A bomba já circulava de telemóvel em telemóvel minutos antes das dez da noite de quinta-feira. Uma única imagem — a capa do semanário Expresso — onde se podia ler a seguinte manchete: “Solverde paga €4500 por mês à empresa familiar de Luís Montenegro”. O que só deveria ser conhecido às 23 horas — é por essa altura que o jornal costuma revelar formalmente a sua primeira página — já era profusamente partilhado entre figuras políticas e jornalistas. Um dos influentes sociais-democratas que a fez chegar ao Observador, insuspeito de nutrir qualquer antipatia por Montenegro, não escondia o desalento: “Agora é que estamos tramados”. Sendo que a palavra não era exatamente “tramados”.
Era, a todos os níveis, um desastre comunicacional e político à espera de acontecer — e havia quem, no Governo, já o tivesse percebido. Assim que as atenções políticas e mediáticas se focaram não na alegada imobiliária do primeiro-ministro (que nunca existiu) mas nos serviços de consultoria prestados por Luís Montenegro, só faltava um passo até serem conhecidos os clientes do social-democrata. E assim que Montenegro revelou alguns clientes (MediaLivre/Cofina e Solverde) e descreveu o setor de atividade dos outros (como fez no Parlamento) mais cedo ou mais tarde saber-se-ia a identidade de todos os outros e as relações comerciais da empresa que continua no círculo familiar do primeiro-ministro.
Acabou por acontecer — e da pior maneira. A revelação do Expresso obrigou o primeiro-ministro a inverter a estratégia de silêncio a que tinha regressado depois do debate da moção de censura da última sexta-feira, forçou-o a falar aos jornalistas à margem da visita de Emmanuel Macron à cidade do Porto (coisa que não fazia há larguíssimos dias) e levou-o a acelerar a divulgação dos clientes da Spinumviva (Spinum é Espinho em latim).
Pelas 14h01 de sexta-feira, Hugo Montenegro, filho do primeiro-ministro e atual sócio-gerente da empresa, fazia chegar à comunicação social (com óbvio conhecimento do pai e do staff do Governo) um comunicado com a identidade dos clientes, os serviços prestados, os valores auferidos e os colaboradores da empresa. Tinham passado 13 dias desde a primeira notícia do Correio da Manhã sobre o caso.
Cenário de demissão parece afastado
Antes de tudo isto, nas mesmas declarações que prestou à porta da Câmara Municipal do Porto, Luís Montenegro anunciara ainda que tinha convocado um Conselho de Ministros extraordinário para discutir o atual momento político e “avaliar a sua situação política e pessoal”, não esclarecendo, em momento algum, o que pretendia exatamente fazer.
Todavia, Montenegro foi deixando algumas pistas ar, nomeadamente a hipótese de vir a apresentar no Parlamento uma moção de confiança ao Governo. “Só é possível servir o país sem mácula se as pessoas acreditarem em quem está ao serviço. Só estarei a exercer a função de primeiro-ministro se sentir que essa confiança existe”, sugeriu o primeiro-ministro. Uma frase que abre espaço para todo o tipo de interpretações.
Em rigor, no entanto, ninguém (ou quase ninguém) sabe exatamente o que fará o primeiro-ministro e o que terá a dizer ao país este sábado, às 20 horas. A hipótese de a família se desfazer da empresa para cortar o mal pela raiz é ventilada por algumas figuras do partido como sendo a solução mais óbvia, mas sempre com muita cautela. O cenário mais extremo — a demissão — não é acompanhado por nenhum dos sociais-democratas com quem o Observador conversou, nem sequer como uma hipótese académica, pelo que o cenário não está, para já, em cima da mesa.
Uma eventual moção de confiança é vista, por esta altura, como um ato suicida — André Ventura acabou de apresentar uma moção de censura e Pedro Nuno Santos sempre avisou para que não pedissem aos socialistas para aprovarem uma moção de confiança ao Governo, pelo que dificilmente Luís Montenegro sairia politicamente vivo dessa votação. “Era o pior que poderia fazer nesta altura. Que nem lhe passe pela cabeça”, avisa um senador social-democrata ouvido pelo Observador.
O mais provável é que Luís Montenegro saia do Conselho de Ministros deste sábado com um voto de confiança dos seus próprios ministros — nem seria de esperar outra coisa — e que procure com a declaração ao país matar de vez a conversa sobre a sua empresa familiar. Mas nem isso é cristalino que aconteça, uma vez que, além da Solverde, é preciso perceber exatamente que relações pessoais e comerciais teve com a Rádio Popular e com Ferpinta (foi presidente da Assembleia Geral de ambas) e com outras empresas que ainda não foram discriminadas neste comunicado.
