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Luís Almeida, Tomás Correia e Virgílio Lima são algumas das personagens desta história

Luís Almeida, Tomás Correia e Virgílio Lima são algumas das personagens desta história

Caso Montepio. As "reviengas" de Luís Almeida, o pivô de Tomás Correia em Angola (que os supervisores aprovaram) /premium

Foi o operacional das operações suspeitas que levaram às buscas ao Montepio. Luís Almeida foi recusado para o banco, mas deixaram-no ficar na mutualista. O Observador revela como tudo se passava.

Uma figura central das operações suspeitas que levaram, esta quinta-feira, a buscas pela PJ no Montepio chama-se Luís Almeida. Era o homem que Tomás Correia queria para lhe suceder à frente da associação mutualista – e, até ao fim, foi fiel ao polémico ex-líder. O plano não deu certo: o novo supervisor — a autoridade dos seguros e fundos de pensões (ASF) — sinalizou que não o aceitaria como presidente da mutualista. Porém, após a desistência de Tomás Correia, a ASF acabou por permitir que Luís Almeida fosse registado para ser um dos administradores.

O supervisor da banca tinha-o recusado, em 2018, para um cargo importante no Banco Montepio mas a candidatura foi retirada antes de o Banco de Portugal oficializar esse chumbo, pelo que o banqueiro – que foi o pivô da operação de aumento de capital do Montepio investigada pela PJ e Ministério Público, como se comprovou esta quinta-feira – acabou por ter o OK para estar na administração da mutualista que gere poupanças de cerca de 600 mil portugueses. E Luís Almeida continua no cargo.

O Observador reconstitui, em detalhe, a informação que está na posse do Banco de Portugal desde 2014 e que levou às buscas desta quinta-feira, informação em bruto que lança fortes dúvidas sobre Luís Almeida — e que também serviu de base a uma auditoria interna confidencial que o Observador também avançou esta quinta-feira.

Apesar destas informações, o supervisor nunca tirou conclusões formais sobre a idoneidade de Luís Almeida para trabalhar na banca. Em 2015, já depois da separação entre a mutualista e o banco, foi aprovado para administrador-executivo do Banco Montepio e só em 2018, quando já estava outra equipa na supervisão do Banco de Portugal, é que foi recusado para a liderança de uma das unidades mais importantes do banco, a Montepio Crédito – mesmo assim, sem chumbo formal, porque Luís Almeida retirou a candidatura a tempo.

Neste momento, sabe o Observador, Luís Almeida está a ser investigado pelo Banco de Portugal sobre outro caso, o que o envolve no caso das Vogais Dinâmicas, no tempo em que foi administrador-executivo do banco, como já foi noticiado – mas ainda não existe um processo aberto no âmbito de eventuais contraordenações. Quanto à atuação em Angola, essa é jurisdição do Banco Nacional de Angola, não do Banco de Portugal. Contactado, o Banco de Portugal indicou que “não comenta eventuais processos de contraordenação”.

A ASF, que agora também escrutina a mutualista Montepio (antes era só o Ministério do Trabalho), já está na posse dessa documentação, sabe o Observador. Chegou-lhe por duas vias: foi partilhada, em bruto, pelo Banco de Portugal; e foi também entregue em mãos à presidente da ASF por um denunciante. Mas, numa altura em que muitos admitem novas eleições na mutualista já este ano, a ASF continua à espera que o Banco de Portugal tire conclusões sobre o percurso de Luís Almeida – isso tornaria mais fácil a vida da ASF, muito embora o mesmo supervisor, noutros casos, tenha sido mais pró-ativo (como a rejeição recente a Fernando Nogueira, para a seguradora Lusitânia, noticiada em primeira mão pelo Observador, meses antes da oficialização). Isto apesar de a mesma ASF já o ter rejeitado para a presidência da mutualista (mas depois, paradoxalmente, autorizou-o para vogal da administração).

