A lista de espera para tatuar com Sofia Dinis é longa. Chegou a ser de “três anos”, como revelou em entrevista a própria tatuadora, que se tornou viral nos últimos anos. Nas redes sociais, foi construindo uma imagem que procurou levar muito para lá do simples ato de tatuar supostos desenhos originais, de linhas finas e irrepetíveis, a que aderiram figuras públicas como Carolina Deslandes e Diogo Piçarra, entre muitos actores e músicos. À boleia das tatuagens, Sofia Dinis criou uma marca própria, através da qual promovia também a venda de produtos de bem estar, um diário e, a juntar todas estas áreas, a promessa de uma “experiência” pessoal, transformadora e de cura. “Não tatuo a pele, tatuo a alma”, sintetiza no site que criou. Mas por trás de toda a experiência e dos conteúdos que promove nas redes sociais e site, multiplicaram-se nas últimas semanas relatos de uma rede de colaboradores que denunciam a falta de pagamentos pelos serviços prestados, a ausência de contratos de trabalho, despedimentos repentinos e sem justa causa e o roubo de direitos de autor.
As histórias começaram por ser partilhadas na conta de Instagram Sheisart.sofiadinis: com 427 seguidores, a página “Sofia Dinis, a Impostora” partilha “alegadas histórias da tatuadora mestre na arte de enganar e manipular as pessoas que cruzam o seu caminho.” É, ainda assim, um micro universo, quando comparado com os 126 mil seguidores da página oficial da “terapeuta e tatuadora sistémica” — palavras que a própria usa para se descrever. “Ela desperta a consciência através da sua arte da manipulação. Não tatua peles, tatua almas para sempre através da sua vigarice e mentira“, lê-se na primeira publicação, de 15 de janeiro, onde é lançado um desafio a que se conheça “a verdadeira artista por trás da obra” e as “histórias que nunca foram contadas.”
A gestora da página, com quem o Observador falou e que pediu para que o seu nome não fosse revelado, garante que aquela “não é uma página de ódio”, mas de “justiça”. Revela que, a cada novo post, surgem mais e mais denúncias, que vão sendo publicadas sob anonimato. Desde a funcionária que se despediu para trabalhar com Sofia Dinis apenas para descobrir que, “afinal, já não precisava de mim”; à que fez um trabalho de design que a tatuadora publicou como seu e “nunca” foi pago; e à cliente que viajou 300 quilómetros com os 400 euros acordados pela tatuagem e que no fim da sessão viu o preço subir para 600 euros — “Achei completamente desonesto.” Todas as mensagens são também publicadas sob anonimato, justificado com o que dizem ser um receio de represálias.
“Quando criei a página, não tinha noção de que, na verdade, era a ponta do véu. A história é um bocadinho mais comprida do que aquilo que achava quando comecei”, diz a autora da conta, que assume não conhecer Sofia Dinis pessoalmente e ter criado a página depois de vários anos a ouvir estas histórias de amigos e conhecidos, que desafiou agora a partilharem as suas experiências pessoais.
O Observador falou com cinco antigos funcionários de Sofia Dinis e com alguns clientes que passaram pelo seu estúdio, que confirmaram os episódios, em alguns casos facultando trocas de emails, mensagens e imagens a atestar os seus relatos. O Observador também contactou a tatuadora, inicialmente por telefone. Sofia atendeu a chamada; mas, assim que ouvia a referência a “jornalista”, desligou. Foram feitos novos contactos, por mensagem e por email, em busca de esclarecimentos, mas até à data da publicação do artigo não houve qualquer resposta aos pedidos de entrevista.
A mudança para Lisboa, o arranque num Airbnb e a chuva de marcações
“Criar faz parte da minha essência.” As palavras são de Sofia Dinis, que na sua página oficial conta como sempre esteve ligada ao mundo da arte. Foi esta a área que escolheu seguir no secundário e que, em 2006, a levou a viajar para Lisboa para estudar Design, Comunicação e Fotografia no IADE. As tatuagens só surgiram mais tarde. Fez a primeira aos 26 anos, uma idade “tardia”, considerou numa conversa no programa “Goucha”, da TVI, em 2022. Aí explicava que, tendo sido diagnosticada muito nova com psoríase (uma doença de pele que deixa marcas), só nessa altura conseguiu tatuar-se numa zona sã. “Em seis meses, enchi os meus braços todos”, revelou, acrescentando que “queria ser olhada pelas tatuagens e não pelas feridas”.
