Ricardo Leão é um dos autarcas socialistas de quem mais se ouviu falar nos últimos tempos. Com posições polémicas, próximas do Chega, a incomodarem o seu próprio partido, o presidente da Câmara de Loures parte para estas autárquicas a garantir que não teria alterado nada do que disse e fez (nos bairros municipais e no bairro do Talude), que não tem tática política ou pudores ideológicos, apenas responde ao “verdadeiro interesse das pessoas.”
Certo é que tem o Chega a crescer no território e a incógnita sobre o que trará nestas autárquicas e o discurso acaba por soar mesmo a estratégia política. Quando mostra obra que desbloqueou ou é confrontado com problemas persistentes, aponta sempre à gestão anterior da CDU, por Bernardino Soares. Quando defende uma ação mais musculada para garantir que não há construção ilegal ou mão dura na fiscalização dos deveres na habitação municipal, fala em “justiça”.
“Eu sou do PS e sempre do PS. Mas quando somos autarcas temos que colocar as pessoas à frente dos interesses ou das táticas políticas”. É nesta linha que não se incomoda com uma PPP novamente a gerir o hospital de Loures, ainda que o seu partido seja contra o alargamento deste modelo, e que contesta a decisão de um Governo socialista da linha circular do Metro.
Num concelho marcado por problemas sociais, de segurança e no ordenamento — que saltam à vista durante todo o percurso — Ricardo Leão garante que está tudo “muito melhor” e luta por continuar no cargo, rejeitando acordos de governação com o Chega. Escolheu partir para este carpool do sítio onde viveu nos primeiros anos da sua vida, até ir para a Universidade, em Sacavém. Diz que “adora” ser autarca e que não se vê à frente de outro município que não este em que ainda vive.
Veio viver para aqui, para Sacavém, mal nasceu.
Vivi aqui 35 anos da minha vida. Fiz aqui a minha escola toda, todos os graus de ensino até ao secundário. Depois fui para a Universidade.
Viveu aqui sempre, o seu pai, foi presidente de junta também aqui em Sacavém. Este seu percurso de vida era inevitável, ser presidente de Câmara em Loures?
Claro que sim. Fui eleito para a Assembleia de Freguesia de Sacavém em 97, já sou autarca desde 97. Este era o meu caminho para a Escola Secundária de Sacavém, que fazia a pé. Não havia esta via como está agora. Esta via foi toda agora arranjada. Fizemos uma obra muito importante que foi esta rotunda, que era uma obra que há muito tempo as pessoas ansiavam por ela. Esta rotunda foi uma obra que eu valorizo imenso, até porque a CDU sempre foi contra.
Mal conseguiu contrariou a CDU, que estava há anos aqui.
E durante oito anos alegavam questões técnicas e afinal de contas, ela foi possível, não é? Havia era má vontade política. A minha irmã até vive aqui…
Tem a família toda aqui. Essa relação que tem com este território específico faz com que só pudesse ser e só tencione exercer esta função aqui em Loures?
A gente nunca pode dizer nunca. Mas repare, eu já fui membro da Assembleia de Freguesia desta Junta. No mandato passado fui tesoureiro desta Junta e acumulei com o facto de representar a Assembleia Municipal, porque no mandato anterior as pessoas dividiram o voto, e votaram no Bernardino Soares para a câmara, mas votaram em mim para a Assembleia Municipal, o que fez de mim presidente também da Assembleia Municipal no mandato passado. E sim, obviamente, esta ligação que tenho ao meu concelho, porque continuo a viver aqui no meu concelho, as minhas filhas andam aqui na escola…
Sim, mas pelos vistos não fecha a porta a que isso possa mudar. Ou seja, o apelo pelas autarquias é mais marcante do que ser em Loures?
Não, só me vejo ser autarca em Loures. Não me vejo a ser autarca em mais concelho nenhum. É um concelho onde eu nasci, o concelho que conheço bem, onde gosto de andar na rua, onde sinto que ainda tenho vontade e há necessidade de fazer um conjunto de coisas que ainda consigo fazer neste meu primeiro mandato. Isto dos três mandatos não quer dizer que um autarca tem que estar aqui os 12 anos. Enquanto eu sentir que há de facto ainda matéria muito relevante no concelho que necessita de minha intervenção, cá estarei para o fazer.
Foi o autarca do PS que, no espaço de muito poucos meses, mais vezes passou de “bestial a besta”, de “besta a bestial” dentro do seu próprio partido. As polémicas já são uma imagem de marca sua, quer ser reconhecido por isso?
