Carpool com Ana Gomes. “Vim para a política para partir a loiça toda” /premium

26 Maio 2018853

Ana Gomes aproveitou a boleia do Observador para exigir uma luta sem tréguas à corrupção. Falou de José Sócrates e dos "pecados graves", mas também de Manuel Vicente e das pressões de Angola.

Ana Gomes chegou ao Congresso do PS, na Batalha, disposta a deitar o PS no divã e a obrigar os camaradas a refletirem sobre como se deixarem instrumentalizar por “corruptos e criminosos”. Para já, a eurodeputada tem uma certeza: “O PS um partido de poder, logo tem de ter guardas contra esse tipo de aproveitamentos”.

No Carpool com o Observador, a socialista assumiu que está na política para “partir a loiça toda”, sem medo de ser tida como uma téorica da conspiração. E desafiou os camaradas a fazerem o mesmo: “Um partido como o PS tem o dever de pôr os dedos nessas feridas e de tomar ações contra esses pecados graves”.

José Sócrates, claro, foi presença constante nesta entrevista sobre rodas. Ana Gomes compreende que os camaradas o aplaudam como aplaudiram no primeiro dia de Congresso, mas assume que não o fez. E houve mais uma convidado inevitável: Manuel Vicente (parte dos “cleptocratas angolanos”). A socialista denunciou as pressões que ditaram a transferência do processo que envolvia o ex-vice-Presidente angolano para aquele país e desafiou o Estado português a explicar como é que Manuel Vicente adquiriu nacionalidade portuguesa.

Bem-vinda. Dizia-me há pouco que passou uma noite longa a escrever a intervenção que vai fazer no congresso.
Sim. E agora tenho de a cortar. Só temos três minutos e quero respeitar o tempo.

A sua intervenção é provavelmente uma das mais aguardadas tendo em conta as exigências que fez para este congresso, nomeadamente quando disse que o PS deve debater o caso de José Sócrates e de Manuel Pinho e como o PS se deixou instrumentalizar por “corruptos e criminosos”. Acha que as suas exigências vão ser ouvidas?
Acho que vai haver militantes que vão falar dos mecanismos de controlo, de exigência ética, de controlo contra a corrupção, contra aproveitamentos do partido que são inadmissíveis. É isso que se tem de tratar e essa discussão não se esgota no congresso. Os fenómenos da corrupção e as tentativas de capturar o Estado têm que ver com as políticas neoliberais das últimas décadas e com a inversão de valores que vulnerabilizou os partidos de poder. E o PS é um partido de poder. Por isso, tem de ter guardas contra esse tipo de aproveitamentos.

"Eu não aplaudi a imagem de Sócrates no congresso, mas compreendo que muita gente no PS aplauda"

Essa discussão não é feita em Portugal?
É pouco feita em Portugal e é feita quando há casos concretos e para os arrumar rapidamente, o que raramente leva a ação. Basta lembrar a denúncia que João Cravinho vem fazendo há anos…

Aliás, António Costa lembrou-o no discurso…
Não, António Costa lembrou o trabalho do PS no combate à corrupção no pós-cavaquismo. Mas eles não acabaram aí — aliás, agravaram-se a partir daí.

António Costa pareceu demasiado satisfeito com os resultados?
Aquilo que tem sido feito não é suficiente. Há um pacote de medidas sobre esta matéria a aboborar na Assembleia da República. E são medidas que são urgentes, porque esta é uma questão de democracia. Estamos a alimentar os populismos, a desconfiança dos cidadãos nos políticos. Os partidos têm de ter guardas, mecanismos internos e externos que serviam de garante contra este tipo de aproveitamento — e aí temos de dar mais meios à Justiça, porque uma Justiça demorada é uma Justiça sonegada.

Não partilha, portanto, daquele balanço ultra positivo que o primeiro-ministro fez ontem [sexta-feira]?
Faço balanço positivo do património de todos os governos socialistas nesta matéria, incluindo o de José Sócrates no primeiro mandato. Mas isso não me impede de ver que há aspetos extremamente críticos que temos de corrigir. E um partido como o PS tem o dever de pôr os dedos nessas feridas e de tomar ações contra esses pecados graves.