Questionada, fonte oficial da ASF indicou que, “nos termos da lei, a ASF está sujeita ao dever de sigilo relativamente aos factos cujo conhecimento lhe advenha exclusivamente pelo exercício das suas funções, estando a informação requerida no âmbito desse sigilo”. Mas nesta fase, sabe o Observador, para eventualmente retirar o registo dado a ASF aguarda que o Banco de Portugal se pronuncie formalmente sobre o percurso de Luís Almeida não só em Portugal mas, também, no tempo em que foi destacado para o Finibanco Angola.

As dúvidas sobre o aumento de capital do Montepio

Parte da explicação para que Tomás Correia não tenha ficado, sequer, na Fundação Montepio – como se acreditava que iria acontecer, antes de mudar de ideias – estará numa proposta feita na última reunião do conselho de administração da mutualista para “redefinir” o alcance da fundação, o que implicaria uma multiplicação do dinheiro que a associação atribui anualmente ao organismo, que é de um milhão de euros. Mas a proposta nem foi votada porque três dos cinco administradores mataram-na à nascença: Virgílio Lima, novo presidente (que historicamente sempre foi alinhado com Tomás Correia); Carlos Beato, ex-autarca de Grândola, outrora também muito próximo do líder; e Idália Serrão, ex-deputada socialista que já foi secretária de Estado adjunta.

Mas não foi Tomás Correia quem avançou com essa proposta – aliás, até nem estava na sala quando a ideia foi discutida, alegando que tinha compromissos que o obrigavam a abandonar momentaneamente os trabalhos. Quem avançou com a proposta foi o administrador Luís Almeida, confirmando-se como o mais irredutível defensor de Tomás Correia e homem-chave em várias das iniciativas da sua administração (não só na mutualista mas, sobretudo, enquanto este também era presidente do banco).

Ora, em finais de novembro, quando a ASF tornou público o registo para os órgãos sociais da mutualista Montepio, o enfoque mediático foi para a ausência de Tomás Correia (que, na verdade, não era surpreendente) e, quando muito, para a nomeação de Virgílio Lima como presidente. Mas passou relativamente despercebida a concessão do registo a Luís Almeida, embora tenha causado grande perplexidade em alguns setores do meio financeiro e em pessoas do Banco de Portugal, que o conhecem bem e que estão por dentro do processo de investigação que ainda decorre.

É de origem angolana, precisamente, a designação “revienga” – nome, feminino, que descreve uma manobra com desvios apertados; pirueta –, uma expressão popularizada em Portugal pelo relato futebolístico de Jorge Perestrelo e que assenta como uma luva nas suspeitas que recaem sobre a atuação de Luís Almeida, designadamente no aumento de capital do Montepio, em 2013, quando era administrador-executivo do Finibanco Angola e principal responsável pela ligação com Lisboa (com a Caixa Económica Montepio Geral, hoje comercialmente conhecida como Banco Montepio). São essas as operações que servem de base às buscas da PJ desta quinta-feira.

Em dezembro de 2013, Luís Almeida escreveu um e-mail a pedir que se garantisse a subscrição de, especificamente, três lotes volumosos dos títulos do aumento de capital que estava em curso por clientes do banco que liderava em Luanda – 35 milhões de euros, no total, para os três clientes. Esse pedido especial foi feito na véspera do final da operação que pretendia angariar 200 milhões de euros. O sucesso do aumento de capital foi, assim, garantido com essas subscrições – embora não seja claro que o objetivo da iniciativa de Luís Almeida tivesse sido esse, como veremos mais à frente.

Na véspera do fim do aumento de capital do Montepio, Luís Almeida pede que se "assegurem os procedimentos" para garantir três subscrições volumosas.

Esses e-mails foram enviados por Luís Almeida à direção de planeamento e estratégia do Montepio, onde estavam José Martins e João Neves (este último dirigia essa direção e era, também, administrador não-executivo do banco em Angola – reportava diretamente a Tomás Correia). Dois dos três lotes destacados por Luís Almeida vinham de pessoas diretamente relacionadas com um cliente antigo do banqueiro, desde os tempos em que era diretor comercial da região de Lisboa — o construtor José Guilherme.