A verdade é que foi, em grande parte, a gestão de silêncios que trouxe Luís Montenegro até aqui. Uma estratégia que não foi apreciada por todos no Executivo da mesma maneira. O Observador sabe que, no seu núcleo mais próximo de conselheiros, nem todos estavam de acordo com o striptease fiscal que o primeiro-ministro fez no Parlamento, por acharem que seria alimentar uma forma extrema de voyeurismo na política. Em contrapartida, havia outros que defendiam que Montenegro devia revelar tudo de uma vez — incluindo a identidade dos clientes — para acabar definitivamente com as conspirações.
O primeiro-ministro, por sua vez, ficou a meio da ponte: deu muitos detalhes da sua vida empresarial e descreveu os setores de atividade das empresas a quem prestou consultoria; mas não a identidade dos clientes e os montantes envolvidos. Para alguns elementos do Governo, foi pior a emenda que o soneto. “Deveria ter revelado logo tudo mais cedo”, lamenta-se a partir do Executivo da Aliança Democrática.
Em cima de tudo isto, o facto de ter prestado declarações na manhã de sexta para a anunciar que fará hoje, sábado, um Conselho de Ministros extraordinário e que só então falará ao país, deixou o Governo — e o país político — em suspenso durante mais de 24 horas. O que alimenta, claro, todo o tipo de especulações. Ao mesmo tempo, ao convocar os seus ministros para se debruçarem sobre este caso, Montenegro conseguiu arrastar ainda mais todo o Governo para um processo que só diz respeito à sua vida pessoal e profissional, sem qualquer relação com o exercício das funções que agora ocupa. “Cometeu um duplo erro. Favorece a intriga e fragiliza todo o Governo”, lamenta outro senador social-democrata.
A pressão de Marcelo e o desconforto no Governo
No meio de (mais) uma semana particularmente difícil para Montenegro, a tese da conspiração alimentada por alguns elementos próximos do primeiro-ministro a que o Observador deu destaque no arranque da semana, e que motivou um protesto veemente da RTP, não deixou todos no Governo confortáveis. Há quem entenda que foi um erro permitir que essas sensações transpirassem para a comunicação social e há quem não as partilhe de todo. O resultado prático foi um: ajudou a tornar o tema ainda mais tóxico e a inflamar a opinião publicada.
As palavras de Marcelo Rebelo de Sousa a meio da semana e já depois da notícia do Observador tornaram a situação de Luís Montenegro ainda mais delicada. “Quem escolhe um certo tipo de responsabilidades sabe que, juntamente com coisas que são agradáveis, há coisas desagradáveis, coisas que considera justas e coisas que considera injustas. Isso é o pluralismo próprio da vida democrática”, disse o Presidente da República à margem, precisamente, de um debate sobre a Lei de Imprensa de 1975.
Ao mesmo tempo, e já depois de o primeiro-ministro ter dito, no Parlamento, que a partir daquele debate da moção de censura só responderia a quem fosse “tão transparente” quanto ele, Marcelo apareceu publicamente a sugerir aos partidos que havia vários mecanismos para exigir mais esclarecimentos por parte Luís Montenegro, o que só pode ser lido como uma evidente pressão presidencial para que o chefe de Governo desse todas as respostas que tinham ficado por dar. O cerco a Montenegro apertava-se ainda mais com o precioso empurrão de Marcelo.
A euforia com os sociais-democratas saíram do debate da moção de censura, onde julgaram ter derrotado claramente André Ventura e recuperado de uma semana particularmente difícil, contrasta agora com a mudança de tom de Montenegro (que já se predispôs à falar com os jornalistas para dar mais explicações) e com o silêncio generalizado dos sociais-democratas, onde o incómodo e a preocupação com o impacto que o tema está a ter já são indisfarçáveis.
Esta sexta-feira, Hugo Soares, líder parlamentar e braço direito do primeiro-ministro, nem sequer esteve na Assembleia da República, onde todos os partidos (à exceção do CDS, naturalmente) aproveitaram para criticar duramente Montenegro. Não houve uma única voz social-democrata a defender publicamente o chefe de Governo e a indicação que existe é de que só o farão hoje, sábado.
A estratégia de Luís Montenegro, esse, ficou definitivamente comprometida. Ainda que existam sociais-democratas que continuem a acreditar que o primeiro-ministro “sairá reforçado” de tudo isto, a verdade é que uma moção de censura, um Conselho de Ministros extraordinário e uma comunicação ao país em horário nobre não constavam, em definitivo, dos planos do primeiro-ministro. Mas, como dizia um influente comentador na tarde de sexta, citando o pugilista Mike Tyson, “toda a gente tem um plano até levar o primeiro murro”. E Montenegro sofreu um golpe pesado.