Não. Longe de mim. Quando fui eleito em 2021, por vontade da população do concelho Loures, uma das minhas frases e aquilo que me faz mover é, primeiro, pensar pela minha cabeça e não deixando de ter a minha matriz socialista. Eu sou do PS e sempre do PS. Mas eu acho que quando somos autarcas temos que colocar as pessoas à frente dos interesses ou das tácticas políticas, partidárias, seja aquilo que for. É aquilo que eu tenho feito e continuarei a fazer, que é colocar as pessoas, o interesse das pessoas, o verdadeiro interesse das pessoas à frente das táticas partidárias. Agora nunca deixei de ter o apoio dos dirigentes do partido. Isso é uma falsa questão. Nunca vi nenhum secretário geral a retirar-me confiança política.
Mas, por exemplo, o candidato presidencial da área do PS insinuou que não tinha coração.
Quem é que foi?
António José Seguro, o candidato da área socialista… ou não o reconhece assim?
Já não faço exame ao coração há algum tempo, desde há dois anos, mas acho que está bom.
Este tipo de insinuação e crítica incomodam?
Mas ele é dirigente do partido?
O que interessa são os dirigentes, é isso? Porque tem sido criticado no partido, é provavelmente o autarca que mais dores de cabeça tem trazido aos secretários-gerais.
Pronto, vamos ver a seguir. Eu não vou deixar de fazer aquilo que acho que é o que é correto. Pronto, é só isso.
Passámos junto ao parque Papa Francisco, que foi uma recuperação aqui da frente ribeirinha para a JMJ. Existe alguma expectativa sobre a capacidade da Câmara dinamizar aquele espaço tão grande por uma questão de recursos, porque o concelho tem outras carências e prioridades. Este acabou por ser um passo maior do que a perna?
Não, repare, neste momento, só para ter uma noção, temos 140 milhões de euros na rua em obra. Portanto, aquilo que as pessoas falam é que é um concelho que está em obra e havia que recuperar oito anos de atraso que a CDU nos colocou. A saúde é um bom exemplo, a educação, a mobilidade, como vimos, obras, as acessibilidades, novas vias. Havia muita necessidade e muito atraso que nós tínhamos que recuperar. E obviamente que o PRR, os instrumentos de fundos comunitários nos ajudaram a alavancar este conjunto de investimentos. O Parque Papa Francisco foi algo que foi muito importante e determinante para esta zona oriental do concelho de Loures. Como se sabe, nós tínhamos uma frente ribeirinha, aquela que era a parte da Expo, que entretanto o António Costa, enquanto Presidente da Câmara, retirou e portanto nós ficámos sem uma frente ribeirinha digna desse nome. Porque onde está agora o parque Papa Francisco era uma corrente de contentores que inviabilizava qualquer tipo de acesso ou de usufruto por parte população.
Que foram retirados mas também existe uma polémica sobre onde afinal páram esses contentores…
Está deliberado em Conselho de Ministros, na altura do Governo do António Costa, que seria feito em duas. Na primeira saíam do parque sul e saíram. E depois o parque norte só em 2026 é que tem de sair. O parque Papa Francisco, se não fosse a JMJ, não tínhamos conseguido tirar dali os contentores. Era dificílimo.
Estamos a ver o espaço onde vai ser um centro de Saúde.
São quatro novos centros de saúde que nós já inaugurámos neste mandato.
É aqui onde está este estaleiro de obra?
Já está a fundação feita, não é só o estaleiro. Portanto, esta é uma obra muito importante e nós viemos aqui só para ter uma noção do que é a diferença do que propus fazer. Durante oito anos da CDU só houve um centro de saúde que nem o acabaram, fui eu que tive de inaugurar. Havia aquela visão de que a culpa é do Governo ou do Governo que faça e o que faziam era cartazes e empurravam a culpa sempre para lá, para o a, b, ou para o c. E eu aqui quis introduzir uma nova visão, que foi fazermos parte da solução de todos os problemas. Ou seja, de um centro de saúde que vai custar à volta de cinco milhões de euros, vamos comparticipar metade. É verdade que as responsabilidades de construção de centros de saúde não é das câmaras, mas se a câmara não tiver essa capacidade de fazer parte da solução, nós não tínhamos este centro de saúde da Bobadela hoje como está.
