Índice
Índice
Marco Almeida é um repetente nestas andanças. Candidato pela terceira vez à Câmara Municipal de Sintra — num percurso atribulado que incluiu ir contra o PSD e, mais tarde, voltar a filiar-se —, já foi vice-presidente nos tempos de Fernando Seara e procura agora liderar o executivo, numa coligação com Iniciativa Liberal e PAN. Surge de dedo constantemente apontado à gestão socialista e ao que Basílio Horta fez nos últimos 12 anos, comparando o legado deixado em Sintra com os “bons exemplos” de Cascais e Oeiras.
Mostra-se focado nos desafios para o concelho. Não só realça que Sintra foi “invadida” por imigrantes, justificando que o aumento de habitantes em pouco tempo levou a pressão na habitação, educação e saúde, como critica as lojas de conveniência abertas até tarde com “festas feitas em torno da garrafa da cerveja” onde acredita que é preciso a Câmara intervir.
Quanto às principais adversárias, Ana Mendes Godinho e Rita Matias, Marco Almeida assegura que não teme os resultados, mas vê-se como uma espécie de David contra Golias, crente de que “é possível que o David leve de vencido o desafio”. Seja como for, o candidato já tinha deixado claro que não traça linhas vermelhas e reitera que, no dia seguinte, todos os vereadores são possíveis parceiros. A “competência” será o critério. Mais do que isso, se perder, vai ponderar se fica como vereador, mas dá a entender que os anos dedicados à região podem ser suficientes.
“Não podemos permitir que uma barraca dê origem a um bairro”
Foi vice-presidente da Câmara Municipal de Sintra na altura em que Fernando Seara era presidente. Em 2013, candidatou-se como independente contra o PSD, em 2017 voltou a tentar já com o apoio dos sociais-democratas. É caso para dizer que à terceira é de vez?
Sinto-me muito animado com esta nova candidatura porque é uma candidatura mais musculada. Tem o envolvimento dos partidos e acredito que esta coligação de vontades, de independentes, de forças partidárias com excelentes candidatos às Juntas de Freguesia, à Câmara, à Assembleia Municipal — aliás, o Fernando Seara é o candidato à Assembleia Municipal —, terá condições para levar de vencida esta disputa eleitoral.
Finalmente.
Acredito que, com as minhas candidaturas anteriores e 12 anos depois, quem perdeu foram os sintrenses e basta percorrer o concelho para percebermos que o concelho ficou para trás relativamente a outros concelhos vizinhos e que, acima de tudo, a qualidade de vida dos sintrenses deteriorou-se muito em diferentes níveis.
Estamos aqui a entrar no parque de estacionamento ao lado da estação de Queluz, que tem sido alvo de críticas devido a vários temas, não só a segurança como também a questão da limpeza, no seu vídeo via-se muito lixo pelo chão. Qual é o problema deste sítio?
Sempre que faço publicações a denunciar problemas no concelho de Sintra, ficam resolvidos. Há um comentário feito nas redes sociais [em que se diz que] o Marco Almeida ainda não é presidente e já consegue resolver. Esta estação tem enormes problemas do ponto de vista da segurança e da falta de qualidade que oferece aos seus utentes. É natural encontrarmos bastante lixo, carros abandonados dentro deste parque e, acima de tudo, um forte sentimento de insegurança que é por aqui vivido. Isto mostra também a forma como a Câmara Municipal de Sintra, gerida pelo PS, olhou para os equipamentos públicos porque este parque está sob gestão da empresa municipal de estacionamento de Sintra, que tem capital social exclusivamente camarário. De facto, a falta de qualidade, a degradação, o cheiro nauseabundo, a urina que há por aí, as fezes depositadas por aí fora mostram bem como a Câmara se ausentou da sua responsabilidade de gerir os equipamentos públicos com qualidade e que prestassem um bom serviço aos sintrenses. Isto só é possível porque estes 12 anos de gestão socialista acabaram por ter um princípio do qual sempre discordei: concentrar as receitas provenientes dos impostos dos sintrenses nas contas bancárias, em detrimento da qualificação do espaço público.
Quais são os problemas mais graves de segurança em Sintra?
Na Avenida Miguel Bombarda, esta zona de Queluz, são frequentes os incidentes do ponto de vista da criminalidade e do sentimento de insegurança. Há situações de desacatos, de ocupação da via pública até às tantas da manhã, proveniente muitas vezes de lojas de conveniência que funcionam fora de horas e que contribuem para ajuntamentos de pessoas que frequentemente entram em desacatos com barulho. Há um princípio do qual eu não vou abdicar: os sintrenses têm direito ao sossego e ao seu bem-estar e por isso é preciso disciplinar. E a Câmara tem uma responsabilidade, quer por via da intervenção na regularização do licenciamento das atividades económicas, quer do ponto de vista da fiscalização e, acima de tudo, na instalação de um sistema de videovigilância robusto no concelho.