“O que começou por ser uma defesa, rapidamente se tornou numa paixão” e deu origem ao estúdio de tatuagens She Is Art, descreve na sua página. O projeto arrancou em 2017, depois de se mudar definitivamente para Lisboa, num caminho marcado por percalços. “Terminei a minha relação amorosa, perdi a casa onde vivia, o meu trabalho como designer e fui forçada a voltar para casa da minha mãe, em Albufeira, com um sentimento de derrota avassalador. Um mês e meio depois, estava de volta a Lisboa, com apenas 30 euros no bolso e duas cadelas no colo.”
Montou um estúdio improvisado “no quarto de Airbnb de uma amiga”, onde também passou a viver e, “duas semanas depois de ter chegado a Lisboa, “começaram a chover pedidos para tatuar.” Desde então passaram pelo seu estúdio vários famosos, foi notícia em diversas revistas e programas, viu a sua conta de Instagram atingir os 126 mil seguidores e mudou-se para uma moradia alugada na Quinta da Beloura, em Sintra, onde passou a atender os clientes. “É uma técnica que vai ficar eternamente na pele. E tenho de ser perfeita, é isso que as pessoas esperam de mim“, sublinhou, em 2021, numa entrevista à NiT.
João (nome fictício), que começou a trabalhar com Sofia Dinis em 2020, acompanhou parte desta ascensão. Inicialmente, era ele quem fotografava e fazia os vídeos para as redes sociais. Rapidamente passou também a responder no Instagram aos pedidos de marcações. Nessa altura, a tatuadora pedia uma caução de entre dez a 20 euros para vagas de tatuagens com um custo a partir dos 50 euros. Muito abaixo dos valores que cobra atualmente, com uma caução de entre 100 a 200 euros e tatuagens entre os 400 e os 800 euros, por uma experiência personalizada, que apelida de tatuagem sistémica.
“As pessoas queriam mesmo muito estar com ela”, nota João, explicando que vinham de propósito de todo o país para fazer tatuagens. Estavam dispostas a pagar por isso, mas em certos casos acabavam por sair do estúdio de tatuagem com uma fatura muito superior ao valor acordado inicialmente.
“Muitas vezes ela dizia que o valor era 300 ou 400 euros e quando a pessoa ia a pagar eram 600, 700, 800. As pessoas eram apanhadas de surpresa e era sempre eu que dava a cara”, recorda. Lembra também que, muitas vezes, as sessões eram canceladas sem razão nenhuma: “Tinha um monte de clientes que vinham do Porto, do Algarve, da Madeira, do Açores e ela muitas vezes acordava e dizia-me para desmarcar tudo.”
Esperas de mais de uma hora, tatuagens retiradas do “Pinterest” e repetidas
Com o tempo, a tatuadora foi ganhando projeção — e somando milhares de novos seguidores nas redes sociais. “Em menos de um ano, tinha mais de 50 mil seguidores no Instagram e uma lista de espera de 9 meses”, escreve a própria na sua página. “Há pessoas que estão há três anos a tentar tatuar comigo e não conseguem”, disse no início de 2023 à revista Activa. Há várias formas de conseguir assegurar uma vaga: diretamente no site, onde há uma hipótese de pré-reserva, e noutros casos através de uma candidatura. No processo de seleção são escolhidas as histórias que mais lhe tocam e que quer traduzir na pele de alguém, refere.
A tatuadora, que diz transformar “em linhas aquilo que, muitas vezes, não conseguimos ver ou expressar por palavras”, promete “sessões únicas de tatuagem”. “Nas quais te entrego uma experiência de transformação pessoal, o despertar da tua consciência. Uno a espiritualidade e a arte como meios de cura integrativa. Canalizo e trago, do teu inconsciente, o que a tua alma quer expressar, mas que ainda não ouves”, descreve. No início da sessão, que leva entre duas a quatro horas, começa por se reunir com os clientes na sala de desenho: “Apenas eu e tu, alma com alma, olhos nos olhos, pura conexão e entrega, convido-te a partilhares a tua história e o que te trouxe até mim.”
No dia da sessão, os clientes são recebidos no escritório, que é a primeira divisão do lado esquerdo assim que entram. Sentam-se no sofá, enquanto a tatuadora fica atrás de uma secretária e segue-se então a conversa sobre o que o cliente pretende da tatuagem. O desenho, garante Sofia Dinis na sua página, é feito na hora e na presença do cliente. Será, também, único e irrepetível, garante.