Mesmo passando responsabilidades para a gestão anterior da Câmara da CDU, a verdade é que esta foi uma área que foi especialmente apontada pelos munícipes — e até o Hospital Beatriz Ângelo teve problemas técnicos ainda esta semana. Foi a área onde teve uma maior frustração ao fim deste primeiro mandato, onde não conseguiu uma resposta tão efetiva até agora?
Vamos por partes. A construção dos centros de saúde é importantíssima, eu considero que uma boa rede de saúde primária, que é os centros de saúde, é importantíssima para desanuviar aquilo que é a afluência das pessoas às urgências. Porque não há resposta. A prioridade neste mandato foi fazer novos centros de saúde: Bobadela, como estamos a ver, Camarate, Unhos que já está inaugurado e Santo Antão do Tojal que está para ser inaugurado este mês. São 26 milhões de euros de investimento nos centros de saúde. É algo que nós tínhamos que fazer. Agora, a questão dos médicos, sim, faltam médicos no nosso concelho e sempre faltaram e é uma das coisas que nós estamos a reivindicar sempre junto do Governo, mas infelizmente não é um problema só de Loures, é do país. Já os centros de saúde, as valências que hoje temos acho que podem ser melhor aproveitadas e por isso nós temos já todas as unidades locais de saúde tipologia B, algumas vão passar para a tipologia C, o que eu acho que é importante e para haver mais atratividade para a fixação dos médicos. Mas também sou daqueles que dizem que as condições de trabalho físicas de um centro de saúde também são um fator preponderante na escolha do médico.
Mas não tem uma varinha mágica e os centros de Saúde novos demoram a construir, a questão é como dá resposta ao problema saúde no curto prazo.
A questão dos médicos é algo que tem que ser resolvida pelo poder central e tem que se dar mais uma atratividade aos médicos. Agora, não quero fugir à questão do hospital Beatriz Ângelo que disse que está pior…
Esta semana teve um problema informático que fez com que cancelassem uma série de consultas.
Quanto ao Hospital Beatriz Ângelo não importa qual é para mim, não me importa se é gestão privada, se é gestão pública. Eu quero é que os serviços e o atendimento à população seja aquilo que deve ser. Agora, também não se pode entrar na discussão, como se faz, se deve ser EP ou se deve ser uma PPP, naquela comparação de ratios estatísticos, porque a liberdade na gestão de um privado num hospital é completamente diferente da liberdade de atuação de um gestor de uma empresa pública.
Mas funcionava melhor como PPP?
Funcionava melhor com PPP, sim. Quando essa discussão vier à baila e se for confrontado com um parecer por parte da Câmara, para mim não me importa se ela é PPP ou se é EP, o importante é fazer o que tem que ser feito.
Mas mesmo que tenha que enfrentar o seu próprio partido? É que essa não é uma questão muito pacífica dentro do Partido Socialista, o partido de que faz parte.
A reversão da PPP que existia para EP foi porque quando se deu o COVID, a PPP exigiu do Governo uma compensação de cerca de 60 milhões de euros pelos resultados negativos que tiveram por via do COVID. O que o Governo de António Costa disse foi que, por um lado, não havia essa obrigatoriedade e, por outro, do ponto de vista legal, não havia instrumento jurídico para fazer esta transferência desta verba. A PPP fez uma pressão: ou dão este valor ou então entrega as chaves. E entregou as chaves.
Para si não é uma questão ideológica?
Não, mas estou a falar do próprio Governo. O PS pediu à PPP da altura para continuar a gestão por mais um ano para fazer um caderno de encargos para renovação da PPP. O governo da altura de António Costa não quis reverter a PPP, foi forçado por via da posição da PPP a não aceitar a proposta do Governo em prolongar a gestão por mais um ano, para fazer um caderno de encargos.
Mas gostava que aqui voltasse a ter uma PPP?
Não, é uma discussão que temos de ter. Não tenho posição, eu quero é resultados.
Mas como presidente de Câmara à procura de resultados?
Sim, quero. Se me garantirem que é a PPP que vai resolver os problemas, eu não tenho de ter uma posição ideológica à frente do interesse das pessoas.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A saúde foi uma questão muito apontada pela oposição e pelos munícipes. Como é que lhes tem explicado a estes mesmos munícipes que depois a Câmara tenha gasto 150 mil euros para apoiar uma instituição religiosa como a Hillsong que ainda por cima tinha uma série de polémicas associadas que depois até o levaram a suspender o mesmo apoio?
Foi uma situação em que nós já suspendemos o apoio. Era uma instituição reconhecida no concelho de Loures, aliás, o próprio Bernardino Soares reconheceu como IPSS de relevância.
