O recurso inadequado às urgências do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é um problema recorrente nos hospitais, e está longe de estar resolvido. Apesar de a proporção de ‘falsas urgências’ ter vindo a diminuir nos últimos anos, ainda há centenas de milhares de atendimentos anuais de doentes triados com pulseiras azuis ou verdes (só em 2025, foram mais de 1,8 milhões). Na maioria dos casos, o problema de saúde relatado pelos utentes não deve ser tratado em contexto hospitalar — mas sim num centro de saúde ou mesmo em casa — e noutros os utentes nem sequer apresentam queixas ou sintomas.
Para denunciar o “abuso no recurso às urgências” dos hospitais e mostrar o dia a dia de um médico que trabalha nestes serviços, o médico Nuno Figueiredo e Sousa (que é também presidente da recém-criada Associação dos Médicos Prestadores de Serviços) criou uma página na rede social Instagram, na qual partilha casos de idas inadequadas às urgências — e que incluem situações como flatulência, unhas encravadas, frio, insónias, dor de dentes, queda de cabelo ou prurido nasal. Para além de Nuno Figueiredo e Sousa, a página “A vida de um prestador” é também gerida por outros dois médicos. “A página é de todos os médicos prestadores que decidirem contribuir para melhorar o SNS”, salienta o médico.
Na lista de situações de idas inadequadas às urgências estão também casos inusitados como utentes que se deslocaram àqueles serviços por se terem esquecido da chave em casa, por terem tido pesadelos durante o sono, por terem partido um termómetro ou apenas para confirmaram se “estava tudo bem”, mesmo sem queixas.
Médico Nuno Figueiredo e Sousa critica “abuso no recurso às urgências”
“O objetivo da página é mostrar a vida de um prestador de serviço e o problema do abuso no recurso às urgências”, explica ao Observador Nuno Figueiredo e Sousa, criticando alguns utentes que, diz, têm “vontade de abusar de um sistema maravilhoso que o país tem“, isto é, do SNS. Criada há cerca de um mês e meio, a página “A vida de um prestador” — que tem já mais de 25 mil seguidores no Instagram— ganhou destaque no início de janeiro, quando o médico (que presta serviço como ‘tarefeiro’ no Hospital de Santo António, no Porto) gravou um vídeo, no qual relata casos reais de ‘falsas urgências’.
“Vou contar-vos o segredo que ninguém vos conta sobre as urgências dos hospitais”, começa por dizer Nuno Figueiredo e Sousa, antes de descrever, com recurso aos registos da triagem, os casos de vários atendimentos em urgência sem divulgar os dados pessoais de cada pessoa: o de um utente de 22 anos com ardor ao urinar; o de um utente, de 42 anos, com dor na grade costal após tosse seca durante três dias; o de uma mulher de 71 anos que teve diarreia e vómitos depois de comer um cachorro; dois casos de mulheres com episódios recentes de vómitos. Todos as situações terão sido encaminhadas para os hospitais do SNS via INEM, sem tal se justificasse.
“Depois admiram-se que, quando são necessárias, não haja ambulâncias para toda a gente”, critica o médico, apontando o dedo tanto aos utentes como à forma de atuação do INEM, que, salienta, trabalha com um algoritmo de triagem “defensivo” e não dá autonomia de decisão aos técnicos de emergência pré-hospitalar. Ao Observador, o médico explica que os casos de uso inadequado das urgências que partilha na página de Instagram tiveram lugar em “hospitais de norte a sul do país” ao longo das últimas semanas.
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Além dos vídeos nos quais descreve os casos que lhe chegam, Nuno Figueiredo e Sousa partilha também fotos de dezenas de registos de triagem (que lhe são enviadas por colegas de vários hospitais), protegendo sempre a identidade dos utentes. Na lista encontram-se caso de utentes que recorrem à urgência por síndrome depressivo, com “desconforto abdominal e flatulência após ingestão de coca-cola”, por ansiedade (causada pelo facto de “o filho não ter ligado à hora habitual”), com insónias causadas por “pesadelos”, por ingestão de vodka, por “pontadas” no tórax (que a utente disse “já não sentir”), por sonolência (após toma de comprimido para dormir), mas também de utentes com frio (mas sem febre), com dor no 1ª dedo do pé (“depois de ter cortado a unha”) ou com tosse.
