Apesar dos picos de afluência às urgências de alguns hospitais, e das notícias a dar conta de quase dias à espera, o tempo médio de espera para primeira observação médica nas urgências do Serviço Nacional de Saúde (SNS) diminuiu em 2025, em comparação com o ano anterior. Também o número total de urgências e a proporção de falsas urgências baixaram no último ano, segundo os dados disponíveis no Portal de Monitorização do SNS. O Ministério da Saúde destaca que os “efeitos positivos” resultam das medidas tomadas pelo Governo, como o alargamento da referenciação obrigatória para as urgências, a criação de consultas do dia ou a abertura de Centros de Atendimento Clínicos, para casos não urgentes. Os administradores hospitalares concordam que a estratégia seguida pelo Executivo tem surtido efeito.
“São excelentes resultados, é sinal de que a estratégia faz sentido“, sublinha o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), ressalvando, ainda assim, que as urgências do SNS estão sob grande pressão por causa do pico das doenças respiratórias, e que é necessário melhorar a referenciação dos doentes que contactam a linha SNS 24.
Assim, o tempo médio de espera nas urgências a nível nacional (medido entre a triagem e a primeira observação médica), calculado ao contabilizar os tempos correspondentes a cada uma das pulseiras entregues mediante a triagem de Manchester, diminuiu 12,5%, tendo passado de 56 minutos em 2024 para 49 minutos em 2025. A evolução positiva registou-se em quase todo o país, à exceção do Algarve, onde houve um ligeiro aumento.
▲ Tempo de espera nas urgências dos hospitais de Lisboa e Vale do Tejo diminuiu, com exceção de três casos. Um deles é o Amadora-Sintra
MARIO CRUZ/EPA
Região de Lisboa e Vale do Tejo com 78 minutos de tempo médio de espera (menos 15%)
Mesmo na região de Lisboa e Vale do Tejo — na qual se encontram os hospitais com maiores dificuldades de resposta nos serviços de urgência — o tempo de espera registou uma melhoria, estando agora abaixo dos 80 minutos: passou de uma média de 92 minutos de espera em 2024 para 78 minutos em 2025, uma diminuição de 15%. Ainda assim, esta continua a ser, por larga diferença, a região do país na qual os utentes mais tempo têm de aguardar por uma primeira observação médica.
Na análise do tempo de espera por regiões, segue-se depois o Centro, a região que registou a melhoria mais acentuada neste indicador no ano passado: o tempo médio passou de 57 minutos em 2024 para 48 minutos em 2025, uma queda de 16%. Na região Norte, verificou-se uma diminuição do tempo de espera para primeira observação médica dos 47 minutos em 2024 para os 42 minutos no ano passado (menos 10,6%). No Alentejo, a melhoria foi menos significativa: passou de 34 para 32 minutos em 2025. A única região em contraciclo com a tendência foi o Algarve, onde se registou um ligeiro aumento do tempo de espera, de 12 para 13 minutos, em 2025.
A diminuição nos tempos médios de espera nas urgências não é uma tendência nova e já se vem registando pelo menos desde 2023, segundo os dados consultados pelo Observador no Portal de Monitorização do SNS. Nesse ano, o tempo médio de espera cifrou-se nos 60 minutos, tendo baixado para os 56 minutos em 2024 e para os 49 minutos em 2025.
Em resposta ao Observador, o Ministério da Saúde sublinha os “efeitos positivos” da medidas tomadas desde 2024 pelos dois executivos liderados por Luís Montenegro. A tutela realça que “embora os efeitos positivos destas medidas já se tenham sentido no inverno passado, este ano o impacto é ainda mais significativo, tendo em conta a forte pressão sobre os hospitais provocada pela epidemia de influenza A, mais grave do que no ano anterior, e pelas condições meteorológicas adversas, que têm contribuído para um aumento substancial da procura dos serviços de saúde”.
Ministério da Saúde destaca “efeitos positivos” das medidas tomadas desde 2024
O ministério liderado por Ana Paula Martins frisa que “desde 2024, tem vindo a implementar um conjunto de medidas estratégicas com o objetivo de otimizar o acesso e melhorar a capacidade de resposta dos serviços de urgência do SNS” e de “garantir maior eficiência e qualidade no atendimento”, de que são exemplo a “criação de locais alternativos para observação de utentes com situações agudas, como os Centros de Atendimento Clínico (CAC)”, o “alargamento do programa Ligue Antes, Salve Vidas, que permite encaminhar os doentes para os Centros de Saúde, consultas hospitalares ou para autocuidados” e a “nova organização da urgência Obstétrica e Ginecológica e urgência Pediátrica, o que levou à criação das consultas do dia seguinte”.
Numa realidade mais micro, é possível perceber, no entanto, que, em alguns hospitais do SNS, os doentes ainda têm de esperar, em média, mais de duas horas por uma primeira observação médica nas urgências: é o caso do Hospital Beatriz Ângelo (144 minutos, em 2025) do Hospital Garcia de Orta, em Almada (122 minutos) e dos hospitais do Barreiro/Montijo, integrados na Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho, com 123 minutos.
