Doze anos depois, Luís Filipe Menezes pretende regressar à presidência da Câmara Municipal de Gaia. No Carpool do Observador, vai aproveitando cada esquina e ruela para mostrar obra feita, recusando reconhecer qualquer mérito a Eduardo Vítor Rodrigues e acusando-o de ser o responsável pelo “retrocesso”. Recorda que deixou uma Gaia em “explosão de desenvolvimento” e critica o socialista — que renunciou ao lugar de presidente depois de o Tribunal Constitucional ter decidido a perda de mandato pelo crime de peculato — por ter colocado Gaia a “andar para trás”.
Considera que está melhor, mais experiente e que pode fazer com que Vila Nova de Gaia dê “um salto muito mais significativo” do que no passado. Irrita-se quando lhe falam do passivo que deixou, revolta-se porque ninguém fala da “extraordinária obra que herdou”, argumentando que a autarquia tem hoje “centenas de milhões de euros de receita” pelo que deixou feito. Agora, ambiciona ligar Gaia ao Jardim do Palácio de Cristal através de teleférico, apostar na habitação para jovens e colocar mais polícia nas ruas para travar insegurança.
Quanto ao regresso, Luís Filipe Menezes reconhece que mudou de ideias, depois de ter dito que não voltaria a candidatar-se a um lugar eletivo e que era “irrevogável” a decisão de não voltar a recandidatar-se a Gaia. Deve ser a “única” coisa, regista, que tem “em comum” com Paulo Portas. Mais do que isso, não lhe passa pela cabeça não vencer com maioria absoluta, mas, se não o conseguir, prefere liderar um executivo minoritário e negociar projeto a projeto, ainda que esteja disponível para conversar com todos. Caso consiga mesmo regressar à presidência da Câmara de Gaia, pondera até fazer um segundo mandato.
Em 2021 dizia que nunca mais seria candidato a um cargo eletivo e em 2022 disse numa entrevista ao jornal Sol que só se enlouquecesse e que voltava a candidatar-se à Câmara Municipal de Gaia. O que o fez mudar de ideias?
Não posso ser tratado de forma diferente de outras pessoas como Marcelo Rebelo de Sousa, quando disse que só seria candidato ao PSD se Cristo descesse à terra. Não consta que Cristo tenha vindo cá abaixo e o professor Marcelo acabou por ser candidato ao PSD. O tempo passa, as circunstâncias passam, nós mudamos, a envolvência muda e eu mudei de opinião.
Mas o que é que o fez mudar de ideia?
Primeiro, a degradação imensa que verifiquei que estava a acontecer a todo um projeto que tinha colocado Gaia como uma cidade moderna e que hoje está num processo de regressão absolutamente dramático, em todos os aspetos: mobilidade, limpeza, ambiente. Por outro lado, porque, como qualquer outra pessoa, não sou insensível às enormes pressões que sofri e aquelas que mais me influenciaram a pedir.
Teve muita gente a pedir-lhe para ser candidato?
As pessoas da rua, as pessoas normais, os cidadãos na rua que, no último ano e meio, onde me encontravam, me diziam sempre ‘o senhor tem que voltar e dar outro empurrão a terceira cidade do país e voltar a pô-la no caminho de desenvolvimento que ela estava’. Onde estamos agora a passar nada disto existia, era uma viela em que os carros caíam ao rio. Pensar em casas de classe média. Aqui em frente com esta qualidade era impensável. Aliás, a Afurada era uma vila de pescadores pobres, que nem casas de banho tinham em casa, e hoje há uma alteração do ponto de vista sociológico absolutamente brutal.
Depois de muitos anos como presidente, decidiu deixar a Câmara Municipal de Gaia e ser candidato à Câmara Municipal do Porto. Teme que os gaienses, mesmo tendo passado todos estes anos, se tenham sentido abandonados e que não tenham esquecido isso?
Não, de forma nenhuma. Só fui candidato ao Porto porque não podia ser mais candidato a Gaia mais uma vez, há limitação de mandatos.
Mas renunciou um pouco antes do fim do mandato.
Não é verdade, saí da Câmara três semanas antes do fim do mandato para a campanha eleitoral. Saí da Câmara em agosto e as eleições foram em setembro.