A subscrição mais relevante vinha de Paulo Guilherme, filho do construtor José Guilherme: 20 milhões de euros. A segunda maior, 12 milhões de euros, era de Eurico Brito, sogro de Paulo Guilherme – isto é, compadre de José Guilherme, o construtor que ficaria conhecido por ter dado a “liberalidade” de 14 milhões de euros a Ricardo Salgado, ex-líder do BES, incluindo 8,5 milhões de euros emprestados a José Guilherme na forma de créditos pessoais, segundo o Público.

Os contratos de crédito destes dois processos, a que o Observador teve acesso, foram ambos aprovados “sem penalização por amortização antecipada” a 6 de dezembro de 2013. Foram dois créditos – que até têm números sequenciais (477/13 e 478/13) – concedidos num processo que se assemelha a uma “via verde”: não há sinais de quaisquer pareceres do gerente do balcão, do coordenador regional, do diretor de banca de retalho nem do diretor de risco.

O construtor José Guilherme, que deu a "liberalidade" de 14 milhões a Ricardo Salgado, era um cliente antigo de Luís Almeida, já em Portugal

José Carlos Pratas/Global Imagens

Havia, depois, uma terceira subscrição, de menor dimensão mas ainda assim volumosa: três milhões de euros, subscritos em nome de Maria João Rodrigues – que, segundo informação recolhida pelo Observador, era uma professora do ensino secundário, aposentada, filha de um empresário há muitos anos presente em Angola, João Alves Rodrigues. O pai recebeu um crédito de três milhões de euros e transferiu o dinheiro para a conta em nome da filha, que com esses fundos subscreveu os títulos do aumento de capital.

As regras não permitem que se conte como capital do banco investimentos feitos com base em empréstimos do próprio banco. Ou seja, não há, a este nível, nada de errado com o crédito nem com a subscrição – o que não pode acontecer é juntar as duas coisas, ou seja, contar como capitais próprios válidos subscrições feitas com crédito do mesmo banco, mesmo que por interposta pessoa ou empresa.

Naturalmente, para que uma subscrição feita com crédito concedido pelo mesmo banco pudesse ser excluída dos capitais próprios seria necessário que o Finibanco Angola informasse as estruturas do Montepio, em Lisboa – mas isso nunca aconteceu. Essa terceira subscrição (com transferência vinda de crédito) nunca foi comunicada pelo gestor aos serviços do banco.

Os meses passaram e, em julho de 2014, depois da conclusão do aumento de capital, o Banco de Portugal estava a fazer uma inspeção na área do branqueamento de capitais e enviou uma carta ao seu congénere angolano, o Banco Nacional de Angola, a pedir mais informações sobre a origem dos fundos que serviram de base àquelas três subscrições. O BNA pediu esclarecimentos ao Finibanco Angola e alguns dias depois veio a resposta da comissão executiva liderada por Luís Almeida:

(…) Os clientes Maria João Seabra Melo Rodrigues, Eurico Hélder Reis Sousa Brito e Paulo Jorge Veríssimo Guilherme são clientes desta instituição e, tanto quanto foi possível apurar, atento as relações comerciais existentes, os mesmos são empresários com investimentos relevantes e de grande monta em Angola”, pode ler-se na carta.

E anexa-se, aí, um quadro que demonstra que as duas primeiras subscrições foram com “crédito concedido” e que a terceira teve como origem numa “transferência de João Alves Rodrigues proveniente de crédito concedido”. Ou seja, foram aqui identificadas todas as três subscrições que Luís Almeida quis garantir – informação que no caso da terceira subscrição não é consistente com aquilo que Luís Almeida transmitiu ao banco em Lisboa, a de que não tinha havido crédito.

Isto foi o que Luís Almeida disse ao Banco de Portugal: havia um crédito concedido a João Alves Rodrigues, que foi transferido para a filha.

No caso das duas primeiras subscrições, tinha sido transmitido aos serviços do banco ainda em dezembro de 2013, logo após a emissão dos títulos, que havia um penhor de depósito – ou seja, devia poder-se contar estas subscrições como capitais próprios porque, caso alguma coisa corresse mal, executava-se esse penhor de depósito que estava na conta do cliente. Segundo informação recolhida pelo Observador, esse depósito penhorado ter-se-á baseado num adiantamento feito pelo próprio banco para a compra/construção de umas instalações, um prédio que ainda não existia.