E este é o tempo para isso? A cúpula do PS não está mais preocupada com as eleições que aí vêm?
Acho que este é o tempo para isso. É corrupção que fomenta as desigualdades, que está na origem dos populismos diversos, na descrença dos cidadãos na política. Temos de agir. Não podemos pôr o problema para debaixo do tapete. A sociedade civil está organizada e o papel dos media tem sido imprescindível.

Não há uma “péssima qualidade da informação” em Portugal, como diz António Costa?
Repare: preocupo-me com os efeitos dramáticos para a democracia das fake news, da guerra híbrida através de meios de desinformação, agora com uma amplitude extraordinária por causa da tecnologia. Por outro lado, não vou confundir a árvore com a floresta. O papel dos media é absolutamente fundamental na exposição e na exigência de responsabilização dos governantes e dos políticos. Defender uma imprensa livre — não só livre do controlo político, mas também do controlo do poder económico — é muito importante.

“O conluio do centrão é uma conspiração organizada. É preciso partir a loiça”

Esse é um tópico sensível, que tem a ver com a propriedade dos media.
Não foi por acaso que os angolanos começaram por comprar os media portugueses, para controlar o que era veiculado pela imprensa cá em Portugal, mas também lá em Angola. É que, bem que podiam controlar a TPA e a imprensa oficial, mas sabiam que a maior parte dos angolanos lê os media portugueses. Por isso, para eles era importante controlar os media portugueses. E hoje estamos a ver as implicações disso: houve jornalistas que foram despedidos, como é o caso de Mário Crespo, por ousarem denunciar situações relacionadas com a corrupção e o desvio de recursos do tesouro angolano.

Tem um certo gosto em estar na primeira linha dessas denúncias, não é?
Foi por isso que vim para a política. Eu estava na Indonésia (como embaixadora) a ver a RTP e comecei a ficar muito alarmada quando só via futebol (isto no princípio dos anos 2000), e me apercebia da promiscuidade que havia entre os negócios do futebol e a política. Hoje isso está aí em todo o seu esplendor, é absolutamente perverso. Portanto, eu podia ter continuado na diplomacia, mas decidi vir para a política porque acho a política a mais nobre missão, que exige dedicação, serviço público e que exige verdade. Como percebi que isto estava a ficar tudo contaminado, resolvi vir para o partido com o qual me identificava, e vim para fazer exatamente o que tenho feito. Muitas vezes tenho falado e não me têm compreendido, muitas vezes sou muito atacada, mas mais tarde acabam por vir dar-me razão. Se calhar porque tenho falado antes de tempo. Mas prefiro falar antes do tempo e depois darem-me razão do que não falar de todo.

"Descobri aquilo que foi sonegado aos portugueses, que Manuel Vicente adquiriu a nacionalidade portuguesa, só não sei quando nem como."

Não teme que olhem para si como alguém dada a teorias da conspiração?
Eu? Não, há várias conspirações. Há conspirações contra os cidadãos e a democracia.

A conspiração existe?
O conluio é uma conspiração organizada. O conluio do centrão é uma conspiração organizada. Do meu ponto de vista é preciso falar, é preciso partir a loiça. E vim para a política precisamente para fazer isso. Ainda bem que o PS é um espaço de liberdade. Ainda bem que a maior parte dos militantes do PS são gente de trabalho, gente séria, que quer honestidade e boa governação. Por isso eu sei que tenho muito apoio no PS.

Mesmo quando faz declarações, como fez recentemente, sobre a transferência do processo de Manuel Vicente para Angola dizendo que foi tudo fabricado, o que levou logo a uma reação do ministro Santos Silva a desmentir?
O ministro dos Negócios Estrangeiros, que é um homem muito inteligente, sabe que eu jamais cometeria a injúria de lhe assacar a ele ou a qualquer responsável do governo, ou até ao Presidente da República, a grosseria de tentar influenciar diretamente esse género de pressão sobre os juízes relatores do acordão do Tribunal da Relação. Não, a pressão foi feita às claras, desde logo nos media, invocando-se os interesses dos portugueses em Angola. A pressão foi feita pelo próprio Estado angolano, até tornando a relação diplomática com Portugal refém do desfecho do processo, e pondo o Estado angolano refém da sorte de Manuel Vicente. É esse tipo de pressão política a que eu me refiro, e isso vê-se na própria argumentação do acordão: tanto mais que eu descobri aquilo que foi sonegado aos portugueses, que Manuel Vicente adquiriu a nacionalidade portuguesa, só não sei quando nem como. Mas isto é muito importante. O senhor Manuel Vicente, que foi acusado de crimes tão graves como a corrupção de magistrados, é hoje deputado em Angola. É extraordinário que no acórdão da Relação esse assunto não seja referido e a opinião pública portuguesa não tenha conhecimento disto.

