Os médicos internos do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Amadora-Sintra escreveram uma carta à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e ao bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, na qual denunciam várias falhas que têm comprometido a qualidade da assistência à população e a própria formação que deveriam estar a receber para se formarem como especialistas. Na missiva, a que o Observador teve acesso, os médicos denunciam o cancelamento de consultas e cirurgias (devido à falta de médicos), a realização de trabalho no serviço de urgência sem acompanhamento de clínicos com mais experiência e o ambiente “repressivo” e “hostil” que se vive no Serviço de Cirurgia do hospital.
“Manifestamos a nossa profunda preocupação face aos acontecimentos que têm comprometido gravemente o funcionamento do Serviço de Cirurgia Geral e, consequentemente, a qualidade da nossa formação médica”, sublinham os internos na carta, enviada esta segunda-feira à ministra da Saúde e a vários responsáveis da Ordem dos Médicos poucas horas antes de o diretor do serviço de Urgência do hospital apresentar a demissão. Hugo Martins justificou a decisão para deixar o cargo — que produziu efeitos a 1 de fevereiro — com “motivos pessoais”.
Diretor da Urgência do Amadora-Sintra demite-se “por motivos pessoais”
Os médicos internos do Amadora-Sintra denunciam uma diminuição da atividade cirúrgica programada, nomeadamente na área oncológica. “Durante o mês [de janeiro], foram operados apenas nove doentes oncológicos”, sublinham, acrescentando que, “relativamente à primeira semana de fevereiro (3 a 9 de fevereiro), cerca de metade dos doentes agendados foram cancelados“.
Os jovens médicos criticam ainda a redução do número de camas para Cirurgia Geral, que “ocorreu sem um plano de contingência que garantisse a resposta adequada ao fluxo de internamentos oriundos do Serviço de Urgência, resultando recorrentemente num elevado número de doentes a aguardar vaga de internamento”.
Médicos internos sem apoio na avaliação de “doentes complexos”
Os médicos internos de Cirurgia queixam-se da divulgação tardia (a 30 de dezembro) da escala da urgência para o mês de janeiro, “sem respeitar as indisponibilidades previamente comunicadas pelos internos”. Desta forma, gerou-se “uma necessidade constante de reformulação das equipas”, o que fez com que, na maioria dos turnos, as equipas estivessem “abaixo do número mínimo necessário”, denunciam. Os médicos, ainda em formação, garantem também que foram deixados “sem o apoio necessário para a avaliação e gestão de doentes complexos”.
Para tentar colmatar a falta de médicos no serviço de urgência, os internos realçam que, tal como aconteceu com as cirurgias, também há consultas de doentes oncológicos a serem canceladas. “As consultas dos especialistas (agendadas para o período da manhã) têm sido frequentemente desmarcadas para suprir a carência de médicos no serviço de urgência, levando a um acumular de doentes oncológicos”, pode ler-se na carta. Os jovens médicos dizem que, durante o período da tarde, têm de ver em média 20 doentes e queixam-se da falta de acompanhamento com “espaços de apenas 5 a 10 minutos por doente” e “sem a presença de especialistas para discussão de casos”.
Os médicos internos denunciam ainda o que dizem ser o ambiente “hostil” em que trabalham, desde que saíram onze médicos do serviço de Cirurgia Geral (uma ‘debandada’ desencadeada pelo regresso de dois médicos que denunciaram alegadas más práticas). “O ambiente no serviço mantém-se hostil e opressivo, em contraste, na nossa opinião, com o que se vivia antes do êxodo dos 11 especialistas, quando predominava um forte sentido de união, espírito de comunidade, interajuda, cumplicidade e compromisso com a missão do serviço”, comparam os médicos, reafirmando que, perante as atuais condições de trabalho, a sua formação está em causa.
Internos denunciam “clima de insegurança profissional”
“A atual situação configura uma desigualdade evidente em relação aos internos de outros hospitais do país, colocando em risco a qualidade da formação especializada”, avisam. Os jovens médicos concluem que se “mantém um clima de insegurança profissional” e dizem não “vislumbrar, a curto prazo, uma solução para o problema”.