Relativamente às lojas de conveniência, uma das suas propostas é que essas não possam estar abertas depois das 23h00. Tem esse objetivo?
Vamos avaliar as diferentes situações, cada caso é um caso, mas nesta avenida há lojas a funcionar depois da meia-noite e isto não é possível porque são espaços de aglomeração de muitas pessoas que bebem até fora de horas e que provocam desacatos e bastante ruído. A Câmara tem aqui um papel decisivo e tem de ser capaz de intervir junto do Governo, exigindo que os meios de policiamento, quer pela PSP, quer pela GNR, sejam cumpridos do ponto de vista dos rácios. Nós temos falta de polícias e de guardas.
Tem-se falado muito da polícia de proximidade, da questão das câmaras de videovigilância. O que é que pode ajudar a resolver o problema de segurança em Sintra?
Por um lado, que a Câmara possa ter um papel na regular regularização das atividades económicas, porque algumas delas são fruto de criminalidade, principalmente porque juntam pessoas fora de horas, porque estas festas são feitas em torno da garrafa da cerveja, com pessoas alcoolizadas, e a Câmara pode intervir aqui.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Colocando mais polícias na rua?
Reduzindo horários e fiscalizando se esses horários são ou não cumpridos. Depois, a questão da videovigilância. A Câmara anda a prometer a instalação de 144 e não está instalada uma única câmara, mas o concelho de Cascais, que tem menos problemas do que Sintra e é um concelho mais pequeno, vai instalar cerca de 300.
Essas 144 câmaras de vigilância estão aprovadas.
Estão aprovadas, mas não estão instaladas porque dizem que faltam elementos da parte da Câmara Municipal de Sintra. Não é possível que andemos desde 2016 a prometer câmaras de videovigilância e que elas não estejam no terreno porque fazem muita falta.
Falou na necessidade de uma “autoridade musculada”, o que é que quer dizer com isso e como é que os sintrenses vão sentir isso na pele?
Comigo não vai haver rebaldaria na questão da divisão de apartamentos em subquartos para que um apartamento T2 se transforme num apartamento T5 ou T6. Esta é uma situação que penaliza muito o concelho de Sintra porque temos muitos apartamentos que estão subdivididos, ultrapassando as áreas para os quais estavam definidas para que haja o aluguer de quartos, muitas vezes alguns deles de forma clandestina. É uma situação grave que impõe pressão sobre o condomínio, as infraestruturas públicas e tem a questão da fiscalidade. Quando digo musculada, significa que a câmara tem recursos para poder identificar situações dessas e para poder agir. Não é andar a empurrar com a barriga, porque esta câmara, durante estes doze anos, não construiu uma habitação e agora fecha os olhos para não ter um problema de maior pressão pública sobre si própria. Quando falo em autoridade musculada, tem a ver com a colocação de polícia na rua através dos gratificados, significa que a fiscalização tem de ter os meios necessários, quer do ponto de vista dos recursos humanos, quer do ponto de vista dos meios móveis, para poder ter uma intervenção em todo o terreno. Não aceito que o concelho de Sintra esteja a ser invadido com habitação clandestina, não de barracas, mas de casas de madeira e de pequenas habitações espalhadas por este território todo. Não é aceitável.
Se houver habitação ilegal, enquanto for presidente de Câmara, é para demolir de imediato?
Tem de ser porque não é aceitável. Tive o pelouro da habitação nos mandatos do Fernando Seara e tenho orgulho em afirmar que quem concluiu o Plano Especial de Realojamento fui eu, com a construção de vários bairros de acolhimento de pessoas que viviam em barracas. Não podemos voltar a entender que é normal viver em barracas, que é uma situação digna, porque não é. Não podemos permitir que uma barraca dê origem a um bairro e que, depois, seja mais difícil resolver o problema a seguir. É preciso conter, porque estamos também num contexto de concorrência na área metropolitana e não tenho qualquer dúvida de que se não agirmos, quem vive em barracas nos concelhos vizinhos [e tiver barracas] demolidas, vem aqui parar.
“Só quem não percebe nada disto é que pode prometer 10 mil casas”
A IC19 é uma estrada fundamental para as pessoas que vivem em Sintra e tem dado conta de que há muitos problemas relativamente ao estado do piso, mas também sobre as inevitáveis questões sobre o trânsito. Há soluções para mudar uma infraestrutura tão relevante para os sintrenses?