E mesmo com a melhoria registada nos tempos de espera na região de Lisboa e Vale do Tejo, há registo de hospitais em contraciclo: o Hospital de Cascais, a única PPP do país, que viu o tempo médio de espera nas urgências subir para 89 minutos (em comparação com os 85 minutos de 2024); o Hospital de Vila Franca de Xira, no qual o tempo de espera também aumentou, para os 98 minutos (em comparação aos 82 minutos registados no ano anterior) e o Hospital Fernando Fonseca, ou Amadora-Sintra, com 102 minutos (mais do que os 92 minutos em 2024).
Neste último caso, a evolução negativa poderá ser explicada pela instabilidade no serviço de Urgência Geral, do qual saíram 11 médicos afetos à equipa fixa da urgência. No final de novembro e início de dezembro, os doentes triados com pulseira amarela (considerados urgentes) enfrentavam tempos de espera que chegaram às 18 horas pela primeira observação médica, muito acima do recomendado.
Se a análise se limitar aos casos mais graves (triados com pulseira amarela e laranja), a quebra no tempo de espera foi de 9% nas pulseiras amarelas (para os 50 minutos) e de 24% nas pulseiras laranjas (para os 16 minutos, sendo que estas têm um tempo de espera recomendado de dez minutos). No caso das pulseiras verdes, o tempo de espera recuou para os 68 minutos (era de 76 minutos em 2024).
Tempo de permanência nas urgências ascende a mais de quatro horas
Em queda, em 2025, esteve também um outro indicador, designado por Tempo Médio de Permanência nos Serviços, que mede o tempo de espera desde a triagem até ao momento em que o utente sai da urgência (o que pode incluir análises e exames). Assim, o tempo médio de permanência nestes serviços fixou-se nos 267 minutos (quatro horas e 27 minutos) em 2025, menos do que os 284 minutos (4 horas e 44 minutos) registados em 2024. Na região de Lisboa e Vale do Tejo, o tempo total de permanências nas urgências é, no entanto, muito superior: de 361 minutos (cerca de seis horas), tendo havido um agravamento relativamente a 2024 (quando se cifrou nos 328 minutos).
▲ Número de atendimentos diminuiu 8% e ficou abaixo dos seis milhões no ano passado
Igor Martins
Esta segunda-feira, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, defendeu que há uma “perceção de caos” no SNS mas disse que “isso não é realidade”, argumentando que os tempos de espera nos hospitais “são os melhores dos últimos cinco anos”. “Os tempos de espera nas urgências em Portugal são os mais baixos deste ano que foram o ano passado, mais baixos que foram há dois anos, mais baixos que foram há três, há quatro e há cinco anos” salientou o chefe de Governo, durante a cerimónia de inauguração da nova sede da Direção Executiva do SNS, no Porto.
Primeiro-ministro diz que há “perceção de caos” no SNS mas que “não é a realidade”
Como seria de esperar, a diminuição do tempo de espera nas urgências em 2025 foi acompanhada por uma quebra do número de episódios e também por uma descida da proporção das chamadas falsas urgências, ou seja, de doentes triados com pulseiras azul ou verde, e que deveriam ser avaliados nos cuidados de saúde primários.
Em 2025, o número de atendimentos nas urgências do SNS ficou abaixo dos seis milhões, algo que não acontecia há pelo menos 12 anos — desde que os dados começaram a ser monitorizados e publicados no Portal da Transparência do SNS —, se forem excluídos desta análise os dois anos de pandemia de Covid-19, 2020 e 2021, em que a afluência às urgências caiu de forma abrupta. Desta forma, em 2025 as urgências do SNS (gerais, pediátricas, obstétricas e psiquiátricas) realizaram 5.829.206 atendimentos, o que representa uma diminuição de cerca de 8% em relação aos 6.319.858 registados em 2024. Nesse ano, já se tinha também registado uma quebra do número de episódios de urgência em relação a 2023, embora mais ligeira.
A diminuição das idas às urgências do SNS é ainda sublinhada pelo relatório Acesso a Cuidados de Saúde 2025 publicado esta terça-feira, que adianta que esta evolução não foi acompanhada de um aumento da procura das urgências no privado, mas sim de um maior recurso aos cuidados de saúde primários no SNS e a consultas no setor privado.
Número de atendimentos nas urgências baixou em todas as regiões
Em 2025, a evolução descendente do número de episódios de urgência estendeu-se a todas as regiões, embora a velocidades diferentes: a maior quebra registou-se em Lisboa e Vale do Tejo e foi de 9,5% em comparação com 2024, para os cerca de 1,9 milhões de episódios de urgência; no Centro, houve menos 8,5% de urgências (cerca de um milhão ao todo); já na região Norte, a diminuição foi de 7,5%, para os 2,1 milhões de episódios. No Alentejo houve cerca de 390 mil atendimentos nas urgências em 2025 (menos 4% em relação a 2024), enquanto no Algarve foram 375 mil (sendo a quebra de apenas 1%).