▲ Urgência de Cirurgia funciona com apenas um médico especialista e dois internos, metade do rácio considerado adequado pela Ordem dos Médicos
MARIO CRUZ/EPA
Perante a denúncia, a Ordem dos Médicos assumiu uma posição de força esta segunda-feira, defendendo mesmo o encerramento da urgência de Cirurgia, que está a ser bastante afetada pela falta de clínicos no serviço. Segundo a entidade liderada por Carlos Cortes, a carência de médicos cirurgiões no Hospital Amadora-Sintra e o não cumprimento da dimensão mínima da equipa cirúrgica na urgência é uma situação que coloca em causa a “segurança” dos próprios doentes que precisem de recorrer ao hospital.
Em comunicado, a Ordem garante que, no fim de semana passado, o Hospital Amadora-Sintra tinha uma escala com apenas três médicos, sendo um médico especialista e dois médicos internos, o que faz com que o serviço de urgência funcione “muito abaixo dos limites de segurança clínica” e “contra todas as recomendações técnicas”.
Ordem dos Médicos diz que situação é “insustentável” e defende fecho da urgência de Cirurgia
“É inconcebível, estamos a entrar numa situação insustentável”, diz o bastonário da Ordem dos Médicos ao Observador. Segundo Carlos Cortes, num hospital de grande dimensão — como é o caso do Amadora-Sintra — deveriam estar pelo menos seis médicos em permanência no serviço de Urgência (pelo menos três especialistas e outros três internos).
Carlos Cortes diz que há médicos cirurgiões a “fazerem 24 horas de urgência sozinhos”, só com o apoio de médicos internos (ainda em formação), e a darem resposta a uma área onde vivem mais de 500 mil pessoas. “Chega a haver médicos com 15 turnos num mês”, denuncia o bastonário dos Médicos, defendendo que, devido à falta de condições de segurança para profissionais e utentes, a urgência deveria encerrar. “A urgência não se pode manter aberta, é um perigo para os doentes e para os profissionais trabalharem nestas condições“, diz o responsável ao Observador.
▲ "É inconcebível, estamos a entrar numa situação insustentável", diz o bastonário dos Médicos, pedindo o fecho da urgência de Cirurgia
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, reuniu-se com o Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra em novembro para abordar os problemas no serviço de Cirurgia, numa altura em que vários médicos cirurgiões começaram a abandonar o hospital (em protesto contra o regresso de dois colegas que denunciaram alegadas situações de má prática clínica). Num mês, após o regresso de dois cirurgiões, demitiram-se onze médicos.
Na origem dos problemas está uma queixa, feita por dois médicos do serviço em janeiro de 2023, que referia a existência de um total de 22 doentes que terão sido vítimas de más práticas clínicas. Em causa estariam, alegadamente, casos de cirurgias a tumores que não existiam ou uma hérnia que permaneceu no doente depois de uma operação. Os médicos apresentaram a denúncia ao Conselho de Administração, que pediu a intervenção da Ordem dos Médicos — que, cerca de um mês depois, concluía uma perícia onde não foram encontradas provas de má prática clínica (mas apenas de “má opção cirúrgica”).
Os dois médicos que denunciaram as alegadas más práticas acabaram por sair do hospital, sendo integrados, de forma provisória, no Hospital de Vila Franca de Xira. Um ano depois voltaram, o que provocou a demissão de onze médicos.
Ao Observador, a ULS Amadora-Sintra admite “constrangimentos” na urgência de Cirurgia, mas realça os esforços feitos no reforço dos recursos humanos no serviço de Cirurgia Geral. “O Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) tem, como é do domínio público, alguns períodos de contingência na escala da Especialidade de Cirurgia Geral em contexto de Urgência, um constrangimento resultante da saída concertada de 10 cirurgiões”, realça a ULS. Na mesma resposta ao Observador, a unidade acrescenta que, “para garantir a resposta à população, a ULS Amadora-Sintra contratou oito especialistas adicionais para a realização de trabalho no Serviço de Urgência, tendo como objetivo o reforço das equipas”.
A ULS, liderada por Luís Gouveia, diz-se “disponível para, em cooperação com todas as entidades e numa atitude construtiva, ultrapassar a situação atual, mantendo como prioritário o reforço da equipa de Cirurgia Geral”.
O Observador questionou também o Ministério da Saúde (no sentido de perceber se está planeada uma intervenção da tutela junto do hospital, respondendo ao repto dos médicos internos), mas não obteve resposta até à publicação deste artigo.