“Não repito desenhos. Tatuo um desenho apenas uma única vez”, garante Sofia Dinis, que se assume como defensora dos direitos de autor. “Vamos proteger os direitos de quem partilha a sua arte com o mundo. Respeitar os direitos de autor é valorizar a criatividade e incentivar um mundo onde a originalidade e a inovação possam florescer livremente”, lê-se no seu site, onde refere também que tudo o que partilha nas suas plataformas “tem todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor”.
Soraia foi uma das que esperaram longamente para ser tatuada por Sofia Dinis. Tentou pela primeira vez há dois anos, sem sucesso. Conseguiu a tão esperada vaga para 29 de fevereiro de 2024, pouco depois de ser mãe pela segunda vez, e queria fazer da tatuagem um marco dessa passagem. Acordaram o valor de 400 euros, que a deixou um pouco “surpreendida”. “Tenho muitas tatuagens — se calhar mais de 20 — e nunca tinha pagado tanto. Mas pensei: ‘Isto vai ter mesmo de valer a pena, vai ter de ser assim uma coisa mesmo muito especial, desenhada só para mim’”, recorda. Criou de propósito uma pasta no Pinterest repleta de imagens que esperava que servissem de inspiração à artista.
Ao Observador, recorda como no dia da sessão ficou sozinha à espera durante uma hora e meia por Sofia Dinis. Não o sabia, mas os atrasos eram frequentes e, garantem os antigos colaboradores ouvidos pelo Observador, seriam também propositados. “Cheguei a perguntar-lhe: ‘Sofia, mas a cliente está lá em baixo há 40 minutos, tu não vais descer?’. Respondia: ‘Sim, é que eu tenho que criar este suspense, porque sou alguém importante‘. Comecei a notar que era constante, era todos os dias”, refere um antigo colaborador. “Às vezes, eu chegava, a casa e o estúdio estavam todos desarrumados, todos sujos, com caixas de comida, de pizza, McDonald’s, e eu arrumava tudo isso. Os clientes depois chegavam e a Sofia demorava uma hora ou hora e meia para descer do quarto, porque tinha adormecido ou estava na cama“, diz outro.
Quando Sofia Dinis finalmente desceu, o atraso “não foi tema”. Soraia passou à frente o desconforto e começaram a conversar sobre o que pretendia. Em pouco tempo, o desenho — supostamente, um original desenhado na hora — estava terminado. Do ecrã, a imagem de uma mãe a abraçar os dois filhos passou para a pele de Soraia. Da tatuagem, que ficou como queria, nunca teve nada a apontar, até que este ano se cruzou com a página de Instagram das denúncias. Nessa altura, e revendo-se em alguns dos testemunhos partilhados por clientes, repescou a pasta do Pinterest que tinha partilhado com a tatuadora. Foi só ao percorrer as imagens uma a uma que percebeu que a suposta tatuagem original e criada na hora não passava de uma cópia de um desses desenhos. Sentiu-se enganada, especialmente face aos 400 euros que pagou pelo que devia ser um trabalho único.
“Ela passou por cima da imagem no programa de tatuagens, que é uma coisa muito comum entre tatuadores. Mas esses não dizem que estão a tatuar peças únicas e exclusivas. De facto, depois não corresponde àquilo que ela vende, que é uma coisa super pessoal, que é ela a desenhar”, afirma. E não era só ao Pinterest, garante João. “Ela nunca preparava os trabalhos (…). Ia buscar imagens à internet e muitas vezes tinha de estar eu a empatar os clientes para eles não a verem fazer isso”, diz, acrescentando que era “muito raro a Sofia fazer um desenho de origem”.
A experiência de Miriam é muito semelhante. Assim que recebeu a notícia de que tinha sido selecionada para o She Is Art, apressou-se a transferir os 100 euros de caução pedidos, que tinha de pagar num máximo no espaço de três horas, para não perder a vaga. “Naquele momento, queres logo pagar porque é a Sofia Dinis e não queria perder o lugar de fazer a tatuagem”, recorda. No dia da sessão, as coisas “não começaram logo bem”, com um atraso de uma hora e meia.