A viagem está a chegar ao fim. Deixa-me perguntar-lhe se partilha da visão de que tem havido alguma cacofonia de posicionamentos de várias figuras de topo do PS neste congresso, com uma sucessão de artigos, de membros do Governo, até, a dizer que o PS deve recentrar-se, ou por outro lado, a de que o PS deve jogar no campeonato da esquerda?
Não acho que esse seja um debate artificial, acho que é um debate importante, que tem de ser feito, e acho bem que tenha sido feito na preparação do congresso e num momento em que o PS tem, de facto, caminhos a escolher. E o caminho a escolher deve ser o de manter a governação com a esquerda e à esquerda.

Com o apoio destes dois partidos?
Sem prejuízo de acordos pontuais que possa fazer o mais abrangentes possível, incluindo com o PSD de Rui Rio em questões que são essenciais para a democracia. As questões da descentralização, da corrupção, etc.

"No estado em que estamos da nossa democracia, a maioria absoluta pode ter efeitos perversos. Tem sido positivo que o PS esteja obrigado a levar em conta preocupações da esquerda."

António Costa deseja uma maioria absoluta?
Não acredito que isso seja indispensável. Aliás, António Costa chegou a dizer que mesmo que tivesse algum dia a maioria absoluta não abandonaria a concertação à esquerda. É exatamente isso que acho que deve ser [feito].

E acha que os partidos estão disponíveis para isso?
No estado em que estamos da nossa democracia, a maioria absoluta pode ter efeitos perversos. Já tivemos uma maioria absoluta e foi bom nalguns aspetos. Noutros aspetos, hoje, olhando para trás, também temos pontos críticos a apontar. Do meu ponto de vista, tem sido positivo que o PS esteja obrigado a levar em conta preocupações da esquerda. É exatamente essa a chave da governação do PS nestes dois últimos anos e meio. Tem sido uma boa forma de contrariar o centrão, que está aí, está sempre aí por trás — as portas giratórias, os consultores, que ora estão dentro ora estão fora, estão sempre aí.

António Costa está a ser um bom primeiro-ministro?
Acho que tem sido um bom primeiro-ministro, um hábil primeiro-ministro. Devolveu confiança aos portugueses, soube tirar partido de uma situação desfavorável — que foi o PS não ter ganho as eleições sob a sua liderança —, também porque os partidos à nossa esquerda devem ter posto a mão na consciência, devem ter-se apercebido de que tinham cometido um grave erro ao viabilizar o Governo mais troikista que a troika. E, portanto, decidiram corrigir, perceberam que o povo português não aguentava mais e foi isso que salvou a democracia em Portugal. É isso que explica que não tenhamos as forças populistas à solta, como vimos noutros países europeus, e estejamos a ser apontados no plano europeu como um exemplo a seguir. E apontados, desde logo, na esquerda, na família política a que o PS pertence e onde a deterioração e a fragmentação é terrível. O Partido Socialista Francês pulverizado, o Partido Democrático em Itália pulverizado com as consequências desastrosas que vemos. A Itália, hoje, é a maior ameaça à própria existência da União Europeia.

Ontem também aplaudiu José Sócrates, quando a fotografia do ex-secretário-geral apareceu?
Eu não aplaudi, mas compreendo que muita gente no PS aplauda porque houve muita coisa que ele fez boa e as pessoas reconhecem-no. Acho bem que António Costa o tenha mencionado porque nós não apagamos ninguém na fotografia.

Veja a entrevista completa no vídeo a partir do minuto 1:58.

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