Em primeiro lugar, dar-lhe alguma qualidade, o que vemos é mato do lado direito e no separador central, a ausência de iluminação pública, fraca sinalização horizontal, fraca sinalização vertical. O IC19 precisa de ser qualificado do ponto de vista das condições que oferece aos seus utentes. Mas acredito muito no transporte público e a Câmara tem um instrumento brutal do qual tem feito pouco recurso: a Carris Metropolitana. A Câmara Municipal de Sintra gasta perto dos 6,5 milhões de euros, um concelho com esta dimensão territorial, Cascais, com a Carris Metropolitana mas também com a sua própria empresa de transporte público municipal, está a gastar à volta de 14 milhões, ou seja, mais do dobro. A pergunta que faço é se a Câmara de Sintra está a fazer os possíveis para oferecer transporte público de qualidade por via da Carris Metropolitana, porque é essa a sua responsabilidade. Não está, faltam circuitos, faltam horários e faltam, essencialmente, carreiras disponíveis para os sintrenses.
É a segunda vez que fala de Cascais desde que entrámos no Carpool do Observador. Quer seguir esse exemplo?
Não tenho nenhum problema em olhar para os concelhos vizinhos e perceber que há bons exemplos, quer em Cascais, quer em Oeiras. E tenho dificuldade em perceber como é que em Sintra o PS…
Curiosamente, os dois do seu partido, um deles ex-PSD.
Significa que o PSD ou aqueles que tiveram origem no PSD têm governado bem os seus municípios e por isso é que têm maiorias absolutas contínuas. Cascais e Oeiras são bons exemplos em várias áreas, principalmente na questão da qualificação do espaço público. Não é possível aceitar que as estradas sejam esburacadas, os passeios por arranjar, as árvores por podar, que os parques infantis não tenham condições, não existam polidesportivos, a iluminação seja frágil… Sintra tem um conjunto de problemas que outros concelhos já resolveram, sobretudo o problema do lixo. Cascais tem um modelo e Oeiras tem outro e os dois modelos funcionam. Só o modelo de Sintra é que não funciona porque não há liderança política e porque o administrador é um homem do PS que nesta fase passa mais tempo à volta da campanha do PS para Sintra do que tratar os problemas concretos e reais.
Aproximamo-nos da Serra das Minas, numa fase em que o país atravessa um problema em termos de habitação. Qual é a sua prioridade para a habitação?
A pressão que há sobre o concelho e a pressão que há sobre grande parte dos municípios urbanos. E a Câmara Municipal de Sintra perdeu a oportunidade do PRR para a construção da habitação pública. Temos 1700 e poucos fogos de habitação municipal e esta câmara propõe-se construir, ao abrigo do PRR, mais cerca de 1500. A câmara de Cascais tem 3500 fogos e vai construir mais de 3500. Ou seja, uma câmara que tem mais fogos do que nós vai construir o dobro daquilo que esta Câmara se propôs construir ao abrigo do PRR. O que está mal é o entendimento que a Câmara Municipal de Sintra, através da gestão socialista, tem sobre o dinheiro público. Os socialistas são muito isto: prescindiram de usar esse dinheiro para colocá-lo ao serviço dos sintrenses e, com o PRR, esta Câmara não vai resolver rigorosamente nada do ponto de vista das fragilidades que temos.
Quando o PS propõe 10 mil casas até 2030 está a ser irrealista?
É preciso fazer contas a quanto é que isso gostaria. Dez mil casas custariam à vontade mais de mil milhões de euros e só quem não percebe nada disto é que pode prometer isto. Não vou entrar no leilão das propostas nem no concurso das propostas, porque conheço bem a Câmara e a realidade financeira da Câmara, sei que há coisas que são possíveis fazer e há coisas que são impossíveis. A minha lógica para a solução da habitação é esta: o mercado privado tem que funcionar. Sempre que uma casa nova entra no mercado, liberta uma casa velha, uma casa nova tem um preço, uma casa velha tem um preço inferior. Isto não resolve o problema todo, resolve uma parte do problema, de uma classe média que tem capacidade de socorrer ao empréstimo bancário, sobretudo os jovens, através das medidas que os governos do Luís Montenegro adotaram. Tenho uma filosofia de que é possível compensar a construção da habitação para uma classe média mais frágil e para pessoas que tenham necessidade e dificuldade em fazer o pagamento de casas ao preço do mercado, que passa pelas cooperativas da habitação.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A sua prioridade está na construção de novas casas. Mas são casas para rendas acessíveis, para habitação social?