Mas não sente que possa haver…
Não… Até porque tenho consciência de que uma convivência proativa e construtiva com a cidade do Porto é absolutamente fundamental para o desenvolvimento de Gaia. Neste momento, questões como as travessias, novas pontes, eventualmente túneis de ligação entre as duas cidades, a gestão conjunta dos eventos de rio, dos eventos de animação e lazer dos elementos culturais são muito importantes também para Gaia. Disse muitas vezes aos empresários de Gaia que o presidente da Câmara do Porto era quase tão importante como o presidente da Câmara de Gaia para o seu desenvolvimento e continuo a pensar da mesma maneira.
Algum tempo depois, num contexto específico ou pela forma como aconteceu, chegou a dizer que tinha sido o maior erro político da sua carreira. Porquê?
Explico muito sumariamente, embora seja passado e não tenha muito interesse. A convergência negativa contra a minha candidatura foi de tal forma… o presidente da Câmara do Porto, com 12 anos de funções, na altura era Rui Rio, fez durante dois anos campanha contra mim e contra a minha candidatura e apoiou Rui Moreira, aliás, hoje nem se falam. O CDS, que estava em convergência comigo em Gaia há quatro mandatos e em coligação no governo com o Passos Coelho… isto coincidiu até com a famosa frase da saída irrevogável do Portas..
Em 2021 também disse que era irrevogável. Já tem alguma coisa em comum com Paulo Portas.
Deve ser a única que tenho em comum, essa palavra, de resto não tenho mais nada em comum. O CDS contra, Rui Rio contra e o Tribunal Constitucional só a três semanas ou quatro semanas das eleições é que me considerou candidato. Os eleitores não esperam até quatro semanas antes para tomar uma decisão sobre quem vão apoiar. Foi um handicap tremendo e devia ter tido a lucidez de ter percebido isso e ter obrigado, por exemplo, a que Pedro Passos Coelho se virasse para Paulo Portas e dissesse ‘meu amigo, o senhor continua a ir no lugar que quer, passa para vice primeiro ministro, é o dono disto tudo, mas no Porto vai apoiar candidato do PSD ou então em mais nenhum sítio do país há candidaturas’. Se isso tivesse sido feito, Paulo Portas tinha tido juízo, mas não foi feito. E eu devia ter sido consequente e ter dito a Pedro Passos Coelho ‘muito obrigado, continuamos amigos, mas arranje outro candidato’.
Nessa altura deixou para trás… Há números diferentes, quem lhe sucedeu na presidência da Câmara fala de uns números, Luís Filipe Menezes fala de outros, mas deixou um passivo grande.
Aceito ouvir, mas irrita-me muito. Fizemos uma revolução completa em Gaia. Quem me critica por isso, o presidente da Câmara em funções, nunca fala da extraordinária obra que herdou. Fala de um putativo passivo. Mas em relação a esse putativo passivo, há duas questões…
Também confirmou que existia.
Isso é completamente mentira e uma mentira dita muitas vezes, como sabe, passa a ser verdade. Quando uma câmara está com passivo elevado, ou seja, ultrapassa os limites do passivo que a lei permite; a lei é implacável, o Tribunal de Contas reprova as contas da Câmara. Durante 16 anos nunca reprovou as contas da câmara, jamais. Pior ainda acontece, como aconteceu com Portugal com a troika… quando uma Câmara está endividada, o Estado intervém e passa a gerir a Câmara durante cinco ou seis anos. E nada disso aconteceu e o senhor presidente da câmara chegou à câmara e a primeira coisa que fez foi baixar impostos. Quando a troika entrou em Portugal, a primeira coisa que o Governo fez foi aumentar impostos e cortar pensões. A herança é que esta câmara tem quase mais de uma centena de milhões de euros de receita do que tinha quando eu abandonei funções por causa das vias que eu abri, o saneamento que construí, as casas que construí, o desenvolvimento da frente de mar e da frente de rio fizeram com que o investimento em Gaia fosse brutal e de uma classe média e média alta que vem pagar impostos muito grandes e ajudar ainda mais ao desenvolvimento de Gaia.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Penso que passa [pela AD e IL] o futuro da governação estável do país”
Olhando para os últimos 12 anos em que não foi autarca em Gaia, reconhece algum mérito a Eduardo Vítor Rodrigues?