Como revela a auditoria divulgada esta quinta-feira pelo Observador, a subscrição pelo filho de José Guilherme, de 20 milhões de unidades de participação por 20 milhões de euros, só aconteceu porque o Finibanco Angola avançou com 38,7 milhões de euros — 20 milhões para usar no aumento de capital e os outros 18,7 milhões relacionados com um contrato de compra e venda de um imóvel que seria a nova sede do Finibanco Angola. E que ainda não estava construída. Entre 12 de dezembro de 2013 e 20 de janeiro de 2015, “o financiamento de 20 milhões de euros a Paulo Guilherme não beneficiava de qualquer garantia”, diz a auditoria.

Esse era um prédio que seriam empresas ligadas a José Guilherme que iriam construir, segundo uma denúncia que seguiu para o Banco de Portugal em finais de 2014 e que chamava a atenção, também, para o envolvimento nesse processo de Pedro Flores Correia, o filho de Tomás Correia que hoje está na Roland Berger. A Roland Berger é uma consultora com a qual a mutualista Montepio mantém há alguns anos contratos de “consultoria estratégica” para ajudar com a “transformação e modernização” da instituição, segundo disse fonte oficial ao Observador (contratos que a mesma fonte garante não terem sido interrompidos, mas sim cujos moldes de colaboração para o ano de 2020 estão “em avaliação”)

O “fecho do círculo”, só em 2017

Luís Almeida nunca indicou aos serviços do Montepio que havia um crédito associado à terceira subscrição. E o aumento de capital acabou por ser feito, na totalidade dos 200 milhões pretendidos, com Tomás Correia a destacar que a procura total tinha superado os 220 milhões de euros, ultrapassando, portanto, o volume de títulos que tinham sido disponibilizados.

Uma das incógnitas neste caso é saber porque é que surgiu essa terceira subscrição, de três milhões de euros: não foi decisiva para o sucesso da operação e não fazia “mexer a agulha” de forma significativa nos rácios de capital do Montepio, que estavam num patamar confortável, vários pontos percentuais acima dos mínimos exigíveis.

No final de 2018, em entrevista à agência Lusa, Tomás Correia negou que tivesse havido financiamentos ao construtor José Guilherme (ou outras pessoas da sua família) para poderem participar naquele aumento de capital. E acrescentou que o Montepio “não precisava dessa subscrição para fazer a emissão com êxito”. O que sabemos é que a consequência prática desse investimento foi a aplicação de fundos que estavam em Angola, em kwanzas e dólares, libertando-se dos controlos cambiais que existiam no país e transformando-se, convenientemente, num investimento em euros.

Mais tarde, em 2017, seria a Associação Mutualista Montepio Geral a recomprar esses títulos, na prática através de um aumento de capital da mutualista para reforçar os rácios do banco. O círculo fechou-se aí.

As “reviengas” de Luís Almeida nos e-mails a Lisboa e aos supervisores

Voltando atrás. Em setembro de 2014, presumivelmente sem saber da inquirição do Banco de Portugal a Angola, o diretor de risco da caixa económica em Lisboa (João Fernandes), envia a Luís Almeida um e-mail a pedir informação sobre os financiamentos concedidos pelo Finibanco Angola aos seus clientes, para aquisição de títulos no aumento de capital.

A resposta é dada só algumas semanas depois e o seu conteúdo é surpreendente: “Caro João Fernandes, os dois primeiros clientes da listagem em anexo [Paulo Guilherme e Eurico Brito] beneficiaram de operações de crédito colateralizadas com depósitos e garantia bancária emitida por banco local (…) Quanto aos restantes clientes identificados, não são beneficiários de operações de crédito junto do Finibanco e, em alguns casos, nem sequer são nossos clientes”.