Há câmaras que já estão a inaugurar novas habitações ao abrigo do PRR, a Câmara Municipal de Sintra ainda não concluiu um fogo porque começou o processo todo atrasado. Está a demorar tempo a resolver o problema concreto das pessoas mais frágeis, quer seja por via do arrendamento acessível, quer seja por outra via.
A questão é: qual é a sua prioridade, já que há várias leituras sobre a crise da habitação.
Nós precisamos de tudo.
E consegue construir para tudo?
Conseguimos através deste modelo: concluir o que está previsto ao abrigo do PRR e mobilizar as cooperativas de habitação para dar resposta à habitação acessível e à habitação social pelas disponibilidades de terrenos municipais, negociando com cooperativas de habitação, em que um X número de fogos fica para a Câmara para estas duas vertentes, quer seja para habitação civil, quer seja para habitação social. Sou completamente contra bairros que se transformam em guetos. Temos um Casal de Cambra, construído no tempo de Edite Estrela, que é uma desgraça franciscana e que obriga a sucessivas intervenções da parte da câmara para a sua conservação e para a sua manutenção.
Bairros sociais não vai construir.
Não, isso não. Vamos construir habitação integrada, privada, cooperativa e esta cooperativa que possa dar resposta às necessidades que a câmara tem, quer do ponto de vista da habitação social e do ponto vista da habitação a preços das rendas acessíveis.
Fazer obras em prédios devolutos é demasiado caro para para uma Câmara Municipal ou faz sentido?
É uma oportunidade. Há edifícios municipais que em 2024 foram postos à venda e já estávamos sobre pressão do mercado imobiliário. A Câmara Municipal já tinha necessidade de dar resposta às mais de três mil pessoas que estão inscritas para a atribuição da habitação social e andaram a vender terrenos, espaços que podiam acolher famílias que necessitam de casa a preços muito controlados. Esta Câmara fez tudo ao contrário: não investiu, meteu dinheiro no banco, andou a vender imóveis e agora foi ao mercado a tentar comprar casas e o número de casas que comprou até é ridículo face à dimensão do concelho. Porque é que estamos sob pressão do mercado imobiliário? Lisboa tem o seu fenómeno, que tem a ver com o turismo, aqui o fenómeno é o outro. O presidente da Câmara, Basílio Horta, identificou que o concelho de Sintra terá 400 mil pessoas, sendo que 100 mil são imigrantes. Estes imigrantes, grande parte deles, entraram num período da nossa história recente, nos mandatos de António Costa enquanto primeiro-ministro, através da declaração da manifestação de interesse. O concelho, de um momento para o outro, viu-se invadido por imigrantes que vieram pressionar o mercado imobiliário. E são esses que muitas vezes estão a contribuir para a subdivisão de assoalhadas. A imigração trouxe uma pressão sobre as escolas, sobre as creches, sobre as unidades de saúde…
Mas essas pessoas estão cá. Como é que isso se resolve?
Estão cá e é preciso criar condições para que estejam cá condignamente, aquelas que estiverem legalmente. O país tem regras e elas têm que ser para cumprir. Acho que este Governo está a ir no caminho certo. A imigração tem que ser regulada porque temos que oferecer condições àqueles que cá estão e que contribuem para o país de forma positiva.
Também é contra a leitura que o Tribunal Constitucional fez do pacote da imigração.
Claramente, neste país é difícil avançar porque ainda há um conservadorismo muito grande que impede a aplicação de medidas que procuram resolver problemas. O Governo está na linha certa, está no caminho certo para ajudar a resolver vários problemas. Estamos na Tapada das Mercês, isto é um regabofe de divisão de apartamentos em subassoalhadas. É um regabofe. Chegam todos os dias reclamações de pessoas que vivem nos diferentes edifícios a dizer que é barulheira dentro das casas, barulheira cá fora, ocupação do espaço público com festas até às 02h00 ou 03h00. Isto não é aceitável. Eu não posso aceitar isto.
Quem vive em casas municipais e não paga renda deve ser expulso.
Deve-lhe ser dada a oportunidade de fazer um plano de pagamento. Nesta altura não tenho esses dados porque não estou na Câmara Municipal de Sintra como vereador…
E quando estava com esse pelouro sentia essa dificuldade?
Sentia essa dificuldade e havia muita reclamação de quem pagava e nós fizemos várias ações de notificação de plano de pagamento, com depois muitos deles sendo concluídos com despejo.
Estamos no Complexo Desportivo de Fitares. Porque é que quis parar aqui?