Foi uma má jogada esse apoio à Hillsong?
Era uma instituição que reconhecia trabalho, não é um apoio à Igreja, é à atividade social que eles fazem. Houve um conjunto de dúvidas. Nós vamos ter que esclarecer com tranquilidade.
E o que é preciso esclarecer para manter esse apoio? Pediu informações concretas, quais?
A minha vice presidente está em articulação com eles e a pedir um conjunto de informações extra.
Uma instituição com trabalho social mas com denúncias de abusos…
Mas não em Portugal. É esse tipo de dúvidas que temos de tirar para estarmos todos confortáveis.
Se não tiver havido problemas em Portugal fica confortável com esse apoio?
Neste momento vamos ouvir as explicações e depois, no seu devido tempo, tomaremos a decisão. Ou revogamos mesmo ou apoiamos. Pronto.
Chegámos aqui à Quinta do Mocho, um dos maiores bairros municipais de Loures.
Como está a ver, todos os prédios foram requalificados.
Também por dentro ou é só fachada?
Por dentro também. Não, não. Isso era o que a CDU fazia, que era por fora, aqui é dentro. Caixilharias, janelas novas, obras dentro das casas das pessoas para haver dignidade na habitação municipal. Temos 2.500 fogos de habitação municipal, 2500 fogos e quando chegámos à Câmara havia aqui algo que era muito falado no concelho de Loures, que era o facto de haver 55% dos moradores das habitações municipais que não pagavam renda. E estamos a falar de rendas mínimas de quatro euros e meio que são decretadas pela lei. Saiu um decreto lei em 2014 que podia atualizar as rendas à renda mínima, que era 10,50 euros. A CDU não o fez e quando cheguei à Câmara havia 55% de 2.500 fogos que não pagavam renda. Se não agíssemos, o que acontecia? Os outros 45% iam deixar de cumprir. Era injusto para os 45% que pagavam. Portanto, nós temos que fazer aqui algo…
Despejar pessoas…
Não, senhora, também vocês é logo despejar pessoas… Fizemos aqui algo que é um plano de regulação de dívida que podia ir até às 60 prestações. O sentimento que eu quero aqui no meu concelho é que todos temos direitos, mas todos também temos deveres e é um dever do inquilino da habitação municipal cumprir os seus deveres, neste caso pagar a sua renda e pagar com o plano de pagamento de dívida. Sabe no que é que isto resultou? Uma redução para 15%.
Conseguiu o efeito que queria?
E sem haver despejos. Estes 15% que não responderam à Câmara, andámos estes três anos, dois anos e meio, sem resolver, muitos deles ocupações ilegais, muitos deles com casas alugadas e já sub alugadas. E essas sim, estamos com as ordens emitidas para se fazerem os efetivos despejos. Mas isto só foi possível porque o senhorio câmara também fez o que fez aqui, que foi requalificar as casas, porque sabe que as pessoas viviam nestas casas. Durante anos e anos, estas pessoas viviam a chover dentro das suas casas.
Mas também há outro tipo de problemas agora, como a sobrelotação de apartamentos, lojas transformadas em habitações. O que fará nestas situações?
Mas eu ainda não acabei. Este foi um exemplo claro que nós demos daquilo que foi dar dignidade a cerca de 1200 fogos de habitação municipal. Milhões e milhões de euros investidos para que o senhorio Câmara também cumprisse com a sua parte. Portanto, a Câmara também não cumpriu. Isso também era um factor que levava as pessoas a não cumprir. É óbvio que baixar 50% de incumpridores para 15% foi uma grande conquista. E é algo que é muito importante do ponto de vista financeiro. Nós, em 2021, recebíamos de renda cerca de 900 mil euros e em 2024 foram 3 milhões de euros.
Também houve aquela sua declaração polémica do “sem dó nem piedade” sobre o despejo de famílias com elementos ligados àqueles desacatos que houve na região de Lisboa no final do ano passado. Foi ao ponto de já ter o Chega a chamar-lhe populista. É isso que é?
Não, eu não sou populista. Eu quero justiça social aqui no concelho, sim. Requalificámos os 1.200 fogos, baixámos os incumpridores para 15% para não haver injustiça perante os outros moradores aqui do bairro. Isto não é ser populista, é ter um problema na mão e atacá-lo. Para mim não há assuntos tabu.
Haver uma carta pública de um ex-líder do PS [António Costa] a criticar a sua ação fragiliza-o?
Porquê?