A lista, elaborada pelo responsável de auditoria do Finibanco Angola, Rui Pereira, e transmitida por Luís Almeida, é clara: “Paulo Jorge Veríssimo Guilherme – Tem crédito; Eurico Hélder Reis Sousa Brito – Tem crédito; Maria João de Seabra e Melo Rodrigues – Não tem crédito”. É certo que o crédito não tinha sido dado diretamente a Maria João Rodrigues, mas tinha sido dado ao pai, o que deveria ter sido comunicado pelo Finibanco Angola ao Montepio (como, aliás, referiu na carta enviada em julho de 2014 ao BNA/BdP). Mas não foi.

À Caixa Económica em Lisboa era transmitida informação diferente. Sabendo que tinha havido crédito para a 3ª subscrição Luís Almeida não o revelou aos serviços do banco. E também investiu, ele próprio

Ou seja, embora confirme aos serviços a natureza das duas maiores subscrições, Luís Almeida volta a não fazer qualquer referência à terceira subscrição, que também partiu de uma operação de crédito (para o pai, transferida para a filha), algo que tinha reconhecido na correspondência com o supervisor angolano e, por inerência, com o Banco de Portugal.

Mais: Luís Almeida acrescenta no e-mail que “sabemos que o Banco de Portugal solicitou essa informação ao Banco Nacional de Angola”. Mas Luís Almeida, aludindo a “constrangimentos legais para prestar informações”, não diz aos serviços que esse pedido lhe tinha sido endereçado e que ele próprio já tinha enviado uma resposta que não era consistente com aquela que estava a ser dada aos serviços.

O clímax desta história surge algum tempo depois, em novembro de 2014. Depois de o Banco de Portugal voltar a interpelar o seu homólogo angolano, a comissão executiva do Finibanco Angola (António Pontes, CEO, e Luís Almeida) envia uma carta confidencial ao BNA na qual começa por indicar que os clientes (Paulo Guilherme, Eurico Brito e, curiosamente, João Alves Rodrigues, não a filha) “tomaram conhecimento” da emissão de unidades de participação do Montepio “no início do passado mês de dezembro” e “evidenciaram interesse em investir em tal produto financeiro”.

Estes clientes tinham um problema, porém, justificou a direção do Finibanco Angola: é que “as suas poupanças, à data, estavam em moeda diferente” (kwanzas e dólares), pelo que, como as unidades de participação do Montepio tinham de ser compradas em euros, foi “colocada a hipótese” de haver crédito na moeda europeia. E essa “conversão” não teve outro intuito, garantem, que não o justificável pelo facto de a cotação do euro face ao dólar estar “bastante elevada” naquele momento.

Tendo-se constituído o penhor de depósitos (em kwanzas e dólares), no caso de Paulo Guilherme a evolução cambial ajudou a que o cliente tenha “solicitado reembolsos parciais” em várias datas, pelo que o empréstimo estava praticamente liquidado. “Face à atual conjuntura do mercado cambial internacional (…) é expectável que até ao fim do corrente mês o crédito seja totalmente liquidado”, dizia a comissão executiva do Finibanco a respeito de Paulo Guilherme. Já Eurico Brito, que recebeu 12 milhões de euros em crédito, penhorados com valor equivalente em kwanzas e dólares, beneficiou, revela-se nessa carta, de uma garantia bancária prestada pelo Banco Espírito Santo de Angola (BESA).

E quanto a João Alves Rodrigues, que recebeu três milhões de euros em crédito, terá liquidado o crédito em agosto de 2014 “com recursos a fundos vindos de outra instituição financeira bancária”. E, paradoxalmente, acrescenta-se: “Este financiamento não está relacionado com a subscrição dos referidos títulos”.

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O que se sabe sobre essa terceira subscrição é que foram aplicados três milhões de euros nos títulos do Montepio e dessa forma conseguiu-se tirar de Angola – um país com controlos de capitais apertados, sobretudo quando se trata de tirar dólares do país – um montante equivalente a três milhões de euros que estavam em dólares e kwanzas.

João Alves Rodrigues, ao que o Observador conseguiu apurar, terá morrido muito pouco tempo depois desta operação.