Quis parar aqui para dar conta do desleixo com que a Câmara trata os seus equipamentos públicos. O Complexo Desportivo de Fitares começou por ser um complexo desportivo privado, as câmaras das quais eu fiz parte compraram o complexo desportivo, colocaram-no ao serviço da população e este executivo socialista permitiu que ele se degradasse de forma acentuada e que hoje ofereça poucas atividades aos sintrenses que vivem aqui nesta zona e em freguesias limítrofes. E isto mostra bem a falta de empenho dos eleitos socialistas na Câmara e na Junta de Freguesia, desaproveitando um equipamento que é fantástico e extraordinário e que deveria estar de facto ao serviço dos sintrenses.
A Câmara tem a obrigação de pagar aos jovens a frequência de desporto cultura?
Acredito que a câmara tem essa responsabilidade. Para além da educação há dois elementos que são estruturantes para o desenvolvimento de qualquer indivíduo, sobretudo dos mais novos, que são o desporto e a cultura, porque são verdadeiros elementos integradores, de formação cívica, de formação, de qualidade de vida, de bem-estar, de promoção do indivíduo, de promoção da sensibilidade. E a Câmara deve fazer muito mais do que aquilo que está feito. Esta Câmara não construiu um único espaço para a juventude.
“Em democracia não há votos de primeira e votos de segunda”
A caminho do próximo foquemo-nos um bocadinho sobre a sua candidatura. Desta vez conseguiu uma coligação com a Iniciativa Liberal e com o PAN. Convidou o CDS para fazer parte dessa coligação, não foi bem sucedido. O que correu mal para que Maurício Rodrigues tenha optado por ser candidato fora da coligação?
A democracia é a oportunidade de todos e saúdo todos os candidatos de forma calorosa neste combate e neste desafio, acreditando que todos eles terão propostas para melhorarmos o concelho. E a seguir ao dia 12 de outubro, vencendo a câmara terei oportunidade para falar com todos na perspetiva de saber a sua opinião.
Antes do dia seguinte, o dia antes. O que falhou?
Com a Iniciativa Liberal e com o PAN começámos por tratar do programa eleitoral, foram negociados temas que deveriam estar incluídos no programa eleitoral da candidatura e aceitei isso de bom grado. Sabemos que as candidaturas também se fazem de lugares e propusemos a distribuição de lugares ao PAN e a Iniciativa Liberal, no sentido de formalizar uma candidatura e foi aceite. Com CDS, a proposta para atribuição de um lugar na vereação não foi aceite e o assunto ficou resolvido.
Maurício Rodrigues não merecia o quarto lugar que queria na vereação?
Não, os resultados eleitorais também contam e apontam para a Iniciativa Liberal com uma expressão interessante no concelho e [o partido] trouxe para dentro da candidatura uma perspetiva, do ponto de vista de propostas, que a mim também me interessavam, sobretudo na área da saúde. E quando abordámos a questão das propostas da IL, disse logo que sim, porque subscrevo uma parte significativa delas. Mas o programa eleitoral será sempre o programa eleitoral liderado pelo PSD.
Numa leitura mais nacional, a IL traz o rasgo que o CDS, um pouco mais antiquado, não tem?
Não vale a pena esconder isso. A Iniciativa Liberal traz a a novidade e a inovação do ponto de vista das propostas que apresenta e acho que têm que ser entendidas. O país virou à direita e permitiu o crescimento quer do PSD no âmbito da AD, quer da IL e de outros partidos, o que significa que, de facto, o país está virado também para a responsabilidade individual.
Porquê o PAN, diria que esta é uma coligação inédita em termos nacionais, ter a Iniciativa Liberal e o PAN com o PSD.
Pelo menos esse mérito nós temos, poder juntar partidos que na Assembleia da República têm propostas diferentes em algumas áreas e aqui em Sintra estão sintonizados.
Um dos grandes desafios destas eleições autárquicas é o Chega, que venceu em Sintra nas eleições legislativas. Teme, o resultado que Rita Matias possa ter?