Na verdade fragilizou, porque até se demitiu de presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS.
Saí só para não criar constrangimentos a ninguém. Aliás, acabou.
E a atual candidata à Câmara de Lisboa saiu da Comissão Política da FAUL.
E fez aquilo que queria fazer, agora isso não vai mudar minimamente aquilo que eu acho que é o justo e que é o correto.
Arrepende-se de ter dito aquilo?
No “sem dó nem piedade” eu estava numa reunião de Câmara e tinha estado com o motorista da Carris [que ficou sofreu queimaduras graves depois de o autocarro que conduzia ter sido incendiado nos desacatos da Grande Lisboa] até às quatro da manhã e ele estava num estado que só quem não sente… não é filho de boa gente. Estava numa reunião de câmara no dia a seguir ou dois dias depois, é normal que estivesse num estado de revolta enorme.
Mas no conteúdo das suas palavras houve um atropelo a direitos fundamentais, como chegaram a acusá-lo de ter feito?
Esse é um assunto que já foi resolvido e está a ser agora resolvido do ponto de vista judicial. Vamos esperar para ver os resultados.
Tem o PS a criticá-lo, o Chega a chamar-lhe populista. Está a tentar ocupar o espaço do Chega, assusta-se com o crescimento do partido?
Assusta-se?
Não se assusta? Então porque é que foi para esse discurso mais radical?
Porque eu acho que é o que é correto. Não é radicalizado, é direitos e deveres. Desde quando é que um assunto é património do partido A, B ou C?
Às vezes não é tanto os temas, é mais a maneira como se aborda os temas, não é?
Então e eu abordei o tema da recuperação…
… com uma linguagem que o próprio Chega chama de populista. Não está aqui a ocupar-lhe o espaço?
Não, não estou. Estou a fazer aquilo que acho o correto e justo para o concelho de Loures. Com intenção eleitoral nenhuma, não é com essa finalidade que eu faço.
A maneira como o PS aborda estes temas não é suficiente para lhes dar resposta?
Mas o PS não é apologista nos seus estatutos de que há direitos e deveres iguais para todos?
Se estiver em situação de ter de se entender com o Chega, no futuro, admite fazê-lo?
Não há acordos nenhuns.
Não estou a falar sequer de acordos pré eleitorais, estou a falar em pragmatismo pós-eleitoral. Se houver essa necessidade, tem linhas vermelhas com o Chega?
Isso são conjunturas de como é que vai ser o elenco do executivo do próximo mandato.
Vai dizer aquela coisa típica dos políticos de “primeiro os resultados e depois é que vejo como é que faço”?
Tirou-me as palavras da boca. Vou ver.
Mas a pergunta é se terá pudores em relação ao Chega, tendo em conta que o seu secretário-geral estabeleceu um compromisso eleitoral com condições…
Um compromisso dos autarcas do ponto de vista de não haver coligações nos executivos, isso é óbvio que não pode haver.
Não são só coligações, são “acordos pós eleitorais com quem prossiga aqueles mesmos ideais”, os ideais do Partido Socialista. Não é o que acontece com o Chega, pois não?
Sim, claro. Uma coisa é como vou governar a câmara e aí vamos primeiro esperar pelos resultados eleitorais. Depois perguntam-me como é que nós fazemos relativamente a articulações com o Chega. Não há, obviamente, acordo possível nenhum, pelo menos enquanto eu for presidente de câmara. Chega.
Só as tais geometrias variáveis para poder fazer passar um projeto ou outro? Coisas pontuais e não acordos de governação.
Acordos de governação nem pensar.
Mais facilmente faria com a CDU?
Vamos esperar pelo resultado eleitoral. Neste mandato fizemos a coligação com o PSD que resultou bem, foram importantes e correu bem. Deu estabilidade para podermos fazer um conjunto de obras no nosso concelho. Foi muito bom, foi muito importante.
Desta vez, eventualmente, o PSD pode não ser suficiente, não é?
Vamos esperar e ver.
Estamos a entrar no bairro do Talude. O concelho tem graves problemas sociais e estamos a entrar num dos bairros em que isso é mais visível, com habitação ilegal. A sua intervenção aqui foi muito contestada, novamente por alguns elementos do seu partido, mas não só. Hoje teria feito diferente?
Não.
Teria feito exatamente a mesma coisa, com pessoas deixadas sem soluções de habitação imediata?