Gostava de ser parcimonioso nesta matéria, mas não reconheço nenhum mérito. Entre várias coisas, a falta de transparência na gestão pública é absolutamente assustadora. Uma câmara que tem um presidente da câmara que perde o mandato, um vice-presidente da câmara com problemas, mais dois ou três vereadores que são arguidos em processos, mais de dois ou três diretores que são arguidos e acusados em processos, isto é uma palete de irregularidades e de falta de transparência. Bastaria isso para eu não poder visionar nada de positivo. Não foi aberto a uma única via estruturante e vamos passar por muitas das que eu abri, o dinheiro foi atirado a rodos, numa lógica que eu diria do pior socialismo para cima das instituições, para comprar votos. Mentiria se dissesse que vi algum mérito. Vejo falta de limpeza, vejo retrocesso, falta de policiamento e insegurança. Vejo uma toda uma cidade que estava em explosão de desenvolvimento ter andado para trás.
Nesta tentativa de regresso à Câmara conseguiu fazer uma coligação com a Iniciativa Liberal e com o CDS. Que relevância que tem esse apoio, sente que não tinha o mesmo rasgo que fosse se fosse sozinho?
Tenho que fazer a leitura do que é a realidade nacional. Neste momento há uma dialética nacional entre focos e pólos de poder. Um dos pólos de poder que poderá dar estabilidade ao país é este pólo que reúne o PSD/CDS com a Iniciativa Liberal. Penso que isso vai repercutir nos próximos anos da vida política portuguesa. Sinceramente, não acredito que a bipolarização se faça entre o PSD e o PS. Acho que se vai fazer muito mais entre o PSD e o Chega e, portanto, faz todo o sentido que também no poder local se reforme, se reforce esse caminho de aproximação entre o PSD-CDS e a Iniciativa Liberal. Penso que passa por aí o futuro da governação estável do país. Quis dar esse exemplo. Não é que fosse vital ter esse tipo de coligação para poder ter um bom resultado ou ganhar as eleições, mas penso que a Iniciativa liberal traz alguma coisa de positivo. A Iniciativa Liberal trouxe um bocadinho de frescura à democracia portuguesa, não tenho nenhum problema em dizê-lo. Tem muita juventude qualificada, tem quadros técnicos de qualidade e seria uma tonteria não aproveitar essa oportunidade para os juntar num projeto de desenvolvimento da cidade.
Ficou de alguma forma melindrado quando ouviu João Cotrim Figueiredo, na Convenção da Iniciativa Liberal, a dizer que se fosse ele não, não teria feito esta coligação?
Penso que ele também é um candidato presidencial problemático, manifestamente.
Por que é que diz isso?
Há claramente a ideia de que é importante que haja uma aglutinação no centro-direita moderada à volta de um candidato ganhador e Cotrim Figueiredo não vai manifestamente unir essa direita, vai dividi-la por si. Se tivéssemos um cataclismo de ter uma segunda volta, entre, por exemplo, o almirante Gouveia e Melo e um candidato da esquerda moderada, António José Seguro, as responsabilidades teriam de se pedir a um candidato problemático chamado Cotrim. Cada um responde pelos seus atos, eu respondo pelos meus, ele responderá pelos dele.
No que toca ao turismo, tem intenção de aumentar a taxa turística em Vila Nova de Gaia?
Tenho que aferir essa questão com a Câmara do Porto. Penso que faz sentido que haja uma normalização de valores entre as duas camas.
Para o valor ser igual?
Igual porque para não haver uma uma competição, uma canalização de uma cidade em relação a outra. Hoje temos uma das maiores concentrações de hotéis cinco estrelas do país no centro histórico de Gaia.
E faz sentido travar a construção de hotéis?
Provavelmente vou ligar as responsabilidades do vereador da habitação ao turismo e para que a dialética de confronto se transforme numa dialética de concertação? O turismo de habitação ajudou muito a reabilitação urbana, quer no Porto quer em Lisboa, mas não podemos ter excessos, e através do diálogo e do bom senso conseguimos concertar posições.
A câmara municipal assinou, em 2021, um acordo para a construção de quase duas mil casas, mas depois houve ajustes à inflação…
É uma verdadeira vergonha. A herança que deixou é a de 450 acordos assinados quando tinha dinheiro para três mil casas.
Não percebe a justificação da inflação?