O Banco de Portugal e as duas cartas contraditórias

Ao dizer que aquele crédito “não está relacionado com a subscrição dos referidos títulos”, Luís Almeida contradiz-se no que já tinha informado, anteriormente, aos supervisores. Apesar de o Banco de Portugal estar na posse dessas duas cartas contraditórias, enviadas em 2014, e ter dados bastantes para julgar a intervenção do banqueiro, autorizou o registo, em 2015, dos dois administradores desse banco: António Pontes (o CEO) pôde assumir funções como administrador não-executivo na Montepio Holding e Luís Almeida como administrador-executivo na caixa económica (hoje Banco Montepio), introduzido na administração de Félix Morgado.

Nessa altura, era Carlos Albuquerque diretor do departamento de Supervisão do Banco de Portugal. Porém, em 2018, quando Luís Almeida tentou ir para a Montepio Crédito, já era Luís Costa Ferreira o diretor de supervisão, que não lhe deu o registo para essas funções. Daí que Luís Almeida tenha ficado disponível para se juntar à lista com que Tomás Correia venceu, pela primeira vez sem maioria absoluta, as eleições para a Associação Mutualista, em dezembro de 2018.

Mais tarde, num sinal de desconfiança, o Banco de Portugal acabaria por obrigar a caixa económica Montepio Geral a excluir, com efeitos retroativos, estas subscrições dos seus capitais próprios. Isto depois de, em janeiro de 2016, o Banco de Portugal ter verificado que “as unidades do fundo de participação que são detidas por Paulo Guilherme não estão a ser deduzidas, por alegadamente o crédito concedido a este cliente, pelo Finibanco Angola, ter sido liquidado”.

E também no que dizia respeito a Eurico Brito o Banco de Portugal avisava que “os documentos disponibilizados pela CEMG [Caixa Económica Montepio Geral] não são considerados suficientes para comprovar, de forma inequívoca, que o crédito foi efetivamente liquidado sem recurso a novo financiamento por uma entidade do Grupo CEMG“. Luís Almeida tinha informado os serviços do banco em março de 2015 que os dois maiores créditos estavam reembolsados mas o Banco de Portugal vinha aqui, em janeiro de 2016, pôr essa informação em causa – e foi esse financiamento a empresas relacionados que foi comprovado pela auditoria interna do Montepio.

ASF garante “colaboração” com Banco de Portugal e CMVM na avaliação de idoneidade

Perante tudo isto, a ASF deu a Luís  Almeida a idoneidade para administrador – embora, sabe o Observador, tenha sinalizado que não a daria para presidente. Contactada pelo Observador, a ASF esclareceu que, “na avaliação da idoneidade das pessoas sujeitas a registo na ASF, nos termos do artigo 68.º do regime jurídico de acesso e exercício da atividade seguradora e resseguradora, são tidas em consideração, em função da sua gravidade, entre outros: a acusação ou condenação por ilícitos de mera ordenação social e ilícitos penais; ações cíveis; sanções administrativas, laborais, disciplinares, deontológicas ou de conduta profissional; processos de recuperação, insolvência ou liquidação“.

A ASF foi questionada sobre a interação com o Banco de Portugal num caso como este. “A ASF, nos processos de avaliação da idoneidade, consulta as demais autoridades de supervisão financeira sempre que as pessoas objeto de registo estejam registadas junto daquelas autoridades ou quando tenha conhecimento que essas autoridade possa ter informações relevantes. Existem procedimentos de colaboração estabelecidos com o Banco de Portugal e com a CMVM que permitem avaliar de forma criteriosa e rigorosa a informação partilhada”, garantiu fonte oficial, falando de forma genérica.

O Observador contactou diretamente Luís Almeida para pedir esclarecimentos sobre estas operações, mas o gestor redirecionou o pedido para a direção de comunicação da Associação Mutualista Montepio Geral, embora boa parte das questões enviadas não digam respeito, diretamente, à associação mutualista, mas sim à Caixa Económica Montepio Geral.

Esta foi a resposta: “No que se refere às três questões acima, por razões de deontologia e sigilo profissional, não podem ser prestados esclarecimentos/partilhadas informações respeitantes a clientes, operações ou instituições“. A fonte oficial da mutualista garante que Luís Almeida “desconhece a existência de qualquer processo em curso no Ministério Público ou no Banco de Portugal que envolva o Senhor Dr. Luís Almeida”.