A acompanhar a quebra global no número de urgências, esteve também a proporção das falsas urgências, ou seja, das situações triadas com pulseiras azuis e verdes — e que poderiam ser tratadas em autocuidados ou nos cuidados de saúde primários. Em 2025, estas situações representaram 32,2% dos atendimentos nas urgências do SNS, menos do que os 36,9% de 2024 e dos cerca de 40% de 2023. Em valores absolutos, no ano passado houve menos cerca de 460 mil falsas urgências, o que representa a esmagadora maioria da quebra no número total de atendimentos.
Os administradores hospitalares e também a associação que representa os médicos de família sublinham que a evolução positiva que se tem vindo a registar — quer no tempo de espera nas urgências, quer no número total de atendimentos e de falsas urgências — pode ser explicada pelo maior recurso da população à linha SNS 24, a uma maior capacidade de resposta dos centros de saúde nas consultas de doença aguda e à criação, fora dos hospitais, de unidades direcionadas para os casos não urgentes, como os Centros de Atendimento Clínicos.
“Os recursos estão a ser mais bem utilizados e os doentes esperam menos tempo. São resultados positivos“, sublinha o presidente da APAH, referindo que os hospitais do SNS reportaram à associação que lidera uma “redução de procura inadequada”, por parte de doentes não urgentes, ao longo do ano passado — uma realidade que o Xavier Barreto associa aos efeitos do projeto Ligue Antes, Salve Vidas (que entretanto, foi alargado à grande maioria das 39 Unidades Locais de Saúde do país e que permite referenciar para autocuidados ou para os centros de saúde parte importante dos doentes, impedindo o recurso desadequado às urgências).
Para Xavier Barreto, o facto de a redução total do número de episódios de urgências ter acontecido quase exclusivamente à custa de uma quebra no número de pulseiras azuis e verdes é um bom indicador, que mostra que “não houve redução do acesso dos doentes que realmente precisam”. Ainda assim, o presidente da APAH acredita que há espaço para melhorar o funcionamento da linha SNS 24, nomeadamente no que diz respeito à diferenciação dos enfermeiros e ao algoritmo de triagem. “Poderíamos ter enfermeiros especialistas na área da urgência e emergência”, sublinha, referindo que ainda há situações em que a triagem encaminha para as urgências doentes que poderiam ser tratados nos centros de saúde. Xavier Barreto lembra que, mesmo com a redução do número total de episódios de urgência registada no ano passado, Portugal continua a ter o dobro das urgências da média da OCDE, por cada 100 habitantes.
Procura das urgências em Portugal é mais do dobro do que na OCDE, avisa regulador
A verdade é que o número de utentes encaminhados pela linha SNS 24 para os centros de saúde tem vindo a aumentar, confirma a associação que representa os médicos de família. “Há mais utentes a serem enviados para os cuidados de saúde primários, por todo o país e temos muitos doentes nas consultas de doença aguda“, realça o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Nuno Jacinto, acrescentando que a resposta tem vindo a ser “ajustada” nos centros de saúde, principalmente neste período de inverno, em que a procura é maior devido ao aumento das doenças respiratórias. “Se há sobrecarga ou não, vai depender muito das equipas“, afirma. O ajuste passa por alargar os períodos de consulta aberta, exemplifica. O responsável lamenta, contudo, que, em muitos centros de saúde, o acesso a consulta de doença aguda seja feito exclusivamente através do SNS 24. “Nalguns locais, houve uma substituição total pelo SNS24, e isso acaba por não ser o mais adequado para algumas pessoas”, refere Nuno Jacinto. Quanto ao tempo de atendimento, concede que haja casos “pontuais onde há maiores dificuldades” e tempos de espera longos, mas os relatos “não têm sido consistentes”. “Onde ainda existe bastante falta de articulação é nos protocolos que estão a utilizar, que continuam a não ser do nosso conhecimento e portanto, continua a haver vários casos de pessoas que são encaminhadas para a urgência com sintomas que podiam estar nos cuidados de saúde primários. Era importante que fossem discutidos com quem está no terreno.”
Quanto aos Centros de Atendimento Clínicos (CAC), Xavier Barreto acredita que tenham tido um impacto mais reduzido na melhoria dos tempos de espera e na redução das falsas urgências. “Ajuda alguma coisa mas o que é mais relevante é a referenciação obrigatória [através da linha SNS 24]”, salienta. Recorde-se que estão em funcionamento três CAC: um em Lisboa, no Centro de Saúde de Sete Rios (e que recebe doentes não urgentes que recorram à urgência do Hospital de Santa Maria); um no Hospital da Prelada, no Porto, e que avalia doentes não urgentes encaminhados pelos serviços de urgências dos hospitais de São João e Santo António; e outro em Coimbra, inaugurado no final de 2025.