Há pouco disse que o país virou à direita, ou seja, as pessoas cansaram-se da esquerda, cansaram-se do regabofe que a esquerda trouxe, sobretudo o PS, à gestão do país. Penalizaram fortemente [o país], quer o PS, quer o Bloco de Esquerda, quer a CDU, o Livre salvou-se de alguma maneira. Os dados do concelho de Sintra das últimas eleições legislativas apontam que há uma diferença de 2000 votos do Chega para o PSD e do PSD para o PS. Mas se somássemos os votos da IL ao PSD veríamos que compensaria esses votos e de forma significativa. Mas a minha preocupação é termos propostas credíveis, que os sintrenses percebam que vale a pena. Um amigo meu dizia-me ‘vejo-te como o David contra as Golias. És o tipo que tem uma dimensão local e depois tens duas concorrentes, uma que é deputada e outra que foi ministra’. Disse-lhe que a história ensina-nos que, em algumas circunstâncias, é possível que o David leve de vencido o desafio do Golias. Acredito que vamos conseguir vencer porque temos as melhores propostas e uma identidade que ninguém oferece aos sintrenses: eu sou verdadeiramente daqui. Não temo nada, estou a fazer uma campanha para mostrar aos sintrenses que estou cá há muitos anos, que conheço bem o concelho e que os sintrenses me conhecem. Os sintrenses sabem que sou um realizador, um concretizador.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Mas reconhece que uma figura com a dimensão nacional que neste momento tem Rita Matias, principalmente junto dos jovens, pode fazer alguma mossa à sua candidatura?
Os dados dizem que o Chega tira mais votos ao PS do que ao PSD, as eleições legislativas mostraram isso. Não temo os outros candidatos, os resultados eleitorais legislativas fazem-me ter noção de que é preciso trabalhar muito para mostrar aos sintrenses que as minhas propostas valem mais do que as propostas dos outros candidatos e é nisso que estou empenhado.
Seria um risco para a região ter uma pessoa tão inexperiente a nível autárquico?
A experiência aqui conta, não a experiência da vida, a experiência autárquica. Eu tenho-a e quando tive a oportunidade de a ter, mostrei que era capaz de fazer. Mas os interesses é que vão avaliar. Em democracia não há votos de primeira e votos de segunda, há votos de todos e os sintrenses vão ser chamados a votar.
“Há uma bandalheira de tuk tuks por todo o lado”
Estamos a circular na A16. Ana Mendes Godinho, a candidata do PS, já prometeu acabar com as portagens na A16 para residentes, trabalhadores e empresas, é uma medida que pode fazer sentido?
Quanto é que custa a medida? Uma medida que beneficia apenas alguns e prejudica todos os outros. Foi anunciado o número de 15 milhões de euros, [está] errado. Fico muito preocupado quando os candidatos à Câmara Municipal de Sintra anunciam medidas que estão mal quantificadas, basta consultar as Infraestruturas de Portugal, que fazem a gestão da A16 por via da concessão, para dar conta que isso poderia ter um custo que rondaria os 25 milhões de euros sem manutenção, todos os anos, acrescidos dos custos que vão entrar brevemente a cargo das infraestruturas que têm a ver com a manutenção da via. Podemos estar a estimar por ano entre 26 a 27 milhões de euros. Acredito mais de que essa verba deve ser investida na Carris Metropolitana, na criação de novos meios de transporte. Os transportes públicos, a entrada em funcionamento do SATU (Sistema Automático de Transporte Urbano), a possibilidade que é real, porque este novo governo lançou esta possibilidade, de que as câmaras poderem entrar na gestão do transporte ferroviário, como entrou no transporte rodoviário, são medidas que a mim me interessam. Acho que a ponderação da chegada do metro até Queluz deve estar em cima da mesa e, do ponto de vista ambiental, é sempre favorável apostar nos mais no transporte público, transporte rodoviário, embora a carência de vias dificulte.
Vamos aproveitar que estamos aqui no novíssimo Hospital de Sintra, que tem sido alvo de inúmeras críticas da sua parte. Não vê benefícios nesta obra?
Gostava de dizer bem porque estava a reconhecer que os sintrenses estavam melhor servidos. A Câmara gastou aqui à volta de 63 milhões de euros e a pergunta que deixo é: que benefício têm os sintrenses? Construiu-se uma unidade, a Câmara substituiu-se ao Estado Central e ao Ministério da Saúde e não negociou o reforço de recursos humanos, sobretudo o pessoal médico e de enfermagem. Foi se buscar ao Amadora-Sintra? Fernando Fonseca os recursos para aqui. Ou seja, dividiram-se os poucos recursos que já tínhamos. Quando a Câmara entendeu avançar devia ter negociado a questão da distribuição dos recursos humanos. Não o fez e perdemos todos. Aliás, encontra certamente na comunicação social críticas de médicos e dos sindicatos sobre o prejuízo que esta unidade está a contribuir para o Amadora-Sintra, do ponto de vista da prestação dos seus.
Era para ser benéfico e prejudicou ainda mais o hospital central?