Não consigo entender. Isaltino Morais conseguiu construí-las todas. Portanto, não consigo entender rigorosamente, a não ser incompetência, incapacidade.
E sabendo que esse dinheiro existe e que o acordo está feito, o que é que pretende fazer?
O mais grave é que a execução desses acordos do PRR para a habitação com que os sucessivos governos, o anterior e este têm enchido a boca, e também têm muita culpa em que as coisas não têm avançado, mas não-execução até 31 de julho significa a reversão das verbas para União Europeia. Não são só as Câmaras que não cumpriram, é o próprio Estado que está metido em sarilhos e que tem que arranjar uma solução para ultrapassar essa situação.
Prometeu quatro mil casas com rendas acessíveis…
Num mandato, sim. 40% no interior.
Pretende fazê-lo com casas novas ou através de reabilitação de edifícios?
Podemos optar por vários modelos, desde casas novas até a reabilitação de casas que estão abandonadas, até ao aproveitamento de equipamentos do Estado que estão abandonados e podem ser transformados em habitação.
A construção que quer fazer passa por parcerias com privados?
Pode passar. A atual legislação permite-o, tudo depende que encaixe nos critérios financeiros que estão previstos na lei. Se os privados construírem e colocarem os preços razoáveis que estão previstos nas portarias que condicionam todo o projeto de habitação, podem ser os privados a tomar a iniciativa, mas não há nenhum problema nisso. Acho que todos têm que trabalhar no mesmo sentido, as regras são bem claras.
À boleia do que se tem discutido em termos de habitação a nível nacional, os inquilinos de bairros municipais que não paguem rendas devem ser despejados?
Acho que sim. A política que segui foi deitar abaixo bairros que estavam muito degradados e construir bairros novos. Os bairros que construí, a esmagadora maioria, são pequenos equipamentos em que se passa por eles e nem se sabe que é um bairro social. São 20, 30, 40 casas inseridas no tecido urbano normal, coloquei lá assistentes sociais a viver, a antecipar problemas financeiros das famílias, antecipar problemas de delinquência, de adição, e conseguiram um equilíbrio de funcionamento que muitas vezes fez com que o chamado elevador social funcionasse nesses bairros e as pessoas saíssem dos bairros porque tinham capacidade financeira e tinham adquirido um estatuto social que lhes permitia sair de lá. Esses bairros pequenos são a filosofia correta quando é preciso fazer bairros para os mais pobres, mas neste momento o nosso foco são urbanizações para jovens jovens, casais jovens, jovens solteiros, mas que têm o direito de viver sozinhos porque já trabalham, uma classe média que está muito estrangulada por rendas altíssimas. E [queremos] misturar jovens casais com jovens universitários que chamam um campus universitário moderno, em que vamos ter restaurantes para os vários níveis e possibilidades económicas dos estudantes e dos jovens, pavilhões para desporto e um grande pavilhão com escritórios, gabinetes individuais para todos aqueles que ainda estudam.
Tudo isso a ser construído do zero?
Do zero, já temos os terrenos, um deles um terreno do Estado, e queremos isso no centro da cidade porque as nossas cidades estão a ficar sem vida. Muitas vezes até no Porto e em Lisboa isso acontece [havia] bairros inteiros que dantes tinham vida, as pessoas saíam à rua à noite, mudaram os seus hábitos, ficam agarrados aos televisores, aos jogos e trazendo muitos jovens para viver no centro da cidade penso que será uma maneira de dinamizar, de trazer vida para a rua e voltar a construir cidade como no norte da Europa acontece.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Penso, se os eleitores quiserem, fazer um segundo mandato”
Normalmente quando há candidaturas a uma autarquia fazem-se planos a mais anos, contando com mais mandatos. Já foi presidente durante 12 anos, se vencer serão mais quatro. Acha que daqui a quatro anos ainda tem estado de espírito para se voltar a recandidatar?
Daqui a quatro anos serei mais jovem do que é hoje Isaltino Morais ou Fernando Ruas ou o Presidente Trump ou o Presidente Putin, que mandam no mundo. A vertente que está a colocar é correta do ponto de vista de saúde, disponibilidade mental, vontade… É uma questão a ver na altura própria. Agora, não me quero eternizar aqui, não quero sair da Câmara de bengala, mas penso, se os eleitores quiserem, fazer um segundo mandato, por ventura.