Utentes assustados com pesadelos ou que vão à urgência para saber se “está tudo bem”
A estes casos juntam-se outros, como o de um utente que refere um “mau jeito nos olhos” durante uma aula de Educação Física, um outro que diz ter prurido nasal há cinco anos, um utente que se queixa de impotência sexual ou de um utente que refere experienciar queda acentuada de cabelo. São ainda exibidos na página os registos de triagem de outros atendimentos em urgência do SNS, como o caso de uma utente que refere dor e parestesia [formigueiro, dormência, picadas ou ardência] nos dedos da mão (“após colocação de unhas de gel”), de uma mulher que recorreu à urgência por ter dificuldade em engravidar, de uma outra utente que diz sentir dor abdominal durante as relações sexuais, de um utente que disse ter acordado “assustado” devido a um pesadelo, de um outro que disse também estar “assustado” por ter partido um termómetro. Há ainda casos inusitados como o de um utente que foi à urgência porque não conseguia entrar em casa (“chegou a casa e tem a chave do lado de dentro da porta, sem queixas”) ou de um homem que referiu ir à urgência “para saber se estava tudo bem”, também sem apresentar qualquer queixa.
Nuno Figueiredo e Sousa apela aos utentes que façam uma “utilização sensata do SNS”, criticando, ao mesmo tempo, o que considera serem as “ineficiências do sistema”, que potenciam o recurso inadequado às urgências. O médico questiona os algoritmos de triagem utilizados tanto na linha SNS24 como pelo INEM, que, realça, em caso de dúvida, referenciam para uma urgência hospitalar. Para além disso, aponta o médico, as falsas urgências acarretam um elevado prejuízo para o erário público.
“Estamos a falar de um custo de cerca de 90 euros relativo ao transporte por ambulância, e cerca de 95 euros pelo atendimento na urgência”, excluindo exames, vinca Nuno Figueiredo e Sousa. A isto junta-se a isenção generalizada de taxas moderadoras, realidade que o médico critica, propondo, ao invés da isenção, o pagamento de taxa moderadora no ato do atendimento — um custo que o utente poderia deduzir posteriormente na totalidade em sede de IRS. O também presidente da Associação dos Médicos Prestadores de Serviços defende ainda a melhoria dos algoritmos de triagem e autonomia de decisão aos técnicos de emergência pré-hospitalar — que, diz, deveriam poder avaliar in loco a necessidade de um determinado utente ter ou não de ser transportado a uma urgência hospitalar.
Médico alerta para impacto financeiro das falsas urgências do SNS
Nuno Figueiredo e Sousa frisa ainda que, ao mostrar o impacto financeiro do uso inadequado das urgências, a página “A vida de um prestador” tem também como objetivo contrariar a ideia de que os médicos tarefeiros contribuem para a sobrecarga financeira do SNS. “A página também surge para contraria a ideia de que os médicos prestadores de serviço são mercenários e de que agem por dinheiro, que foi a mensagem mais ouvida”, lamenta o médico, que garante que, de acordo com os dados de 2025, um médico tarefeiro ganha, em média, 39 euros brutos por hora — menos do que um médico dos quadros, que recebe entre 42 e 47 euros/hora, salienta.
Este domingo, Nuno Figueiredo e Sousa gravou um outro vídeo, no qual relata mais casos de uso indevido das urgências: o de um homem, de 56 anos, que foi à urgência por ter dor de doentes há quatro dias (“mas não tomou medicação), o de uma mulher de 44 anos com tosse há quatro horas (“sem febre nem falta de ar”), de um homem de 25 anos que disse sentir gânglio inchado (mas que, já na urgência, referiu nada sentir), de uma mulher de 25 anos que se queixou de dor nos joelhos depois ter “estado a limpar o chão em casa” e de uma outra mulher de 36 anos, que, pelas 4 horas da madrugada, foi à urgência por ter uma “unha encravada há “três dias”. “Depois admirem-se que cheguem aos hospitais e não haja médicos para toda a gente”, conclui o médico.
Em 2025, as falsas urgências situações representaram 32,2% dos atendimentos nas urgências do SNS, menos do que os 36,9% de 2024 e dos cerca de 40% de 2023. Em valores absolutos, no ano passado foram registadas cerca de 1,87 milhões de falsas urgências, menos 460 mil do em 2024.
Notícia atualizada às 18h26 com informação sobre a página ser gerida por mais pessoas além do médico Nuno Figueiredo e Sousa.