma reunião com o primeiro-ministro. Em que é que consiste esse princípio de acordo?”, questionou.
Mas se a posição de Montenegro for manter o acordo com o Chega da última sexta-feira, sobre as votações de alterações a leis como a de estrangeiros (já esta semana) ou da nacionalidade (em setembro), então “isso significa uma rutura com o PS“.
O tom endureceu também em relação à disponibilidade para partilhar o espaço de consensos com o Chega. Para Carneiro, “nunca o PS pode ser colocado ao nível de um partido que atenta contra os valores democráticos. E se o primeiro-ministro não é capaz de distinguir essa representação política e social, então não está habilitado para definir e defender o interesse nacional”, afirmou.
Direção tentou aplacar (mais um) caso Leão
A Comissão Política é a direção alargada do partido e a atual composição ainda vem do tempo de Pedro Nuno Santos, tendo em conta que o Congresso (onde essas mudanças se operam) ficou adiado para depois das autárquicas. O PS só foi a votos para eleger novo líder que, por sua vez, acabou por escolher uma nova equipa de direção, mas deixou a Comissão Política na mesma até ao novo congresso. Ao contrário do que é costume, este órgão ainda não se tinha reunido desde as últimas legislativas e a reunião desta terça-feira acabou também por servir para alguns socialistas se posicionarem internamente.
Embora não tenha sido uma reunião de casa cheia, terminou já perto da uma da manhã (tinha começado pelas dez da noite) e também serviu para Carneiro posicionar como dossiers centrais a saúde, habitação e cultura, áreas onde disse que o PS apresentará propostas, prometendo fazer uma “oposição firme” ao Governo.
À porta tentou deixar a questão das demolições em Loures, conduzidas pelo autarca socialista Ricardo Leão. A direção tentou aplacar o problema, assumindo que a “perceção” de “empatia e humanismo” exigível a um autarca socialista não passou, mas procurando focar no copo meio cheio de um presidente de Câmara que “não se avalia por um episódio como este mas por muitos dias de trabalho ao serviço da comunidade” — nas palavras do líder parlamentar Eurico Brilhante Dias.
Nem por isso o assunto deixou de ser referido na reunião, com alguns socialistas a defenderem a necessidade de se fazer “pedagogia democrática” para lidar com situações como a que se verificou em Loures esta semana. Carneiro disse, no final da reunião, que essas situações “devem ser equilibradas e salvaguardar o humanismo e uma abordagem social”, mas sem criticar diretamente Ricardo Leão — a quem Brilhante Dias já tinha reafirmado o apoio do partido, mesmo perante as críticas alinhadas numa carta aberta subscrita por vários membros do partido.
Na reunião do partido estiveram autarcas e uma das que falou foi a presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, para reconhecer a dificuldade que os municípios têm para lidarem com as situações de habitação ilegal. Foi para esse lado que o líder do PS, no final da reunião, tentou virar a agulha do caso, ao chamar o Governo à razão, defendendo que “os autarcas têm que ser também apoiados pelo Governo nessas necessidades fundamentais”.