Só para terminar a questão da habitação, faz sentido que as câmaras municipais, sempre que haja habitação ilegal, façam uma demolição de imediato.
No meu primeiro mandato, o líder do Partido Comunista da Assembleia Municipal era um homem batalhador e que mostrava um grande conhecimento sobre a habitação social. No fim do mandato eu contratei o para ser o líder da habitação social de Gaia. Ainda agora as pessoas reclamam pelo seu regresso, porque trouxe aquela boa disciplina do Partido Comunista, que é justa. Quem se comporta bem, quem tem um comportamento cívico, mesmo que, por exemplo, fique com dívidas porque passou por dificuldades circunstanciais na vida e não consegue pagar as rendas, ele negociava a recuperação das rendas a dois anos, três anos, quatro anos. Agora, quem pega numa caçadeira e dá tiros para o vizinho do lado, quem vem sozinho desestabilizar um bairro, quem pura e simplesmente diz que não vai pagar mais e destrói o seu apartamento, perde o apartamento.
Nesse caso está de acordo com o que disse Ricardo Leão quando disse que quem comete crimes deve ser despejado das habitações municipais?
Não conheço a situação concreta de Loures. Mas tive situações de pessoas que saíam de caçadeira a dar tiros para os seus vizinhos. É evidente que essas pessoas não são bem vindas, nem os vizinhos os querem ao lado deles. Portanto, temos que ponderar a situação, a situação.
O tema da segurança tem marcado a atualidade nacional. O que era necessário em Gaia para que as pessoas não se sintam essa insegurança?
Temos problemas de segurança, mas não temos os problemas de segurança do Porto ou da Área Metropolitana de Lisboa.
Mas considera que não existem porque foram tomadas boas medidas públicas ou pelo sítio não ser propício a isso?
Pelas próprias características da cidade, a sua dispersão, mas já existem focos de alguma preocupação e é importante atuar com uma forma radical. A Polícia Municipal neste momento tem quase 150 efetivos e não se vê um único na rua porque houve uma opção da Câmara de pôr estes polícias com tarefas administrativas, nomeadamente fiscalizações administrativas de urbanismo. Os polícias municipais, de acordo com a minha filosofia, são para estar na rua, a tratar da segurança dos cidadãos, a ajudar na mobilidade e proteger as crianças junto das escolas. São as três prioridades de uma polícia municipal e depois ter uma boa relação com a PSP e com a GNR, que também, de uma certa forma, quando vê que não há pressão dos poderes públicos, é normal que se acomode a uma atitude de mais laxismo.
Conseguiu várias maiorias absolutas. Caso vença sem uma maioria absoluta, está disponível para se sentar à mesa com outros partidos e tentar fazer uma negociação para chegar a um acordo?
Qualquer democrata tem que estar aberto para isso. Desde que vença as eleições, tem o direito de ser presidente da Câmara e fazer os acordos que entender. Agora, não me passa pela cabeça não ter maioria absoluta. Não passa mesmo.
O que é que o faz ter essa crença tão grande?
O que sinto na rua, o apoio das pessoas e o estado de degradação para que a atual câmara atirou o município. Penso que as pessoas não são cegas.
O seu principal adversário, João Paulo Correia, vai ser prejudicado pelo legado de Eduardo Vítor Rodrigues?
Porventura não será beneficiado, mas eu fui 20 e tal anos médico, professor universitário, depois tive 20 anos na política, agora estou há 12 anos nos negócios internacionais, João Paulo Correia nunca fez mais nada na vida. A única coisa que apresenta é ter sido presidente de uma junta e vereador, aliás, com um enorme comprometimento em relação a esta gestão autárquica. Foi presidente da junta seis ou sete anos com este presidente da Câmara e nunca ouvimos reclamar por nada, hoje reclama por tudo. Além de que a lista que apresenta, nos cinco primeiros lugares estão quatro presidentes de junta. Penso que não foi uma opção, foi uma necessidade. (…) Eu tenho uma equipa de luxo, que fiz com facilidade, não tive nenhuma recusa, tenho pessoas do PS… não sou maniqueísta, há pessoas com qualidade em todos os partidos políticos e no poder local é mais fácil fazer essa convergência, a ideologia não pesa tanto.