Nós estamos a falar de um problema que está a aumentar de forma muito perigosa em toda a área de Lisboa e não só, mas particularmente na área de Lisboa. Desde março que alertei a Área Metropolitana de Lisboa, que fiz circular a necessidade da intervenção do Governo de forma urgente e nada foi feito. Nós tivemos um crescimento neste bairro concreto do Talude de uma forma louca. Se nada fosse feito, estávamos a falar não de centenas de barracas, mas de milhares de barracas.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
As pessoas recorrem a estas soluções porque querem? Na altura em que as pessoas ficaram aqui na mesma, em tendas, disse que estavam aqui porque queriam.
São coisas diferentes e não vamos misturar, isso é injusto. A pergunta sobre se as pessoas que recorrem às barracas não têm outra resposta, algumas sim, outras não. Na altura da CDU foi feita uma estratégia local de habitação, que aponta para a resolução de 600 barracas. Essas vamos resolvê-las até junho do próximo ano, que é o limite do PRR. Agora o problema é se deixamos crescer mais barracas e já tenho mais 300 fora da estratégia local de habitação em que temos de ter apoio do Governo para poder resolver. Estamos a falar já de perto de mil. Tenho uma lista de espera de 1.100 pessoas [para habitação municipal]. E aquilo que estava a acontecer era uma estratégia de crescimento de habitação que estava a ter aqui contornos preocupantes.
E estas casas de alvenaria mantiveram-se?
Estão aqui há anos.
Então é uma questão de antiguidade? Também são construções ilegais.
Estas já estão na estratégia local da habitação, grande parte delas. Já estão identificadas como local de habitação. As que estamos a falar são outras, são outras construções. Não são barracas, são barracos. São quatro metros quadrados, quatro chapas de zinco.
Não ficou muito melhor, ficou aqui o lixo acumulado e as pessoas na altura ficaram sem os sítios a que chamavam casa.
Acha isto digno?
Mas a resposta foi mais digna?
Nós temos de estancar o crescimento da construção é ilegal e aqui não vou permitir mais construção nova, não vou.
Aqui vemos polícia municipal…
Tenho uma equipa permanente neste bairro do Talude para não deixar haver construção nova. Ou estancamos o problema ao nível do crescimento ou não há solução nenhuma. Podem vir 1.300 milhões de euros, dinheiro para cima da mesa. Esta ideia que se vendeu aqui, que era o que estava a ser vendido às pessoas e tenho pena que as pessoas tenham caído nessa, era “construam uma barraca que têm direito a uma casa”. Isto é injusto para as pessoas que caíram nessa teia e é injusto para o resto do concelho de Loures. Está no Ministério Público, foi feita a queixa. Eu tenho casos em que vieram para aqui porque disseram que comprando uma barraca com 2.000, 3.000 euros tinham direito a uma casa. Tenho casos de pessoas que vieram do aeroporto direto, fotografias da mala, do bilhete da viagem no próprio dia e vieram logo para aqui. Nós temos que ter solução para os problemas das pessoas e vamos ter solução para 900 barracas que estão aqui no nosso, mas se eu deixar crescer isto como estava a crescer, não há solução possível. É demagógico dizer que há solução, é demagogia pura.
É a Polícia Municipal que faz essa fiscalização aqui?
Está aqui a fazer em permanência. Têm essa orientação, de gestão do próprio território. Se eu não estacar este problema, não há solução possível. E esse Movimento Vida Justa que existe, podia ajudar e não ajuda porque manipulam as pessoas. Já houve 24 dessas famílias que foram tiradas aqui dos bairros que já se autonomizaram, já arranjaram trabalho com o apoio dos serviços da Câmara, já arranjaram casas em vários sítios do país.
Esse movimentos sociais podem ter tido essa vantagem, alertaram para o problema. Ou não?
Não, essas pessoas deixaram de ser manipuladas e vieram ter com a Câmara para encontrar soluções. E nós conseguimos encontrar soluções com elas.
Quando disse aquela frase do “ficaram porque quiseram”…
Nós tínhamos pessoas que estavam em pensões pagas pela câmara e que saíram das pensões e vieram novamente reerguer a barraca.
Porque acha que isto acontece?
A ideia que se está a vender, que vamos dar 1.300 milhões de euros, que vai haver solução para tudo, e que constroem uma barraca e têm direito a uma casa. E depois há que ver com atenção quantas é que estão aqui e estão noutros concelhos.
Já saímos do bairro do Talude. A Polícia Municipal deve ter competências para intervir no caso de ocupações ilegais e em situações de sobrelotação de casas.