O resto da sessão correu sem incidentes. Mas a surpresa foi grande quando, um mês depois da sua sessão, Sofia Dinis tatuou uma tatuagem igual noutra pessoa. “Tenho uma tatuagem que é um ramo de oliveira e ela simplesmente apagou a azeitona e fez igual (…). Pagas um valor exorbitante pela tatuagem, pelo serviço e tudo mais e estás à espera de que não seja replicado“, diz. Apesar desta experiência, há clientes que nas redes sociais descrevem sessões muito positivas: “Obrigada, Sofia, por eternizares na minha pele este gesto simbólico que é tão importante nas nossas vidas”; “Um obrigada não chega, Sofia. Não é apenas uma tatuagem, é marcar a alma”; “Adoro a arte que tatuaste na minha pele e alma. Obrigada!”
Tanto Soraia como Miriam relatam que depois da primeira experiência não voltaram a recorrer à tatuadora. No entanto, notaram que a sua agenda não parecia tão cheia como sempre alegou. “Esta coisa das vagas super exclusivas é treta. Isso eu não critico tanto, porque eu percebo que possa ser uma estratégia de marketing (…). Desde que lá fui que recebo e-mails todas as semanas com propostas de datas para tatuar”, explicam.
As promessas de contrato de trabalho e as acusações de roubo
Estas histórias não surpreendem os antigos colaboradores de Sofia Dinis ouvidos pelo Observador. “As pessoas idolatravam a Sofia, punham-na num pedestal”, diz Marta. A designer trabalhou com a tatuadora durante um ano e meio. Descreve, à semelhança de outros antigos trabalhadores, que no início “era tudo incrível, dava imensas sugestões e não havia barreiras” no processo de criação. O problema era a ausência do prometido contrato de trabalho, que três dos trabalhadores ouvidos pelo Observador alegam nunca lhes ter sido apresentado.
“Ela prometia-me um contrato de trabalho sempre para o mês seguinte e isso nunca acontecia, dizia que ia falar com os advogados, mas passado um ano e meio nunca tive um contrato”, diz também Miguel, que por precaução nunca largou o segundo trabalho que mantinha, a gerir redes sociais. Os ex-funcionários dizem que também lidavam com constantes atrasos nos pagamentos dos salários, de vários dias e semanas. “Não era uma coisa nada profissional. Nunca sabíamos bem se ao final do mês íamos receber”, acrescenta Francisco.
Os trabalhadores relatam também o que dizem ter sido situações “estranhas”. Por exemplo, quando, em dezembro de 2020, a moradia em que funcionava o estúdio de Sofia Dinis foi para obras. “Ela pôs na cabeça que ia deixar de pagar a casa e fizemos-lhe os diários [à venda no site entre os 35 e 79 euros] para ganhar dinheiro”, começa por explicar Marta. Contratou-se uma gráfica, que montou os livros, mas a tatuadora “alegou que os diários não estavam da forma como queria”. “Ficou com os diários todos, não pagou nada à gráfica, vendeu o material e ganhou 100% daquilo que estava a vender”, denuncia.
Para Marta, a gota de água foi o momento em que a tatuadora acusou a equipa de roubo depois de alegadamente ter dado pelo desaparecimento de algumas joias de família. Perante a acusação, o grupo de funcionários exigiu que se chamassem às autoridades, neste caso a GNR de Sintra, que esteve no local e, segundo Marta, identificou todos os presentes. O Observador contactou o Comando Territorial de Lisboa a propósito deste assunto, que confirmou “a existência de uma queixa crime de furto, ocorrido no dia 28 de junho de 2021, na Quinta da Beloura, em Sintra”. “No âmbito das suas competências, a Guarda desenvolveu as diligências subsequentes, tendo comunicado a situação ao Ministério Público, entidade competente pela direção do inquérito”, refere numa resposta escrita. O caso, porém, não terá sido único. Outro ex-funcionário relata que foi acusado de roubar equipamento fotográfico, apesar de trabalhar com material de uma marca diferente do da tatuadora.
João, que trabalhou com Sofia Dinis dois anos, viu a situação complicar-se durante a pandemia. Por questões de segurança, recusou-se a trabalhar presencialmente. Conta que, apesar de ter um contrato — “acho que fui um dos poucos colaboradores que o teve” —, a empregadora “recusou-se” a pagar o ordenado. Só voltou a receber quando começou, a partir de casa, a fazer mais de uma dezena de marcações para os meses seguintes, sem saber se iria ser possível cumpri-las.