Já percebi que está muito crente na maioria absoluta. Se não a conseguir, há alguma linha vermelha na questão das negociações?
A minha ideia é muito mais no sentido de apresentar os projetos e de, projeto a projeto, negociar…
Prefere governar com minoria.
E não dar cargos executivos a outros partidos.
“Não concordo com a estação onde ela estava prevista e em Santo Ovídio não será”
Há vários problemas em Gaia no que toca à mobilidade. Estamos aqui a entrar na autoestrada e o seu principal adversário, João Paulo Correia, diz que devem acabar as portagens em três autoestradas.
Só há uma, vamos passar por lá. Mas eu pergunto onde é que estava o meu adversário destes 12 anos. Foi deputado, o seu partido negociou com o PSD um conjunto de isenções de portagens pelo o país inteiro e nunca ouvimos defender para acabar com esta portagem aqui na na A29. [Esta portagem] é uma grande injustiça porque põe metade do concelho a pagar portagem e outra metade a não pagar dentro da mesma cidade, o que penso ser um caso único no país e não faz nenhum sentido.
Concorda que é uma injustiça, portanto.
É uma injustiça, claro que é.
Então também acha que se devia acabar com ela.
Sim, vou defender que esta situação termine, mas eu tenho moral para falar. Quem durante 12 anos conviveu com uma Câmara que nunca fez essa reivindicação ou que foi deputado à Assembleia da República e quando chegou a hora de negociar isenções, nunca falou de Gaia, não tem essa moral.
Também a UNIR tem sido um grande problema para Gaia…
A UNIR foi um desastre, mas eu penso que é um problema global de conceptualização dos transportes urbanos que está errada. Os transportes urbanos da Área Metropolitana do Porto deveriam ter sido pensados na sua globalidade. Porventura ter havido até um concurso único para toda a mobilidade da área metropolitana, mesmo em termos de custos para os cidadãos e para os seus impostos. Com essa massa crítica de um milhão e meio de utilizadores é muito mais fácil negociar do que negociar município ou município.
Mas parte da culpa daquilo que se está a passar foi da Câmara ou não havia como prever que iria correr mal?
Foi muito da Câmara porque o atual presidente liderou muito esse processo na área metropolitana. Ele era o presidente da área metropolitana e, portanto, tinha esse duplo estatuto. Não quis enveredar por esse modelo de fazer uma negociação global que para mim era o que seria útil e em Gaia a UNIR os é pura e simplesmente um verdadeiro desastre.
Qual é que é o primeiro passo para reverter o problema?
Primeiro temos que ver o caderno de encargos da UNIR com o município, ver aquilo que está em incumprimento e se é suficientemente forte para poder, por exemplo, levar a uma a uma regressão total do contrato. Com ou sem a UNIR temos que pensar em alternativas muito mais modernas e muito mais eficazes. Hoje, no mundo, existem modelos que se adaptam muito à nossa realidade, como o modelo de Curitiba no Brasil. O nosso território é muito disperso e temos que definir equipamentos que são equipamentos chave, um deles é o metro, e temos que trazer o mais possível as pessoas a grandes estações do metro. E desses pontos temos que ter linhas diretas que funcionam de uma forma muito intensa, por exemplo das 7h00 às 10h00, num sentido, e à noite, das 17h00 às 20h00, no outro sentido. Os projetos tradicionais de mobilidade em Portugal não estão preparados para isso, não estão organizados dessa maneira.
Mas sem essa parceria com toda a Área Metropolitana do Porto, há forma de resolver?
Penso que é importante uma parceria com a cidade do Porto. É notícia quase todos os dias a questão da Via de Cintura Interna ser um bloqueio ao funcionamento de toda a Área Metropolitana do Porto e penso que Gaia e Porto têm que se juntar para encontrar soluções para os dois municípios que depois vão ter repercussão.
Já agora concorda com o seu colega de partido, Pedro Duarte, que quer portajar a VCI aos automóveis pesados?
Não, não concordo de todo. Não tem sentido.
Porque é que diz isso?
Isso que não ia resolver rigorosamente nada. Em primeiro lugar para conter o trânsito da VCI é preciso perceber para onde é que ele ia, se se ia atirar ao rio… Precisamos de novas travessias entre o Porto e Gaia, como tem Paris, como tem Frankfurt, com tem Budapeste. Uma continuação das ruas da cidade porque no fundo, Porto e Gaia são, no seu conjunto, duas cidades com realidades de gestão administrativa diversa, mas que têm muito em comum.