A Polícia Municipal tem funções que estão na lei de forma clara e a gestão do território e ocupação e construções ilegais estão nas funções e reencaminha para as instituições competentes. Agora, eu conheço bem o concelho de Loures e a habitação é preocupante e já lhe expliquei qual é a visão que tenho. Mas há uma coisa importante que é a classe média e os jovens. Nós estamos a finalizar todos os procedimentos para lançar 500 novos fogos de arrendamento acessível, com rendas de 600, 700 euros. Temos que trabalhar para conseguir mais. É pouco, é verdade. A CDU tinha um programa de apoio para a habitação jovem, mas que tinha escrito 150 mil euros e nós aumentámos para 1 milhão de euros. Vamos apoiar os jovens e os mais de 35 na renda ou a prestação ao banco. Estamos a falar de cerca de 800 famílias.
Fala nessa aposta na habitação também para a classe média. Gostava de perceber como é que se atrai a classe média com problemas de insegurança que Loures continua a evidenciar? Os munícipes falam em roubos, vandalismo, na questão do tráfico que está a aumentar.
No concelho de Loures — e o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) é bom exemplo disso — a criminalidade geral diminuiu. Há preocupações a nível da criminalidade que é o roubo por esticão na via pública, foi o que aumentou.
Mas é o RASI que coloca o concelho entre os mais inseguros.
Claro, não estou a dizer o contrário. Mas nós reforçámos a nossa Polícia Municipal com mais 14 agentes, adquirimos mais um conjunto de viaturas, demos mais capacidade à Polícia Municipal para estar no terreno. A estatística é importante, mas a perceção das pessoas também. Um autarca tem que olhar, para a estatística, tem que analisá-la, tem que, junto do Governo trabalhar em colaboração, mas tem de ouvir a população. E eu digo que o principal problema que nós temos que resolver no concelho de Loures é o policiamento de proximidade. O policiamento de proximidade, na minha opinião, contribui para a diminuição do sentimento de insegurança das pessoas.
Mas é só as pessoas verem a polícia ou a polícia ter efetivamente mais poderes?
Estou a falar da PSP. A Polícia Municipal tem o seu quadro legal, importante para a gestão do território e de trabalhar em colaboração com a PSP também para a questão da segurança — isso tem sido feito e muito bem. A nível da PSP é que é uma coisa impressionante. Neste concelho temos dez freguesias em que seis são as urbanas e há quatro rurais. As urbanas são tuteladas pela PSP. Sabe quantas viaturas estão disponíveis em média? Três viaturas. Nós estamos a finalizar um processo de aquisição, em parceria com as Juntas de Freguesia envolvidas, a Câmara paga metade e cada junta paga os outros 50%. São seis viaturas novas para entregar à PSP. Mas vamos ficar com a manutenção de mais outras seis, que é para termos 12 viaturas da PSP em regime de exclusividade no concelho de Loures. São mais viaturas do município, a custas suas, que vão contribuir para que a PSP possa aumentar essa fiscalização, esse policiamento e principalmente o policiamento de proximidade que é muito importante para as pessoas.
Na organização do território tem também problemas visíveis na higiene urbana. Tem um problema aí, o que é que pretende fazer?
A limpeza dos passeios, dos espaços verdes, está descentralizado nas juntas e há umas que fazem bem e outras que fazem mal. Depois há o SIMAR, uma empresa intermunicipal, entre Loures e Odivelas, para o abastecimento de água e recolha de resíduos, e ainda não está como eu quero. Mas aumentámos em muito a capacidade dos contentores e na aquisição de viaturas para fazer a recolha. Já está como eu gostava? Não, ainda não está, mas muito já foi feito.
Mas o que tem estado a falhar? A partilha da gestão?
Não, o modelo de gestão está bom. Não conseguimos é melhorar tudo num mandato só, mas melhorou e muito.
Neste caso também há aqui em Loures outros problemas na Câmara, alguns casos de corrupção. Houve agora o caso dos fiscais condenados porque recebiam subornos de munícipes para facilitar obras ilegais e, mais recentemente, as buscas na Polícia Municipal de Loures, também por corrupção. Tem aqui um problema?
Neste último caso dei todo o apoio à investigação, como não podia deixar de ser. Sou o primeiro a querer saber o que aconteceu.
Nesse tema sabe que também tem o Chega à perna.
A minha perna é grossa.
Nas questões corrupção… não é apenas um assunto sensível ao Chega.
Claro que sim. Quem é corrupto tem de ser penalizado.
Mas acontecendo sob a sua gestão, as situações afectam-no a si.