Mas a direção de comunicação da mutualista, especificamente Rita Pinho Branco, salientava que a recente aprovação pela ASF para administrador da mutualista mostra que não há razão para questionar a idoneidade de Luís Almeida. “Importa recordar que o sancionamento da idoneidade do Senhor Dr. Luís Almeida foi assegurado recentemente pela supervisão, confirmando a adequação do comportamento do avaliado“, indicou-se.

O “Senhor Dr.” Luís Almeida e o “Mister Montblanc”

Luís Almeida gosta de ser tratado por “senhor doutor”, como se percebe pelas respostas da direção de comunicação da mutualista mas, na realidade, não tem formação universitária. A biografia que consta no site do Banco Montepio, relativa ao tempo em que foi membro da comissão executiva, atribui-lhe apenas três programas de formação para executivos, na Universidade Católica – mas nenhuma licenciatura. Essa informação está na página 459 do documento disponível nesta ligação.

Fonte oficial da mutualista confirma que Luís Almeida não é licenciado. “O grau académico não é de licenciatura. Ainda assim, a prática conduz à utilização do ‘Dr.’ e sustenta-se na formação especializada realizada por Luís Almeida em estabelecimentos de ensino superior“, respondeu fonte da mutualista.

Dois dos programas da Católica frequentados por Luís Almeida – pelo menos até essa altura – já foram extintos: o PAGEB, ou programa avançado de gestão bancária, e o GOAR, sigla para gerir por objetivos e avaliar resultados. O terceiro programa que Luís Almeida ostenta no seu currículo é o PEN, um programa de especialização em negociação, que ainda existe. Pelo que foi explicado ao Observador, estes não são programas que careçam de estudos superiores – há um processo de admissão mas, aí, a experiência profissional também pode servir para poder participar.

E experiência profissional não falta a Luís Almeida. Entrou para o Montepio nos anos 90, para as bases, mas subiu rapidamente até ao momento em que saiu para África, na viragem do século, voltando em 2008 para ser diretor comercial com enfoque na região de Lisboa. Nesse intervalo, ascendeu a figura-chave no Banco da África Ocidental (BAO), maior banco da Guiné-Bissau, onde em 2002 assumiu o cargo de diretor-geral (e também, a partir de 2006, como administrador, função que manteve até 2013, segundo a página de LinkedIn do próprio).

Terá sido nesse Banco da África Ocidental que Luís Almeida se cruzou com Diogo Lacerda Machado, com quem ganhou uma proximidade da qual se gabava frequentemente aos seus colegas em Lisboa, uma vez regressado, disseram fontes ao Observador. Diogo Lacerda Machado é, desde março de 2008, administrador da empresa Geocapital, uma empresa ligada ao magnata macaense dos casinos Stanley Ho e ao financeiro português Jorge Ferro Ribeiro. A Geocapital foi criada em 2006 e investe em vários setores produtivos em países de língua oficial portuguesa, desde a banca até aos biocombustíveis.

E foi essa empresa, a Geocapital, que em 2007 assumiu o controlo do BAO, comprando os 15% que o Montepio Geral tinha na instituição onde Luís Almeida era administrador – e ao qual continuou ligado até 2013. O advogado, conhecido por ser amigo muito próximo do primeiro-ministro, tornou-se em outubro de 2012 presidente do conselho de administração do BAO. Questionado pelo Observador sobre a relação com Diogo Lacerda Machado, Luís Almeida considerou esta uma questão “do foro pessoal, pelo que optou pela reserva”.

Quando, em 2008, Luís Almeida regressa a Lisboa, manteve mais alguns anos a ligação ao BAO – continuando nos anos seguintes a usar um cartão de crédito à conta do Banco da África Ocidental (BAO), para despesas pessoais, disseram fontes ao Observador. Fontes que revelam que Luís Almeida é conhecido, há vários anos, como “Mister Montblanc”, pelo facto de ostentar vários artigos dessa marca de produtos de luxo. Luís Almeida também é conhecido por usar vários carros topo de gama, desde Audi A5, Mercedes GLC Coupé e Tesla Model X.

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