Não sou eu que digo, é aquilo que tenho lido na comunicação social, quer por via de médicos, quer por via dos sindicatos e dos utentes que se socorrem aqui deste serviço. Em que a constatação que fazem é que o serviço é muito escasso face às necessidades que temos no concelho de Sintra. Acho que não ganhámos nada, aliviámos o Estado Central de uma comunidade que era dele e vamos ver como é que vai ser o futuro do ponto de vista da gestão. Vou ser firme com o Governo, não me interessa se é do PSD, do CDS, do PS, seja quem for, o Amadora-Sintra e esta unidade local de Saúde Sintra, não podem ter os recursos que tem atualmente a seu cargo [porque] são insuficientes para a população a quem temos que prestar serviços de saúde.
O hospital está feito. Suponho que, apesar das críticas, não o queira mandar abaixo. O que vai fazer com ele?
Pois não, isso não. Depois do dia 12 de outubro faço questão de ter uma reunião com a administração da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra. Há um dado que acho que é importante: ao fim de três meses de funcionamento, qual é a avaliação que a administração da entidade que gere o hospital faz sobre a entrada em funcionamento desta Unidade de Saúde Sintra? Serviços prestados, utentes que utilizaram, horários de abertura… E depois temos de encontrar soluções. As câmara de Cascais e de Oeiras andam a construir habitação para médicos, professores, forças de segurança porque sabem que estamos numa área concorrencial em que faltam recursos. A Câmara de Sintra não fez rigorosamente nada, portanto tudo lhe passou ao lado e pronto. E acredito que o médico que tenha a proposta de ter uma habitação em Cascais, vá para lá e não venha para aqui.
Estou a ver que a placa que mais gosta em Sintra é aquela que diz Cascais.
Não, a placa que mais gosto é a da qualidade e esse é o meu objetivo. Temos uma população extraordinária, projetos nas escolas que são fantásticos, grupos de teatro que dão cartas lá fora, empresários que são altamente inovadores… Temos uma efervescência dentro do concelho, mas tivemos o azar de nestes 12 anos termos um mau poder político liderado pelo PS e esta marca não há nenhum candidato ou candidata que se livre. O PS prestou o mau serviço aos sintrenses. Santa paciência. Isto tem que ser dito.
Há muito que existe muita heterogeneidade em Sintra. Além de problemas na habitação, também há muito turismo de luxo, muitos condomínios privados. Há alguma forma de combater estas diferenças dentro do município ou até dão jeito para ir buscar ao turismo e investir noutros locais?
O que fica do turismo em Sintra, para além da atividade económica, não é assim tanto, a não ser por via dos palácios. A administração da Parques Sintra Monte da Lua foi ontem nomeada e não tem um elemento da câmara, significa que esta câmara não tem nenhuma capacidade de influenciar o Governo sobre uma empresa que é pública, que tem 15% do capital social municipal e que a câmara de Sintra deixou de ter o lugar que teve durante anos. Isto mostra bem como o poder político em Sintra está altamente fragilizado, não tem a capacidade de influenciar. Sintra é um mosaico, mas essa também é a riqueza do concelho, quer do ponto de vista do seu território, quer do ponto de vista da sua dimensão humana.
Tem o melhor e o pior.
Tem o melhor e o menos bom. E o menos bom são desafios. Reuni com a Associação dos Proprietários da Serra de Sintra, imóveis que valem muitos milhões de euros, e ando a reunir com associações de proprietários e de moradores das zonas urbanas, imóveis que valem significativamente menos do que aqueles que estão aqui na zona do centro histórico de Sintra. Os problemas são os mesmos, curiosamente: fraca qualidade dos acessos rodoviários. problemas de lixo… Quer se viva numa zona rica ou numa zona de condição social mais baixa, os problemas são os mesmos. Significa que ninguém aqui foi bem tratado, ou seja, todos foram mal tratados. E estes [turistas] são massacrados por causa da pressão turística que a Câmara também não conseguiu resolver.
Qual é o problema?
Já viu a bandalheira que está aqui de tuk tuks por todo o lado? Ninguém põe mão nisto porque esta Câmara se desculpa [dizendo] que não há regulamento aprovado. É falso. A Câmara tem autoridade para resolver este problema de um dia para o outro através da regularização dos circuitos de trânsito aqui dentro. A Câmara pode estabelecer limites àqueles que circulam nas estradas desta zona, pode ter uma autoridade brutal do ponto de vista da fiscalização e do policiamento.
O estacionamento é um problema?