Esse caso já vem de Bernardino Soares o dos fiscais. O outro não. Mas um autarca em funções quer saber e penalizar quem o fez, isso é óbvio.
Nessa tentativa de puxar para este território os jovens e a classe média, a questão da linha do metro e da promessa de uma linha circular, o projeto que está em cima da mesa colocado pelo Governo socialista, é uma boa ideia? Não vai criar obstáculos para as pessoas que trabalham fora do concelho?
Tenho estado em conversações regulares com o presidente do conselho de administração do Metro e o metro já não é uma promessa, é uma realidade. O lançamento da obra foi importante e durante este mês ou o próximo o metro está em condições a fazer a adjudicação da obra. É um sonho da população da zona Norte do concelho de Loures e vai ser uma realidade, que vai entrar em operação em 2027, 28, e vai revolucionar, do ponto de vista da mobilidade, a zona Norte do concelho. Agora a linha circular, eu não concordo. Ela não está ainda fechada e por isso a posição do presidente da Câmara de Loures, Ricardo Leão, é contra a linha circular.
E chegou a dizer isso aos governantes socialistas? Tinha especial proximidade com Duarte Cordeiro, que era ministro na altura e tomou essa decisão.
Daquilo que me conhece, achas que eu tenho alguma coisa para ficar por dizer?
Disse e não conseguiu convencê-lo?
Não e vamos ver se consigo convencer o atual.
Quais os argumentos para ser contra?
É o tempo que demoram as pessoas que apanham o metro aqui em Loures ao fazerem um novo transbordo. Penaliza quem quer ir para o centro da cidade de Lisboa e por isso eu estou contra.
Estamos quase aqui a chegar à escola básica do Infantado.
Foi uma das apostas que fiz este ano. Vão ser 6 milhões de euros de investimento municipal nesta escola. Ao todo são 54 milhões só em escolas, que já estão na rua. O município de Loures fez algumas delas por recurso a empréstimo, mas havia necessidade de as fazer porque a dignidade que existia em muitas das escolas do nosso concelho ficavam muito a desejar. Esta vai ser completamente nova, com um polidesportivo coberto que vamos autonomizar do horário escolar e abrir aquele espaço coberto à prática do desporto informal. Esta escola era muito esperada há muito tempo por esta comunidade. Portanto, é com grande orgulho que vejo esta escola avançar da forma como está.
Tem boas perspetivas para a noite eleitoral? Qual é que é a sua aposta?
Acho que nós, pelo trabalho que fizemos neste mandato, pelas obras que fizemos, nunca houve tanto investimento na rua como está a ser feito agora. No apoio que fizemos na educação, na saúde, na mobilidade com novas vias.
Acha que é inevitável que ganhe as eleições? Está a fazer fé na obra que mostra?
Eu, como munícipe que sou, vou votar PS. Agora a decisão é da população do concelho de Loures. Mas também é justo reconhecer que o trabalho que fizemos neste mandato e a vontade e determinação que tenho para fazer o conjunto de outras coisas que não foi possível fazer neste mandato.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Esta sua ação e o discurso muitas vezes a ocupar o espaço do Chega, vai permitir-lhe vencer com mais facilidade do que outros autarcas socialistas noutros pontos do território, num contexto onde o Chega de facto está a crescer?
Eu já disse isso há pouco.
Estou a falar mais na leitura nacional.
Que eu não faço.
Mas houve uma estratégia aqui.
A estratégia é fazer aquilo que eu acho que devia ter sido feito, como devia ser feito. Recuperar os oito anos de atraso que a CDU nos deixou na educação, na saúde, na mobilidade, nas vias de acesso, nas pavimentações, mas muito há ainda por fazer.
Mas no atual contexto, a sua ação e o vocabulário que tem usado criam uma vantagem tendo em conta o contexto político?
Isso seria se eu o tivesse feito em função de e eu fiz em função daquilo que é a população do meu concelho.
Mas cria vantagem ou não?
Não faço essa análise. Eu não fiz em função de roubar espaço a este aqui ou acolá.
Esse tipo de visão e acção devia ser uma coisa que outros autarcas do PS deviam seguir?
É injusto dizê-lo.
Mas faz essa análise ou não?
Eu faço uma análise, mas não vou torná-la pública. Eu faço, fiz e continuarei a fazer pelo meu concelho aquilo que eu acho que é determinante e importante em defesa do meu concelho e da minha população. Nunca em função se rouba espaço a este ou aquele ou outro partido.