Tem alguma intenção de tornar gratuitos os passes de transporte em Gaia?
Devemos fazer contas e ver o que é justo. Um idoso de 70 anos que tem uma pensão de 10 mil euros do Banco de Portugal não precisa de passe. Sou muito social democrata, para poder ajudar os pobres não posso esbanjar com aqueles que felizmente são ricos — e não tenho nada contra os ricos, quantos mais ricos houver, melhor. Não pode ser algo de generalizado, tem que ser algo indexado aos próprios rendimentos das pessoas. Há um critério que se pode adotar: todas as pessoas que tenham pensão mínima terem direito a um passe gratuito de transportes. Isso parece-me absolutamente justo e que esse valor possa ir até um bocadinho mais acima da pensão mínima.
E para os jovens?
Temos que ter também uma atitude parcimoniosa e de bom senso, embora neste momento já existam condições especiais para para estudantes e até para jovens trabalhadores. Mas temos que ter o mesmo critério que temos para os pensionistas.
Depende daquilo que recebem.
A não ser que o jovem trabalhador também receba 10 mil euros por mês de ordenado, o que não é muito vulgar.
Falava há pouco de Santo Ovídio, onde está previsto que passe o TGV. Está fechado, ao que tudo indica, que o TGV vai mesmo passar aqui em Gaia e que terá uma paragem aqui. Faz sentido Gaia ser uma paragem para o TGV e não só um ponto de passagem?
Acho que faz sentido, o que não faz sentido é haver duas estações a cinco quilómetros da outra. A estação de Gaia devia ser a estação Porto-Sul. Dois terços dos putativos utilizadores do TGV serão cidadãos de Gaia ou cidadãos da zona ocidental do Porto, de Matosinhos e Maia, que estão mais perto da Estação de Gaia do que de Campanhã. Não conheço nenhuma cidade em que o TGV pare de cinco em cinco quilómetros. Discordo disso, mas vinha vindimada, está vindimada, não vou discutir sequer o assunto. Há uma coisa que vou discutir, não concordo com a estação onde ela estava prevista e em Santo Ovídio não será. Para mim vai ser 300 metros abaixo, na fronteira de Santo Ovídio com Vilar de Paraíso, porque em Santo Ovídio ficava a cento e tal metros de profundidade, não tinha metro nem tinha previsto estacionamento, enquanto que na outra alternativa tem.
As últimas notícias dão conta da possível demolição até 135 casas. O que é que a Câmara pode fazer para travar isso?
É dizer que não aceita esse projeto.
Ainda tem essa possibilidade?
Claro que sim. Não vivemos na Coreia do Norte, não é chegar por aqui fora, com os bulldozers a deitar as casas das pessoas abaixo. Somos pessoas sensatas, podemos discutir, dialogar.
Estamos a passar agora no Parque da Cidade…
Fez ontem 20 anos que foi inaugurado o Parque da Cidade, que tem 12 hectares, onde fizemos um estádio municipal para para formação de jovens, onde temos dois centros de alto rendimento olímpico, onde há aqui ténis de mesa, onde temos um pavilhão municipal para cinco mil pessoas. Tudo isto foi feito, com uma escola incluída, dentro do parque.
Qual é a relevância de uma Câmara Municipal ter uma mão forte, no bom sentido, na questão do desporto e da juventude?
Em todo o mundo o foco da formação desportiva está no sistema educativo. Tenho filhos que estudaram em França e que tinham desporto e cultura dois dias por semana, obrigatoriamente. Os desporto dos nossos filhos é andar com aquelas malas às costas e passado um ano ou dois têm problemas de coluna, chegam a casa carregados de deveres para fazer em vez de brincarem com os pais e com os irmãos.
Devia haver uma reforma a sério no nosso sistema educativo?
Sem dúvida nenhuma e não percebo porque é que não há… é pegarem num avião e vão à Dinamarca, há uns low cost…
É copiar?