“Eu passava oito horas ao telefone a correr listas e listas de pessoas que iriam tatuar com ela, para ela receber a caução dos 50 euros e ter dinheiro.” Garante que chegou a fazer 10 a 15 marcações por dia. “Muitas dessas pessoas, inclusive amigos meus, nunca tiveram a oportunidade de tatuar com ela e muitas delas também nunca viram esse dinheiro“, diz, acrescentando que decidiu despedir-se passado pouco tempo porque “não se sentia bem a enganar pessoas”.
Ex-colaboradores alegam que o trabalho nunca foi reconhecido: “Nenhum de nós teve créditos de coisa alguma”
Os antigos colaboradores alegam ainda que o seu trabalho e o dos colegas era frequentemente “posto em causa e roubado”. “Ela dizia que fazia aquilo tudo sozinha, mas claro que não, por isso é que nós existíamos e as pessoas viam-nos lá. Nenhum de nós teve créditos de coisa alguma”, desabafa Francisco. O fotógrafo e videógrafo refere que a equipa a que pertencia chegou mesmo a desenhar e produzir um E-book, “Amo a minha pele“, disponível por 14,90 euros e que atualmente se encontra “esgotado”, e nunca foram reconhecidos por isso.
Por outro lado, existiu “muito trabalho que nunca saiu cá para fora”. “Horas de trabalho perdidas porque depois éramos culpados por coisas insignificantes, por erros que ela arranjava”, denuncia. “Não estou a dizer que às vezes os trabalhos não tinham erros, porque somos humanos e podia acontecer, mas era um exagero a quantidade de trabalhos que não saíam cá para fora sempre com a desculpa de que estava cheio de erros, que não estava como ela queria”, refere o fotógrafo, que diz ter sido despedido no dia do seu aniversário sem nenhuma razão aparente.
Miguel também recorda trabalhos que ficaram por publicar e que, ainda assim, era advertido para não usar em lado nenhum. “Praticamente em todos os trabalhos em que eu dizia ‘Podias ao menos ter-me identificado, já que saiu tudo da minha cabeça’, ela nunca dava crédito a nada de nada”, diz. A tudo isso somavam-se os pedidos para tentar ocultar alguns episódios, sobretudo com clientes, o que também o deixava desconfortável.
Lembra, por exemplo, quando uma equipa da TVI foi ao estúdio gravar algumas imagens a propósito de uma entrevista com Sofia Dinis e a repórter acabou por fazer uma tatuagem com a palavra “persistência”. No final, o trabalho tinha um erro ortográfico, de que a equipa da tatuadora só se apercebeu ao rever as imagens. Reconhece que Sofia Dinis se prontificou rapidamente a solucionar o problema e explica que todo o material foi apagado. Todas estas situações, a somar ao que considera uma falta de valorização do seu trabalho, foram-no “consumindo por dentro, ao longo do tempo”, até que acabou por se despedir.
Direitos Reservados
As parcerias foram terminando, quer por decisão dos próprios quer através de despedimentos. Na ausência de um contrato de trabalho, vários projetos ficaram por pagar, denunciam os ex-colaboradores. “Ela ficou com projetos meus, que nunca me pagou. Vendeu esses projetos, que ainda hoje estão no site, desde os presets, aos pósteres, aos vouchers, inclusive também os diários”, refere Marta, que decidiu sair pelo próprio pé. Estima que ficou por receber mais de 800 euros. A resposta, quando lhos pediu: “Não tens contrato, por isso eu não te devo nada.”
Joana, que pertencia a uma equipa a quem foi pedido uma série de conteúdos, como provam os emails trocados com Sofia Dinis que partilhou com o Observador, ficou com mais de 600 euros por receber. Questionados sobre se alguma vez denunciaram o caso, alguns dos ex-colaboradores admitem que chegaram a pensar fazê-lo. Joana pensou mesmo avançar com uma ação para tribunal —”mais pela questão de justiça e para não voltar a acontecer”. Mas, na ausência de um contrato de trabalho, e temendo os custos elevados de todo o processo, repensou a decisão. O Observador tentou ouvir Sofia Dinis sobre estas denúncias, mas não recebeu qualquer resposta.
*Os nomes usados neste artigo são fictícios
Atualizado com a resposta oficial da GNR a confirmar a existência de uma queixa crime de furto.