Há pouco estacionamento por isso defendo a criação de um grande terminal na Portela de Sintra, o hub da Portela, que será a zona a onde será feito o transfer turístico para o centro histórico. Vamos limitar a circulação de automóveis particulares de acesso aos nossos monumentos e vamos deixar aos operadores turísticos alguma liberdade, mas há operadores turísticos que têm que ser metidos na ordem. Digo isto com toda a frontalidade.
Considera o aumento da taxa turística?
Não, não considero. Acho que não é por aí que se resolve rigorosamente nada e isso não está, na minha perspetiva, ser uma opção. Temos é que dignificar o turismo em Sintra, metendo a Parques Sintra Monte da Lua na ordem, tendo em conta de que não pode receber tantos turistas como recebe atualmente. Defendo, por exemplo, que os nossos monumentos possam fechar rotativamente um dia por semana, até para que o próprio monumento possa respirar, até por uma questão de preservação. Veja bem o que está aqui, este assalto completo aos turistas que estamos aqui a viver. Isto não é aceitável e disciplina-se com fiscalização.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Está a falar destas pessoas que estão à saída da estação.
Comigo não vai ser possível fazer a captação de turistas à porta da estação. Vão ter locais próprios e estes lugares serão, à partida, transferidos para o hub da Portela e do Ramalhão, que é uma opção que estamos a estudar ainda.
Está pensado algum travão em termos de construção de hotéis ou até em termos de alojamento local?
No alojamento local, sim. O que está feito, está feito, e avaliaremos no futuro a questão daquilo que está emitido. Mas ainda temos capacidade de ter oferta hoteleira no concelho, não precisa de ser no centro histórico. Temos um litoral muito interessante que pode ser beneficiário desta oferta. E temos zonas aqui no limite do centro histórico que também podem ter esta oportunidade com esta certeza.
Estamos a terminar a nossa viagem mesmo em frente à Câmara Municipal. Já disse que não tem linhas vermelhas, mas isso significa que no dia a seguir às eleições não tem um parceiro preferencial?
O meu parceiro preferencial vai ser a competência. Nos 12 anos que estive na Câmara, trabalhei com vereadores da coligação PSD/CDS, da CDU e do PS e encontrei gente competente em todo o lado. Para os sintrenses o importante é ter uma convicção e uma opção ideológica ou ter uma opção pela competência dos vereadores eleitos, distribuindo pelouros de acordo com essa competência, mas não abdicando do programa eleitoral do primeiro eleitoral que apresentei.
Concorda que nas autárquicas não contam tantos partidos e contam mais as pessoas?
Sem dúvida nenhuma, subscrevo isso na íntegra porque vivi isso. Fazer acordos pós-eleitorais em que o princípio seja o acordo partidário… não vou embarcar nessa opção, esse não é o meu caminho. O meu caminho é [contar com] os vereadores que tenham competência para exercício de cargos.
Se precisar dos vereadores do Chega para aprovar medidas, não tem nenhum problema com isso?
Não, não tenho. Desde que sejam as minhas medidas, as medidas do meu programa eleitoral.
E se for preciso chamá-los para o seu executivo, está disponível ou prefere governar em minoria?
Faço questão de governar com os competentes e peço aos sintrenses que avaliem o perfil das listas à vereação e as listas da vereação são feitas por pessoas. Acha aceitável de que o atual vice-presidente da Câmara, eleito pelo Partido Socialista, não tenha o seu currículo publicado na página oficial da Câmara? O que esconde?
Sei que me vai dizer que esse cenário não está em cima da mesa, mas se perder as eleições pode ficar com o lugar de vereador?
Estou em ponderação relativamente a isso. Tenho 30 anos de serviço autárquico no concelho de Sintra, só quis ser autarca no concelho de Sintra, comecei no executivo de uma junta. Depois, perdi as eleições e passei para a Assembleia de Freguesia, onde liderei a bancada durante quatro anos, fui eleito vice-presidente da Câmara em 2001 e tive oito anos na oposição com Basílio Horta. Fui professor no concelho de Sintra, presidente e sou voluntário na Cruz Vermelha de Sintra, tenho uma forte ligação ao concelho. Gosto deste concelho porque considero que é o meu concelho, foi o concelho que me acolheu quando tinha cinco anos.
Já chega?
Não diria já chega, posso dizer basta.
Se perder pondera não ficar como vereador.
Se perder, sim. Quero ser sincero com os sintrenses porque acho que há um tempo de ponderação e de voltar à minha vida.
Também não aceitaria ser vereador com pelouro de qualquer uma das suas adversárias?
Se os sintrenses não confiarem em mim a presidência da câmara, ponderando se fico ou se não fico, ficarei sempre sem pelouros.