É copiar. Um grande Presidente da República estrangeiro, não posso dizer o nome porque posso ser mal interpretado, que conheci quando era presidente PSD, disse-me ‘Luís, sabe o que é difícil em governar? É fazer o óbvio’. Que nosso sistema educativo está completamente errado, que ensina o que não deve ensinar, que não ensina aquilo que devia ensinar, que ocupa as crianças até às 17h00, 18h00, que as carrega de deveres para casa, que as põe num inferno, as obriga a levantar às 07h00 ou às 06h30 da manhã, para chegarem com acessos difíceis às escolas… Dizer que isto é um sistema de ensino que funciona e que podemos estar muito satisfeitos com ele, só quem for cego.
As alterações previstas para a disciplina de Cidadania fazem sentido?
No sistema educativo japonês nos três primeiros anos de escolaridade não se ensina nada, ensina se cidadania, mas boa cidadania: respeito pela autoridade, educação, boas maneiras, saber comer à mesa. Acho que uma cadeira de cidadania faz sentido, mas com parcimónia, e que não seja com uma carga ideológica que esteja a tentar meter uma cassete na cabeça das crianças sempre no mesmo sentido.
Portanto, concorda que são precisas alterações?
Sim, são precisas alterações.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Não tenho nenhum pecado”
Temos estado a percorrer várias zonas de Vila Nova de Gaia e vê-se muita construção por todo o lado. São construções maioritariamente privadas?
Neste caso são privadas, sim, mas essa construção que está a ver… Gaia era um dormitório de pessoas muito pobres que não tinham casa no Porto. Hoje é um dormitório de classe média porque foi feito saneamento, porque foram feitas novas avenidas, passou a ter vida cultural lazer. Passei de dois para dez metros quadrados por habitante os espaços verdes de Gaia por isso é que está a haver construção. A construção veio porque veio a qualidade de vida, um pouco como aconteceu em Oeiras, por exemplo.
Se pudesse comparar Gaia com um outro município em Portugal seria Oeiras?
Não, Oeiras está muito melhor que Gaia.
Mas ambiciona chegar lá?
Precisava de durar até aos 100 anos e eu não vou durar. Não, não tenciono ser presidente da Câmara até aos 100 anos.
Até porque disse que não queria sair de bengala.
Nem de canadianas, não quero.
Encontramo-nos no Jardim do Morro, com vista para o Porto…
É um dos sítios do sunset da moda da Área Metropolitana do Porto, mas também dos sítios à noite mais inseguros da área metropolitana. É um dos sítios onde vamos ter que atuar, com vendedores ambulantes e onde construímos o teleférico que liga a ao sítio de onde arrancámos. E a nossa ideia com o presidente da Câmara do Porto saudável é fazer um teleférico daqui até ao Jardim do Palácio de Cristal.
Estamos num sítio belíssimo para terminar a nossa conversa. Tem um livro que diz “Nunca é tarde demais” Está a candidatar-se por acreditar que ainda é possível fazer melhor?
É possível dar um empurrão. É a terceira cidade do país em habitantes e em área, a primeira é Lisboa, a segunda Sintra e a terceira é a Gaia, com quase 400 mil habitantes daqui a pouco. Temos grandes projetos, temos um projeto para trazer grandes festivais para Gaia, como o Porto Wine Fest, uma grande festa em setembro que vai rivalizar com a Festa da Cerveja de Munique, para o ano será com o Bocelli, [terá] com barracas e provas de vinho do Porto. Vamos construir três novos museus: o Museu das Pontes do Porto, de homenagem ao professor Edgar Cardoso, dois museus, o Museu das Lutas Liberais e o Museu das Invasões Napoleónicas, ali em cima, no Mosteiro da Serra do Pilar. Foi de lá que o Porto foi bombardeado, quer pelas tropas de Napoleão, quer pelos pelos absolutistas que lutavam contra os liberais. Nasceu, de certa forma aqui, a democracia portuguesa.
É conhecido como o Mosteiro de Santo Agostinho, que tem também um livro que se chama “Confissões de Santo Agostinho”. Tem alguma confissão a fazer aos gaienses nesta tentativa de regresso à Câmara Municipal?
Confissão… a confissão normalmente é de um pecado.
Não tem nenhum pecado para assumir?
Não, não tenho nenhum pecado. A confissão é de que venho com muita convicção de que vamos conseguir dar um salto muito mais significativo do que demos nos anos em que liderei anteriormente porque estou diferente, estou mais experiente. Sinceramente, acho que estou melhor.